Entre Mundos

13 Cap 13 O Símbolo


A manhã se iniciava preguiçosa. O cheirinho de café invadiu as narinas da bruxinha, que mantinha o corpo sob o colchão macio; não queria abrir os olhos para que tudo o que vivera na noite passada não se esvanecesse como mágica. Percebeu Kelly se aproximando de sua cama. Em seguida, sentiu os ruídos dos passos dela irem até a janela e ouviu as cortinas se arrastando pelo trilho; logo depois, a luz do sol invadiu o cômodo e clareou sua face, que ela escondeu automaticamente sob o travesseiro.

– Acorda, dorminhoca! – A amiga falava rindo.

– Não quero acordar! – O som da voz saiu abafado.

– Vai, saia já daí! – Tentava tirar a almofada do rosto da menina. – Não me mate de curiosidade, me conta como foi ontem.

Margha, como num choque elétrico, estatelou-se na cama. Kelly estava muito atenta a todos os seus passos e novamente ouviu a amiga choramingar:

– Me conta logo tudo antes que seu irmão e o seu protetor cheguem. Aí você não vai dizer o que eu quero saber. – Com isso, sentou-se na beirada do colchão.

A garota colocou o travesseiro de lado e ergueu o tronco, espreguiçando-se preguiçosamente. Fitou os olhos curiosos da jovem sentada ao seu lado e, numa tentativa de fugir do assunto, passeou o olhar para a janela:

– O dia está radiante. Não acha?

– Não desconversa, espertinha. – Sorriu brincalhona. – Vai, diz logo: o que foi que conversaram? Ele te beijou? Como foi?

A chuva de perguntas deixou Holt zonza, mas ela compreendeu a curiosidade da amiga e a encarou:

– Calma, eu te conto tudo, mas tem que prometer que não irá contar a ninguém.

A menina à sua frente fez um sinal de jura. Margha sorriu e, quando começou a falar sobre seus momentos com Karl, seus olhos brilhavam tanto que o amarelo deles parecia dois faróis.

O sorriso nos lábios não desmentia a narrativa que se desenvolvia. As amigas estavam em um momento cúmplice, compartilhando o segredo doce que todo primeiro beijo carrega. Ambas suspiravam: uma por causa das memórias vivas em sua mente, a outra por dividir aqueles momentos preciosos, imaginando o dia em que viveria as mesmas sensações.

A animação em reviver aquela parte da vida da magista era contagiante; então, dona Laura abriu a porta.

– Bom dia, meninas dorminhocas! – Sorriu ao vê-las. – Vamos! Andem logo, vão se aprontar para tomar café. Daqui a pouco seus parentes chegam para vir te buscar.

Ao ouvirem isso, as duas deram um salto imenso da cama, parecendo que haviam levado uma espetada. A mais velha se adiantou:

– Para vocês se ajeitarem logo, Margha fica aqui se arrumando, enquanto a Kelly vai para o meu quarto. E deixem de enrolação, quero as duas lá embaixo logo. – E saiu do cômodo com um sorriso nos lábios.

(...)

Porthos estava impaciente, esperando a hora de ir buscar sua protegida. Olhava pela varanda do quarto a praia particular da propriedade e meditava sobre como era mais fácil quando era apenas ela e suas conchinhas, que ela vivia a perseguir. Quase pôde materializar a bruxinha bailando em meio às ondas branquinhas que morriam na areia. Sorriu e balançou a cabeça ao se dar conta de que tudo ali era mágico e hipnotizante. A batida na porta o acordou de seus devaneios:

– Entrez, s'il vous plaît! [1]

Um rapaz de olhos âmbares adentrou o quarto do espadachim cheio de entusiasmo. Olhava tudo à sua volta como se quisesse absorver tudo o que sua vista alcançava, sorrindo para o grandalhão:

– Vamos, Porthos, buscar minha irmã?

– Buscar Margha ou ver a amiguinha dela de novo? – O homem olhou de soslaio para Malcon.

O rapazote enrubesceu ao ouvir aquilo, sentindo as bochechas esquentarem. Desviou o olhar do mais velho para fugir de novos questionamentos.

O mosqueteiro sorriu ao ver o jovem corar; em seguida, pegou seu chapéu, bainhou o florete na cinta e cobriu-se com a capa.

– Allez, mon garçon! [2] – Olhou para ele. – Mas antes vamos tomar um bom desjejum.

Passou a mão na vasta cabeleira negra do rapaz de modo a despenstringá-lo, e os dois rumaram para a cozinha risonhos um com o outro.

Na copa se encontrava dona Mae que, ao ver o bisneto, não resistiu: tomou-o em seu abraço e beijou sua face carinhosamente. O rapaz recebeu o gesto com muito entusiasmo, pois, embora Theophrastus o amasse, o velho mago pouco afagava o garoto em demonstrações explícitas de carinho.

Receber o afeto da mais velha o encheu de sentimentos que aqueciam sua alma e coração. Embora sentisse muita falta de seu mundo, de suas coisas e do velho bruxo, ainda assim conhecer sua irmã e sua bisavó era algo muito empolgante; queria absorver tudo o que pudesse e ficar o maior tempo possível ali desfrutando daquelas gentis companhias.

O mosqueteiro, que caminhava um pouco atrás, já estava embevecido pelos aromas deliciosos que vinham da cozinha. Os cheiros adentravam suas narinas e provocavam o ronco de sua barriga, que reclamava por comida. Ele empinava o nariz para sorver o aroma adocicado da refeição. A mulher sorriu graciosa para o seu hóspede de longa data que, na verdade, já parecia um membro emérito da família.

– Preparei um café da manhã muito saboroso para vocês. – Mantinha as mãos nos ombros do bisneto. Os dois sorriram e se sentaram à mesa.

– C'est la vie! [3] – disse Porthos, alisando a barriga.

Todos caíram no riso. O som de felicidade enchia os ouvidos da mais velha de contentamento. Ela os observava se deleitando com pães de mel, bolos, geleias, torradas e muitas frutas frescas; para completar, um café fresquinho. O mosqueteiro, mais do que ninguém, apreciava os dotes culinários da magista.

Depois de completamente satisfeitos com o verdadeiro banquete que degustaram pela manhã proporcionado por dona Mae, arrumaram-se e encaminharam-se para a vila a fim de buscar Margha de volta para o seu lar. Os dois estavam eufóricos em rever a garota, que abrilhantava tudo por onde passava.

No meio do caminho, Malcon sentiu uma pontada de dor na cabeça. Foi tão intensa que o rapaz caiu ao chão, gemendo alto. Porthos olhou atônito e abaixou-se para socorrê-lo.

– Mon Dieu! [4] O que foi que aconteceu? – A voz do homem estava carregada de preocupação.

O rapazinho, já um pouco mais reestabelecido, olhou confuso para o espadachim:

– Eu vi o símbolo que Theo disse que marcaria o aprendiz de Sören. – Olhou para o mais velho e, de modo reticente, completou: – Ele está na pele de alguém.

Aquela revelação tão inesperada deixou o bruxo e o espadachim apreensivos. Quem poderia ser a pessoa que carregava tal marca? Precisariam ficar muito atentos.

– Garçon, peux-tu te lever? [5]

Malcon Holt anuiu e se levantou com a ajuda de Porthos.

– Consegue chegar até a vila? – O mosqueteiro perguntou mais uma vez para se certificar de que o rapaz estava firme.

– Sim, consigo. Afinal, estamos bem próximos de lá. – Falava massageando as têmporas e tentava entender o que de fato havia ocorrido. Assim, veio um pensamento assustador em sua mente: “E se o aprendiz de Sören estiver em Solveig? Será que Margha sentiu o mesmo que eu?” Meneou a cabeça para afugentar aquelas questões. Porthos fitou os olhos âmbares do rapaz e viu uma sombra em sua face.

– Un problème avec ça? [6] – Procurava alcançar alguma pista que mostrasse qual era o real motivo daquele semblante e o porquê da dor repentina de cabeça.

O rapaz desviou o olhar:

– Vamos, Porthos! Já consigo ver a vila.

(...)

No salão do estabelecimento de dona Laura, muitos se avolumaram em volta de uma garota desmaiada. O burburinho era intenso: todos queriam ver o que acontecera a ela. A amiga dava leves palmadinhas na bochecha da menina inconsciente, e suas lágrimas começaram a cair no rosto da enferma.

– Por favor, se afastem! – A voz saía embargada. – Vovó, venha me ajudar, minha amiga desmaiou!

O desespero tomava conta da garota que, irracional no momento, não sabia o que fazer para ajudá-la. Karl entrou no local e, apercebendo-se de quem sofria o infortúnio, correu na direção delas.

– Se afastem, ela precisa de ar para respirar! – O rapaz bradou, abaixando-se na direção de Margha e olhando para Kelly. – Há quanto tempo ela está assim?

A menina chorosa não conseguia falar; a voz estava presa na garganta.

– Vamos, Kelly, preciso que seja forte. – Respirou fundo e tornou a inquirir: – Há quanto tempo ela está inconsciente?

A garota enxugou as lágrimas e respondeu com a voz fraca:

– Uns cinco minutos, mais ou menos.

– Por favor, vá lá dentro e pegue um pouco de álcool.

A garota de rosto inchado e avermelhado achou estranho o pedido; no entanto, correu em direção à cozinha para pegar o solicitado.

Dona Laura, confusa e preocupada com o acontecimento tão repentino, falou com seus clientes e amigos de modo a apascentar os ânimos de todos:

– Vamos todos nos acalmar. – Olhou para o rapaz que segurava a garota desmaiada: – Você consegue levá-la até o sofá da varanda?

Ele acenou com a cabeça positivamente.

– Ótimo! Então vamos colocá-la lá fora, pois tem mais vento circulando. – Sorriu calmamente. – O ar vai fazê-la recobrar a consciência.

Ele a puxou facilmente do chão para o colo. O corpo esguio e delicado da menina estava amolecido, e sua cabeça tombou gentilmente no ombro dele, enquanto seus cabelos negros se derramavam sobre a face, cobrindo o belo rosto. Ele caminhou com ela entre os braços fortes em direção ao terraço. Enquanto isso, Kelly vinha afobada atrás deles com um recipiente cheio de álcool e um chumaço de algodão.

Karl pousou Margha gentilmente em uma espreguiçadeira no local. Com isso, a bruxinha começou a movimentar a cabeça levemente, como se estivesse despertando de um sono. Suas pálpebras se abriam pesadamente; piscava lentamente, lutando para mantê-las abertas. Quando seus olhos amarelos se fixaram no rapaz que afagava seus cabelos, havia uma sombra pairando sobre sua face.

– Eu trouxe o álcool! – alardeou Kelly.

– Não precisa mais, graças aos céus! – A voz do rapaz saía aliviada.

– Margha, o que foi que aconteceu contigo? – A amiga estava preocupada, e as lágrimas começaram a rolar por suas maçãs do rosto.

– Eu não saberia explicar... – Alisava a testa em movimentos circulares. – Senti uma pontada muito forte na cabeça e... – Olhava para o rapaz e de volta para a amiga: – Não vi mais nada, tudo ficou escuro, exceto um símbolo. É tudo de que me lembro.

– Oh, amiga! Sentimos muita aflição com você inconsciente. Foi tudo muito assustador. – Kelly abraçava a magista, que recebia o afago e se recostava no ombro dela.

– Como era esse símbolo? – O rapaz indagou curioso.

As meninas se desvincularam do abraço e voltaram a cabeça na direção do indagador. Antes que a jovem pudesse formular qualquer resposta, dona Laura se aproximou do trio trazendo uma bandeja onde equilibrava uma xícara de chá. Inclinou-se um pouco:

– Vamos, beba um pouco, vai fazer você se sentir melhor!

A menina tomou a louça na mão e sorveu um pouco do líquido fumegante, o que realmente a fez se sentir melhor. Respirou fundo, encheu os pulmões de ar salino e o soltou, aliviando o peso que aquele evento causara em si. Fora mais do que um mal-estar: era um aviso, algo muito sério estava prestes a acontecer. Meneou a cabeça para afugentar o mau pressentimento.

Olhava ao longe sem focar em nada, perdida em pensamentos, tentando encontrar algum ponto racional naquilo que lhe acontecera. Em meio aos seus questionamentos, esbarrou em questões importantes: o aprendiz de seu pai não está longe. Será que Malcon sentiu o mesmo? A voz da amiga a trouxe de volta de suas abstrações:

– Porthos e seu irmão estão chegando!

Ela olhou em direção à praça central e avistou os dois homens caminhando lado a lado. O mais velho andava como um guerreiro vitorioso, e suas vestimentas pareciam saídas de um conto de reis, cavaleiros e donzelas em perigo. O mais jovem tinha a postura de um príncipe, e sua roupa acompanhava seu porte.

As pessoas em Solveig a princípio olhavam com estranheza para as vestes e os modos daqueles homens, mas acabaram se acostumando com eles. Afinal de contas, eram amigos de dona Laura e, portanto, pessoas de bem. O mosqueteiro já avistava a bruxinha no alpendre da pousada; sentiu um leve desconforto ao notar quem lhe fazia companhia. Também pressentiu que havia acontecido algo semelhante ao que ocorrera com o irmão dela.

O jovem, por sua vez, já recuperado da dor que o acometera no caminho para a vila, também estava apreensivo ao ver a irmã naquela situação. Todavia, uma certa euforia o afetou ao encontrar a amiga de Margha tão bela. Mesmo com o rosto ligeiramente inchado e rosado por ter chorado, o jovem bruxinho contemplava a face suave e bem desenhada da menina.

Alcançaram a varanda e o irmão, ao se aproximar, abraçou Margha afetuosamente. Logo se apercebeu de que ela também tinha visto o símbolo tatuado na pele de alguém. Eles se entreolharam e, sem emitir som pelos lábios, falaram de mente para mente.

“Eu vi o símbolo de Sören cravado numa pele humana”, Malcon adentrou a mente da irmã.

“Sim, eu também. Precisamos ficar alertas, o perigo nos cerca.”

Ela e o bruxinho olharam para todos ali presentes e, de modo a não preocupar a avó da amiga nem as pessoas que não conheciam a verdadeira história da família, a garota levantou-se do móvel onde estava recostada e se pronunciou:

– Obrigada pelo chá, dona Laura, realmente me fez sentir muito melhor. – Pousou a mão suavemente sobre as mãos da idosa e continuou: – O calor foi o responsável por baixar minha pressão, por isso desmaiei. – Sorriu meigamente. – Vou ficar bem.

A senhora estava realmente mais aliviada ao ver novamente cor no rosto da menina, que ainda há pouco parecia cera. Abraçou-a:

– Vamos lá para dentro comer algo, você precisa colocar alguma coisa nessa barriguinha magrinha. – Desvinculou-se do abraço e prosseguiu em tom maternal: – É por isso que essa juventude vive caindo, não comem direito! – Estendeu o convite a todos ali: – Entremos, vou aprontar um café reforçado para vocês!

Mesmo ouvindo aquele tentador convite para a refeição, Porthos não desmanchou do rosto a feição marcada pela desconfiança de que algo realmente ruim rondava aquela ilha. Pensou no pai dos gêmeos e em tudo o que ouvira do velho mago sobre a tamanha crueldade do homem que sacrificara a mãe de seus filhos em nome do poder. Sentiu um arrepio percorrer todo o corpo quando Malcon o chamou:

– Vamos, mon ami! [7] – Gesticulou convidando-o com as mãos.

O mosqueteiro sorriu para o rapaz e caminhou em direção ao refeitório.

(...)

Todos estavam sentados à mesa, onde havia uma variedade de pratos de encher os olhos de qualquer um. O bolo macio e cheiroso disputava a preferência com uma rosca recheada de frutas secas; em uma bandeja, repousavam deliciosas rabanadas quentinhas. Os sucos com frutas da estação ficavam em jarras suadas pelo frescor. O iogurte era artesanal, confeccionado pela dona da pousada, e todos da região aprovavam suas iguarias; por isso o estabelecimento da mulher estava sempre cheio.

Apesar dos sorrisos soltos e da conversa fluida e descompromissada, o espadachim — diferente de outras vezes em que se banqueteava e brindava à vida e aos amigos — apenas observava os movimentos e atitudes de todos à sua volta. Especialmente do rapaz de íris azuis, o forasteiro que não parava de fitar os olhos da bruxinha. Sentiu que algo estava no ar e que precisava ficar atento às mudanças que certamente estavam chegando para poder, mais uma vez, defender a vida de Margha com a sua própria, se assim o destino determinasse.

(...)

A penumbra cobria todo o ambiente. Apenas ao fundo a luz bruxuleante de uma lareira acesa, com um caldeirão em ebulição, dava contornos às mobílias antigas. O local inteiro tinha cheiro de lenha sendo consumida. As paredes enegrecidas pela fuligem davam um aspecto lúgubre ao cômodo. Um indivíduo sentado em uma poltrona revestida de pele de animal se balançava; não era possível contemplar sua imagem, pois sua capa cobria-lhe a face.

O sujeito tinha nas mãos uma peça que refletia a imagem de uma mulher com uma beleza incomum: cabelos negros e volumosos caindo como cascata pelos ombros de pele alva, olhar sincero de um azul profundo, nariz afilado e uma boca pequena e rósea. Parecia estar analisando o objeto. Em seguida, balançou a cabeça em negação: não queria aquela face encarando-o com um julgamento que vinha mais de si do que de outro lugar.

Levantou-se, caminhou até a lareira e depositou mais lenha no local a fim de atiçar as chamas, que pareciam querer morrer. Com a ação, o fogo se alastrou e, no meio das labaredas, ele vislumbrou a imagem de um lobo; a figura uivou e desapareceu em meio à fumaça, e o fogo voltou ao tamanho normal.

Assim que contemplou a imagem, o homem de capa soube no mesmo instante que seu pupilo estava muito perto de achar as Pedras Sjarmere e, como consequência, os gêmeos, filhos de Hécate Holt. Fechou as mãos em punho ao pensar naqueles garotos que poderiam ser seus aprendizes também; isso seria uma maneira plausível de mantê-los vivos. O contrário não era viável.

Mais uma vez, a sombra da mulher voltou a atormentá-lo: “Se ao menos ela aceitasse ficar ao meu lado, as coisas teriam outro desfecho.” Aqueles pensamentos o alcançavam a todo momento e o deixavam inquieto. Pensar em Hécate o tornava mais fraco e vulnerável; por isso, com o intuito de cortar seus pontos fracos, ele a destruíra. Ter ceifado a vida dela parecia-lhe, naquele momento, um ato de força, mas o feito o terrificava a cada instante. Precisava ter as gemas sob seu domínio para expurgar de vez todos os vestígios da bruxa.

A vingança precisava ser muito bem calculada, nada poderia ser deixado de lado. Foi até o espelho, olhou para o portal e fez uma conjuração. O reflexo foi se distorcendo e uma fumaça densa tomou todo o local. O homem falava com mais ênfase conforme a emanação se retraía, dando lugar a uma ilha. No meio de sua imprecação, visualizou com mais precisão um trio que caminhava pela praia de modo tranquilo. Notou que os gêmeos estavam com as pedras junto de si e, com isso, surgiu um sorriso sinistro em seus lábios. Seus olhos ainda estavam encobertos pelo manto, mas suas intenções não.

Continuou por algum tempo acompanhando os garotos na caminhada e notou um homem com postura de guerreiro ao lado deles. Pensou em um modo de neutralizá-lo; assim, fechou o portal, encaminhou-se para o caldeirão, abriu um corte no pulso e aspergiu um pouco de sangue no recipiente, que borbulhou mais intensamente. Colocou um pouco da poção em um pequeno vidro e cerrou o frasco na mão.

(...)

A praia estava totalmente recuada pela maré baixa, e o vento varria os cabelos de Margha, que caminhava um pouco atrás da dupla num ritmo mais desacelerado. Ela estava entregue às suas lembranças, com os pensamentos no rapaz gentil e bonito. Os lábios macios e quentes dele ainda pareciam massagear sua boca; levou os dedos ao rosto e passeou com o indicador sobre os lábios levemente úmidos. Olhou para o mar e suspirou baixinho.

O espadachim voltou a atenção para a menina, que andava morosamente, e estreitou a vista ao vê-la ciciando e sorrindo à toa.

– Quoi de neuf? [8]

A garota o olhou como se acordasse de um transe:

– Oi, Porthos?!

– Ainda está adoentada? – Olhava-a com preocupação. – Quer parar para descansar?

– Não, obrigada, mon ami! – Sorriu docemente.

Nesse momento, o irmão olhou para eles, tentando entender o diálogo, e adentrou a conversa desajeitadamente:

– Eu realmente gostei muito de conhecer a Kelly e a avó dela. – Pigarreou. – O Karl foi muito amistoso, eu gostei dele.

Margha sorriu ao ouvir aquilo, porém seu sorriso logo se desfez ao escutar a continuação dada pelo mosqueteiro…

– Amicalement? [9] – Fez uma careta indecifrável. – Eu não o vejo dessa forma, e, se me permitem dizer, tomaria muito cuidado com esse forasteiro. – Sua voz saiu em tom de conselho.

Nesse instante, os gêmeos sentiram que algo funesto os espreitava, e um frio sombrio os circundou. Eles se entreolharam e voltaram a encarar o mosqueteiro, que percebeu a apreensão da dupla e tornou a falar:

– Acho melhor irmos de uma vez para casa!

Um arrepio também lhe percorreu a espinha, e um mau pressentimento assombrou seus sentidos. Pelo menos na mansão estariam com dona Mae, uma magista mais experiente. Os dois garotos eram bruxos, no entanto tinham muito que aprender e ainda eram vulneráveis. Assim, caminharam um pouco mais ligeiro em direção ao seu destino.

Margha então virou o tronco para trás, como se procurasse por algo ou alguém, e viu um vulto negro. Quando tentou chamar o irmão para ver a sombra, esta já havia se dissipado. Balançou a cabeça e segurou firme a gema em seu anel; no mesmo instante, a pedra se iluminou, e o pingente de Malcon também emitiu um brilho.

Ambos, então, se encararam com a mesma questão na mente: o que as pedras estavam tentando lhes dizer?


Notas:

[1] Entre por favor!

[2]. Vamos lá, meu jovem!

[3]. Isso é que é vida!

[4] Meu Deus!

[5] Garoto, consegue ficar em pé?

[6]. Algum problema com isso?

[7] meu amigo!

[8] O que há?

[9] Amistoso; amigável

Notas finais
Olá amadinhos! Se puderem fiquem em casa ... se cuidem !!! Beijocas! Notas: [1] Entre por favor! [2]. Vamos lá, meu jovem! [3]. Isso que é vida! [4] Meu Deus! [5] Garoto, consegue ficar em pé? [6]. Algum problema com isso? [7] meu amigo! [8] O que há? [9] Amistoso; amigável
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