Entre Revoluções
12 Os refugiados
Jon tinha em sua bolsa poucas provisões, o suficiente para ficar alimentado por pelo menos quatro dias, cinco se ele fosse econômico. Era uma ideia louca, um plano arriscado, e dentro de si, no profundo da sua alma, sabia que não seria fácil contar com a bondade alheia. O ser humano raramente era tão bom tão naturalmente assim. Mas antes de tudo, Jon tinha se tornado um soldado e, com essa função, sabia do tamanho da sua responsabilidade e dever para com seu país, sua causa e aquilo que seus superiores haviam solicitado dele. Assim, ali estava ele, entre os refugiados, procurando um lugar entre eles.
Muitos o observavam com aquele olhar que ele conhecia tão bem, o novato, o forasteiro que acabara de chegar, assim como seus companheiros de tropa o olharam pela primeira vez. No entanto, aos poucos, conseguiu contar com a bondade alheia. Uma moça tímida, porém um tanto corajosa, já que tinha iniciado uma conversa com ele, o indicou onde poderia ficar.
—E a quem eu agradeço pela ajuda? — questionou ele.
—Ao Mance Ryder, ele tem nos organizado e feito um estoque justo de comida, deve se apresentar a ele, senhor — instruiu a moça.
—Eu estava me referindo a você — Jon deu um sorriso compreensivo — como se chama?
—Gilly Craster... — murmurou ela, e o Stark teve a certeza que realmente ela era bondosa e gentil.
—Obrigado — Jon agradeceu e então decidiu procurar o tão respeitado Ryder.
Não precisou ir muito longe, bastava observar toda a movimentação dos refugiados que iam e vinham com mantimentos, e assim logo ele encontrou o homem que procurava.
O homem alto, com uma aparência ligeiramente áspera e severa, mas tinha olhos ternos, genuinamente bondosos, preocupado com aquele povo em necessidade. No entanto, via que no seu olhar também havia astúcia, aquele não era um homem fácil de se enganar. Por isso Jon escolheu ser o mais verdadeiro possível. Reafirmou a si mesmo que por estar ali, ao frio e ao relento, também era alguém refugiado. Com certeza do que faria, dirigiu-se àquele que sem dúvida era Mance Ryder.
—Com licença senhor — ele disse com todo respeito e reverência.
—É novo por aqui — foi a primeira resposta de Mance — de onde está vindo, meu jovem?
—Porto Branco — respondeu Jon prontamente — mas morava em Correrio, sou Jon, fugi até o Norte em busca de abrigo, mas não encontrei em Porto Branco, por mais longe e árdua que foi a viagem, eu soube do seu acampamento, por alguns que o deixaram, tentando voltar pra casa, e por isso eu decidi tentar a sorte aqui.
—Parece bem para alguém que fez uma viagem árdua — Mance ainda estava desconfiado.
—Contei com a bondade dos campistas que encontrei — se justificou Jon — eles me deram comida, mas durará por pouco tempo. Também preciso de abrigo, se não abusar da sua boa vontade.
—Está bem, Jon, fique conosco — Ryder decidiu — só espero que saiba retribuir toda nossa gentileza.
—És muito bom, meu senhor, obrigado — Jon fez uma reverência, pegando um pouco de pão e carne e procurando um lugar para se sentar.
No meio dos refugiados, Jon foi designado por Mance Ryder a se juntar a um grupo de busca. Esses homens iam até as regiões mais extremas em que poderiam achar comida e negociavam o que podia para trazer não só alimento, mas roupas e cobertores.
Durante seu trabalho, Jon observava o povo que estava a sua volta. Tentava ouvir despercebido notícias dos exércitos do Norte e do Sul entre refugiados que chegavam, entre eles, Jon detectava onde estava sua lealdade, se seria possível que o exército de seu pai protegesse aquele povo, dependendo de quem apoiassem.
No fundo, Jon sabia, seu pai defenderia qualquer inocente, independente de quem apoiassem, aquelas pessoas não tinham culpa de nada, eram apenas vítimas da guerra. E foi justamente por isso, por perceber que aquelas eram simplesmente pessoas simples que estavam sobrevivendo à guerra, que Jon se afeiçoou a eles, fazendo sempre o seu melhor para ajudá-los.
Nos seus raros momentos de descanso, que geralmente eram à noite, quando todos estavam dormindo, ele escrevia à penumbra da luz de uma vela os relatórios a seu pai. Jon deixava claro qual era sua opinião sobre os refugiados do Extremo Norte, eram pessoas que precisavam de ajuda, e Jon contou que era isso que faria enquanto pudesse.
Ainda no meio dos refugiados, Mance lhe designou ir até Porto Branco, mas não sozinho, e sim na companhia de uma das moças de confiança de Mance, Ygritte Giantsbane. Tanto ela como Jon desconfiavam um do outro na mesma intensidade.
—De onde veio mesmo, sr. Snow? — perguntou ela nos primeiros momentos de sua excursão.
—Winterfell — Jon não precisou mentir ao responder, o que o deixou contente — nasci e cresci lá, apenas a guerra me obrigou a sair.
—Hã... Sei... — Ygritte não se deu por convencida — e não pensou em se alistar? Eu me alistaria se fosse você.
—Imagino que sim srta. Giantsbane — Jon disse, já de mau humor.
—Não respondeu minha pergunta — retrucou ela.
—Meus irmãos mais jovens precisavam de mim com eles — foi outra meia verdade dele.
—E os deixou sozinhos pra vir até aqui, no meio do nada? — insistiu ela.
—Era minha última opção, esperava vir e voltar, mas seria ingratidão não retribuir a Mance de alguma forma — disse Jon tão firmemente, que deixou Ygritte espantada e a moça se deu por satisfeita.
Chegando ao seu destino final, ela ajudou Jon a preparar a carroça que levaria mantimentos. Ele ficou espantado por ver que Ygritte não tinha receio do peso dos sacos, trabalhando duro e firme, focada, sem se importar com o cansaço. Sua atitude o lembrou de Arya, com certeza a srta. Giantsbane era uma moça admirável, mas os pensamentos de Jon estavam ocupados com outras coisas.
Usando seu instinto de espião, sentiu que aquele era o momento de deixar os refugiados. Havia coletado informações suficientes, e além disso, sentia que as tropas necessitavam mais dele agora, e a desconfiança de todos estava aumentando. Sua decisão estava tomada.
—Ygritte, me escute, vou até o correio ver se recebi alguma carta do meu irmão, pra ter notícias de como minha família está — instruiu Jon — se eu não voltar, não se preocupe comigo, provavelmente é porque a situação na minha família se agravou e eles precisam de mim.
—Já entendi que não vai voltar — Ygritte despejou diretamente — não sei quem é você, mas eu prefiro que vá embora mesmo, antes que faça mal a um de nós. Mas... Pelo menos obrigada por ter pegado os mantimentos.
Não tinha argumentos possíveis para que Jon usasse contra as acusações de Ygritte, mas ele entendia a revolta da moça. Apenas assentiu para ela uma última vez e tomou seu rumo.
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