Entre Rosas e Correntes
10 Último capítulo
Notas iniciais
Fomos colocados na mesma cela, mas também tinham 3 homens lá dentro. Eles nem se importaram com a nossa presença ali.
Chegamos antes da hora do almoço ser anunciada. Eu me sentei em minha cama e procurei a saída de ar. A grade era de ferro e não era parafusada. Os homens comentavam com Nicky sobre a comida, pois ele havia perguntado como era, pra ganhar tempo pra mim. Eu tentava ignorar os seus comentários sobre o frango ter gosto de sapato e o purê parecer ser feito de colchões, mas eu estava faminto e aquelas coisas pareciam ser muito mais gostosas do que eu tinha passado os últimos dias comendo... Seja lá o que era aquilo. Mas eu sabia que não haveria tempo pra almoçar, então tentei ver como seria possível passar por aquela saída, que felizmente era grossa o suficiente pra mim e Nicky.
A grade parecia meio frouxa e havia uma poeira no chão, embaixo da saída de ar e uma pequena marca mais descascada na parede, reparei nos dedos dos homens que conversavam com Nicky, eles tinham as pontas um pouco machucadas e um deles tinha a mesma poeira nas mãos.
Me sentei na frente da saída e tentei olhar pra dentro. O cano ia pra cima, o que poderia ser um problema.
— Ora ora, menino curioso. — Um dos homens chegou por trás de mim. — Nunca te falaram que a curiosidade matou o gato?
— Não sou um animal. — Me levantei rapidamente, não queria causar suspeitas — Eu senti um cheiro estranho vindo daqui, só quis olhar.
— Vaza. -Ele disse curtamente.
Me afastei da saída e sentei ao lado de Nicky, que falava sobre como era a cadeia de menores. Os outros dois riam e falavam que era como um jardim de infância comparado a deles. Logo me enturmei, contando histórias infantis, tipo os rumores das celas assombradas de lá. Enquanto eu contava, os adultos riam e Nicky estudava a grade, disfarçadamente.
Chegou a hora do almoço e os três saíram apressadamente na frente.
— Rápido, temos exatamente 5 minutos de tolerância. — Nicky avisou, correndo pra encostar a porta.
Eu levantei o colchão mais próximo enquanto Nicky revirava os armários, era importante procurar o que quer que eles usavam pra tentar abrir a grade.
Na roupa de cama embaixo do primeiro colchão haviam cigarros, ignorei e apalpei o travesseiro, nada.
— Nada aqui. Quatro minutos. — Nicky disse, revirando os outros armários.
— Nada aqui também.
Decidi ir ver uma das camas que estavam vazias, apalpei o travesseiro primeiro.
— Bingo. -Informei e abri o corte que havia no travesseiro, peguei o objeto e corri pra saída de ar enquanto Nicky rapidamente me seguiu.
Era uma faca, eu posicionei embaixo da saída e tentei abrir, mas apenas levantou um pouco.
— Faz mais força, três minutos! — Nicky me apressou e segurou a minha mão que segurava a faca, o que me fez travar por um segundo.
Fizemos mais força ainda e a tampa se soltou, agora dava para reparar que já havia sido retirada outras vezes. Preferi nem tentar entender.
Eu consegui entrar e ficar em pé lá dentro, coloquei a faca na boca e comecei a escalar, segurando entre as placas de ferro do tubo de ar. Muita sorte a nossa o prédio ser antigo e ainda usar esse tipo de tubo.
Nicky entrou logo em seguida e encaixou a grade de volta. Havia bastante vento lá que dificultava nossa subida.
Logo, chegamos ao topo, haviam dois tubos, um pra direita e outro pra esquerda e um ventilador que ficava acima, sentei em um dos tubos e tive que ficar um pouco encurvado. Tirei a faca da boca, segurei ela e esperei Nicky me alcançar e se sentar no outro tubo. Ele ficou do mesmo jeito, estávamos com os rostos bem próximos um do outro.
— E agora? — Tive que falar um pouco alto por causa do som do ventilador.
— Temos que subir. — Ele olhou pra cima, observando.
— Deve ter uma fiação pra ligar isso. — Deduzi.
— Tem, mas fica do lado de fora. Vamos ter que quebrar. — Ele estendeu a mão, pedindo a faca.
— Quais são as chances de uma faca contra um ventilador super potente? Que ideia patética. — Mal-humorado, entreguei a faca.
— Você é tão lerdo. — Ele sorriu, pegou a faca e a enfiou entre a parede do tubo e a hélice do ventilador, que travou no mesmo momento. — Consegue ver alguma coisa ali?
Observei entre as hélices do ventilador. Apenas canos, nada de luz.
— Mais canos pra cima.
— Ótimo, só preciso segurar isso por mais tempo... Toque pra ver se está esquentando. — Eu tive vontade de dizer que o que estava esquentando era o clima.
Toquei e afirmei que o cano estava quente.
Ficamos esperando alguns segundos, olhando ansiosamente pro ventilador, até que ele fez um barulho alto e soltou fumaça.
— Queimou, vamos.
Nicky começou desparafusar o ventilador com a ponta da faca, se apressando o máximo que podia, afinal, ainda poderíamos ser pegos.
—Já fez isso alguma vez? — Estranhei, pois Nicky parecia saber exatamente o que fazer naquela situação.
— Uma, na verdade. Deu certo, mas acabaram me pegando uns dias depois.
— Eu nunca vou saber tudo sobre você, não vou? — Sorri.
— Acertou. — Ele sorriu pra mim também e retirou o ventilador, colocando dentro do cano que ele estava sentado. — As damas primeiro.
—Vá se fuder. — Levantei e comecei a escalar o tubo.
Estava bem escuro lá e era difícil achar o lugar ideal para segurar, eu já havia quase escorregado várias vezes, até eu olhei pra cima e havia uma curva indo pra direita e uma luz forte saindo de lá.
Segui escalando até chegar nessa curva, subi e olhei em frente. Era o telhado da prisão, não era tão alto e a prisão era bem no centro da cidade, o muro não ficava muito longe. Havia um guarda de costas pro muro, olhando a parte de fora. Observamos o guarda, Nicky cochichou que um pouco depois do almoço era hora de trocar o vigilante, que claro, enrolava um pouco.
Ficamos uns minutos olhando ansiosamente pro guarda, que estava bem distraído, olhando pro céu que nem um idiota. De tempos em tempos, ele olhava ansiosamente pro relógio. Eu e Nicky nos olhamos, ele estava um pouco vermelho da subida, eu também devia estar. Ele segurou minha mão e apontou pro guarda, que saiu de perto do muro, indo em direção a porta da prisão.
Assim que o guarda saiu do nosso campo de visão, descemos do telhado por uma escada que tinha ali. O muro tinha uma faixa de cimento no meio, o que facilitou muito a subida. Só peguei impulso, subi até a faixa e agarrei a borda do muro. Havia uma cerca elétrica, mas era fácil pular com aqueles sapatos que não conduziam eletricidade. Mas claro, alguma coisa tinha que dar errado.
O policial que iria ficar de vigia apareceu na grade da prisão, e gritou pra nós pararmos, abrindo rapidamente a grade. Nicky já estava na faixa de cimento, ele olhou pra trás com o susto e caiu do muro.
Ele gritou pra eu ir, mas eu não poderia deixa-lo lá. Então estendi minha mão e segurei na barra que segurava a cerca elétrica.
— Vem, rápido!
O policial abriu a grade no mesmo momento que Nicky se levantou, quase conseguiu agarrar o pé dele enquanto ele subia e agarrava minha mão.
Consegui puxar ele pra cima do muro, mas o policial pegou uma arma, então eu fiquei em pé e pulei do muro, era comum eu pular de muros para fugir dos garotos da escola, então eu já tinha uma técnica. Dobrar os joelhos antes de cair e cair com as pernas esticadas, então dobrar um pouco e começar a correr.
Mas, assim que eu ia começar a correr, Nicky caiu em cima de mim, me jogando de cara no chão. Ele se levantou rápido e estendeu a mão pra mim, se desculpando rapidamente.
O alarme começou a tocar, então eu consegui forças pra me levantar e segurar a mão dele, então corremos juntos, de mãos dadas.
Acabamos indo por um lugar aonde as ruas eram apertadas, então soltamos nossas mãos e Nicky correu na minha frente. Haviam algumas pessoas lá, mas assim que nos viam, abriam caminho com medo.
Correndo, reparei que eu estava sorrindo, então pensei em como aquilo estava sendo a sensação mais libertadora que eu já tive em minha vida. O muro da prisão ficava pra trás e Nicky estava na minha frente, correndo como se fosse um corredor africano.
Era como se meu passado estivesse sendo deixado pra trás naquele momento, como se eu estivesse me livrando daquelas correntes e as substituindo por rosas.
Corremos até um beco, aonde havia um homem de braços cruzados nos esperando. O beco fedia bastante, mas era bem escuro.
Nicky o cumprimentou educadamente, embora ofegante e o cara entregou dois papéis para ele e duas mochilas, também disse que tinham tudo o que ele tinha pedido. Nicky agradeceu e disse que ele ia se despedir de mim. O cara saiu do beco e disse que estava esperando.
Ficamos em silencio por alguns minutos, recuperando o fôlego.
— Ele é um antigo conhecido da cadeia. Eu fiz uma troca com ele. Passagens pra você em troca de um dos meus melhores venenos. — Nicky explicou, se encostando na parede do beco e me entregando uma das mochilas e os dois papéis
— Obrigado, Nicky. — Li os papéis, era uma passagem de ida e uma autorização judiciaria pra me deixar viajar sozinho, claro que era falsa, mas era muito bem feita.
— Acho que isso é um adeus. — Nicky falou, com um peso na voz, como se doesse dizer aquilo. Realmente doía.
Ficamos quietos por um minuto. Eu deveria estar me sentindo leve por estar fugindo, mas eu me sentia muito triste por não leva-lo comigo.
— Sim, um adeus. — Olhei pra Nicky, ele olhava pro chão, seu rosto estava deprimente. — Nosso acordo acaba aqui.
Estendi minha mão pra ele e ele apertou. Senti a ligação se quebrando, mas não soltei sua mão, como se ainda desse para emendar o acordo de novo.
— Se por acaso... As coisas derem certo pra você, não se esqueça de mim. — Ele olhou pra mim, ainda segurando minha mão.
— E você também. Não se esqueça de nós. — Nossos dedos por algum motivo se entrelaçaram.
Olhamos nos olhos um do outro, eu estava realmente disposto a não esquecer seus olhos jamais. Seus óculos eram grossos e o toda aquela correria havia bagunçando seu cabelo mais ainda.
Sem nem ao mesmo notar, estávamos nos aproximando. Eu sabia que se aquilo acontecesse me machucaria mais ainda, mas eu não tiver coragem de contrariar minha própria vontade então me deixei levar.
Seus lábios eram macios e senti que a sintonia daquele beijo não poderia ser repetida nunca mais.
Nos afastamos e soltamos nossas mãos. O acordo estava oficialmente quebrado naquele momento.
Abri a mochila, haviam algumas mudas de roupas lá, me troquei lá mesmo, o mais rápido que eu pude.
Nicky segurou meu rabo de cavalo e o cortou com a faca que ele estava segurando, sem me avisar.
Me virei surpreso, vendo ele segurar meu cabelo. Ele pegou a minha franja e a cortou também. Pediu desculpas e disse que era pro meu próprio bem.
Eu fiquei apenas encarando ele, sem acreditar que ele tinha feito aquilo.
Ele se virou e também trocou as roupas, enquanto eu ainda estava paralisado, sem acreditar.
O homem entrou no beco, me pegou no colo e arrastou até o carro, eu ainda estava paralisado. Nicky entrou na porta da frente, calado. Ele me levou até o aeroporto, enquanto eu ainda me recuperava do choque. Eu acabei entendendo que seria mais difícil me reconhecer daquele jeito, então era até perdoável. Mas mesmo assim, quando eu passei a mão pelo meu novo cabelo, não pude evitar de lacrimejar um pouco.
Ele me deixou no estacionamento do aeroporto e eu disse pela ultima vez adeus para Nicky e sai do carro.
Enquanto caminhava pra dentro do aeroporto, pensava em o que eu iria fazer em outro país. Como eu iria viver, como eu conseguiria sobreviver, como eu iria recomeçar... Era difícil recomeçar, principalmente, recomeçar sem o Nicky.
Olhei pra trás, o carro estava saindo naquele momento, Nicky olhou pra mim uma ultima vez e com toda a clareza, falou a frase que faltava na nossa história.
— Eu te amo, menino patético.
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