Entre O Céu E O Inferno

2 Capítulo 2 O que o tempo esconde


Notas iniciais
Quero agradecer imensamente a todos que leram, as meninas que deixaram seus recadinhos e suas opniões, vocês não sabem o quanto me fizeram feliz:).
Mais um capitulo pra gente se deleitar com essa esória que só está começando...
Grande beijo docinhos!!!!O que o tempo esconde

O que o tempo esconde

Apenas lembro-me de olhar naqueles olhos tão lindos e assentir, sentia o calor daquela mãozinha tão delicada, meus dedos estavam entrelaçados aos dedos de Bella, era como uma bóia de salvação em meio aquele mar de dor e desespero.

Não sei precisar quanto tempo Carlisle demorou, para mim foram horas, mas acredito que tenha sido minutos, ele me recostou nos meus travesseiros e enfim pude dormir.

Não queria soltar da mão de Bella, mas senti o deslizar suave de seus dedos, tirando-os de minha mão.

Durante todo o tempo minha mãe acordava-me, ora para me alimentar, ora para me medicar, ora para ver se tinha febre novamente, ficamos nessa maratona por dias, meu quarto com as cortinas fechadas, o escuro era confortante, mas os pesadelos de guerra que tive durante todos os dias em que estava sedado, não.

Eu tinha sonhos monstruosos de momentos terríveis, via meus companheiros morrerem, muitas vezes voando seus pedaços pelo ar. Quantas crianças mutiladas socorri? Quanta gente passando fome? Mulheres sendo violentadas e mortas, eu não pertencia aquele mundo. Eu não me permitia ser assim.

Toda vez que acordava sozinho estava suando e com respiração irregular por esses pesadelos, perguntava-me se algum dia teria fim.

Escutei a porta abrir-se devagar, minha mãe colocou a cabeça devagar para dentro e a peguei espiando.

- Oi mãe...

- Não queria te acorda filho.

- Tudo bem, já estava acordado.

- Como se sente?

- Com dor.

- Seu pai disse que teria dor, ele precisou retirar uma boa parte de tecido pois seu ferimento estava necrosando, por isso, nos primeiros dias você ficou sedado.

- Não precisa me explicar nada mãe confio cegamente em papai, se ele fez isso, era o melhor a se fazer, não precisa ficar preocupada.

- Se eu pudesse filho, tiraria a sua dor e colocaria em mim.

- É só dar um beijinho que passa. — Falei fazendo graça, lembrando-me de quando era criança, e consegui arrancar um sorriso dos lábios de minha mãe, mesmo que pequeno foi sincero.

- As meninas já foram para escola e de lá iriam direto para o ballet, por isso acho que vou trazer o almoço aqui pra cima, assim não almoço sozinha, posso?

- Claro dona Esme, também não quero mais ficar sozinho, faça isso.

- Não quer tomar um banho? Eu preparo a banheira e você fica lá enquanto faço o almoço, depois te ajudo a se vestir.

- Adorei a idéia, eu topo.

Esme passou as mãos por meus cabelos que estavam um pouco mais compridos que o habitual, meu rosto sem barbear, me olhava com aqueles olhos de avelã que eu tanto senti falta.

- Quando seu pai nos deixava para ir para as suas missões eu sempre me senti morrer, mas eu tinha forças, porque tinha você. Você era meu porto seguro, quando olhava os mesmos olhos azuis, os mesmos cabelos loiros, que hoje ganharam uma cor bronze não sei por que, até os mesmos jeitos, meu Carlisle em miniatura que mesmo sem saber cuidava tão bem de mim. Só que para meu terror você e seu pai são muito mais parecidos que na aparência, vocês têm os mesmos sonhos, quando eu ti vi partir para sua primeira missão, eu não conseguia ver o lindo homem ir embora, eu via meu menininho, via meu porto seguro me dando adeus, eu queria correr e te trazer pra mim, te proteger com toda a força que eu pudesse, queria te guarda pra mim, para que você não tivesse que passar jamais pelo que está passando, mas seu pai disse que se eu fizesse isso, estaria jogando fora seus sonhos, e eu não tinha esse direito, sei que talvez para você seja muito emocional tudo o que te digo, mas no dia em que você ver seu filho embarcar para sua primeira missão, venha falar comigo, eu vou mandá-lo buscá-lo nem que seja no inferno.

- Eu te amo tanto.

- Não mais que eu te amo meu filho, vou preparar seu banho.

Esme beijou o alto de minha cabeça como fazia quando eu era criança e foi para o meu banheiro, deixou a banheira enchendo e voltou para ajudar a me despir, me ajudou entrar na banheira e logo me deixou sozinho.

Como havia me dito, logo ouvi entrar com bandejas e deixá-las sobre a mesinha de canto em meu quarto, adentrou o banheiro novamente e me ajudou a sair.

Nunca tive vergonha de minha nudez para minha mãe, mas não sei se devido às muitas marcas em meu corpo, sentia certo desconforto, ela parecia não notar, mas sem me olhar nos olhos começou:

- Seu pai também tem várias cicatrizes por causa da guerra, no começo ele também tentava esconde-las por vergonha, dizendo que não eram marcas das quais gostaria que eu visse, vocês não tem que se envergonharem por essas marcas, são os meus heróis.

Mamãe me disse parecendo ler meus pensamentos. — Se lhes faltassem algum pedaço, mesmo assim, seriam os heróis mais lindos do universo, porque são meus, agora deixa me ver como esta esse ferimento — ela olhou, fez os curativos como Carlisle havia ensinado e depois me ajudou a colocar uma camisa.

- Vem filho, se não daqui a pouco o almoço começa a esfriar.

O almoço correu tranqüilo, o silencio para mim sempre foi reconfortante, mamãe falava-me sobre as aulas de Alice e como ela estava empolgada para audição, foi quando algo me veio à cabeça, o que Bella estava fazendo em minha casa aquela noite?

- Mamãe, sei que parece meio estranho, mas o que Bella fazia em nossa casa na noite em que passei mal?

- Hum... É...

- Aconteceu algo? Ela estava aqui, não estava? Ou eu delirei com sua presença?

- Não filho, Bella estava em casa sim, é que...

- Há algo errado mãe? Porque até a hora que me retirei Isabella não estava aqui, a que horas ela chegou?

- Na verdade Edward, Carlisle que foi resgatar Bella.

- Resgatar, como assim, onde Isabella estava? Resgatar do que?

- Filho, não sei se seria certo para com Bella te falar sobre os problemas dela. Mas, como tenho certeza que teremos Bella morando conosco por algum tempo não vejo mal algum, não veja como uma conversa de disse me disse, por favor.

- Mamãe, a senhora seria a última pessoa a fazer fofoca, a conheço, e não direi nada a Isabella, não confia mais em mim?

- É por isso que vou te contar o que Isabella está fazendo aqui, porque confio e muito em você.

Esme se arrumou na cadeira da pequena mesa, fitou meus olhos decidindo por onde começaria, suspirou, senti certa relutância em como começar e logo ela começou.

- Você se recorda de Renée, mãe de Bella?

- Claro Renée era a professora de ballet de Alice quando ela começou, uma mulher maravilhosa.

- Lembra-se de Charlie, pai de Bella?

- Sargento Swan, sim, lembro-me que era um homem muito fechado, de poucas palavras, sempre muito sério, mas o que tem haver os pais de Bella com ela estar aqui?

- Tudo filho. Um ano após você ter partido para sua ultima missão, Renée descobriu que estava com uma doença muito grave, ela estava com leucemia, tentaram de tudo, desde os tratamentos mais caros que o dinheiro podia pagar a ervas medicinais, nada surtiu efeito, Renée, morreu oito meses depois da descoberta. Charlie não se conformava com a perda da mulher e no começo se trancou em seu quarto, não fala com ninguém, esqueceu de sua vida, e começou a beber, beber tanto que um dia em desespero, Bella chamou por seu pai para que lhe ajudasse.

- Charlie sempre fora um homem muito orgulhoso e sentiu-se ferido em seu âmago por outro homem o ver naquelas condições, a partir daí, passou a mal tratar Bella, dizia que todo o inferno que ele estava passando era culpa dela, dizia que se não fosse por causa dela, Renée estaria viva.

- Bella começou a não ir mais a escola, nem as aulas de ballet, nem a lugar algum, Alice estranhou e foi procurar à amiga, foi a primeira vez que precisamos internar Bella. Ela estava em estado catatônico, dizia coisas sem nexo e não parava de cantar uma canção de ninar.

-Seu pai fez todos os exames, aparentemente era somente stress por tudo que Bella vinha passando, depois de dois dias no hospital, Bella despertou, gritando, chorando, como se estivesse acordando de um pesadelo, dizendo que não queria mais voltar pra casa, que aquele monstro tentaria novamente.

- Tentar o que?

Interrompi minha mãe com os olhos arregalados já imaginando o que poderia ser, sentia um gosto de ferro derretido na língua, uma dor em meu peito que não sabia se iria suportar, mas precisava saber do fim dessa história.

- Desculpe mamãe, não quis interromper, mas por favor continue.

- Tudo bem filho, essa historia choca a todos nós. Pois bem, como eu vinha lhe dizendo, ele tentou... Estuprar Bella, mas não o fez. Charlie apareceu nos hospital depois de alguns dias dizendo-se arrependido, implorou pelo perdão de Isabella, disse que nunca mais encostaria um único dedo nela, disse que ele só a tinha, que pensasse, que não o abandonasse, implorou por seu regresso, Bella voltou para casa depois de muito conversarem.

- Charlie começou fazer tratamento contra as drogas e o álcool, se afastou da corporação, passou a falar mais com Carlisle, tornaram-se amigos e tentaram juntos encaminhar Isabella, dando a ela o melhor dele, mesmo ele nunca tendo sido um pai carinhoso.

- Alguns meses depois, quase um ano para ser mais exata, Bella ao chegar do colégio ouviu sons estranhos pela casa e foi ver o que era, encontrou o pai tendo relações sexuais com uma mulher estranha, dizendo seu nome a mulher, quando Charlie percebeu que Bella havia visto, persegui Bella pela casa e quando conseguiu pega-la, ele a surrou, surrou tanto que Bella perdeu a consciência, desta vez quem a encontrou foi uma das empregadas, Charlie havia desaparecido, ninguém sabia de seu paradeiro.

- Quando Bella deu entrada no hospital pela segunda vez, seu pai achava que Bella não resistiria, que as contusões tinham sido profundas, que se Bella voltasse seria um verdadeiro milagre. Quando Bella saiu do hospital veio para nossa casa morou conosco por alguns meses e logo a policia veio atrás dela, dizendo que haviam encontrado Charlie no meio da rua todo ferido que ninguém sabia quem era até que um médico o reconheceu, Charlie voltou para casa e Bella cuidava do pai e voltava para dormir aqui, Bella voltou a morar com o pai quando esse retornou as reuniões do AA.

Eu não conseguia imaginar aquele corpo tão frágil machucado, me causava náuseas, como um pai, pai não, monstro pode ter coragem de ferir a própria filha, mas eu precisava saber o que Bella fazia aqui.

- Mamãe, não estou entendo aonde a senhora quer chegar com toda essa historia, e qual foi o motivo de Isabella estar aqui naquela noite?

- Charlie saiu com alguns amigos... Quando retornou para casa estava bêbado e drogado, ele surrou Isabella, provavelmente você não viu as marcas em seu rosto, devido a sua dor, mas ele tentou violentá-la novamente naquela noite, Bella conseguiu se trancar no escritório e ligar aqui pra casa, seu pai não pensou duas vezes em correr ao seu auxilio, amamos Bella como se ela fosse uma filha, devemos isso a Renée pelo amor que ela deu a Alice, não poderíamos ficar de braços cruzados.

- Quando Carlisle chegou lá, a casa estava toda revirada, não havia nada inteiro e Charlie tentava por abaixo a porta do escritório onde Bella estava trancada, quando Charlie viu Carlisle, sua fisionomia mudou, segundo seu pai o rosto de Charlie se desconfigurou, transformando-se em um monstro, se não fosse pelos muitos anos de luta de seu pai, Charlie também o teria ferido.

Esme ficou em silencio, agora eu entendia o que Bella fazia em minha casa, ainda mais agora, senti uma vontade tão louca de te-la em meus braços, de protegê-la de qualquer tipo de mal, de mante-la a salvo, como uma criatura tão linda e tão delicada como Bella podia ter passado por tudo aquilo?

Como um homem pode chegar a tal ponto, sentia um ódio tão aterrador dentro de mim que tudo que eu queria era matar aquele imbecil, queria mostrar-lhe como se tratava uma mulher, desgraçado, sentia-me tão nervoso que senti minha face arder, Esme olhava-me com os olhos arregalados, não conseguia proferir nada. Senti um desejo súbito de ver Bella, de poder olhá-la e saber que estava tudo bem.

- Mãe, podemos ir ver as meninas dançando, por favor?

- Filho, você ainda não está em condições de sair, o que teve foi muito serio.

- Mamãe, por favor, eu preciso...

- Elas virão para casa após a aula de ballet, não precisa se preocupar.

- Prometi a Alice que a veria dançando também, por favor, se me sentir mal, voltamos, por favor?

- Irei ver com Carlisle, se ele der o aval então iremos.

Esme saiu do quarto por alguns instantes, minha cabeça fervilhava, não conseguia mais pensar em nada que não fosse Bella, eu não conseguia controlar, não conseguia entender o que era aquela dor, aquele medo estranho, era como se de repente dependesse do bem estar de Bella para me sentir bem. Levantei-me da cadeira, caminhei pelo quarto, comecei a trocar de roupas, se minha mãe não fosse comigo iria sozinho com ou sem autorização de Carlisle, sentia uma necessidade imensa de ver Bella.

Esme entrou pelo quarto já vestida, ajudou-me a por uma camisa, ficou me olhando, analisando.

- Fala logo dona Esme, o que tanto olha? Está faltando alguma coisa? Esqueci de por a calça?

- Não, não está faltando nada, você está lindo como sempre meu filho, mas tem algo a mais em seus olhos, algo que me pergunto o que será.

- Mamãe, acho melhor você parar de assistir novelas.

- Isso nada tem haver com novelas filho, tem haver com sexto sentido de mãe.

- Então me conta o que a senhora está sentindo.

- Que Bella vai ganhar um amor.

Perdi a fala, do que minha mãe estava falando, como assim, como Bella veio parar nessa conversa e como ganharia um amor, e quem seria, de onde saiu esse assunto?

- Desculpa mãe, mas acho que me perdi.

Esme assentiu delicadamente, passou a mão por meu rosto e sorrindo me disse:

- Então não se assuste quando se encontrar.

Continuei perdido, mas minha mãe me pegou pela mão e logo fomos encontrar as meninas.Esme foi me mostrando animada às novas lojas de decoração, falava sobre as novidades de Seattle, para mim, ver uma cidade inteira já era grande coisa, observava os parques, com as crianças correndo com suas roupas coloridas e perguntava-me porque todas as crianças no mundo não tinham direito de serem felizes como aquelas que estavam a minha frente.

O Studio de ballet não ficava muito longe de nossa casa alguns minutos de carro.

Continuava do mesmo jeito que me lembrava, com sua fachada branca e leves sombras de bailarinas dançando pintadas nas paredes, sempre muito sutil e de bom gosto, na recepção uma moça usava um uniforme simples, mas também de muito bom gosto, sorria simpática ao nos ver, as salas como sempre muito bem iluminadas e em todas haviam vários tipos de danças desde as clássicas as contemporâneas, Esme pelo jeito era figura conhecida por aqueles corredores, pois todos vinham cumprimentá-la, fomos seguindo até o fim do corredor quando chegamos a uma porta dupla de madeira, Esme a abriu com cuidado e lá estavam, Alice executava uma pirueta perfeita enquanto Bella estava fazendo uma ponta de dar inveja a qualquer ser mortal, não conseguia imaginar como um ser tão delicado como ela, poderia estar passando por todo aquele pesadelo.

- Edward, mamãe. Alice veio correndo nos abraçar e dando seus famosos pulinhos.

- Edward quis te ver dançando e seu pai achou a idéia dele sair um pouco de casa fabulosa, então viemos.

- Olha que você nem precisou usar um colant roxo de bolinhas laranja.

Disse recordando-me de suas palavras de outro dia.

- Que surpresa maravilhosa, não poderia me dar maior alegria do que te ver fora daquela cama e já na rua.

- Menos pigmeu, só porque eu dormi um pouco a mais fica fazendo show.

Antes mesmo de Alice responder a provocação ouço uma voz há muito tempo conhecida.

- Edward!!!

Era Tânia, que vinha a meu encontro e antes que qualquer um tivesse qualquer reação à louca se jogou em meus braços, me fazendo urrar de dor, caímos no chão com o impacto dos corpos e meus pontos se romperam, fiquei estático por alguns momentos até que a dor diminuísse, não conseguia respirar, minha vontade era de esmurrá-la.

Alice pegou Tânia pelos cabelos e começou a gritar a plenos pulmões, daria pra ouvir os berros de Alice no outro quarteirão quem dirá nas outras salas.

- VOCÊ É DEMENTE, SOFRE DE ALGUM DESTURBIO OU ALGO DO GENERO?

- Eu só quis, cumprimentá-lo, estava com saudade, não pensei que pudesse machucá-lo.

- ESSE É O SEU PROBLEMA AMEBA, VOCÊ NÃO PENSA, NÃO PENSA EM NADA, A AGUA OXIGENADA QUE VOCÊ USA NESSE SEU CABELO CEBOSO DEVE TER AFETADO ESSE PROTOSUARIO QUE VOCÊ CHAMA DE CELEBRO.

- Alice eu não sabia que o Edward estava machucado.

- NÃO SUA ANTA, ELE DEIXOU UMA MISSÃO NO MEIO PARA VIM ME VER DANÇAR, ELE CANSOU DE TOMAR TIROS E RESOLVEU DESCANSAR

Tânia me olhava com o olhar aflito como se pedisse desculpas, sem reação.

- TÂNIA SAI DE CIMA DO MEU IRMÃO AGORA!!!!!

Alice arrancou Tânia de cima de mim debaixo de palavras de baixo calão, deixando não somente minha mãe, mas como também todo corpo de dança horrorizados, minha irmã que sempre foi tão doce, tinha virado uma verdadeira leoa.

Enquanto via atônito minha irmã soltar o bichos em Tânia na minha visão periférica percebi que alguém se aproximava, tocou meu ombro e quando virei o rosto estava lá, aqueles lindos olhos verdes, sua face branca, olhando-me novamente sem piedade, parecia que seus olhos demonstravam preocupação.

- Você consegue levantar? Posso te ajudar?

- Cl-claro.

- Deve estar sentindo muita dor, segure-se em mim, vem eu te ajudo até a cadeira.

- Sou pesado.

- Não vou te levar até em casa nos braços, vou te levar até a cadeira.

- Ok. Tudo bem. Ainda por cima posso ser pisoteado por uma delas, com suas sapatilhas que com certeza faria um estrago maior.

Bella sorriu, com meu comentário e me ajudo até uma cadeira que estava próximo a janela, logo que me sentou foi buscar sua toalha, tirou minha camisa com a ajuda de uma tesoura e pressionou a toalha em meu ferimento, quando a olhei estava mais branca do que já era e pude perceber sua dificuldade em respirar.

- Bella, está tudo bem?

- Sangue, eu...

- Deixe que eu faço isso.

- Não. Eu tenho que aprender a lidar com meus medos, eu faço.

- Alice! — Bella chamou. — Solte os cabelos de Tânia e venha ajudar seu irmão, ela já entendeu o recado para se manter longe dele.

- Esme ligue para Carlisle no hospital e diga que estamos levando Edward.

- E o resto de vocês voltem a dançar.

- Sim senhora. Responderam mamãe e Alice batendo continência para Bella, não consegui segurar o riso daquela visão, como algo tão delicado poderia ser tão mandão.

- E você tire esse sorriso bobo da cara, é eu sei, sou mandona mesmo.

- Sim senhora. Repeti, mas como um suspiro e sem bater a continência, Bella sorriu com minha atitude.

Quando chegamos ao hospital Carlisle já estava aposto, quando me viu chegando sendo segurado por minha mãe e uma Bella que não deixou de fazer compressão em meu ferimento nem por um momento começou a gargalhar.

- Apanhando de bailarinas Edward, deixe seu pelotão saber disso.

- Faz piada General, deixa seus ex companheiros descobrir que quem manda na sua casa é uma baixinha invocada que atende pelo nome de Esme.

- Vamos deixar as piadas de lado, Edward está sangrando. Disse Bella, pelo jeito ainda não tinha perdido o espírito mandão.

- E você daqui a pouco desmaia por causa do sangue, certo Bella?

Meu pai também fez piada com seu sufoco

- Tio, por favor, Edward deve estar com dor.

- Com sua mão aí, não sinto nada.

O que eu tinha acabado de dizer?

- O amor não é lindo? Ouvi uma Alice toda sonhadora suspirando e uma Bella toda constrangida corando até o ultimo fio de cabelo.

- Se quer se declarar à moça Edward, não precisava ter se ferido, bastava falar, Bella é uma boa ouvinte.

Vi o rubor de Bella subir para uma tonalidade a mais, ela iria explodir a qualquer momento, seus olhos tinha lágrimas e não consegui entender o motivo.

- Vamos deixar as piadas para a hora do jantar, deixe-me ver seu ferimento filho.

Bella tirou as mãos de minhas costas e foi se afastando lentamente, meu corpo sentiu na hora a falta de seu toque, porque a dor foi imensa, como se eu tivesse acabado de levar o tiro do AR-15, cheguei a me curvar diante da dor, era como se meu corpo estivesse anestesiado e de repente o efeito do mesmo sumisse.

Todos ao verem minha reação à dor correram em meu auxilio, inclusive Bella, que ao me tocar fazia que a dor fosse embora, o que era aquilo? Mágica? Poder? Que tipo de anestésico natural era aquele? Eu não conseguia distinguir.

- Se soubesse que você tem o dom de tirar a dor, te levaria comigo na mochila.

Falei fitando seus olhos verdes, Bella corou violentamente e tentou tirar sua mão de meu peito, mas como da primeira vez a dor foi como um tiro.

- Não — segurei sua mão onde estava. — Não se mova, por favor, deixe sua mão aqui -disse pressionando mais a mão de Bella a meu peito. — A compressão faz com que doa menos, por favor.

— Filho, precisamos ver se não ficou nenhum fragmento de metal da bala em seu peito, não é normal essa infecção e a dor pela qual vem passando.

- Eu estou bem Carlisle.

- Pra você eu sou pai.

- Eu sei, é que não posso perder a oportunidade de te irritar.

Bella tentou se afastar novamente, estava visivelmente envergonhada por ter sua mão em meu peito nu.

- Isabella Swan, se der mais um passo um juro que te amarrarei a mim até que Carlisle termine de fazer esse maldito curativo, por acaso acha que vou mordê-lá?

- N...nã...não.

Meu Deus como podia ficar cada vez mais linda e onde estava àquela tigresa que agora pouco estava dispensando ordem para todos?

- Onde está o seu lado humano para um moribundo?

Disse tentando arrancar alguma coisa dela, e consegui...

- Não vejo nenhum moribundo Edward, vejo um homem que está usando de minha boa vontade para me constranger, se a compressão, faz com que a dor diminua ficarei aqui, mas por favor, não diga mais nada.

Bella ficou irritada e mais linda, tive medo que sua mão saísse de meu peito e que aquela dor retornasse, senti Carlisle aplicar o anestésico e vi Bella assentir com a cabeça, tirou sua mão lentamente e já não sentia mais dor, mas mesmo assim doía, desejei não perder aquele toque, quis pedir para que não se afastasse, mas não me senti no direito, tentei testar e quando se afastou um passo mais...

- Aiaiaiaiai...

Bella correu e pôs sua mão novamente, ouvi Carlisle rindo e dizer a Bella:

- Ele está se aproveitando Bella, tenho certeza que pela dose de anestésico que lhe aplique, nem mesmo um cavalo sentiria dor, quem dirá ele.

Bella me olhou com um olhar de ira e se afastou saindo da sala.

- Poxa, o senhor acabou com minha diversão.

- Não quero que me leve a mal Edward, mas Bella não é para se divertir, para isso você tem Tânia.

- Tinha, não quero mais, é por causa daquela louca que estou aqui.

- Bella por mais que aparente força é um ser que necessita proteção e é o que iremos dar a ela está me ouvindo Capitão?

- Sim senhor, senhor.

- Olhe filho, sei que há algo a mais entre vocês, como dizem, rola algo, mas não sei se Bella quer algo mais em sua vida, ela precisa primeiro se sentir segura, se é que me entende.

- Esme me contou.

- Mamãe...

- Que?

- Mamãe, não Esme, se ela te pega a chamando pelo nome, será um soldado morto, e pela mãe, já pensou a vergonha, se salva de três tiros de AR-15, mas não da ira da mãe.

- Eu não sei o que fiz para merecer vocês, mas acho que antes mesmo de nascer alguém lá em cima já me amava muito.

- Esse alguém sabia que também te amaríamos muito filho. Bem o que Esme te contou?

- Sobre os pais de Bella, a morte de Renée e os ataques físicos que Bella sofreu de Charlie.

-Entrei com um recurso de guarda provisória, mas meu advogado me disse que por Charlie ainda estar vivo e não sermos parentes de sangue as coisas poderiam se complicar, mas que me lembre, Bella não tem ninguém mais.

- Está tentando me dizer que irá adotar uma jovem de dezessete anos, já não basta uma, quer adotar outra?

- Estou tentando te dizer que quero salvar a vida de uma jovem de dezessete anos, se Bella retornar a morar naquela casa, Charlie desta vez a matará.

Senti um ódio crescente dentro de mim, não conseguia imaginar o motivo de tanta violência.

- Porque Charlie começou a agredir Bella? Tem alguma explicação essa obsessão?

- Quando Charlie aceitou começar com o tratado pela primeira vez, disse-me que Bella era parecidíssima com Renée quando se conheceram, que quando está agredindo Bella, não é a filha que ele agride, mas a mulher que lhe abandonou, ele não conseguia assimilar que Renée tinha morrido, na segunda vez, disse que fez por vergonha, nunca desejou matar Bella, mas pra mim, ele quer culpar alguém pela morte de Renée e desconta em Bella.

- Pode se disser que é um tipo de psicopatia?

- Não sei dizer, nem tenho como provar, precisaria de mais exames, e no momento, não sabemos onde está Charlie, ninguém sabe dele desde a ultimo surto.

- Mas ele sempre volta não é? Implorando pelo perdão de Bella, não estou certo?

- Quando volta parece ser outra pessoa, tão tranqüilo que nem lembra o monstro que ataca a filha, mas desta vez, nem que ele se agarre aos pés de Bella, eu não a deixarei ir.

- Você a ama não é?

- Você nem pode imaginar o quanto. Quando você nos deixou para ir à guerra, a casa parecia ter morrido, podia se disser que não havia mais luz, um dia Bella voltou com Alice do colégio e depois de muitos meses ouvíamos risos vindo do quarto de Alice, sua mãe e eu fomos ver o que estava acontecendo e Bella estava mostrando um tipo de dança para sua irmã, Alice ria com as caras e bocas de Bella, quando perceberam que estavam sendo observadas em vez de pararem, arrastaram sua mãe e eu para dentro do quarto, foi o primeiro dia depois de sua partida que conseguimos sorrir, Bella foi como o sol para nós, afastando as nuvens escuras, quando Renée morreu, era a nossa vez de retribuir o carinho à dedicação.

-Bella nos surpreendeu novamente, quando ficamos sabendo de seu acidente, foi ela que fez sua mãe e irmã ficarem de pé, foi através de Bella que Alice teve forças para não deixar Esme cair, consegue ver a ponte?

- Bella é muito mais que uma simples amiga, filho, Bella é “nossa”, não me importo que Charlie tente brigar por ela na justiça, minha decisão está tomada, a partir de agora Isabella Swan também é Cullen.

- E ela sabe disso?

- Não, tenho medo de sua reação, ela sempre quer se mostrar forte, altruísta, mas para mim, de todos nós quem mais precisa de socorro é Bella.

- Ela exerce uma força estranha sobre mim, não sei explicar, parece que o ar fica leve, sei lá.

- Olhe filho, não quero me intrometer, mas sei o que está dizendo, ela te tira à dor não é?

- É...

- E você quer protegê-la custe o que custar?

- Sim, mas...

- Você quer nadar naquele mar verde não é?

- Pai, o senhor está me assustando.

- “Bella, me deixa nadar nos seus olhos só uma vez.” São palavras suas, não minhas.

- O que o senhor está dizendo?

- Enquanto você delirava, repetiu o nome de Bella varias vezes, dizia que queria tocá-la, que mesmo sendo errado, você a desejava, como se falasse com ela.

- Oh meu Deus, ela me ouviu?

- Não filho, só estava Esme e eu no quarto, nenhuma das meninas ouviram.

- Eu sou um soldado das forças armadas estadunidense, eu não posso me apaixonar por uma garota tão nova, vai contra minha ética, seria como querer Alice.

Estava exasperado, e como Bella se sentiria ao saber de meus sentimentos, me rejeitaria, ou aceitaria?

Estava inconformado, como eu, soldado do exército americano, poderia estar apaixonado pela amiguinha de minha irmã?

Não sabia o que fazer, teria que ir embora assim que meu ferimento estivesse melhor, pelo menos até completar minha missão, Bella tinha outros planos para sua vida queria dançar na Rússia.

Senti-me em desespero, tantas perguntas explodiram em minha cabeça de uma só vez, não conseguia ver respostas, o que aquela garotinha de cabelos castanhos havia feito comigo?

- Filho, tenha calma, tudo vai ficar bem, tudo vai entrar nos eixos, Bella não é Alice, pelo contrario ela tem mais juízo que você.

- Agora o senhor me ofendeu.

- Entrar numa luta corpo a corpo com o inimigo é ter muito juízo?

- Quem te contou?

- Eu ainda tenho minhas fontes Edward, eu sempre serei uma parte do exército filho, mesmo que eu tenha me desligado, o exército americano me deve muitos favores, inclusive me informar sobre você. O que te levou a cometer tal ato?

- Ele estava tentando molestar uma criança, eu perdi a razão, meus homens tentaram me segurar, mas quando vi, já havia desferido vários golpes contra sua cabeça, foi por isso que me transferiram para Bagdá.

- Estavam tentando te salvar.

- Acho que estavam tentando me usar, porque vários daqueles ataques foram arquitetados por mim, mas usavam o nome do General.

- Isso é muito comum, usa-se as idéias dos mais jovens para elevar os mais velhos, como se eles já não estivem altos o suficiente.

- Não me interessava saber de quem seria a honra do ataque, interessava-me tirar meus homens vivos desses ataques. Por todos esses anos eles foram minha família, foram eles que resgataram e foram resgatados, não nos abandonávamos, confiávamos, até perdermos Taylor Crow.

- Você me confundiu com ele em seus delírios, gritou muito o nome dele.

- Seus olhos lembram os deles, azuis. Ele tinha mulher e filho, tinha a minha idade, engravidou a namoradinha do colégio e achou que o melhor modo de sustentar a família seria entrando no exército, nós nunca precisamos nos preocupar com isso, você entrou para salvar vidas com sua profissão, eu por amor a meu país. Ele dizia que quando tudo isso acabasse, pelo menos uma boa educação teria deixado para o filho.

- É o sonho de todos nós, que nossos filhos tenham mais que tivemos.

- Eu nunca pensei em ter filhos, você sabe disso, tanto que até pensei em fazer vasectomia, mas pensando bem, fazia tanto tempo que não estava com mulher alguma que não vi necessidade, uma das ultimas foi Tânia, uma noite antes de partir para a ultima missão.

- Não procurou outras mulheres?

- Procurei, e quando começava a pensar no tanto de homens que já as haviam possuído, causava-me nojo, sempre fui muito seletivo com minhas mulheres, não seria nessas horas que mudaria.

- Faz quanto tempo que está sem sexo? Três anos?

- Não... Uns dois meses... Tinha uma pessoa na base... Era enfermeira... Às vezes encontrávamos... E... Acabava rolando... Bem você sabe...

- Foi ela quem cuidou de você enquanto não voltou para casa?

- Não. Ela havia sido enviada de volta.

Fiquei constrangido em falar de sexo com meu pai, ele sempre soube de tudo desde quando comecei minha vida sexual aos dezesseis anos com uma das empregadas da casa, mas depois de tantos anos... Parecia um menino que havia sido pego se masturbado com a Play Boy na mão.

Carlisle e eu ficamos trancados em seu consultório por quase uma hora conversando, ele me contou de suas experiências quando também estava em zona de guerra, era bom poder falar com alguém que havia passado pelo que passei.

Quando saímos do consultório, “as meninas”, como ele dizia, já haviam ido embora, disseram para não nos preocupar que iriam fazer compras, pois Alice estava chateada, e nada melhor para melhorar o humor de Alice que compras.