Entre Sombras

7 CAPÍTULO O7: A falsidade nos descrê


Notas iniciais
Não tenho palavras para agradecer todos os comentários maravilhosos, então, repito: obrigada, obrigada, obrigada, obrigada! ♥ Boa leitura!

Entre Sombras

Escrita por Coffee

CAPÍTULO O7: A falsidade nos descrê

Inferno seria a palavra correta para definir sua vida naquele momento. Seu corpo doía pela supressão de chakra, ela se sentia humilhada e impotente e, o pior de tudo: sem saída.

Passou várias noites tentando buscar uma fuga, um modo de se livrar de tudo aquilo, mas não encontrava um modo. Cogitou até mesmo fugir dali, abandonar aquela vila e seu marido, mas ao reler a cópia do contrato, viu que não era permitido. Konoha pagaria se ela fizesse isso. Quando aceitou esse termo, não sabia que as coisas chegariam a esse ponto. Ledo engano.

Sua única esperança era a ida para Iwagakure. Sabia que Naruto acreditaria nela sobre a supressão de chakra, mas também não enxergava um modo dele ajudá-la. No mais, ficaria feliz por vê-lo. Sentia-se mais solitária que nunca, passando o dia todo trancada em casa, suas cartas sendo interceptadas (nunca enviadas ou recebidas) e com sua única companhia, Fuji, ignorando-a completamente.

Outro problema que rondava seus pensamentos era seu reencontro com o Otokage, melhor, seu ex-companheiro de time e passado (presente e futuro) amor. Não conseguia nem ao menos imaginar qual seria a reação dele e nem a sua própria.

Será que ele já sabia?

Será que ele ao menos se importava?

Essas dúvidas rondava sua mente, cutucando-a feito uma kunai afiada.

— Está pronta?

Raioko perguntou ao entrar no quarto. Ele usava vestes de viagens, camisa e blusa azul e uma capa bege clara. Levantou-se sem responder, usava uma calça e uma blusa negras e uma capa da mesma cor.

Seria uma viagem longa, quase a mesma distância de Konoha até a Vila da Pedra, mas sabia que ainda sim eles chegariam depois de Naruto, o loiro sofria de ansiedade (como sua vida toda) e sempre chegava adiantado nessas reuniões.

Suspirou fundo quando saíram. Um dos subordinados se ofereceu para carregar sua mochila, mas ela agradeceu e continuou firme agarrando as alças. Agora, tinha um pouco de dificuldade devido à falta de chakra, mas não deixou que ninguém percebesse.

— Vamos boneca?

Acenou positivamente e partiram.

Três dias de caminhada. Seu corpo estava fadigado. Ela sofria de tonturas constantes, mais cansaço do que o normal para um ninja e de raiva, muita raiva por tudo aquilo. Pararam em uma pousada a poucos quilômetros de Iwagakure para que pudessem tomar banho e se vestirem adequadamente para a recepção.

O quarto era simples e Raioko nem ao menos ofereceu o banheiro para que ela usasse primeiro. De todo modo, não se importou, perante os problemas da sua vida, aquele era o menor deles.

Ele saiu de lá com a toalha enrolada na cintura. Vestiu-se na sua frente, colocando uma calça escura, uma blusa de mangas brancas e o manto de kage.

Entrou no banheiro. Quando saiu havia um vestido sobre a cama. Seu marido estava sentado ao lado.

— Comprei para que usasse.

Não era um vestido de batalha. Era uma peça leve, quase como a que casara. Era um forro bege claro, quase branco, coberto com outro de cetim da mesma cor, leve e transparente.

— Quero que esteja uma verdadeira dama. A senhora de um kage.

— Pensei que quisesse poder.

— Todos já sabem do seu poder. Não precisam de demonstrações.

Respirou fundo.

Eu preciso de uma demonstração.

Minha mão na sua cara.

Vestiu-se não se importando com a sua nudez frente a ele. Notou o olhar luxurioso sobre seu corpo, mas ignorou. Por fim, foi até o banheiro, fazendo uma trança nos longos cabelos róseos.

— Tão bonita...

Ele disse, entrando no banheiro e tocando seu pescoço. O colar de supressão era uma linha fina e dourada em seu pescoço branco.

— Exatamente como pensei que ficaria.

Desvencilhou-se do toque continuando a passar uma maquiagem leve.

Ele não gostou da sua reação e puxou-a pelo braço.

— Não tente nenhuma gracinha, está me ouvindo? Você é a senhora de Amegakure, minha esposa. Haja como tal. Nada de vazar informações para seus amiguinhos, nada de conversinhas alheias. Entendeu?

Ela fez uma careta e ele apertou ainda mais seu braço.

— Entendeu?

Não respondeu. O aperto agora doía. Férreo.

— Faça qualquer gracinha e sua antiga vila querida sofrerá as consequências.

Ele não esperou sua resposta, soltou-a abruptamente, ajeitou sua mochila e saiu do quarto.

Colocou uma capa negra de mangas e até os pés tampando seu vestido, fez uma oração sublime para sair daquele inferno e partiu novamente.

♣ ♣

— Sasuke, você está bem?

Era a segunda vez naquele dia que Naruto o chamava pelo primeiro nome e não por um apelido infame. Mas a sua mente não conseguia se focar em nada.

Seus pensamentos eram ecos distantes.

Estava perdido. Como se estivesse no mar ao sabor da maré.

— Teme... Não se culpe. Mesmo que você tivesse a recebido, Oto também está passando por momentos difíceis, se você aceitasse Raioko cortaria imediatamente as importações para a Vila do Som. De qualquer modo, sua resposta para ela seria não.

Seria?

Ele seria capaz de dizer não para ela em uma situação como aquela?

Ele seria capaz de dizer não se soubesse que ela se casaria com outro?

E o pior: obrigada?

É claro que fingir um noivado não seria uma tarefa fácil. Como o próprio Uzumaki dissera os suprimentos de Oto seriam cortados e sua população sofreria pelo seu ato.

Talvez tenha sido melhor, ele nem ao menos teve que fazer essa escolha...

Não.

Não.

NÃO.

Ele preferia ter feito à escolha. Talvez se tivesse feito agora não se sentiria assim. Tão... Condenado.

Ele tinha o direito de se sentir assim?

Era Sakura quem estava condenada. Afinal.

Viver o resto da vida com um homem como aquele... Persuadida, sem nenhum sentimento...

Tinha que ter algo que ele pudesse fazer.

— Os contratos são complicados — O loiro disse como se lesse seus pensamentos — Qualquer ato impensado da parte dela pode trazer consequências diretas para Konoha. Eu preciso ajudá-la, mas sinceramente, não vejo como.

Bebeu um gole da sua bebida. Seu estômago já estava embrulhado e o gole só evidenciou ainda mais o seu estado.

— Talvez ele não seja tão ruim assim. Talvez eles possam criar algum sentimento e...

O amigo continuou falando, mas ele não mais ouvia.

Somente a menção que Sakura tivesse um sentimento por outro alguém o agoniava.

O angustiava.

No todo, seria o melhor. Mesmo que isso o destruísse, aceitaria que ela tivesse um afeto por outro alguém, para que assim, ela tivesse uma vida confortável.

Regada de afeição e amor.

Como ela sempre merecera.

Mas tudo aquilo parecia piada ao pensar no marido dela. Ele não era tão positivo quanto Naruto e duvidava muito que aquele homem não fosse ruim e sanguinário como falavam.

Sakura...

Eu sinto tanto...

‘Se eu soubesse...

‘Se eu imaginasse...

‘Se...

Sabia que havia uma chance dela estar presente na reunião. Kages casados geralmente levavam seus companheiros, ou às vezes, os deixava nas vilas para que governassem temporariamente.

Não sabia o que seria pior.

Ele não conseguia pensar em como poderia olhá-la depois de tudo. Mas também não conseguia imaginar não vê-la, não encontrá-la e saber como ela estava.

— (...) Hinata ficou está resolvendo uns problemas com o clã e também está ajudando na papelada do hospital, agora que a Sakura-chan saiu, as médicas estão gastando muito tempo em atendimento e quase não tem tempo para a burocracia.

Não conseguia absorver nada que o loiro dizia.

Casada.

Sakura estava casada.

Morando em Amegakure.

Obrigada... Trocada por um contrato.

Pelo dever.

Pela vila.

Por negligência dele.

♣ ♣

Chegaram ao fim da manhã. Deveria ser cerca de dez horas, a vila funcionava a todo vapor, tendas estavam montadas com diferentes tipos de comidas e bebidas, danças típicas eram apresentadas em um palco no centro da praça, vários ninjas de elite faziam a proteção da festa.

Já tinha vindo em algumas reuniões com Tsunade e até mesmo com Kakashi, mas era a primeira vez que ela fazia realmente parte daquilo, embora duvidasse que Raioko permitisse que ela desse qualquer opinião.

Sua voz seria muito mais ouvida pela Senju ou pelo Hatake do que por seu marido.

Ela sabia como tudo funcionava, mas ainda sim se sentia deslocada de um modo que nunca se sentira antes. Seu coração estava batendo acelerado, quase saltando do peito, embora ela não soubesse o motivo, ou talvez apenas não quisesse admitir.

Estava ansiosa.

Hoje veria Naruto.

Hoje veria ele.

E ela sabia que ao contrário do que queria, não poderia correr para os braços do loiro e pedir ajuda, teria que se manter firme, ao menos na frente de Raioko. Um passo em falso e ele perderia o que restara da confiança nela.

Controle.

Ela não podia desmoronar, não agora.

Não na frente de todas aquelas pessoas.

Não na frente do Uzumaki.

Não na frente dele.

— Que tal procurarmos seu amigo? Aposto que está ansiosa para vê-lo, e claro, contar o quão maravilhoso é o nosso casamento e como você está feliz.

Sabia que Raioko faria de tudo para encontrar o loiro e esfregar o casamento na cara dele. Nesse tempo em que passaram casados ela aprendera que seu marido era vingativo, mesquinho e arrogante.

Ele não ia perder a oportunidade de irritar Naruto em um lugar que o loiro estaria de mãos atadas.

Pensou que fosse hiperventilar quando, andando pela vila, sentiu o chakra de Naruto.

E de certo alguém próximo a ele.

♣ ♣

Afogado em pensamentos ele se desligou do que o loiro falava.

Só voltou a si quando sentiu um chakra conhecido tão próximo.

Ela.

Sakura estava ali.

Tão perto.

Novamente.

Respirou fundo, o coração chicoteou no peito. Naruto também notou, porque seus ombros endureceram e seu maxilar travou.

Quando o chakra ficou próximo demais, o jinchuriki se levantou em um rompante.

Seus ombros pesaram e ainda sim ele repetiu o movimento do amigo, se levantando. O loiro olhava para um ponto atrás de si, os olhos brilhavam embora ele não soubesse se de conforto ou desespero.

Respirou fundo mais uma vez antes de se virar.

Ele não viu mais nada.

Os olhos negros se fixaram nos verdes, as vozes em volta dele pareceram se calar, o movimento das pessoas pareceu estancar e até mesmo o vento pareceu parar de uivar.

Sakura...

Fazia tantos anos que não a via... E ainda sim tudo que conseguia se fixar era nos enormes olhos verdes que o atormentaram em tantas e tantas noites.

— Sakura-chan!

Naruto gritou querendo cortar a distância de cerca de dois metros entre eles. Pensou que a rosada fosse correr até o loiro, mas isso não aconteceu.

Embora a médica parecesse em dúvida do que fazer, uma mão passou por trás dos ombros pequenos, segurando-a ali em um agarre disfarçado de abraço.

O Amegake.

Só agora reparou nele. Uns bons centímetros mais alto que ela, um sorriso cínico no rosto.

— Hokage.

Sakura fez uma mesura contida para o amigo que nada combinava com a relação dos dois. Depois, virou-se para ele.

— Otokage.

Outra mesura.

Seu estômago revirou. Ele queria ir até ela, quebrar aquela distância, ver se ela realmente estava bem, tirar aquele homem de perto dela, talvez até mesmo abraçá-la.

Porque embora o vestido leve e claro trouxesse imponência e elegância, embora ela parecesse confortável com o toque do homem em seus ombros, algo ali lhe parecia errado.

O jeito contido.

Os olhares desviados.

O sorriso falso.

A frieza.

Sakura era como o sol. Quente, afável.

Ela poderia estar ressabiada com ele (e com razão), mas duvidava que ela estivesse daquele modo com Naruto, não ela, não a mulher que já o perdoou mais vezes do que ele mereceu, salvou-o mais vezes do que ele deveria ser salvo.

Algo estava realmente errado.

Ou talvez fosse apenas aquela pontinha de ciúmes que passava essa impressão. Porque aquela ponta de ciúmes queria achar um defeito, queria achar esperança, queria achar qualquer indício que ela não estava bem com aquele casamento, que ela não aprendera a amar aquele homem.

— Hokage, Otokage, que prazer.

Raioko não poderia soar mais falso. Ainda sim ele e o loiro repetiram a mesura em respeito.

Filho da puta.

— Sakura estava com saudades de você, Naruto. Embora ela já tenha se adaptado totalmente a Amegakure, parece que viveu a vida inteira lá, não é boneca?

Boneca?

Adaptada?

— Sim.

Uma resposta contida e furtiva.

Parecia não trazer muita precisão.

Ou era somente coisa da sua cabeça?

Talvez não fosse porque Naruto também pareceu notar.

— Sakura-chan, também estava com saudades, por que não vamos dar uma volta juntos?

A médica pareceu ponderar, até mesmo chegou a levantar um dos pés para se aproximar mais do loiro, mas a mão em seu ombro pareceu trazê-la de volta para a realidade.

— Estou muito cansada Naruto, talvez mais tarde.

Naquele momento, ele soube que não haveria mais tarde.

Soube até mesmo que ao contrário do que o Uzumaki imaginava, ela não estava nervosa e por isso não tinha mandado cartas.

Sakura estava pisando em ovos.

Havia algo por detrás daquele vestido elegante, da trança nos longos cabelos róseos e do sorriso falso.

— Você não pode andar comigo, não é?

O jinchuriki surpreendentemente chegou à mesma linha de pensamento que ele.

— Ele te proibiu.

Não foi uma pergunta. Os olhos verdes vacilaram, mas logo voltaram ao normal.

— Não, Raioko não me proibiu de nada. Podemos caminhar mais tarde, depois da reunião, agora estou realmente cansada.

Foi convincente.

Naruto moveu o peso de uma perna para a outra.

— Acha que eu proibiria minha mulher de alguma coisa, Uzumaki? Não me ofenda.

Minha mulher.

Minha mulher.

— Sei muito bem do que é capaz.

— Então porque deixou que sua amiga tão querida se cassasse comigo?

Pensou que Naruto fosse se jogar em cima do Amegake. O rosto do loiro ficou vermelho e seus punhos se fecharam em ódio.

Tentou controlar a própria raiva para manter-se firme no lugar onde estava.

— Você não me deu escolha.

O kage sorriu em sarcasmo.

— Sempre temos uma escolha, Uzumaki. Mas saiba que você não fez um mau negócio. Sua amiga está muito bem casada e feliz comigo. A vila toda gosta dela assim como ela gosta deles. Não poderia ter feito um favor melhor para sua amiga. Não é boneca?

Olhou novamente para Sakura. Podia ser impressão sua, mas ela parecia realmente cansada e parecia haver pequenas olheiras no rosto branco.

— Sim Naruto, fique tranquilo, eu estou bem e feliz.

Os olhos verdes saíram do loiro passaram por ele e depois se fixaram em um ponto qualquer.

O sorriso plástico voltou novamente e sua fúria só aumentou.

Segurou-se para não andar até ela e arrancá-la daquele homem. Chacoalhá-la até que ela dissesse o que realmente estava acontecendo, até que ela admitisse que não amava aquele homem, que ele estava proibindo-a de dizer o que realmente queria, que ela não gostava daquele casamento e nem daquela vila.

Mas Sakura estava firme.

Imponente dentro do vestido fino e feminino.

Imponente com aquele sorriso plástico.

Imponente ao lado do Amegake.

Imponente ao lado do seu marido.

Notas finais
E finalmente temos um reencontro. Naruto e Sasuke notaram que tem algo errado, mas como será a postura deles de agora em diante? Será que a Sakura vai conseguir contar o que está acontecendo para eles? Façam suas apostas!