Entre Sombras
10 CAPÍTULO 1O: O sentimento nos abate
Notas iniciais
ENTRE SOMBRAS
Escrita por Coffee
CAPÍTULO 1O: O sentimento nos abate
Uma língua acariciou a sua e um lábio sugou o seu.
Era igual e ao mesmo tempo diferente de tudo que tinha imaginado.
‘Se pudesse definir em uma palavra seria: exótico.
— Não...
Ela sussurrou com a mão nos lábios quando se separaram. Querendo sair daquela situação ela andou pelo quarto, colocando-se o mais longe possível dele.
— Precisa sair daqui, agora.
Tentou manter a voz firme, mas ainda havia vestígios de lágrimas em seu rosto e seu corpo, principalmente as mãos, tremiam.
— Você não pode, não tem o direito de...
A voz morreu, sua mente não conseguia formar frases completas, nem colocar em palavras o que ela queria expressar.
Sentia um misto de raiva e afeto. A raiva principalmente por ele tê-la beijado após todos aqueles anos, após todos aqueles acontecimentos, após tudo que havia acontecido.
— Ninguém sabe que estou aqui. E Raioko está em reunião com o Raikage.
Saia daqui, por favor... Não me destrua ainda mais.
Não me quebre ainda mais...
— Algumas dúvidas se espalharam pelas Vilas Ninjas essa semana. Amegakure baixou tanto os preços dos mantimentos e matérias primas que a Vila do Ferro se enfureceu, fazendo um comunicado que era impossível alguém vender tão barato assim usando meios legais. Alguns kages enviaram cartas para Raioko, pedindo explicações e ele jurou que tudo está dentro da lei, que seus produtos são de qualidade e ainda sim, baratos. Mas os kages estão desconfiados e usarão essa reunião para tirar respostas dele.
Ela quis dizer tudo. Despejar toda a verdade, mas o medo apossou-se dela.
— Saia.
— Não vou sair até que me diga a verdade.
— Saia.
— Sakura, uma palavra sua e—
Naquele momento ela se lembrou das noites que passou esperando pelo retorno dele, na dor que sentiu quando soube que ele nunca voltaria...
— Saia. Agora.
— Uma palavra. Diga-me que há algo errado e eu investigarei, colocarei mais dúvidas nas cabeças dos kages para que possamos desmascará-lo.
— Saia. Agora.
Observou-o passar as mãos nos cabelos impaciente e mudar o peso de uma perna para outra.
— Saia ou eu farei um escândalo.
Ele sorriu como se ela tivesse dito algo que ele queria ouvir.
Deu alguns passos em direção a porta, e, com a mão na maçaneta, virou-se para ela e disse:
— E desde quando a pupila da Godaime precisa de um escândalo para afastar um homem?
Touché.
Inferno.
Agora ele devia ter certeza que havia algo errado. Para colocá-lo para fora do quarto, bastaria que ela usasse sua força.
Força que ela não tinha.
Força que estava suprimida por uma corrente de chakra.
O sorriso de canto ficou para trás, quando usando um henge a camareira voltou para sua frente e saiu pela sua porta como se nada tivesse acontecido.
♣ ♣
Seu marido retornou no fim da tarde. Ela lia um livro de atualização médica quando ele segurou seu braço com força, fazendo-a soltar o livro em surpresa.
Ele sabe...
Sabe que Sasuke veio aqui... Ele...
— Aposto que você tem algo a ver com isso, não tem, vadia?
Ela nem ao menos sabia sobre o que ele falava.
— Foi você que mandou algum recado para aquele loiro estúpido? Foi você que plantou dúvidas nas cabeças deles?
O agarre em seu braço era forte, e ela se enfureceu entendo que ele não havia descoberto sobre a visita de Sasuke, apenas estava descontando nela a raiva pelas desconfianças dos kages.
— Não tenho nada haver com isso. Cortou toda a minha comunicação, como eu mandaria qualquer informação?
— ‘Se eu souber que tem algo a ver com isso... Eu...
Ele levantou a mão em sua direção, e por puro reflexo ela segurou o punho dele. Em muito tempo o chakra fluiu naquela região das mãos, fazendo-a parar o movimento dele com sucesso. Não foi um agarre férreo, mas o suficiente para fazê-lo arregalar os olhos.
— Não ouse tocar em mim.
Foi algo momentâneo. Logo ela sentiu o chakra se dispersar novamente e seu aperto perdeu a força. Ele também percebeu.
— Eu toco, eu faço o que quiser com você.
Ele a empurrou com força. Cambaleou alguns passos, sendo inevitavelmente jogada na parede. Suas costas bateram com força no bloco maciço e ela perdeu o ar por alguns segundos. Tão logo o recuperou, ele já estava na sua frente novamente.
Apertando seus braços e seu pulso com força. Ela gemeu de dor temendo que ele pudesse quebrar seu pulso com aquele agarre.
— Eu posso te bater, eu posso te fuder, fazer o que bem entender. Compreende? E você vai manter essa linda boca calada, e, quando aquele seu amigo loiro estúpido vir falar com você, vai fingir que está tudo maravilhoso e dizer que não sabe nada sobre o que quer que ele pergunte. Entendeu?
Não respondeu na hora, e o aperto em seu pulso ficou ainda mais forte.
— Entendeu?
Concordou afirmamente, querendo que ele saísse de perto dela o mais rápido possível.
— Vou sair antes que eu desconte toda minha raiva nesse seu corpinho e acabe a machucando. À noite teremos um jantar e a quero dócil e maravilhosa.
Dessa vez, ele não esperou por resposta. Apenas lhe deu as costas e saiu do quarto.
Mais tarde ela ouviu batidas na porta. Era o chakra de Naruto, reconheceu com facilidade, mas não estava com humor para conversas. Embora estivesse com muita saudade do amigo, não queria que ele a visse depois de ter chorado horas.
Também havia o problema das marcas em seu braço e punhos que embora tenha tentado tirá-las com chakra, não conseguiu canalizar nem ao menos uma porção.
Dirigiu-se ao banheiro e ligou o chuveiro, sabendo que como ninja ele escutaria e, pensando que ela estava tomando banho, deixá-la-ia sozinha, ao menos, por enquanto.
Foi o suficiente. Em poucos minutos ela ouviu os passos e o chakra do Hokage se afastarem e pode suspirar aliviada.
Quando chegou perto das dezenove horas, Raioko voltou para o quarto. Parecia mais calmo e também parecia ter bebido, percebeu pelos ombros relaxados e as pupilas dilatadas.
Enquanto ele tomava banho, ela começou a se arrumar para o jantar. Seus pensamentos volta e meia alternando entre o próximo encontro com Sasuke e com Naruto e o acontecimento de mais cedo.
Ela tocou a pontas dos lábios e suspirou.
Maldição.
Colocou um vestido longo azul claro. Era de um pano elegante, fino e suave. Mas, ao menos, era de mangas leves e largas. As mangas tinham um fundo transparente, mas tamparam totalmente as marcas que começavam a ficar roxas em seus braços e pulso. Para garantir, porém, ela colocou algumas pulseiras sobre o pulso dolorido, deixando as marcas totalmente tampadas.
— Vejo que mascarou tudo muito bem. Estou orgulhoso.
Não se deu o trabalho de responder. Apenas continuou trançando os longos cabelos colocou um brinco discreto e esperou que seu marido ficasse pronto.
— Conto com sua discrição e dedicação nesse jantar. Certo?
Novamente, preferiu o silêncio. Sua cabeça estava uma bagunça e tudo que ela mais queria era deitar na cama e dormir para esquecer todos os problemas.
♣ ♣
Naruto a cumprimentou com um abraço apertado que fez suas costas doloridas reclamarem. Ainda sim ela se sentiu bem entre aqueles braços. Por alguns minutos sentiu-se segura e acalentada.
— Fui te ver hoje, mas acho que estava tomando banho.
Sorriu, mas não respondeu. Logo Raioko a puxou pelo braço, fazendo-a sentar-se ao lado dele e sorrir para os outros convidados. Da ponta oposta da mesa, ela podia sentir um par de olhos sobre si, e foi para aquele lugar que ela evitou olhar.
O jantar seguiu. Quase não falou, fingindo estar entretida com a comida e com o vinho, embora tivesse mais revirado o alimento do que ingerido.
Quando todos acabaram de comer, se levantaram e foram para um bar no mesmo ambiente, porém mais afastado. Ela foi arrastada atrás de Raioko e ao lado do subordinado dele. Era uma das poucas mulheres em meio a homens pré-bêbados o que a fazia ficar desconfortável.
Naruto e Sasuke haviam se retirado no fim do jantar, o loiro despedindo-se dela com outro abraço amável. Sabia que os dois provavelmente haviam ido para outro bar, querendo mais privacidade.
— Vou voltar para o hotel.
Comunicou algumas horas depois para Raioko. Ele não se opôs, provavelmente queria se livrar dela para falar coisas obcenas sem se preocupar. O subordinado dele, Yuzo levantou-se imediatamente e cambaleou ao lado dela pronto para acompanhá-la.
— Fique conosco, Yuzo. O hotel é a um quarteirão daqui, ela pode ir sozinha.
Parecia uma frase normal, mas ela sabia que havia algo a mais ali.
— As outras mulheres também irão se retirar, e elas podem ir juntas. Não podem?
Saíram em um grupo de cinco mulheres. Todas elas pareciam entediadas e cansadas demais para iniciarem qualquer conversa, então permaneceram em silêncio enquanto caminhavam.
— Aqueles porcos, todos bêbados... Por que não vamos nos divertir também?
Jiyn a esposa do chefe da Vila do Trovão disse recebendo acenos em concordância.
Havia algumas barraquinhas de festivais ainda abertas na praça e elas se dirigiram até lá.
Ficou em dúvida se deveria ou não segui-las, mas sabia que Raioko só voltaria para o quarto de madrugada, e, mesmo que alguém dissesse que havia visto-a, saberia que estava acompanhada de mulheres.
Andavam por entre as barraquinhas, olhando algumas quinquilharias, ela, sem nenhum interesse real. Apenas tentava se distrair e se cansar para poder dormir tão logo chegasse ao hotel.
Quando passava pela última barraca, próxima a uma casa, seu braço foi puxado.
Por reflexo ela tentou acertar seu agressor, mas tão logo estavam ali, já haviam se transportado para uma parte escura da vila. Tinha casas altas e bonitas, todas já com as luzes apagadas, e sem nenhum morador a vista.
Ela conhecia uma pessoa que podia se teleportar com tanta rapidez e precisão.
— Otokage.
Sua voz saiu sem emoção. Estava exausta e ela nem um pouco aberta para as perguntas e especulações dele.
— Preciso ir.
— Sei que está com medo, mas fique tranquila. Raioko ainda está no bar, ninguém nos viu sair, e nem vai nos ver aqui. Está segura.
Ela riu pelo nariz sem humor.
— Sakura, Naruto está desconfiado. Ele mandou sete cartas para você desde o último encontro que tiveram, e você não respondeu nenhuma, ele é lerdo, mas não idiota, percebeu que se estivesse tudo realmente bem, você teria respondido as cartas dele. Está desconfiado que as cartas nem ao menos foram entregues a você. Ele levantou isso em uma das reuniões essa tarde, e Raioko jurou que você tem liberdade para fazer o que bem entende, foi por isso que a deixou sair do restaurante sem o subordinado dele a seguindo.
— Eu as recebi, só não tive tempo de respondê-las.
Dessa vez, foi ele quem riu.
— Você ficaria sem dormir para poder escrever para um amigo. Ainda mais para Naruto.
— Eu ficaria. Agora sou uma mulher casada, tenho muitas coisas para fazer.
Ele pegou-a pelo pulso, fazendo com que seu corpo se virasse para ele, e ela escondeu uma careta de dor pelo toque em sua pele sensível.
— Pare de falar nesse maldito casamento. Admita que têm algo errado, admita que aquela vila não é o que parece ser. Sei que está com medo que eu e Naruto façamos algo imprudente, mas eu garanto que não faremos nada sem provas.
— Não há nada errado.
Ele continuava segurando seu pulso, e, tudo que ela queria era se livrar do aperto e se ver longe dele e do perigo daqueles olhos escuros.
— Pare de mentir. Sabemos que há algo errado. Não sei como ele está te chantageando... Mas fale para nós, se não quer falar para mim, tudo bem, sei que está furiosa comigo, mas fale para Naruto, adiante nosso trabalho nos guiando em nossas investigações.
— Vocês não tem que investigar nada.
Ela tentou se livrar do toque dele, mas seu pulso latejou de dor pela tentativa. Conseguiu segurar a expressão de dor devido aos anos de treinamento ninja, mas sabia que se o esforçasse mais o pulso acabaria quebrando.
— Deixe-me ir.
— Desde quando você pede algo Sakura? Desde quando precisa que eu lhe solte? ‘Me conte o que ele fez com você... A observei com o sharingan e não notei nada errado com seu chakra, mas sei que você está sem força, percebi qu—
— Chega. Você não percebeu nada. Não sabe nada sobre mim, nem sobre a minha vida, nem sobre o meu casamento, nem sobre a vila que estou morando. Você não pode aparecer anos depois, anos esses em que passei sem nenhuma notícia, sem nenhuma carta, sem nenhuma satisfação... Não pode exigir nada de mim, não pode investigar nada da minha vida. Você teve a chance de me ajudar, mas preferiu me dar as costas. Agora me solte e me deixe voltar para o hotel.
— Quantas vezes vou ter que explicar? ‘Se eu soubesse eu—
Farta daquela conversa, tentando não explodir nem chorar na frente dele, ela puxou o pulso do aperto dele com raiva e força. Ele segurava seu pulso levemente, mas com o seu próprio puxão ela sentiu o osso se deslocar, e, dessa vez, não conseguiu esconder a dor passando por sua face.
— Sakura, o que diabos?
Ajeitou a postura, segurando o pulso com a outra mão, deu as costas para ele, e começou a andar sem rumo certo.
— Sakura!
Ele correu até ela, tocou seu ombro, puxando-a para trás e colocando-a novamente de frente para ele. Antes que ela ao menos pudesse protestar, ele erguer sua manga frouxa até o ombro, deixando as marcas escuras à mostra.
— Sakura, que diabos significa isso?
Ele puxou as pulseiras para cima. Uma delas arrebentou, espalhando dezenas de bolinhas brancas pelo chão. Mas ele pareceu não perceber, estava concentrado demais olhando para o pulso claramente deslocado e para a pele machucada que o revestia.
— Eu caí mais cedo no banho, coloquei a mão na frente para não bater a cabeça e acabei deslocando o pulso.
— Não me faça por ridículo. Conheço você há no mínimo vinte anos, e você pode ser qualquer coisa, menos desastrada. E essas marcas nos braços? Também foram do tombo?
Furiosa ela se livrou do olhar dele, puxando a manga para baixo e cobrindo as marcas.
— Você está o deixando bater em você Sakura? Por que diabos não...
Ele continuou falando, mas ela se desligou da voz. Queria ter o poder dele, se teletransportar para o hotel e dormir dias seguidos. Queria ficar longe daqueles olhos acusadores, daquela pena que ele sentia e que a enjoava.
Sasuke pareceu perceber que ela não estava ouvindo nem ao menos uma palavra do que ele dizia e tocou o ombro dela com suavidade.
— Eu juro que você está segura agora. Conte. Ninguém saberá. Eu e Naruto a ajudaremos. Não vamos fazer nada precipitado. Uma palavra sua, e eu reviro o mundo shinobi até descobrir o que está errado naquela vila e denuncio Raioko.
Ela limpou as lágrimas, envergonhada, tentando parar de chorar.
— Sakura.
Ele chamou, tocando seu rosto suavemente. Com o dedão ele tirou o que restava de água no seu rosto.
— Confie em mim. Sei que está nervosa por tudo que aconteceu e eu te peço desculpas. ‘Se eu soubesse que algo dessa proporção aconteceria, teria te atendido na hora. Sei que errei, eu errei mais vezes do que você é capaz de me perdoar, mas saiba que eu realmente sinto muito. Confie em mim e Naruto. Mesmo que não possa dizer o que está errado, pelo menos nos dê uma pista. Uma palavra Sakura. Basta dizer que não é feliz nesse casamento, dizer que ele tem te agredido, que há algo errado naquela vila e nessas exportações tão baratas...
Dividida, com o pulso doendo e o coração acelerado ela não sabia o que fazer. Devia continuar vivendo naquele inferno e negar ajuda? Ou deveria ser verdadeira com ele e deixar que os dois kages do Som e da Folha a ajudassem?
Sabia que era um risco muito grande a correr. ‘Se Raioko descobrisse, destruiria não só a ela, mas também a Konoha. Entretanto, ela já não estava destruída?
— Não vamos fazer nada precipitado. Nada sem provas. Nada sem uma denúncia formal ao conselho de kages.
Ele pareceu ler seus pensamentos. Mas permaneceu em silêncio durante alguns minutos.
— Raioko em breve irá para o hotel. Preciso te levar de volta.
Não perguntou como ele sabia de algo como aquilo.
— Sakura, antes de irmos, vou perguntar mais uma vez. Tem algo de errado naquela vila?
— Sim.
Queria falar tudo que descobrira, mas não podia. ‘Se eles descobrissem tudo de uma vez, amanhã mesmo iriam para o conselho dos kages, e Raioko saberia que ela contara tudo. Sem chakra ela não teria como se defender.
Tinha que voltar para Amegakure, arrumar algum modo de se livrar daquela supressão enquanto eles investigassem, para que, quando ele realmente fosse denunciado ela tivesse um modo de se proteger da sua ira.
Sasuke não disse mais nada. Apenas levantou o rosto dela, fazendo-a encarar os olhos pretos e tocou seus lábios com os dele. Foi um beijo mais calmo do que o daquela manhã. Os lábios dele acariciaram os seus, a língua dele encontrou a sua e ela gemeu quando um sentimento a abateu novamente.
Uma onda do mar a empurrando para frente e depois a puxando para as profundezas do oceano.
O maldito sentimento que ela havia enterrado há tantos anos.
Amor.
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