Entre Sombras
25 CAPÍTULO 25: O erro nos ensina
Notas iniciais
Entre Sombras
Escrita por Coffee
CAPÍTULO 25: O erro nos ensina
Seu coração bateu tão rápido que ela achou que ele fosse quebrar a caixa torácica e pular para fora.
— Desistir do seu cargo? Já passou pela sua cabeça que basta que eu me mude para Oto?
— Não quero que você se sinta obrigada a isso, sei que você viveu sua vida inteira em Konoha, e que tem uma ligação muito forte com essa vila, não quero que você vá para Oto apenas porque não vê outra forma de... de estarmos juntos.
— Não é uma obrigação para mim.
— Não quero que você faça mais sacrifícios, já fez muitos.
Ela respirou fundo, as pernas bambas. Sabia, ou melhor, sentia, que ele gostava dela, que ele a amava, mas..., mas desistir do cargo que era tão importante para ele e para outras pessoas por ela, nunca havia passado pela sua cabeça. Ele tinha a pego de surpresa.
Ficou um tempo em silêncio, pensando nas palavras que deveria dizer, e depois sentou-se novamente ao lado dele, as pernas cruzadas, frente a frente.
— Não é um sacrifício, eu quero. Pensei muito sobre isso, de verdade, como você mesmo disse Konoha é muito importante para mim, foi a vila onde nasci, onde cresci, onde me formei ninja e médica, e lá estão muitas pessoas que são importantes para mim. E gosto daqui também, aprendi a gostar, na verdade, acho que do mesmo modo que você aprendeu a gostar de Oto anos atrás. Mas não é a minha casa. E acho que agora, Konoha também não é. Eu passei por tanta coisa nesses últimos anos... Mudei tanto, me reinventei, me redescobri e ainda estou tentando entender minhas mudanças. E acho que uma nova vila pode ser uma boa escolha. Um lugar no qual eu não tenha lembranças, na qual eu possa não partir do zero, mas recomeçar levando em conta tudo o que eu aprendi, superei e me tornei nesses últimos tempos.
— Se você tiver uma única dúvida, por menor que seja, não precisa escolher isso agora, podemos viajar ou se você precisar de mais tempo sozinha eu posso partir.
— Não! Não! Eu... Já fiz tudo o que eu tinha para fazer aqui. O novo hospital vai ser inaugurado na semana que vem, eles já escolheram um novo líder, as coisas estão estabilizadas, e Shizune e Tsunade-sama disseram que vão ficar até o fim do ano para finalizar o treinamento dos internos do hospital.
Eles ficaram alguns minutos em silêncio, antes que ele o quebrasse. Era incrível ver Sasuke daquele jeito, tão receptivo, tão aberto, e mesmo entendendo que era aquilo que o momento pedia, ela não podia deixar de estranhar o motivo pelo qual ele estava fazendo tudo aquilo. Mas em sua próxima fala, ela finalmente entendeu.
— Eu já errei muito na vida, Sakura. E principalmente, já errei muito com você. Por orgulho, por soberba, por cegueira, por ganância. E, infelizmente, não posso prometer que não vou errar de novo, sou humano, e temo que um dos piores. Mas vou tentar. Se você quiser, se estiver disposta a me perdoar e vivermos juntos, vou tentar, em cada minuto, em cada hora e em cada dia, ser melhor.
As lágrimas embaraçaram sua visão, e ela sentou-se ao lado dele no colchão, puxando-o para um abraço, enterrando o nariz nos cabelos dele, e sentindo o cheiro de sabonete do banho recém tomado.
— Todos nós erramos, Sasuke-kun.
Fazia, pelo menos, doze anos que ela não o chamava assim.
— Eu também errei—
— Seus erros jamais se comparam aos meus Sakura.
— Erros são todos iguais, Sasuke-kun. E como você mesmo disse, somos humanos, e estamos aqui para errar e aprender a fazer escolhas melhores. E sinto que, após um erro terrível que cometi, ao deixar que a vida fizesse de mim o que bem entendesse, quando aceitei de cabeça baixa ordens dos outros somente por medo de dizer não, a minha melhor escolha agora é você. É nós. Quero ir para Otogakure com você, quero recomeçar a minha vida, ajudar a sua vila, os moradores e aprender a amá-la tanto quanto você ama. Não só por você, mas também por mim. Quero viver novas experiências, quero aprender coisas novas, e principalmente, quero ser feliz, Sasuke-kun, quero amar. Sem restrições, sem julgamento, sem medo.
— Se você tiver dúvidas, eu posso—
— Não tenho dúvidas, Sasuke-kun, minha escolha está feita.
Sasuke acenou positivamente. Eles permaneceram ali, o resto da noite, apertados no seu colchãozinho de solteiro, embora ele não tenha comentado nada sobre isso.
Ela o olhou, parecia sonolento, assim como ela, e ela sabia que em breve eles se entregariam ao sono.
Parecia tão diferente, e ao mesmo tempo tão igual ao garoto que conheceu anos atrás que a assustava. Os traços no rosto ainda eram os mesmos, a voz, embora mais forte, era a mesma que se lembrava, mas havia algo agora que não havia lá antes... Perspectiva, talvez. Sasuke tinha crescido, amadurecido, e apesar de tudo, ela tinha muito orgulho do homem que ele se tornara.
Então, fechou os olhos, finalmente, caindo no sono.
No outro dia, cedinho, ela arrumou seus poucos pertences e se despediu de Tsunade e Shizune. Ela pensou ter visto uma lágrima furtiva escorrer dos olhos da tutora, mas não podia jurar.
— Espero que esteja fazendo uma boa escolha.
— Estou, shishou. Sei que sim.
— É bom que aquele moleque trate bem você, vou passar por lá, e se você não estiver bem, eu juro que vou—
— Vai estar tudo bem, Tsunade-sama. Vamos nos ajeitando aos poucos, tenho certeza que quando você passar lá vou ter muito o que te mostrar, disse para Sasuke-kun que eu gostaria de administrar o hospital de lá.
— É claro que disse. Sorte daquele moleque, e da vila dele.
Ela sorriu para a tutora, ignorando que ela chamava o Otokage de moleque. Era Tsunade, afinal.
— Já comunicou Naruto?
Acenou positivamente.
— Mandei uma carta, anteontem, antes mesmo de Sasuke chegar aqui, dizendo que pretendia ir para Oto.
— E ele?
— Disse que Sasuke morre de inveja dele, primeiro quis um cargo de kage igual ao dele, e agora a sua melhor médica.
— Está ficando esperto, esse Uzumaki.
Elas deram um abraço rápido – Tsunade odiava emotividade – e a mais velha a garantiu que ela e Shizune ficariam ali até o final do ano, quando o treinamento dos novos médicos acabaria. E então, já era quase hora do almoço quando eles partiram.
Ela e Sasuke, cada um com uma mochila nas costas, rumo a Otogakure.
Na ponte, que separava Amegakure da floresta, ela parou e olhou para trás.
A vila estava quase completamente reconstruída agora, todos os moradores tinham suas próprias casas, o saneamento básico fora instalado em toda a vila, assim como iluminação pública. O hospital seria inaugurado em breve, e os moradores já tinham voltado para os seus trabalhos nas fábricas – reconstruídas – e no campo, com horários de trabalho bem definidos e remunerados e as escolas agora recebiam todos, fossem civis ou ninjas.
Sasuke a esperou em silêncio. Ela observou a fina garoa, molhando a cidade, os seus moradores correndo para o trabalho, para a escola ou para outros afazeres, alguns preocupados, alguns ansiosos, alguns alegres. Ver expressão no rosto daquelas pessoas era um alívio para ela, ver que eles não eram mais regidos pelo medo, pela angústia, pela obrigação, como no passado.
Apesar de todos os erros que cometeram, eles conseguiram se reerguer.
Eles tinham se reconstruído junto com a vila, e junto com ela.
Alguns minutos depois, ela finalmente deu as costas para a vila, olhando para Sasuke a sua frente.
— Estou pronta.
Ele acenou positivamente, dando a ela um pequeno sorriso de canto – aquele que ela tanto gostava – e ofereceu sua mão para que eles caminhassem juntos naquele pequeno percurso da ponte até a floresta, onde subiriam nas árvores e iniciariam a viagem rumo a Vila Oculta do Som.
Ela aceitou a mão dele, sentindo a textura, calejada pelos anos de treinamento e ofício da vida ninja e eles caminharam juntos até a borda da floresta, partindo rumo ao seu recomeço.
♣
Eles chegaram a Otogakure quatro dias depois. Era cerca de oito horas da manhã, o sol já iluminava a vila, e as pessoas saiam de suas casas para os seus afazeres. Era uma cena parecida, e ao mesmo tempo diferente da que tinha presenciado em Amegakure dias atrás. Lá, eles ainda estavam aprendendo a viver com a liberdade recém-adquirida, já ali todos já estavam acostumados, vivendo suas vidas normalmente.
Dessa vez ela não foi parada na entrada da vila, os dois guardas apenas fizeram uma mesura para o Otokage e não comentaram nada sobre a sua passagem. Eles andaram pelas ruas de terra mais próximos do que jamais tinham estado em público. As pessoas paravam para olhá-los, fazer uma mesura ao Otokage, um elogio, um pedido, e Sasuke ouvia a todos com atenção e respeito.
Ele não fez apresentações, apenas continuou caminhando com ela do lado, parando quando necessário e depois seguindo em frente, até chegarem à casa dele.
Mesmo já tendo estado lá antes, ela sentiu o coração acelerar ao passar pelo batente. Tinham discutido sobre aquilo no caminho. Sasuke tinha dito que se ela precisasse de mais tempo sozinha ele poderia arrumar outro lugar para que ela ficasse, mas ela apenas acenou negativamente, e repetiu o que tinha dito ao saírem de Amegakure. Ela estava pronta.
Tinha se reconstruído junto com Amegakure. Deixado suas mágoas, suas inseguranças e suas dores para trás. Assim como ela observara que Sasuke tinha mudado, ela também tinha aprendido com os seus erros, com as suas escolhas. Era uma mulher diferente da que fora anos atrás, meses, e até mesmo diferente da que fora ontem.
Estava pronta para começar essa nova fase, embora ainda sentisse ansiedade e medo. Será que os cidadãos da Vila Oculta do Som a aceitariam como a companheira do Otokage? Eles a respeitariam? Eles gostariam dela?
Balançou a cabeça.
Não importava.
Agora ela não mais viveria em busca de aprovação alheia, embora soubesse que como ser humano seria difícil se desvincular dessa mania.
Ela estava firme em suas escolhas, nos seus valores. E não deixaria mais que a subjugassem, que a obrigassem a nada. Não deixaria mais que a forma como os outros a viam definisse quem ela era.
— Fuji está aqui.
Sasuke quebrou o silêncio, a tirando dos seus pensamentos.
— Aqui em Oto?
— Em casa, ela trabalha aqui agora. Eu disse que ela não precisava mais trabalhar, que Oto forneceria seu sustento, mas ela não aceitou.
Ela sorriu, era típico de Fuji. Acenou para Sasuke, ambos tiraram suas mochilas e deixaram na entrada, e ela observou a casa com os olhos atentos. A partir de agora aquela seria a sua casa também. O seu recomeço.
— Otokage-sama, seja bem-vindo.
Fuji apareceu na porta que separava a sala da cozinha, limpando as mãos no avental que usava, e arregalou os olhos amendoados ao vê-la ali.
Sakura cortou o espaço entre elas, abraçando a senhora, e sentindo-se em casa pela primeira vez.
— Fuji-san, fico tão contente em te ver bem por aqui.
Ela tinha uma dívida com aquela mulher que provavelmente nunca pagaria.
— Que bom que está aqui, menina.
Elas sorriram uma para outra, Sasuke deixou-as a sós para que elas conversassem, e subiu as escadas com as mochilas em silêncio. Conversaram sobre a nova vida de Fuji, sobre a reconstrução da Vila Oculta da Chuva e, quando Fuji teve certeza de que Sasuke estava longe o suficiente para ouvi-la – embora ele provavelmente ainda pudesse fazê-lo se quisesse –, confidenciou:
— Se você não voltasse acho que o garoto Uchiha ficaria maluco. Uma semana antes de partir e ir atrás de você eu achei que ele fosse fazer um buraco no chão do segundo andar da casa, de tanto andar para lá e para cá tentando decidir o que fazer.
Ela sorriu, em ternura, e elas permaneceram conversando até que Suigetsu irrompeu pela porta da frente.
— Princesa da Chuva! Ops, acho que é Princesa do Som agora, certo? Eu sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde. Eu nunca erro. Sasuke é um pouco lerdo, mas uma hora ele acaba aprendendo. Falando nisso onde está aquele bastardo?
Sakura riu da sua tempestuosidade, revirando os olhos, no exato momento em que Sasuke aparecia furioso no topo das escadas.
♣
Estava nervosa. Era o seu primeiro dia no hospital, e ela tinha tido uma conversa com Sasuke antes de sair.
— A quem devo me reportar? Digo, entregar os relatórios e—
— Sakura, não existe médica ou administradora mais competente que você por aqui. Vai escrever relatórios para quem? Para você própria?
— Mas—
— O hospital é seu. Já conversei com os funcionários ontem, estão esperando a sua chegada.
— Mas... Eles não vão gostar disso, eu sou uma estrangeira, e já vou chegar mudando a hierarquia e o—
— Não existia hierarquia nenhuma. Himari, a enfermeira chefe apenas tomava conta da burocracia, e ela odeia esse trabalho, vão ficar aliviados com a sua chegada.
Acenou positivamente, ainda incerta. Como já tinha dito, embora tentasse dia a após dia colocar suas inseguranças de lado, era uma tarefa difícil.
Agora já podia ver o prédio do hospital, e mil perguntas diferentes rondavam sua mente. Quando entrou, a equipe, formada por doze pessoas estava lhe esperando no saguão principal.
— Bom dia, sou Haruno Sakura.
— Estávamos lhe esperando, doutora Haruno. É uma honra ter a pupila da Godaime conosco. Seja bem-vinda.
Foi melhor do que imaginara. Como Sasuke havia dito todos já estavam cientes da sua chegada, e ela foi recebida muito bem. Os cidadãos de Oto não eram tão espontâneos e extrovertidos quanto os de Konoha, mas todos a trataram bem, com muito respeito, e como Sasuke tinha previsto, pareciam felizes com as mudanças que ela implementou para reorganizar o local.
Aos poucos a transição foi sendo realizada, e todos já estavam acostumados com a sua presença. Ela gostou mais fácil de Oto do que imaginava. Era uma vila calma, tão pacífica que era praticamente impossível acreditar como tinha sido no passado.
Três meses depois da sua chegada a Oto, Sasuke já tinha a deixado com a administração da vila enquanto ia em uma viagem de negócios, e quatro meses depois eles foram juntos para Konoha.
Foi bom rever Naruto, Ino, Hinata e Kakashi. Eles almoçaram e jantaram juntos pelos dois dias que Sasuke e ela permaneceram na vila, e, quando ela partiu, ela notou que tinha feito a escolha certa. Embora Konoha sempre fosse estar no seu coração, ela não pertencia mais aquele lugar.
Também recebera notícias de Amegakure por Tsunade, que estava deixando a vila para prosseguir suas viagens com Shizune. Segundo ela, o hospital tinha sido inaugurado, era bem estruturado e os médicos muito competentes, a reconstrução da vila estava completa, e todos já estavam se habituando ao novo estilo de vida, ao trabalho, a escola, aos seus deveres. A aliança shinobi também estava deixando o local, agora que o novo kage já estava acostumado com o cargo e estava administrando bem a vila.
Meses após sua chegada, os papéis do seu divórcio com Raioko finalmente saíram, demoraram quase um ano para ficarem prontos, a burocracia ainda era um obstáculo a ser superado, e ela respirou fundo, deixando algumas lágrimas desceram ao ver o seu sobrenome Haruno de volta aos seus documentos.
Aquela foi a última vez que ela teve notícias de Raioko. Que ele continuava preso, assim como o Tsuchikage, e que os dois estavam um pouco insanos pelo cárcere. O Raikage também tinha sido punido, assim como alguns comparsas, que permaneceriam presos por alguns bons anos, embora não fosse uma prisão perpétua como dos outros dois.
Ela e Sasuke tinham discutido sobre casamento, meses atrás, mas ela ainda não sentia que era o momento certo. Queria aproveitar aquele período que estavam vivendo, entre a administração da vila, do hospital e viagens, antes de mudar novamente o seu sobrenome.
Por hora, bastava ser mulher de si própria.
♣
Sasuke nunca tinha experimentado um sentimento tão... Completo quanto aquele.
Por muito tempo, após a perda fatídica dos seus pais, dos seus familiares, de pessoas que ele amava e até mesmo do seu irmão, Sasuke começou a pensar que não valia a pena amar.
Para que?
Para que dedicar tanto do seu tempo a alguém, a uma relação que podia ser rompida ou destruída a qualquer minuto? E tudo que sobrava desse sentimento era dor?
Durante muitos anos Sasuke se esquivou de qualquer tipo de sentimento, fosse ele positivo ou negativo, se afastou de seus antigos companheiros de time, e focou somente em seu crescimento como ninja como uma meta de vida, achando que, quando se tornasse forte o suficiente, quando finalmente conseguisse realizar sua vingança ele se sentiria melhor.
Mas quando aconteceu, quando ele se tornou um dos maiores ninjas do seu tempo, quando lutou contra o seu irmão, quando entrou para uma sociedade de ninjas renegados, quando matou tantas pessoas que perdeu a conta...
Nada aconteceu.
Ele continuava oco. Continuava cego. Continuava vazio.
E não havia conquista, não havia crescimento, não havia nada que preenchesse isso.
E então veio a guerra. Veio o seu perdão. Veio a ressignificação da sua vida.
Aquelas pessoas, aqueles companheiros de time, a quem ele havia dado as costas a tantos anos continuavam ali. Continuavam ali por ele, para ele.
Eles ainda confiavam nele, ainda acreditavam nele, por mais que ele não merecesse. E então ele viu na sua peregrinação a chance de se redescobrir. Porque percebeu que após todos aqueles anos, perdido em meio ao ódio, a dor e ao vazio ele não fazia ideia de quem era. Do que ele gostava, do que não gostava, qual era sua comida preferida, qual era sua bebida favorita, ou que tipo de música ele apreciava.
Parecia que durante todos aqueles anos ele ficara adormecido, perdido em um torpor onde o seu corpo ia, e vinha, e crescia, e amadurecia, mas ele... Ele continuava o mesmo garotinho perdido e com medo de amar por dentro.
E então apareceu Oto. Com aquelas pessoas tão parecidas com ele. Tão vazias, tão sozinhas, tão famintas. E ele fez daquilo o seu novo objetivo.
Ele se reconstruiu junto com aquelas pessoas, junto àquela vila. Ele descobriu tanto sobre ele, e tanto sobre os seus sentimentos... Em meio aquela descoberta ele percebeu como fora tolo, como dera as costas para tantas pessoas importantes e que o amavam.
Naruto, Kakashi, Suigetsu, Karin, Juugo, Sakura.
O seu time mais recente foi mais fácil de contatar. Ele pediu perdão para os três, e Suigetsu decidiu ficar em Oto e ajudá-lo na reconstrução da vila. Karin estava em algum dos laboratórios abandonados de Orochimaru em meio aos tubos de ensaio e substâncias químicas e eles trocavam cartas de tempos em tempos, assim como Juugo.
Mas o time sete... O time sete era um elo diferente. Um elo que, quando criança ele achara fraco, mas agora tinha noção que era o mais forte de todos. Um elo que não se rompia não importava quanto tempo passasse ou quantas burradas ele fizesse.
Após assumir como Otokage suas viagens burocráticas permitiram que ele encontrasse Naruto com frequência, e até mesmo Kakashi. Retomar contato com eles tinha preenchido seu interior, sua alma, como nada fizera anteriormente. O Hatake era o mais próximo que ele tivera da figura de um pai e Naruto era seu irmão de alma, afinal.
Mas ainda havia uma relação que ele não retomara.
Sakura.
Uma das pessoas que mais sofrera com as suas escolhas e com os seus erros. E então veio toda aquela loucura de casamento, de Amegakure, de reencontros.
Revê-la tinha sido como um soco no estômago.
Estava deslumbrante, e mais inalcançável do que nunca.
Casada.
E ele prometeu a si próprio que iria deixar que ela fosse feliz, mas não foi o caso. O casamento era um inferno, e eles se viram em uma relação adúltera em busca de conforto, em busca de atenção, em busca de esquecimento.
Agora, tudo aquilo tinha passado.
Por bem ou por mal, estavam livres, livres de Raioko, livre de julgamentos.
Às vezes, após fazerem sexo, quando Sakura dormia ele observava a cicatriz que nunca sumira completamente das costas dela. A lua cheia que Raioko fizera com kunai como uma forma de marcá-la como dele.
Mas não deu certo. Sakura tinha conseguido se libertar daquilo, e agora era livre para fazer o que bem entendesse. E ainda sim, ela tinha escolhido ele.
Cheio de pecados, de erros e de dores.
E vê-la andando por Otokagure, como uma parte daquela vila que ele tanto amava, o fazia pensar o quão tolo ele fora durante todos esses anos.
Sim, valia a pena.
Amar valia a pena.
A dedicação, o gasto de tempo, nada era em vão.
Porque aquele sentimento o preenchia de uma forma inexplicável.
Ele não era mais oco, vazio, sozinho.
O medo de se dedicar a esse sentimento era um eco distante na sua alma. A cada dia ele tinha mais certeza que fora um tolo por todos aqueles anos, e que tinha muita sorte por ter tido a oportunidade de mudar e de experimentar a vida, e os sentimentos de uma nova forma.
Sakura havia o ensinado que amar era o sentimento mais sublime da vida.
♣
Sakura andou rumo a torre do Otokage em busca de Sasuke.
Eles se viam geralmente de manhã e no fim da tarde, quando se encontravam em casa após um dia exaustivo de trabalho. Fuji sempre os recebia com uma comida quente e deliciosa, e um sorriso gentil. Ela se divertia nas noites que Suigetsu jantava com eles, com as suas piadas ruins e o seu talento em falar besteiras.
Mas hoje, ela não queria esperar até o final do expediente.
Na noite anterior havia acontecido uma tempestade horrível, que quebrara árvores e causara alguns prejuízos a Oto, mas felizmente ninguém se machucara gravemente. No caminho as pessoas limpavam a vila mesmo sob a fina garoa, e acenavam para ela ao vê-la passar.
Ela chegou no prédio com algumas gotas de chuva deixando seu cabelo úmido. Havia marcas de pingos nas suas roupas também, mas ela não se importava. Ela observou o lugar antes de subir as escadas. Era um lugar alto, e ela ainda se lembrava com detalhes da primeira vez em que esteve ali, embora agora esse momento parecesse uma época tão distante que ela podia jurar que ocorrera em outra vida.
Sasuke estava encostado em uma das grandes janelas, observando a vila.
— Fugindo da papelada, Otokage?
Sasuke se virou para ela com um sorriso de lado. Algumas gotas de chuva pingavam pela janela aberta e deixava rastros de água pelo chão, mas ele não parecia se incomodar.
Ela andou até ele, e eles colaram seus lábios em um beijo lento e úmido que enviou faíscas elétricas pela sua coluna. Ela mal podia esperar pela noite.
Separaram-se e ela se colocou ao lado dele, conversaram sobre Amegakure, sobre Oto, sobre mudanças que seriam implantadas em breve, e sobre o sucesso de algumas outras. Depois ficaram em silêncio, juntos, observando a vila sob a fina garoa.
Ela não sabia ao certo porque havia deixado seu calmo plantão no hospital e uma pilha de papéis para vir até ali, mas algo a tinha impelido a vir. Às vezes, tudo que precisava era seguir seus instintos e aproveitar aqueles momentos simples de felicidade.
Em algum momento eles se aproximaram ainda mais, ele passou os braços sobre ela e ela se aconchegou ao seu peito, fechando os olhos e apreciando aquele instante.
Então, ela deu graças aos deuses por tudo, pelo momento, pela sua vida, pela dele e pela nova oportunidade. Tantas coisas haviam acontecido, tanta dor, tanta distância, tanto medo, mas eles haviam superado tudo aquilo, os fantasmas, as inseguranças, os obstáculos...
E agora, ela agradecia. Agradecia por poder estar ali, vivendo tantas coisas incríveis ao lado do homem que amava.
Juntos.
Depois de tantos erros eles finalmente, estavam juntos.
Obrigada.
Quando abriu os olhos, a garoa tinha ido embora, e fracos raios de sol iluminavam Oto e aos dois. Os raios cintilaram no seu rosto, aquecendo sua pele e secando, aos poucos seus cabelos úmidos.
O sol sempre voltava.
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