Entre Mundos

8 CAP 07 – Um Mistério desvendado


Notas iniciais
Olá lindas e lindos! Mais um capítulo para vocês amores ... Desculpe qualquer errinho que passou ... Boa Leitura!

Nuvens carregadas e enegrecidas, ao longe, eram percorridas por descargas elétricas; os estrondos que se seguiam deixavam a garota de olhos de âmbar ansiosa com o que viria a seguir. Foram deixados num ambiente que parecia uma biblioteca muito antiga, com muitos livros em capas de couro que impregnavam o ar com um odor de mofo e de coisas antigas. Ela olhou pela janela e observou as árvores dançarem de forma sinistra ao sabor do vento que as envolvia e as revirava num frenesi sem fim; aquilo a hipnotizou por uns instantes, até que uma voz masculina chegou aos seus ouvidos.

— Le vieil homme¹… será que ele vem? Está demorando muito. Ou morreu pelo caminho. — Riu ao dizer aquilo. A jovem, saindo de seus pensamentos, voltou sua atenção para o mosqueteiro e, com uma risada divertida, tornou a falar:

— Por Deus, Porthos! Nem de brincadeira diga uma coisa dessas. — Meneou a cabeça, tentando não rir, e percebeu que o grandalhão segurava um objeto na mão. — De onde tirou esse livro? — Olhou para o material nas mãos do homem; então o objeto começou a pulsar luz. O francês também baixou o olhar e se assustou, deixando o exemplar cair ao chão. A bruxinha caminhou alguns passos, abaixou-se e o apanhou do assoalho.

Endireitou-se e caminhou até uma mesa, pousando com cuidado o volume que brilhava num pulsar constante, como se estivesse vivo. Ambos se entreolharam; a garota reteve a respiração por um instante e a soltou pesadamente. Abriu então o livro e, na folha de rosto, lia-se o título: A Vida de Hécate Holt. Aquele título deixou a jovem arrepiada. Como poderia existir um livro que falasse da vida de sua mãe com tantos séculos de antecedência? Examinou o conteúdo e folhou algumas páginas. Sua atenção deteve-se numa pequena dedicatória que fez escorrer uma lágrima grossa por sua face rosada: “A meus filhos, Margha e Malcon, todo o meu carinho e minha vida.”

Porthos sentiu o coração apertar ao ver a menina tão comovida ao relembrar memórias que nem sequer eram suas. Pousou, então, sua mão gentilmente no ombro da amiga; ela, sentindo aquele consolo, desfez-se em lágrimas copiosas. Sentia-se vazia e, pela primeira vez, sentiu-se só, como se ninguém no mundo pudesse compreendê-la. Olhou para o amigo de tantas aventuras e mistérios e tentou esboçar um sorriso que o convencesse de que estava tudo bem — mas ele saiu fraco e triste.

Baixou a cabeça para continuar a ler aquele compêndio misterioso, quando o ancião adentrou a velha biblioteca acompanhado de um jovem de porte nobre e belas feições: estatura alta, olhos de âmbar intensos, cabelos negros como a noite, nariz bem delineado e lábios bem formados. Era inegável a semelhança entre ele e a garota. O espadachim olhou o jovem com respeito e admiração. Observou-o entrar com o porte de um nobre e ficou atônito com tamanha semelhança com sua amiga. Então o mago mais velho quebrou o silêncio:

— Esse livro em suas mãos, criança, é um meio seguro que sua mãe criou para ajudar os filhos a se protegerem do mal que ronda a sua família. — Ao ouvir isso, a garota deu um passo para trás, tomada pelo susto. Virou-se em direção ao ancião e ficou profundamente impactada com a figura do jovem ao lado dele. O rapaz também não permaneceu indiferente à presença da bruxinha à sua frente; por um instante, todos ficaram em silêncio absoluto. Então o bruxo mais velho tornou a falar:

— Vocês são o Legado de Hécate. Sua mãe deixou alguns artefatos para auxiliá-los numa missão importante. — Aquelas palavras pareciam confusas e difíceis de assimilar; a menina não conseguia compreender tudo, que mais parecia um sonho. Assim, ela perguntou:

— Quem é o senhor, afinal? De quais artefatos está falando? Por favor, explique com mais clareza. — Tentava organizar seus pensamentos de forma lógica. O jovem, por sua vez, fitou aqueles olhos de âmbar e também tentava compreender tudo o que acontecia à sua volta. Voltou seu olhar para o mago e disse:

— Theophrastus… a pessoa que tanto esperamos… foi o anel que me chamou? — Sua voz soou cheia de espanto. Estava tão confuso quanto a menina; ambos pareciam aturdidos diante daquela revelação, depois de tantos anos sem se conhecer. Porthos posicionou-se entre os dois, admirado, e perguntou ao bruxo:

— Ele é o irmão de ma chère! — Não conseguia esconder seu espanto. O ancião estreitou o olhar para o francês e perguntou, com tom desconfiado:

— E quem é você?

A jovem interrompeu o contato visual com o irmão e interveio em defesa do amigo:

— Ele é um amigo leal. Eu o trouxe à vida por meio da magia quando eu era apenas uma menina. Veio de um livro, no momento em que mais precisei. — Olhou o mago com coragem e prosseguiu: — É a pessoa em quem mais confio nesta vida e em qualquer outra que eu venha a viver!

O velho olhou o espadachim diante de si e soltou o ar pelas narinas com certa surpresa. Compreendeu que ela havia conjurado um feitiço antigo e poderoso — algo que apenas magos experientes costumavam realizar. Sem treinamento formal, como seria possível? Deixou essas indagações de lado, percebendo que aquele homem não representava ameaça. Olhou então para os três e disse:

— Pois bem! Apresentemo-nos devidamente, como deveria ter sido há muito tempo. — Todos sorriram ao tom leve de sua voz, e isso aliviou a tensão do ambiente. Então ele prosseguiu:

— Este é Malcon, filho de Hécate, seu irmão gêmeo, Margha! Naquele dia fatídico em que sua mãe foi traída e atacada, ela, numa tentativa desesperada de salvar vocês, abriu seu portal em minha dimensão para que fossem trazidos para aqui, criados e protegidos, assim como ela própria fora um dia. Mas o ataque traiçoeiro impediu que ela e vocês conseguissem atravessar juntos. — Olhou os dois com tristeza.

Os irmãos se olharam com lágrimas nos olhos. Sentiram o peso de todos aqueles anos separados — mas isso agora havia terminado. Abraçaram-se com ternura, chorando não de tristeza, mas de uma alegria imensa. Sentiam que finalmente não estavam mais sós; eram dois que se completavam. O sorriso brotou em meio às lágrimas. O anel de Margha brilhou intensamente ao mesmo tempo que o pingente que Malcon trazia no peito. Afastaram-se um pouco e olharam para as joias que ambos carregavam.

Instintivamente, aproximaram os objetos. As pedras brilharam juntas, enchendo a biblioteca de uma luz suave que tomou a forma de uma silhueta feminina. A imagem foi se tornando nítida diante deles; os irmãos reconheceram aquele rosto imediatamente e as lágrimas voltaram a cair. E a voz de sua mãe ecoou suavemente no ambiente:

— As Pedras Sjarmere estão reunidas mais uma vez. Isso significa que meu plano funcionou. Quando soube que minha vida corria perigo e que esperava por vocês, entendi que precisava mantê-los em segurança. Contei com a ajuda de meu mentor e amigo, Theophrastus. O pingente e o anel foram separados propositalmente, para não caírem em mãos erradas: o pingente ficaria com um de vocês e o anel aos cuidados de minha amiga e conselheira, Mae. No momento certo, vocês as receberiam e poderiam acessar minhas memórias — mas nunca poderão voltar no tempo para mudar o que aconteceu. Se eu não sobrevivesse, vocês ficariam sob a proteção e ensinamentos de Theophrastus, preparando-se para o que viria. Pois uma força sombria quer destruir-me e usar vocês como instrumento para dominar todas as dimensões. Separando as pedras, impedi que esse poder fosse usado para o mal — até que vocês estivessem prontos para proteger o equilíbrio entre os mundos.

A imagem e a voz foram se desvanecendo até desaparecer. O silêncio voltou ao ambiente, e todos olharam para o ancião, que guardava ainda mais respostas. Os irmãos precisavam entender tudo. Margha o fitou e perguntou:

— Quem é essa criatura das sombras? Eu a vi no portal… ela… — Sua voz embargou. — Ela me separou de vocês. — Apontou para Malcon, que a ouvia com confusão. Nunca ele fora atacado; nunca havia sequer ouvido falar de tal ser. Enquanto isso, Margha enfrentara perigos desde criança, sempre protegida por Porthos e por Mae.

Theophrastus observou os dois em silêncio por um longo instante. Acendeu seu cachimbo, tragou lentamente e soltou uma fumaça esverdeada. Retirou de sua túnica uma pequena caixa dourada, de onde tirou um par de alianças. Entregou-as à Margha e disse:

— Há muito a compreender. E principalmente, precisam saber quem é aquele que os persegue. A verdade pode lhes parecer dura demais, especialmente a você, Margha. — Fez uma pausa e prosseguiu: — Havia um mago muito poderoso que desejava dominar os reinos mágicos. Conheceu sua mãe e viu nela um poder que completaria o seu. Mas o que começou como interesse tornou-se obsessão. Ele usou de artifícios para aproximar-se, escondendo sua verdadeira natureza, e conquistou o coração de Hécate. Ela confiou nele, entregou-se a ele e casaram-se, sem saber quem ele realmente era.

Os três ouviram tudo em profundo silêncio e espanto. Margha mal conseguia processar aquelas palavras: seu pai, de quem jamais ouvira falar, era o inimigo que ameaçava sua família? Malcon também estava atônito — sabia da história, mas não imaginava que o vilão daquela história sombria era seu próprio pai. E perguntou:

— Theophrastus, diga de uma vez… esse homem é nosso pai?

— Sim. Sören é o pai de vocês. — Um arrepio percorreu os dois ao ouvir aquilo. Perceberam, de forma intuitiva, que precisavam permanecer unidos. Porthos, atônito, disse:

— Não pode ser, cher ami²… ninguém tem um père³ assim… não você, que é tão bondosa!

A bruxinha, ainda tentando organizar seus sentimentos, aproximou-se do amigo, acariciou-lhe o rosto e disse suavemente:

— Mon cher ami⁴, sei que parece impossível, mas é a verdade. Agora nosso caminho se torna mais difícil. E não quero que se sinta obrigado a continuar ao meu lado.

Porthos segurou-lhe a mão, beijou-lhe os dedos com ternura e disse com firmeza:

— Jamais a deixarei, ma douce ami⁵. Estarei sempre com você. Se esse homem vem atrás de vocês, precisarão de todos os amigos que puderem ter. E eu ficarei! — Sorriu com determinação, e ela sorriu de volta. Abraçaram-se.

O ancião observou a lealdade daquele homem e disse:

— Porthos tem razão. Precisarão de todos os aliados possíveis. Mas ainda não terminei. — Voltou-se para os irmãos e prosseguiu: — O casamento de seus pais era também uma união de magias; compartilhavam um mesmo poder. Mas Sören foi tomado pela ambição. Quando Hécate esperava por vocês dois, ele viu uma oportunidade de obter um poder ainda maior. — Tragou novamente o cachimbo e continuou: — Planejou destruir a mãe de vocês assim que nascessem, usar a magia dos gêmeos num ritual sombrio para absorver todo aquele poder e tornar-se invencível. Mas Hécate descobriu tudo a tempo. Confiou em mim, colocou Sören em sono profundo e rompeu o vínculo mágico entre eles. Entregou as pedras e as alianças a mim em segurança e preparou-se para esconder vocês aqui, longe de seu alcance. — Suspirou profundamente e concluiu: — Infelizmente, ele a encontrou antes que pudessem atravessar juntos.

O silêncio se fez presente novamente. As lágrimas rolaram livremente por todos os rostos. Theophrastus pousou as mãos sobre os ombros dos dois irmãos e disse com bondade:

— Lembrem-se sempre: agora que se encontraram, nunca se separem novamente.

Malcon olhou para seu mentor e perguntou:

— Theo… vai nos ensinar a usar nossos poderes juntos?

O ancião sorriu com afeto:

— Com todo o prazer, meus jovens. Farei por vocês o mesmo que fiz por sua mãe. — Olhou para os dois com carinho. — Temos muito a aprender. Mas por hoje já é tarde. Descansem. E aproveitem este momento — há tanto a dizer um ao outro. Depois, nos reuniremos para o jantar!

Porthos sorriu e esfregou as mãos:

— Agora sim! Uma excelente ideia! — Todos riram e retiraram-se para seus aposentos.



A praia estava tranquila. Kelly conseguiu sair da pousada sem que ninguém percebesse. Com a maré baixa, atravessou facilmente até a praia particular que levava à casa de Margha. Precisava chegar antes de qualquer coisa. Queria se desculpar, consertar o que fizera e tranquilizar a amiga. Sabia que Porthos não ficaria nada satisfeito ao saber de seu deslize, e isso a preocupava. Mas também desejava que Margha pudesse ser feliz. Quem sabe… talvez Karl não fosse tão ruim assim. Sorriu para si mesma com aquele pensamento. Chegando à porta lateral, bateu suavemente. Foi Mae quem abriu. Kelly, ansiosa, perguntou:

— Posso falar com a Margha, por favor?

A mulher olhou a menina e respondeu com calma:

— Pensei que estivesse com ela na praia!…



Notas:

¹ Le vieil homme — O homem velho

² cher ami — querida amiga

³ père — pai

⁴ Mon cher ami — querido amigo

⁵ ma douce ami — minha doce amiga