Entre Sombras e Luz

1 Entre Sombras e Luz


Notas iniciais
Oiee, meus queridos! Tudo bem com vocês? 🥰✨ Passando para avisar que eu escrevi essa one-shot em um verdadeiro surto de criatividade bem limitado, por isso ela vai permanecer apenas como um capítulo único mesmo. Eu sei que ela teria potencial para virar uma história longa e super complexa, mas meu foco foi fechar esse ciclo aqui.. Eu sou completamente apaixonada por esses personagens e pela intensidade deles, e escrevi cada linha com muito carinho. Espero do fundo do coração que vocês consigam sentir essa energia e que gostem da história! Não esqueçam de me contar nos comentários o que acharam, hein? Vou amar ler o feedback de vocês! Beijinhos e boa leitura! ✨

O casarão surgiu diante de mim imponente, janelas altas, paredes que guardavam segredos antigos. Meu coração disparou quando estendi a mão e bati a porta. O som ecoou fundo, quase solene, e por um instante pensei em recuar. Mas a porta se abriu.

Sasuke me viu quase imediatamente no saguão. Não houve alarde, mas o brilho suave que surgiu em seus olhos escuros me desarmou por completo. Era o calor silencioso que ele guardava apenas para mim.

Antes que qualquer criado pudesse notar minha presença, seus dedos longos envolveram meu pulso.

— Você não deveria estar aqui a essa hora — ele sussurrou perto do meu ouvido, a voz grave enviando um arrepio imediato pela minha espinha. Mas ele estava sorrindo. Aquele sorriso contido, quase imperceptível, que me fazia esquecer o mundo.

— Senti sua falta — confessei em um sopro.

— Venha.

Subimos a escadaria larga quase sem fôlego, os passos abafados pelos tapetes pesados, rindo baixo como duas crianças cometendo um sacrilégio. E era. Para a sociedade, o que fazíamos era imperdoável. Para mim, era a vida começando.

Assim que a porta do quarto se fechou, as conveniências de época desmoronaram.

Sasuke me encurralou contra a madeira da porta, as mãos subindo ávidas pela minha cintura, apertando o tecido pesado do meu vestido como se quisesse rasgá-lo para encontrar a minha pele. Seu beijo não veio como um cumprimento, foi intenso, urgente, uma lufada de vento que me tirou o chão. Minhas mãos tatearam desesperadas pelo linho do casaco dele, puxando-o para mais perto, enquanto sua língua pedia passagem, profunda e quente.

— Sasuke… — murmurei entre o beijo, tentando recuperar o ar, mas ele desceu os lábios para o meu pescoço, trilhando um caminho ardente que me fez curvar a coluna. Um suspiro trêmulo escapou da minha garganta. O toque de suas mãos, agora subindo pelas minhas costas, me fazia sentir a criatura mais protegida e vulnerável da Terra.

Ele parou por um segundo, a testa colada a minha, a respiração tão descompassada quanto a minha. Seus polegares acariciaram minhas bochechas coradas.

— Você me enlouquece, Sakura — ele sussurrou, os olhos brilhando com uma intensidade que quase me fez confessar tudo ali mesmo. Ele segurou minha mão, entrelaçando nossos dedos, e começou a me guiar em direção a cama.

Coloquei a mão livre em seu peito, sentindo o tamborilar acelerado do seu coração sob o tecido. O detive antes do próximo passo.

— Precisamos conversar, meu amor — disse, a voz ainda um pouco trêmula pela falta de ar.

— Depois… — ele respondeu baixo, a voz carregada, inclinando-se para me beijar novamente.

— É um assunto sério, Sasuke — insisti, mantendo a mão firme contra o peito dele. Guardei o ar nos pulmões, tomando coragem. — Você sabe que eu te amo… e que tudo o que fizemos… nós…

Ele parou. De verdade dessa vez. O calor que emanava dele pareceu evaporar em um segundo. Seus olhos me encararam com uma gravidade súbita, uma rigidez que fez meu estômago se revirar e, dessa vez, não tinha nada a ver com as tonturas matinais. Era o puro instinto do perigo.

— Eu também tenho algo a dizer.

Engoli em seco. O nó se formou na minha garganta. Ainda assim, forcei um sorriso frágil e assenti, confiando no homem que subia as escadas correndo só para me esconder em seu quarto.

— Claro — respondi. — Pode falar primeiro, meu amor.

Ele se afastou um passo. O espaço frio que se instalou entre nós foi o primeiro golpe.

— Eu vou me casar.

As palavras caíram entre nós como uma sentença lida em voz alta. Secas. Definitivas. Não havia alegria nelas, tampouco convite. Não me incluíam.

Por um instante, o mundo pareceu se afastar. O quarto, a cama onde segundos atrás partilhávamos o mesmo ar, a luz entrando pela janela alta... tudo ficou distante, como se eu estivesse submersa em águas congelantes.

— Você… — minha voz saiu tão frágil que quase se perdeu no espaço entre nós. — Com quem?

O silêncio dele foi o primeiro vislumbre do abismo. Eu podia ouvir meu próprio coração, descompassado, uma batida dolorosa contra minhas costelas.

— Meus pais fecharam o acordo esta manhã — ele disse, finalmente desviando os olhos dos meus, fixando-os em algum ponto no chão. — Vou me casar com Karin.

Não pisquei. Não respirei.

O ar sumiu dos meus pulmões, e o peso do tecido do meu vestido pareceu me esmagar contra o chão de madeira. Aquilo não podia ser real. Soava como uma blasfêmia contra tudo o que havíamos construído naquele casulo. Sasuke… e Karin. Meu Deus. E eu ali, sentindo a semente dele viva dentro de mim, transformando meu corpo a cada segundo em segredo.

Engoli o gosto amargo da bile que subiu a minha garganta. As lágrimas transbordaram, quentes e silenciosas.

— O quê? — sussurrei, dando um passo trêmulo à frente. — E quanto a nós, Sasuke? E quanto a mim?

Ele passou a mão pelos cabelos, desalinhando os fios com uma frustração genuína, os ombros tensos sob o casaco de linho. Parecia um homem encurralado por uma armadilha que ajudara a construir.

— Não foi uma escolha minha, Sakura. Você sabe como meu pai rege os negócios da família. A linhagem de Karin, o dote que ela trará... é o que mantém o nome dos Uchiha onde está. É o dever.

As palavras “dote” e “dever” ecoaram de forma obscena naquele quarto.

— O dever? — Minha voz subiu um tom, rasgando a redoma de sussurros. O desespero finalmente escapou. — E o que nós fomos? Um passatempo antes das suas obrigações? Eu pensei... meu Deus, eu entreguei meu futuro a você!

— Sakura, por favor — ele deu um passo rápido, tentando segurar minhas mãos, a voz baixa e suplicante que ele usava apenas quando a armadura dele caía. — Eu amo você. Eu juro por tudo o que é sagrado que amo você. Mas não há escolha.

— Então lute! — O choro rompeu de vez, doloroso, feio, livre. Segurei o casaco dele com as duas mãos, sacudindo-o minimamente, implorando com os olhos. — Lute por nós, Sasuke! Desfaça esse acordo! Céus, eu quebrei todas as leis da minha família por você... eu me entreguei!

Para mim, o amor justificava o pecado. Para ele, o sobrenome justificava o sacrifício do amor.

— Eu não posso voltar atrás — ele repetiu, e o tom monocórdico de sua voz foi como uma lâmina me cortando ao meio. — Mas não precisamos terminar aqui. Nós dois... podemos continuar juntos. Eu não sinto nada por ela, Sakura. Será apenas um papel assinado na igreja. Meu coração ainda é seu.

Uma risada curta, amarga e quase histérica escapou dos meus lábios, assustando a nós dois. O som ecoou, quebrando o feitiço daquele quarto.

— Continuar juntos? — perguntei, dando um passo para trás, soltando o tecido de suas roupas como se queimasse. — Você está me pedindo para ser sua concubina? Serei a amante escondida na penumbra, rejeitada pela sociedade, vivendo de migalhas da sua atenção enquanto ela carrega seu sobrenome, sua honra e anda de braços dados com você sob a luz do sol?

— Sakura… — Ele estendeu a mão novamente, os olhos suplicantes.

— Não! — Ergui a palma, o corpo inteiro tremendo de humilhação. — Não ouse tocar em mim.

Eu estava perdendo tudo em questão de minutos: o homem que moldou meus sonhos e a dignidade que me restava como mulher nesta época implacável.

— Por favor — sussurrei, a voz quebrando, as lágrimas embaçando as feições dele diante de mim. — Se há um resquício do Sasuke que me amava aqui... mude isso. Lute. Eu preciso que você lute por mim. Agora.

O silêncio dele se estendeu pelo quarto, pesado como o chumbo. Ele desviou o olhar.

Aquela recusa silenciosa foi o golpe de misericórdia. Naquela clareza devastadora, compreendi: o amor de Sasuke Uchiha era grande o suficiente para me desonrar num quarto escuro, mas covarde demais para enfrentar o escrutínio do mundo por mim.

Dei as costas antes que minhas pernas cedessem.

Rompi pela porta do quarto, correndo pelos corredores do casarão que antes pareciam cúmplices e agora pareciam zombar da minha ruína. Ouvi meus passos ecoando alto, ouvi a voz dele chamando meu nome na escadaria, mas não parei. Corri como se pudesse escapar da mancha que carimbaria meu nome a partir daquele dia.

Quando empurrei as pesadas portas de ferro do portão principal, o ar gélido da rua bateu contra meu rosto coberto de lágrimas.

A rua de pedra estava deserta. Eu estava completamente sozinha.

Eu, a minha desonra... e o fruto daquela covardia crescendo silenciosamente em meu ventre.

A dor era excruciante, mas o medo conseguia ser ainda pior. O que seria de mim quando meus pais descobrissem a verdade? Eu seria sumariamente expulsa de casa, julgada por todos e marcada para sempre. A sociedade simplesmente não perdoa mulheres como eu. Eu sabia que não haveria abrigo, tampouco misericórdia. Restariam apenas os olhares desviados de desprezo e as portas fechadas na minha cara.

Abracei o próprio corpo enquanto caminhava sem rumo pelas ruas escuras, sentindo o peso do mundo esmagar os meus ombros.

Agora, eu estava apenas nas mãos de Deus.

.

Meu rosto estava completamente inchado. Eu passei os últimos dois dias inteiros chorando, como se cada lágrima estivesse levando embora um pedaço de quem eu era. Pior do que a tristeza, era o que vinha lá de fora. Pude ouvir minha mãe dizendo ao meu pai, na sala, que eu estava apenas "apaixonadinha" pelo Sasuke Uchiha, como se o que eu sentia fosse só uma bobeira de adolescente que passaria com o tempo. E ouvi meu pai responder que bastaria aparecerem outros pretendentes para eu esquecer tudo.

Eles falavam como se o amor fosse uma distração. Como se não houvesse um peso enorme esmagando o meu peito.

Como se o bebê que estava crescendo dentro de mim fosse apenas imaginação.

Céus.

Fiquei deitada na cama, encarando o teto do meu quarto. Meu corpo parecia pesado, estranho, totalmente diferente. A náusea ia e voltava o tempo todo, e o meu coração parecia cansado demais para continuar se partindo. Eu não era só uma garota com o coração partido por um homem. Eu carregava um segredo que tinha o poder de destruir a minha vida inteira.

— Sakura, querida? — A voz da minha mãe veio do outro lado da porta, mansa até demais. — Você tem visita.

Suspirei fundo, virando o rosto na direção da parede.

— Eu não quero ver ninguém — respondi. Minha voz saiu rouca, quase sumindo depois de tantos dias de choro.

Houve um silêncio no corredor.

— Bem… — ela insistiu com cuidado. — Acho que ele vai te animar um pouco.

Meu coração deu um pulo no peito, totalmente sem controle. Por um segundo bobo e vergonhoso, uma pontinha de esperança subiu pela minha garganta. Será que o Sasuke tinha vindo? Será que ele tinha mudado de ideia e decidido lutar por nós?

Ouvi o clique da fechadura e a porta se abriu devagar.

Mas não era ele.

Naruto Uzumaki entrou no quarto com passos contidos, segurando um pequeno buquê de flores simples, escolhidas com cuidado. A presença dele preencheu o ambiente de um jeito inesperado, não foi algo invasivo ou pesado. Foi apenas… gentil.

Ele sempre foi assim.

O senhor Uzumaki tinha um jeito muito dele de existir no mundo. Desde criança, ele nunca tinha escondido o quanto gostava de mim. Suas palavras sempre foram públicas, abertas, quase ingênuas demais para uma sociedade que ensinava os homens a disfarçar o que sentiam. Ainda assim, ele acabou se afastando. Ele foi servir ao exército durante a revolta nos campos de Konoha. Foram três anos longe. Três anos de silêncio.

Ele tinha voltado havia poucas semanas.

Nós não éramos íntimos. Eu sempre o mantive meio de lado, não por crueldade, mas porque o meu coração já pertencia a outro.

O Naruto era bonito, desejado, herdeiro de um nome respeitado e de uma fortuna confortável. Muitas garotas dariam qualquer coisa para ter a atenção dele.

E, ainda assim, era a mim que ele vinha visitar.

Senti uma pontada amarga de culpa. Ele não sabia de nada. Não fazia a menor ideia de que, bem ali na frente dele, estava uma mulher quebrada, apaixonada por outro, prestes a perder a honra diante de toda a sociedade… e grávida.

Enxuguei o rosto depressa, me ajeitando na cama para tentar parecer minimamente apresentável.

— Senhor Uzumaki — murmurei. — Me perdoe… eu não esperava a sua visita.

Ele inclinou a cabeça em um gesto respeitoso e me estendeu o buquê.

— Não precisa se desculpar, Sakura.

Aceitei as flores. O perfume suave delas me atingiu de leve, trazendo um raro momento de calma no meio de todo o meu caos. Segurei o maço como se fosse algo precioso demais para as minhas mãos, que ainda estavam trêmulas.

— A que devo a visita? — perguntei, embora já estivesse pressentindo o que vinha a seguir.

Naruto respirou fundo. Os olhos azuis dele não desviaram dos meus, mas dava para ver neles um cuidado quase doloroso.

— Soube que a minha prima vai se casar em breve com o Sasuke Uchiha.

O aperto no meu peito veio na mesma hora, cortando o meu ar. Ainda assim, ele continuou a falar, escolhendo cada palavra como quem pisa em um terreno muito frágil.

— Sei que a senhorita gosta dele… e entendo que esteja sofrendo. Mas agora que ele assumiu outro compromisso, eu pedi autorização ao seu pai — ele fez uma breve pausa — e vim pedir a sua.

Ergui o olhar, completamente surpresa.

— A minha autorização?

— Para cortejá-la — ele disse, simplesmente.

Educado. Correto. Honrado.

Ele não precisava de nada disso. Naquela sociedade, bastava o consentimento do meu pai. O meu destino poderia ser decidido sem que ninguém se importasse em perguntar o que eu sentia. Ainda assim, o Naruto estava ali no meu quarto, me olhando como se a minha vontade fosse a coisa mais importante do mundo.

Não havia pressa na voz dele. Nem exigência. Apenas respeito.

Fiquei observando ele em silêncio. Pensei em como seria amar alguém assim, alguém que não me escondesse, que não me colocasse nas sombras, que não me pedisse para ser menos só para que ele pudesse parecer mais.

O Naruto não me olhava como quem queria me possuir.

Ele me olhava como quem queria cuidar de mim.

E isso, muito mais do que qualquer declaração, fez os meus olhos arderem outra vez.

Baixei o rosto, apertando o buquê contra o peito, sentindo o peso do segredo que eu ainda não podia revelar.

— Senhor Uzumaki… — comecei, com a voz falhando. — Eu agradeço. De verdade. A sua gentileza… é muito mais do que eu mereço agora.

Ele franziu as sobrancelhas de leve.

— Não diga isso — pediu, com suavidade. — A senhorita merece tudo o que for bom, Sakura. Mesmo que não venha de mim.

E foi ali que eu compreendi tudo.

O Naruto me amava.

Não com exigências ou promessas vazias. Mas com uma paciência que eu nem sabia que existia no mundo. Desde sempre, desde de quando éramos adolescentes e eu ignorava qualquer aproximação que ele tentasse.

— Eu não posso aceitar.

As palavras finalmente saíram da minha boca, pesadas e definitivas. Eram injustas com ele, eu sabia. Mas seria ainda mais injusto permitir que o Naruto acreditasse em algo que eu jamais poderia oferecer. Em breve, o meu próprio corpo ia me denunciar. A minha barriga cresceria, os olhares das pessoas mudariam e as fofocas tomariam conta da cidade. Meu pai me expulsaria de casa. Minha mãe abaixaria a cabeça, cheia de vergonha. E ele… ele acabaria ficando no meio dos escombros de uma ruína que não era dele.

— Por quê? — ele perguntou com educação, a voz calma demais para a tempestade que estava dentro de mim.

Desviei o olhar.

— O senhor sabe o porquê… — falei, deixando implícito para tentar protegê-lo de mim mesma. — Não quero enfiar o senhor nos meus erros. Na minha vergonha.

— Eu sei que você está apaixonada por outro — ele disse, sem tom de acusação. — Ainda assim, eu só quero a chance de conquistar o seu coração.

Balancei a cabeça, sentindo o nó na garganta apertar ainda mais.

Por que ele insistia tanto?

— Eu não posso. Sinto muito.

Ele respirou fundo, como se estivesse pesando cada palavra antes de falar.

— Senhorita… — ele começou, e notei o esforço dele para manter o tom de voz leve. A presença dele parecia preencher o quarto inteiro. O Naruto era grande, forte, sólido. Um homem que dominava o espaço sem precisar fazer força ou se impor. Um sorriso com covinhas surgiu no rosto dele, quase tímido. — Apenas me deixe tentar.

As palavras dele pareceram flutuar no ar por um segundo. Olhei para o buquê em minhas mãos e, sem conseguir segurar a onda de emoções, deixei que as flores caíssem sobre o lençol da cama. Virei de costas, precisando de espaço. Caminhei até a janela e apoiei as duas mãos no parapeito frio de madeira, fechando os olhos para conter o ardor das lágrimas que insistiam em cair. Neguei com a cabeça.

— O senhor não entende…

— Ele não a ama, Sakura.

As palavras dele vieram baixas, mas firmes. Duras, ainda que envoltas em um cuidado profundo.

— Ele vai se casar com outra — Naruto continuou, com uma sinceridade que quase doía fisicamente em mim. — Se ele se importasse… se gostasse de você de verdade… ele estaria aqui agora. Exatamente no meu lugar.

Virei-me bruscamente na direção dele. O Naruto se calou na mesma hora, como se percebesse que tinha ido longe demais. Mas já era tarde. O ar no quarto parecia rarefeito, difícil de puxar para os pulmões. Eu estava sufocando com aquele segredo, com o medo, com a certeza de que estava completamente sozinha no mundo.

— Eu não posso, senhor Uzumaki — disse, sentindo a minha voz quebrar. — Eu até queria. Queria muito esquecê-lo, arrancar esse amor idiota do meu peito… mas não posso. Eu não posso fazer isso com o senhor.

Ele se aproximou devagar, com passos calmos, como quem teme assustar um animal ferido. As mãos dele tocaram o meu rosto com uma delicadeza que eu não esperava de um homem do exército. Com os polegares, ele secou algumas das minhas lágrimas. Os olhos azuis dele estavam fixos nos meus, genuinamente preocupados.

— Não chore por ele — pediu, em voz baixa. — Ele não vale a pena.

Uma risada sem humor escapou de mim. Breve. Amarga.

— Eu também não valho.

As palavras saíram da minha boca como uma sentença. Só eu sabia o tamanho do meu pecado. Do erro que tinha cometido. Daquela nova vida que crescia em mim como a prova viva da minha ruína. Eu não valia nada agora. Não naquele mundo hipócrita.

Naruto franziu as sobrancelhas, como se aquilo que eu disse o tivesse ferido profundamente.

— Não diga uma bobagem dessas — ele pediu, com um tom firme, mas gentil. — A senhorita é a moça mais linda em que já coloquei os meus olhos. E também a mais doce.

Um meio sorriso surgiu nos lábios dele, e o olhar dele se perdeu por um instante em memórias antigas.

— Eu me lembro de quando você cuidou da Yamanaka depois que ela caiu e ralou o joelho no meio da rua. De quando fez aquele chá forte para o Shikamaru, ajudando a esconder a bebedeira dele dos pais. De quando me protegeu, inventando para todo mundo que eu tinha te salvado de um assalto, quando na verdade eu cheguei em casa todo quebrado por causa daquela luta clandestina estúpida que inventei de entrar na adolescência. — Ele riu de leve, balançando a cabeça. — E nós nem éramos amigos na época.

O meu peito doeu com a lembrança.

— Eu sei dessas coisas sobre você — ele disse, mostrando o homem sólido e protetor que era. — E isso só me fez admirá-la ainda mais com o passar dos anos. Então, por favor, nunca mais diga isso sobre si mesma. Nunca.

Afastei-me dele em um solavanco, dando um passo para trás. O toque dele queimava a minha pele, como se a bondade daquele homem fosse perigosa demais para alguém no meu estado.

Ele não fazia a menor ideia de quem eu era agora. Do que eu tinha me tornado. Da boba que fui ao acreditar em promessas sussurradas no escuro do quarto. Do quanto entreguei de mim… e do preço altíssimo que pagaria por ter amado o Sasuke Uchiha.

Se ele soubesse... Se ao menos ele soubesse…

E foi exatamente nesse instante, com o coração disparado e o meu próprio corpo traindo o meu segredo, que senti a náusea subir pela minha garganta outra vez, forte, violenta e completamente incontrolável.

Levei a mão a boca as pressas, assustada, sentindo o estômago revirar.

O olhar do Naruto, atento até demais, captou o movimento na mesma hora. O silêncio que se instalou no quarto depois disso foi mais aterrador do que qualquer palavra que ele pudesse ter dito. Ele olhou para a minha mão em minha boca, e depois desceu o olhar, de forma sutil, na direção do meu ventre.

O segredo pulsava dentro de mim, vivo demais. O medo, o desespero, a vergonha, tudo se acumulava, corroendo a minha sanidade pouco a pouco. Eu apertei as minhas mãos em punho, sentindo as unhas cravarem na pele para tentar me manter inteira.

Eu não o queria ali. Não queria que a minha desgraça sujasse a honra do Naruto Uzumaki. Ele era bom demais. Não merecia carregar uma ruína que não era dele.

Mas o Naruto que quebrou o silêncio não parecia assustado. Havia uma determinação nova e pesada nos olhos dele quando deu mais um passo na minha direção, ignorando o meu recuo.

— Eu insisto, senhorita… — ele disse, a voz agora mais grave, sem espaço para discussões. — Deixe-me tentar.

Quando finalmente falei, as minhas palavras saíram feridas, trêmulas, carregadas de um pavor absoluto e de uma coragem que eu já não sabia de onde vinha.

— Eu já disse que não posso… — respirei fundo, sentindo o peito doer. — Eu… eu fiz algo imperdoável. Algo que ninguém jamais poderia encobrir.

Hesitei por um instante, mas já não havia volta.

— Eu não tenho mais honra.

O silêncio que se instalou no quarto foi pesado. Os olhos do Naruto se arregalaram de leve, como se a minha confissão tivesse alterado todo o ar ao nosso redor.

Meu coração disparou, violento batendo contra as costelas. Esperei o recuo. O nojo. O repúdio. Esperei vê-lo virar as costas, como qualquer homem daquela sociedade faria.

Mas ele não deu um único passo para trás.

— Eu não me importo.

A voz dele veio baixa, densa. Um tom áspero e inabalável que me causou um arrepio na nuca.

— Nós podemos forjar os lençóis.

Meu Deus.

Ele era louco. Ou me amava de uma forma que a minha mente limitada jamais seria capaz de compreender. Fiquei sem palavras por um instante, completamente atônita, até que a verdade mais amarga escapou dos meus lábios, abandonando qualquer formalidade.

— Então você é um tolo — soltei uma risada sem humor, balançando a cabeça. — Desperdiçar a sua vida com alguém como eu… desonrada. Por que faria isso? Por que se casaria comigo?

O Naruto deu um passo na minha direção, o corpo alto e largo bloqueando a pouca luz que vinha da janela.

— Eu já lhe disse. — Ele me encarou com uma firmeza que me deixou sem ar. — Eu a amo.

Era absurdo. Inacreditável. Não fazia sentido que alguém pudesse me amar daquele jeito, não depois de tudo. Ainda assim, ele estava ali. Inteiro. Querendo-me. Mesmo enquanto eu o rejeitava. Mesmo sabendo que eu não merecia.

Então decidi acabar com aquilo de uma vez por todas. Arrancar o curativo de uma vez, mesmo que sangrasse.

— Estou grávida.

As palavras saíram baixas, quase um sussurro. Mas, dentro daquele quarto, soaram como um grito ensurdecedor.

Naruto paralisou.

Vi o pomo de Adão dele subir e descer devagar. A mandíbula dele travou com tanta força que os músculos saltaram. Ele passou uma das mãos pelos cabelos loiros, puxando os fios para trás com força, respirando fundo pelo nariz, como se precisasse de algo físico para não perder o controle.

Ele deu dois passos tensos pelo quarto, virando de costas para mim. A respiração irregular denunciava a tempestade silenciosa e a fúria contida que se formavam sob a camisa de algodão tensionada nos ombros dele.

O desespero me engoliu. Ele podia contar a qualquer um. Podia me difamar, me denunciar aos meus pais, me condenar diante da cidade inteira. O medo subiu pela minha espinha, congelando o meu sangue.

Mas então, ele parou. E virou para mim.

O olhar dele era cortante. Preparei-me para o pior. Para o julgamento. Para o veneno.

Mas ele cruzou o quarto de volta em passadas largas, parando a centímetros de mim. As mãos grandes e quentes dele seguraram os meus ombros, um toque firme que ancorou o meu corpo que tremia sem parar.

— Nós vamos nos casar o mais rápido possível — a voz dele não era um pedido, era um decreto absoluto. — E a partir de hoje, essa criança é minha. Assim como você.

— Não — balbuciei, as lágrimas transbordando, o desespero nu. — Você não precisa fazer isso…

Ele me observava com uma atenção implacável. Ele me via de verdade. Não apenas como a garota tola que foi enganada, mas como a mulher quebrada pelo medo e pelas consequências.

— Ele sabe? — o tom de voz dele soou perigosamente calmo.

Neguei com a cabeça.

— Não contei quando soube do noivado dele. Não faria diferença.

Dizer aquilo em voz alta doeu mais do que eu esperava. Mas era a mais pura verdade. O Sasuke não se importaria.

Naruto assentiu lentamente.

— Ótimo. Porque agora não importa mais.

Ele deslizou as mãos dos meus ombros para as minhas costas, puxando-me contra o peito dele. Não houve pressa, nem brutalidade. Apenas proteção pura. Apoiei a testa no peito dele, sentindo o cheiro masculino e amadeirado, e desabei. Chorei um choro profundo. Ele apenas me abraçou mais forte, acariciando as minhas costas com movimentos lentos e constantes, absorvendo todo o meu caos.

— Shh… está tudo bem — ele murmurou perto do meu ouvido. — Tudo vai ficar bem agora.

— Você merece muito mais do que eu… — sussurrei, soluçando contra a camisa dele. — Me desculpa… eu não posso aceit—

— Sakura.

Ele me interrompeu, afastando-me apenas o suficiente para que a mão dele segurasse o meu queixo, erguendo o meu rosto. O polegar dele secou uma lágrima da minha bochecha. Ele não parecia um homem pedindo um favor. Ele parecia um homem seguro do que queria.

— Fui eu quem escolheu entrar por aquela porta. Fui eu quem escolheu você — ele declarou, os olhos azuis brilhando intensos. — Eu sou homem o suficiente para assumir essa criança e para cuidar de você como ninguém mais faria. Eu sei que você ama outro agora. Mas eu não tenho medo do tempo.

Eu não queria. Não podia. Mas eu estava fraca, e a força daquele homem, a forma como ele assumia o controle para me proteger, era a coisa mais inebriante do mundo naquele momento.

— Eu… eu não posso prometer que vou amá-lo.

Um sorriso de canto despontou nos lábios dele. Um sorriso absurdamente confiante. A mão dele deslizou do meu rosto para a minha nuca, os dedos quentes se embrenhando nos meus cabelos rosados com uma firmeza possessiva, mas gentil.

— Eu não estou pedindo o seu amor hoje. Ele vai vir com a nossa convivência, eu garanto — respondeu, sem uma gota de amargura. — Hoje, eu quero apenas a sua lealdade. Pode me dar isso?

Engoli em seco, hipnotizada pela presença e pela coragem dele.

— Posso.

— É só o que eu preciso.

O Naruto me puxou de volta para os braços dele, forte, escondendo o meu rosto na curva do seu pescoço.

— Não se preocupe mais com nada. Apenas respire — ele sussurrou, e eu fechei os olhos ao sentir a vibração da voz dele contra a minha pele. — Eu resolvo tudo a partir de agora.

E ali, na fortaleza daquele abraço quente, envolvida por aqueles braços largos, eu me senti amparada. Segura.

E o mais surpreendente de tudo… Amada.


Você chegou ao fim do livro. Parabéns!