Na Torre T

— Ciborgue, você liga! – Mutano disse, adentrando a Torre.

— Por que sempre eu? – Reclamou o garoto-robô. – Ah, tá legal. Vai ser macarrão de novo?

— Com bastante molho! – Complementou o verde.

— Agora que vi... É hora do almoço. – Ciborgue olhou para o relógio e sentiu o estômago roncar.

— Eu vou treinar. – Robin disse. – Me chamem quando estiver pronto.

Todos olharam torto para ele.

— De novo? – Mutano coçou a cabeça. – Mas...

— Slade quase me derrotou dessa vez. Preciso melhorar a cada dia. – Falou o líder em tom sério e isso preocupava sempre os companheiros.

— Robin, você anda se esforçando muito. Vai ficar doente. – A empata disse.

— Não, eu dou conta. – Insistiu o garoto prodídio.

— Não quero que fique doente... – Murmurou Estelar, preocupada.

— Mas eu vou ficar bem! – Robin ergueu o tom de voz. – Não se preocupem!

Os outros arregalaram os olhos. Quando ele saiu, vários burburinhos correram soltos.

— Que isso... Se ele se esforçar demais, vai acabar desmaiando. – Cib disse.

— Ele sempre treina, sempre se esforça... – Mutano ia dizendo.

— Mas já aconteceu uma vez que ele se esforçou demais e aí... – Ravena lembrou, mas Estelar pediu para ela parar.

— Parem... – Pediu a alien. – Eu não quero que ele fique doente.

— Nenhum de nós quer. Mas já viu bicho mais teimoso que aquele passarinho? – Ciborgue ergueu uma sobrancelha.

— Verdade! Raramente ele volta atrás de alguma coisa. – Mutano concordou.

— Admirável, mas assustador. – Ravena disse, tirando o capuz.

Estelar ouvia tudo atentamente. Iria fazer de tudo para ele não ficar doente. Não apenas enquanto tivesse treinando.

— Eu vou fazer o possível para que ele não fique doente! – A alien disse aos amigos. — E se ficar, eu vou cuidar dele!

— Isso é muito legal de sua parte, Estelar... – Mutano sorriu.

— ...mas se saudável ele já é rabugento, imagina doente. – Ciborgue disse, segurando a risada.

— Cruzamento de pássaro com abelha! – Agora Mutano ria sem restrições e Ciborgue juntou-se a ele.

— O Robin pode ter um lado meio... sério. – Estelar disse. – Mas no fundo, ele é uma boa pessoa, eu sei.

— Você chegou agora e sabe mais do Robin do que nós? Sinistro. – Mutano arregalou os olhos.

— Se conhecessem ele de verdade, saberiam do que estou falando. – Ela abaixou a cabeça. – Tudo o que ele passou... Eu admiro o que ele se tornou pelo que ele passou.

— Não só admira como ama o cara. Só assim para aguentar... – Cib conteu a risada.

Mas Estelar não ficou vermelha nem nada. Ela sabia que era verdade.

— Não sejam tão duros com ele...

— Como é? É ELE que é duro com a gente! – Mutano disse, tocando um dedo no outro.

— Eu nunca vi o Robin ser tão amigável... – Ciborgue coçou a cabeça. – E vocês?

Mutano negou e Ravena fez o mesmo.

Estelar lembrou-se de quando o líder desabafou com ela, o quanto estava vulnerável e fofo, na hora do filme, quando bateu a cabeça na parede, e naquela hora... em que havia salvado Estelar.

Sim. Além de salvá-la, ele a beijou. Calmamente, puramente, apaixonadamente (por parte dela). Tinha sido tão romântico que Estelar chegou a conclusão que uma pessoa “sem coração” não poderia fazer.

— Robin é bom sim. – Insistiu a garota. – Tem alguns momentos que ele é... como nós.

Ciborgue encolheu os braços.

— É, no fundo acho que sim. – Falou Cib, pegando o telefone e discando.

Mutano olhou para Ravena.

— Então, Ravena? Que tal uma partida de xadrez? – O metamorfo perguntou, mexendo as sobrancelhas.

— Quer mesmo perder de novo? – Ravena sorriu de canto.

— Aí, eu melhorei muito!

— Quero ver!

Ciborgue tocou o ombro de Estelar.

— Muito admirável sua devoção pelo Robin. Nenhum de nós é assim. Você enxerga o mundo com o coração, bem o contrário dele. Sempre é doce e carinhosa. Tenho certeza que isso vai um dia derreter o coração dele. E não vai demorar muito.

Ela sorriu, mesmo corada.

— É sim. Obrigada, amigo Ciborgue.

O garoto-robô sorriu também.

— Bom, gente. Já liguei. Vou arrumar a mesa. – Cib se espreguiçou e foi pegar os pratos.

— Eu ajudo! – Estelar sorriu, pegando os talheres (ainda era estranho para ela).

— Cara... Eu queria comer com os palitinhos. – Bufou Mutano.

— Você nunca consegue. – Riu o garoto-robô.

O metamorfo fez bico, enquanto Ravena arrumava as peças do xadrez com seu poder.

Quando acabou, Estelar queria chamar Robin.

— Por favor, eu posso ir ver o...

— Claro. – Sorriu Ciborgue. – Ele precisa mesmo te ver para esfriar a cabeça.

O rosto dela se iluminou.

— Se ele me ver, a cabeça dele vai se encher de gelo? – Ela ainda não entendia alguns dizeres terráqueos.

Ciborgue não segurou o riso.

— É, praticamente isso.

Estelar foi flutuando até seu líder, feliz da vida. Mas ele não estava lá fora. Procurou por toda parte até que achou... Ele estava na academia, chutando os sacos de pancada.

— Robin, te achei!

Ele não falou nada e continuou distribuindo pancadas, para amenizar o ódio acumulado. Mas quando Estelar e sua aura positiva e bondosa chegaram, era como se ele estivesse renovado. Mas continuou socando sem olhar para ela.

— Tudo bem? – Ela olhou para ele, que estava com uma cara enfezada, por baixo da máscara.

— Claro, por que não estaria? – Ele nem virou o rosto para falar com ela cara a cara. Queria só ficar sozinho. Ele até não se importava de ficar sozinho agora.

— O amigo Ciborgue disse que se você me visse, sua cabeça se encheria de gelos. – A inocente alienígena acabou dizendo.

Robin parou de bater e o saco de pancadas veio para cima dele, derrubando-o.

— Ai... – Ele passou a mão na cabeça. – O que o Ciborgue tem na cabeça? Além de chips, óleo e metal?

— Eu não sei... – Estelar disse, ajudando o líder a se levantar (que não achou muita graça).

— Estelar, para nós “esfriar a cabeça” é se acalmar. Nada a ver com gelos de verdade. – Ele nem teve vontade de rir daquilo. Não queria se deixar levar por ela.

— Desculpe... Eu sou mesmo uma estranha deslocada... – Suspirou a inocente alien.

— Não é sua culpa. – Robin se sentou aonde Ciborgue levantava pesos. Estava suado e ofegante, mas não queria parar.

— Acho que é bom parar um pouco agora para... Hã... “Esfriar a cabeça”.

— Não posso. Slade vai voltar. Eu tenho que estar pronto.

— Mas descansar um pouco não vai te tornar mais fraco. Você já é o melhor lutador que eu conheço. – Ela tentou segurar ele no lugar, para não sair socando tudo.

— Você só diz isso porque... – Ele parou e pensou “porque gosta de mim.” – sou o melhor líder.

“Pensando bem, ninguém nunca gosto muito de mim...”

— É... Mas podia ficar “frio” de vez em quando.

— Frio? É o que todo mundo diz que sou.

Estelar não entendeu na hora mas depois se tocou.

— Não, você é legal...

— Eu quero ficar sozinho agora, Estelar.

— Mas...

— Por favor. Enquanto ainda estou de bom humor.

Se isso era bom humor o que era mal humor?

— Se você diz... Me chame se precisar. – Ela suspirou.

— Eu dou conta sozinho.

Ela fechou a porta e suspirou. Ele era mesmo difícil e teimoso. Mas ela não desistiria assim de amolecer o “suposto” coração dele.

Ouviu um barulho estranho vindo da academia e não era Robin socando ou derrubando nada. Ela abriu a porta e viu ele caído no chão. O que ela temia aconteceu. Robin havia se sobrecarregado demais e desmaiou.

— ROBIN! – Ela foi até ele e o segurou nos braços, tentando não derramar lágrimas.

Foi voando até os outros para ver o que podia fazer.