Entre Pixels e Perfumes
11 O Fim da Linha
Notas iniciais
Na manhã seguinte, Jessy não sentiu vontade de passar maquiagem ou escolher a melhor roupa. Ela vestiu algo simples, prendeu o cabelo em um rabo de cavalo firme e caminhou para a Delavga Group com um único objetivo. Ela não era mais a "Morena" vulnerável; era uma profissional exausta de ser maltratada.
Ela entrou na sala da presidência sem pedir licença. Marcos estava sentado atrás da mesa, os olhos fixos em um ponto qualquer da parede, a aparência de quem não dormia há dias. O bloqueio que sofrera de sua "Morena" virtual na noite anterior o havia deixado em um estado de choque catatônico.
— Sr. Delavga — Jessy disse, a voz gélida.
Ele despertou do transe e a olhou com sua habitual máscara de frieza, embora seus olhos estivessem opacos.
— Srta. Walle. Espero que tenha trazido as revisões finais do projeto.
— Eu trouxe algo melhor. — Ela colocou o envelope branco sobre a mesa. — Minha demissão. Inadiável e imediata.
Marcos franziu o cenho, o choque profissional sobrepondo-se à sua dor pessoal por um momento.
— Demissão? Você ficou louca? Estamos na semana de lançamento. Você não pode simplesmente sair.
— Eu posso e eu vou — Jessy respondeu, sentindo um prazer amargo em ver a expressão de controle dele desmoronar. — Cansei de trabalhar para um homem que não tem um pingo de consideração por quem carrega o sucesso dele nas costas.
— Eu exijo excelência, Srta. Walle. Se você não aguenta a pressão...
— Não é pressão, Marcos. É falta de caráter! — ela disparou, perdendo a paciência. — Você é arrogante, egocêntrico e trata as pessoas como se fossem descartáveis. Eu dediquei três anos da minha vida a esta empresa, suportando suas grosserias e seu desprezo constante. Eu cansei de ser o seu saco de pancadas intelectual. Fique com seu império.
Marcos levantou-se, a voz subindo de tom, mas ainda carregada de uma confusão que ele não sabia explicar.
— Eu não aceito. Você é a alma visual desta empresa. Diga o seu preço. Eu dobro seu salário, dou a você uma sala maior...
— Não existe dinheiro no mundo que compre a minha paz — Jessy disse, caminhando até a porta. — E um conselho: aprenda a ser gente antes de querer ser chefe. Passar bem, Sr. Delavga.
Ela saiu antes que ele pudesse responder, deixando-o parado, atônito, no meio da sala luxuosa. Em vinte minutos, Jessy recolheu o que era seu em uma caixa e saiu da empresa sob os olhares de espanto da equipe.
Acolhimento e Promessas
Ao chegar em casa, Jessy desabou. A adrenalina da discussão passou, deixando apenas a dor do coração partido e o medo do futuro. Luccas, que estava preparando suas marmitas de dieta na cozinha, correu para a sala ao ouvir o choro da irmã.
— Ei, ei... o que houve? Aquele infeliz fez algo com você? — Luccas a envolveu em um abraço protetor, sentindo os soluços dela molharem sua camiseta.
Jessy contou tudo, desde a grosseria de Marcos até a decisão de largar tudo. Luccas ouviu em silêncio, apenas acariciando os cabelos da irmã com suas mãos imensas e calejadas.
— Shhh... calma. Você foi gigante hoje, Jessy — ele disse com firmeza. — Deixa que ele se afogue na própria arrogância. A partir de hoje, você não precisa se preocupar com contas, nem com prazos, nem com esse cara.
— Lu, eu não quero ser um fardo...
— Fardo? — Luccas riu, tentando aliviar o clima. — Eu sou o personal trainer mais caro dos jardins, maninha. Eu cobro uma fortuna para fazer madame suar. Eu te sustento o tempo que for preciso. Você vai descansar, vai curar esse coração e depois o mundo vai brigar por você. Ninguém encosta na minha irmã e sai ileso.
Ponto de Vista: Marcos Delavga
Marcos estava sentado no chão de sua sala, as costas encostadas na mesa de vidro. O envelope da demissão de Jessy estava jogado de um lado, e o seu celular, com o chat bloqueado da Morena, do outro.
Ele estava duplamente destruído e não fazia a menor ideia de que a causa era uma só.
Por que a Morena me deixou? O que eu fiz de errado no chat ontem à noite? — ele pensava, a cabeça latejando. — E agora a Walle... por que ela me odeia tanto? Eu só queria que ela fosse a melhor...
Ele sentia um abismo se abrindo sob seus pés. Marcos sempre orgulhou-se de ter o controle de tudo, mas agora, o seu anjo virtual havia sumido sem explicação e sua melhor aliada no mundo real havia saído gritando verdades que ele não queria ouvir. Ele se sentia o homem mais solitário do planeta, sem suspeitar que acabara de expulsar de sua vida, por duas vias diferentes, a única pessoa que realmente o conhecia.
Fale com o autor