Entre Mundos
6 CAP 05 – Um Forasteiro em Solveig
Notas iniciais
O verão continuava a aquecer o ar salgado e úmido; o céu da manhã estava límpido, de um azul que iluminava o mar, que lambia a areia da praia em ondas suaves trazendo consigo uma imensa variedade de conchinhas. Duas garotas corriam de modo divertido numa brincadeira animada em busca desses pequenos seres. Sentado em uma rocha, um homem corpulento observava tudo aquilo, rindo copiosamente da dupla que mais parecia duas abelhas num ziguezague sem fim. O francês se sentia tranquilo; já havia passado uma semana desde aquele passeio inusitado, e tudo continuava como deveria ser — e isso lhe bastava. Não sentia saudades daquele jovem que conheceu em Londres, e suspirou aliviado por ter a certeza de que nunca mais o veria.
Enquanto isso, as garotas, sorridentes, molhavam os pés quando o mar as alcançava e corriam um pouquinho, brincando de fugir das ondinhas. Brincavam inocentemente, sem perceber nada do que se passava ao redor. Então, a garota mais baixa olhou para a outra de modo brincalhão e perguntou, com tom curioso:
— A visita a Londres deixou saudades? — Um sorriso e uma careta da amiga fizeram Margha corar e desviar o rosto, evitando que seus olhos denunciassem o que sentia pelo rapaz que haviam conhecido há poucos dias. Kelly, notando o desconforto da amiga, pôs a mão em seu ombro e perguntou com ternura:
— Queria te contar uma coisa, mas não sei como vai reagir. Promete que não vai se chatear nem se zangar comigo?
— Conta logo o que aprontou, garota! — respondeu Margha, com um tom um tanto desconfiado, arqueando uma sobrancelha.
— Tem que me prometer primeiro! — insistiu Kelly, sorrindo.
Margha sorriu para a amiga; sabia que ela nunca faria algo para prejudicá-la, e respeitava seu espaço, sem invadir seus pensamentos. Disse então:
— Está bem, Kelly, prometo. Agora me diga o que aprontou dessa vez.
Kelly respirou fundo e falou, como um grande desabafo:
— Lembra do rapaz que conhecemos no pub? Karl? — Margha assentiu com a cabeça, e ela continuou: — Notei que vocês dois se davam tão bem que pensei que deviam se encontrar de novo. Então escrevi "Solveig" num guardanapo, para que ele soubesse onde te encontrar. Ele precisava saber o nome do nosso vilarejo.
Margha ficou imóvel, sem saber o que dizer. Virou-se para o mar e fechou os olhos; era justamente o tipo de coisa que menos precisava no momento. Voltou-se para a amiga e procurou manter a calma:
— Entendo, Kelly, mas você não deveria ter feito isso. E se Mae ficar sabendo? Além disso, minha vida não é comum, você sabe muito bem disso.
Kelly não concordou:
— Sua cuidadora é muito compreensiva, mas não precisa saber de tudo agora. E mais importante: você é muito comum sim! Tem seus dons, isso é verdade, mas é igual a qualquer pessoa. E não se preocupe, ele provavelmente não viria até aqui atravessando um oceano só para te ver. Só precisava desabafar, senão ia explodir!
As duas riram tanto que precisaram se apoiar uma na outra, aliviadas. Porthos, vendo a alegria das meninas, aproximou-se sorrindo e perguntou:
— Minhas queridas, posso saber qual é o motivo de tanta alegria?
Olharam-se e riram ainda mais. Margha recuperou o fôlego e respondeu:
— Não se preocupe, meu amigo. São conversas de meninas, bobagens mesmo.
Naquele instante, algo a chamou — uma presença intensa e familiar, mais forte que sua própria vontade. Ficou imóvel, como num transe. Os dois amigos se assustaram ao ver seus olhos brilharem com uma luz amarela intensa. Sem dizer uma palavra, virou-se e caminhou de volta para a casa.
Os dois se entreolharam e seguiram-na. Porthos, instintivamente, pôs a mão no punho de sua espada, alerta. Margha seguia adiante, alheia a tudo, guiada por aquela força que a puxava.
Algo se escondia nas sombras, observando-a — uma presença antiga que vigiava seu crescimento e seus poderes. Aquela noite, ao sentir a magia se mover, esse ser aguardava a oportunidade certa para destruir de uma vez por todas a herdeira que um dia tomaria seu lugar. Porém, o espelho de Hécate havia despertado para sua herdeira direta; e sua mãe, do mundo espiritual, conseguia se aproximar cada vez mais à medida que a filha crescia.
Margha entrou na mansão e seguiu pelo corredor, como atraída por um ímã. Passou por seu quarto e continuou até o andar de cima. Porthos, que a seguia, parou e virou-se para Kelly:
— Kelly, por favor, avise a Dona Mae que algo está acontecendo com Margha. Precisamos dela. Corra, não temos tempo!
Kelly correu imediatamente. Porthos seguiu a jovem até a porta do quarto da mãe dela. Sem que ninguém tocasse, a porta se abriu e Margha entrou, flutuando suavemente para dentro do ambiente, que estava banhado numa luz azulada. Porthos entrou logo depois e escondeu-se atrás de uma estante alta, atento, sem saber se conseguiria protegê-la do que quer que estivesse por vir. Uma névoa começou a sair do espelho, e a luz azulada foi se tornando arroxeada.
Margha parou diante do espelho e estendeu a mão esquerda, como se quisesse alcançar algo do outro lado. Porthos saiu de seu esconderijo para impedi-la, mas uma força o lançou para longe, e ele perdeu os sentidos.
Kelly corria pelos corredores, sem fôlego, sabendo que era urgente encontrar Mae. Entrou na cozinha e chamou a atenção da mulher, que imediatamente dispensou os demais e aproximou-se da jovem ofegante. Pousou a mão em seu ombro e disse com calma:
— Respire fundo, menina. O que aconteceu?
Kelly, recuperando o fôlego, disse de forma clara e rápida:
— A Margha está em perigo! Venha depressa, não temos tempo!
Mae sentiu a energia da bruxinha junto ao portal de Hécate. Afagou os cabelos de Kelly para tranquilizá-la, embora soubesse que o portal não deveria ter despertado tão cedo — Margha ainda tinha muito a aprender. Disse então:
— Calma, querida. Me leve até ela.
Subiram juntas rapidamente. Mae sentiu uma energia familiar no ar, mas também precisava ter certeza de que não era uma armadilha das forças sombrias. Ao entrar no quarto, a luz já havia desaparecido. Margha jazia caída ao lado do espelho, inconsciente. Porthos se levantava do chão, atordoado. Mae verificou sua pulsação e suspirou aliviada. Virou-se para o amigo:
— O que aconteceu aqui, Porthos?
— Não sei explicar, senhora — respondeu ele, preocupado. — Estávamos na praia e, de repente, ela pareceu entrar em transe e veio até aqui. O quarto estava iluminado e ela se aproximou do espelho. Tentei impedi-la, mas uma força me afastou e perdi os sentidos. Quando acordei, estava tudo como agora. Graças a Deus ela está bem!
Margha começou a despertar lentamente. Porthos a colocou na cama. Ela abriu os olhos devagar e olhou ao redor, como procurando algo. A voz de Mae a trouxe de volta:
— Minha querida, lembra do que aconteceu?
Margha sentou-se e reuniu os pensamentos. Disse então:
— Senti um chamado muito forte. Algo me puxava, mas não tive medo — era familiar. Uma voz doce, como de um anjo. O portal estava aberto e uma bruxa linda me disse que este portal era MEU, e que Malcon está muito perto de mim.
Lágrimas rolaram por seu rosto. Mae a abraçou com ternura, com os olhos cheios de lágrimas e alegria:
— Minha doce criança, seu momento chegou. Hécate, sua mãe, falou com você! Seu irmão está realmente muito próximo.
Todos se sentiram aliviados por saber que se tratava de uma manifestação da mãe de Margha. Mas Porthos não estava inteiramente tranquilo — e com razão. Enquanto a voz da mãe se fazia ouvir, havia também outra presença ali, observando. Algo que não queria que ele a protegesse.
O vilarejo era sereno e bonito, com casinhas coloridas e telhas vermelhas, ruas de paralelepípedo e uma praça arborizada. Um jovem alto, de cabelos escuros e pele clara, observava tudo com admiração. Precisava encontrar onde se hospedar. Avistou um estabelecimento acolhedor e aproximou-se. Perguntou à senhora que o recebeu:
— Boa tarde. Poderia me indicar onde há uma pousada? Preciso de um quarto.
A mulher sorriu:
— Não é daqui, pois não? Que sorte a sua — isto é pousada e restaurante, e tenho um quarto vago. Qual é seu nome, jovem?
— Karl Smith.
Ele sorriu e assinou o livro de registro. A anfitriã perguntou:
— Veio a passeio conhecer nossa região?
Karl olhou para frente e sorriu de forma misteriosa:
— Vim procurar um tesouro.
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