Entre Sombras e Segredos

18 📖 Capítulo 17 - Entre Afetos e Pesadelos II


O silêncio pesado no quarto foi quebrado pelo som apressado da porta se abrindo. O rei Eldarion e a rainha Lythienne entraram com passos firmes, os olhos atentos ao ver Leonardo desacordado, o corpo coberto de suor e respingos de sangue. Aurélia, ainda ao lado dele, parecia esgotada, mas não arredara o pé.


— Tragam o fragmento — ordenou o rei com voz grave.


Uma criada aproximou-se trazendo uma pequena caixa de madeira entalhada. A rainha a abriu com cuidado, revelando um cristal esverdeado que pulsava como se respirasse. O fragmento da Árvore Mãe exalava uma aura serena, preenchendo o quarto com energia vital.


Lythienne tocou a fronte de Leonardo e aproximou o cristal. Um sopro de luz envolveu o jovem, estabilizando sua respiração. Aos poucos, o suor frio se dissipava e a tensão em seus músculos diminuía.


— Ele ficará bem… por enquanto — disse Lythienne, aliviada, embora ainda com preocupação no olhar.


O rei voltou-se para as criadas:

— Limpem este quarto imediatamente. Tirem o sangue.


Então, olhou para Aurélia:

— Você também precisa se recompor. Banhe-se e troque de roupas.


Aurélia hesitou, mas obedeceu. Após o banho rápido, retornou e ajudou a trocar Leonardo, limpando seu corpo e ajeitando as roupas limpas. Cada gesto era cuidadoso, como se temesse que qualquer movimento brusco pudesse feri-lo.


Quando terminou, ajoelhou-se ao lado da cama, acariciando a mão dele com ternura.

— Por que você não acorda…? — sussurrou, a voz embargada.


O quarto então pareceu vibrar, e uma presença antiga se fez sentir. A Árvore Mãe surgiu em meio à luz suave, mas sua forma estava mais fraca, translúcida, como se estivesse distante de sua plenitude.


Aurélia recuou, surpresa, mas a árvore estendeu sua presença em direção a Leonardo, mergulhando em seu subconsciente.


Dentro da mente de Leonardo, o cenário era uma floresta distorcida, uma árvore negra e opressora mantendo-o preso em correntes de sombras. À frente dela, uma figura indistinta a entidade que o aprisionara observava em silêncio, emanando uma autoridade fria.


A Árvore Mãe se aproximou, sua luz confrontando as trevas.

— Você não tem direito de mantê-lo aqui. Libere-o.


A entidade ergueu a cabeça, voz calma, porém desafiadora:

— Eu não me submeto a você.


As raízes luminosas da Árvore Mãe se agitaram, e sua voz ecoou com firmeza:

— Então eu a convoco… Abyssus.


O espaço tremeu, Do vazio profundo surgiu uma presença colossal, um manto de trevas que parecia engolir todo o horizonte. Olhos infinitos se abriram nas sombras, como constelações negras que observavam de todos os ângulos. A própria realidade pareceu dobrar-se em silêncio pesado quando a entidade surgiu.


Assim que seus olhos se fixaram no lugar, Abyssus percebeu.

— O subconsciente… de um mortal — murmurou, sua voz ecoando como trovões em um abismo sem fim.


Então, ao ver a Árvore Mãe, Abyssus imediatamente se ajoelhou. Sua sombra cósmica se curvou, e sua voz reverberou em reverência:

— Mãe.


O falso ser recuou, tomado pela incredulidade. Sua voz distorcida soou quase em desespero:

— Por quê? Por que você, Abyssus, se ajoelha diante dela? Por que a chama de mãe?!


Os olhos infinitos de Abyssus se voltaram para ele, e sua resposta foi firme como um decreto cósmico:

— Porque ela é a Árvore Mãe. Todas as cinco entidades primordiais a respeitam e a temem. E, por essa mesma razão, até as entidades do Vazio se curvam diante dela.


O silêncio que se seguiu foi tão pesado que o próprio subconsciente pareceu tremer.


— Essa árvore que você vê aqui não é uma entidade. Apenas um parasita mascarado.


A falsa árvore tremeu, tentando resistir, suas raízes distorcidas se contorcendo. Mas Abyssus apenas pronunciou uma única palavra, em um idioma tão antigo que o ar se rompeu em ecos.


No mesmo instante, a árvore corrompida se desfez em pó, desaparecendo do subconsciente. As correntes que prendiam Leonardo se romperam, e a escuridão se dissipou.


Abyssus ergueu-se, lançou um último olhar à Árvore Mãe, e partiu em silêncio, como se o próprio vazio tivesse se fechado atrás de si.


Com a ameaça dissipada, a Árvore Mãe tocou suavemente Leonardo.

— Desperte, filho da luz…


No quarto, os olhos de Leonardo se abriram de repente. Ele respirou fundo, como se voltasse à vida após longo mergulho. Aurélia, aliviada, segurou sua mão com força, lágrimas escorrendo pelo rosto.


— Você voltou…


E no silêncio que se seguiu, todos no quarto sentiram: aquele despertar não era apenas físico, mas também o marco de algo muito maior que ainda estava por vir.