Entre Mundos

4 CAP 03 – Um encontro Surpreendente


Notas iniciais
Perdoem os errinhos ... foi a pressa ... Boa Leitura!

A praia estava lindamente colorida de tons alaranjados e rosados; o sol avermelhava o céu como um imenso incêndio, evidenciando que o dia estava findando, e as ondas lambiam a areia suavemente. Margha contemplava a paisagem na tentativa de encontrar alguma paz, mas não conseguia. Apesar de sempre contemplar a paisagem e de, algum modo, ela lhe fornecer algum tipo de consolo, isso estava muito longe de acontecer.

A vida passou e ela mal podia acreditar que o tempo voou. Pensava incessantemente que precisava encontrar seu irmão. Onde ele estava? Será que está morto? Não queria nem pensar em tal coisa. Mas se estiver vivo, como o identificaria? Sentia que tudo à sua volta escorria por entre os dedos e que nada podia fazer para mudar essa realidade. Apertou os olhos para afastar sentimentos negativos; não podia deixá-los se materializarem, pois isso traria outros problemas. Aprendeu com suas vivências que precisava controlar tais sentimentos — ou, do contrário, eles trariam muitas consequências nocivas.

A verdade é que a garota cresceu e se tornou uma jovem com uma beleza que parecia ter saído dos sonhos. Seus cabelos negros e longos caíam ondulados ao longo de seu tronco; os olhos expressivos de âmbar lembravam dois topázios; tinha um nariz afilado e uma boca pequena e bem desenhada, um corpo esguio e curvas delicadas. Seu porte era de uma delicadeza primorosa, e sua bondade era tão intensa que os elementos da natureza e os animais à sua volta a reverenciavam.

À medida que crescia fisicamente, seus poderes aumentavam. Aprendia a controlá-los, e os diários de sua mãe a ajudaram muito nesse aspecto. Descobria como trazer coisas à vida, bem como levá-las de volta ao seu mundo novamente. Mas tinha um amigo do qual não conseguia se afastar: viveu muitas aventuras com Porthos. Sua maestria em esgrima a ajudou a se livrar de bruxos menos poderosos que atentaram contra sua vida, e a amizade entre os dois só se fortalecia cada vez mais.

O despertar de seus poderes mágicos e o desenvolvimento deles atraíram muitos bruxos e magos que adentravam, por meio de seus portais, o mundo da bruxinha, na tentativa de detê-la, para que ela não alcançasse tal domínio e pudesse controlar todos os outros em todos os portais e dimensões, sobressaindo-se como a bruxa mais poderosa. Mesmo sendo desafiada e sempre correndo riscos, ela não perdia a esperança de encontrar seu irmão em alguns desses portais que se abriam. Olhou a paisagem à sua volta e observou, ao longe, uma garota colhendo conchinhas na areia. Almejava muito conhecer alguém “normal”. Apurou o passo para alcançar a moça misteriosa na enseada e ergueu a voz:

— Ei! Você… Espere!

Falava com a voz entrecortada pela agitação de querer se aproximar da garota que colhia búzios. A moça se assustou ao ouvir a voz vindo em sua direção e ficou petrificada ao se deparar com outro ser naquela praia. Todos diziam que era uma enseada particular, mas que ninguém nunca vira uma alma viva por ali. Piscou os olhos algumas vezes para se certificar de que não era miragem e riu de si mesma ao constatar que essas ilusões costumam acontecer em desertos por causa da desidratação — e esse não era o caso. Endireitou-se, virou-se em direção à voz e disse:

— Oi! Eu não quis invadir a propriedade. Sei que é particular, mas aqui as conchas são mais bonitas e maiores.

Olhou para a outra, tentando se justificar por estar ali. Sabia que tinha invadido e poderia sofrer as consequências de tal ousadia. Baixou o olhar por ter sido pega de surpresa. Ao longo dos anos, sempre ia àquela enseada para ficar sozinha, colher búzios e pedrinhas coloridas. Sempre diziam que ali morava um velho rabugento que afugentava quem se atrevesse a entrar em suas terras, por isso sempre procurava ser muito cuidadosa para não ser vista. Hoje, porém, falhou. Mas quem estava à sua frente não era um velho, e sim uma garota tão bela que mal conseguia descrever tal beleza — parecia uma fada. E aquela criatura celestial tornou a falar:

— Não se aflija, fique tranquila. Como você se chama?

Sua voz era aveludada, como a voz de um anjo — não que ela já tivesse ouvido um, mas se ouvisse, seria assim. Os olhos de âmbar a miravam com doçura. Quando tentava encontrar palavras para responder, um homem corpulento, de gestos altivos, colocou-se entre as duas e, com a espada em punho apontada para a visitante, exclamou:

— En garde!

A garota de cabelos negros pousou suavemente a mão sobre a mão do homem, com aquele sotaque peculiar, e apressou-se em acalmá-lo. A menina com as conchas na mão ficou petrificada de medo ao ver aquele homem de modos tão peculiares e hostis e temeu por sua vida.

— Calma, Porthos. Ela é apenas uma moça colhendo búzios na praia. Quero conhecê-la melhor — sorriu com ternura para o amigo, que guardou a espada de volta à cintura com um largo sorriso. Margha olhou então para a jovem, ainda assustada, e perguntou:

— Qual é o seu nome? De onde você é?

— Me chamo Kelly — disse, tentando reunir coragem para que a voz não falhasse. Pigarreou e completou: — Estou de férias no vilarejo, aqui perto, com minha avó. Ela mora há muitos anos ali.

A bruxinha ouvia tudo com entusiasmo; nunca havia convivido com pessoas do vilarejo e tudo isso parecia muito emocionante. Sorriu e se apresentou:

— Me chamo Margha. E moro naquela casa — apontou para a propriedade, ainda distante. Foi então que percebeu que já escurecia e precisava voltar para que sua preceptora não se preocupasse. Conseguiu compreender os sentimentos da jovem à sua frente e sabia que ambas precisavam voltar para casa. Então, disse:

— Precisamos ir. Mas volte amanhã, para conversarmos mais e nos conhecermos melhor.

— Com certeza! Vai ser tão bom ter alguém da minha idade para conversar — Kelly sorriu, animada. Despediram-se com a certeza de que seria maravilhoso ter uma amizade nova e diferente. Cada uma seguiu então seu caminho de volta para casa.



O sol já brilhava forte, cheio de luz própria de um dia de verão. Kelly estava radiante, ajudando a avó em tudo, com uma animação contagiante. A senhora mais velha a observava sorrindo, sabendo que toda aquela energia tinha um motivo: poder sair e explorar a praia em busca de tesouros simples. Ou seria alguém? Balançou a cabeça com um sorriso. Sabia que a neta ainda não despertara para esses sentimentos — ainda! Kelly cumpria cada tarefa com esmero e cantarolava enquanto trabalhava.

Sua avó sempre dizia que o mundo era cheio de magia e encanto; bastava saber olhar. Kelly era uma menina luminosa, de cabelos castanhos e lisos que caíam sobre os ombros, pele bronzeada, olhos castanhos vivos e curiosos, nariz pequeno e delicado, lábios rosados e estatura pequena. Sempre alegre e curiosa, adorava ler sobre fadas, gnomos, castelos e mundos fantásticos. Mal sabia ela que estava mais perto desse mundo do que imaginava.

— Terminei, vovó! Posso ir até a praia agora? — perguntou, mal podendo esperar. A senhora sorriu e acenou que sim.



No quarto, a ansiedade de Margha era grande. Queria descansar um pouco das longas horas de estudo, leituras e treinamentos sobre como se portar em outras dimensões — e, acima de tudo, queria continuar buscando pistas sobre seu irmão. Olhou pela janela, mas sem conseguir se concentrar. Foi quando Porthos entrou de forma um pouco brusca no quarto e a olhou com uma expressão preocupada. Ela, percebendo seu pesar, olhou-o de soslaio e disse com bom humor:

— Fala logo, Porthos, o que te aflige!

O homem hesitou, mas acabou falando:

— Minha querida, não deveria se expor assim. Essa garota pode ser uma armadilha, bem planejada… e você baixaria sua guarda… Meu Deus, prefiro nem pensar nisso! E a propósito, a senhora Mae já sabe dessa amizade e desses encontros?

Margha entendeu toda a preocupação do amigo — sabia que era justa, diante de tudo o que já haviam vivido. Mas Kelly não representava perigo algum. Sentiu sua aura: era humana, sincera e luminosa. Isso só aumentou sua vontade de conhecê-la melhor.

— Fique tranquilo, meu bom amigo. Não é armadilha, pode ter certeza! Consegui ler nela o que é verdadeiro. Se fosse uma bruxa ou algo assim, teria se protegido de mim. E além disso, tenho você, meu fiel escudeiro, para me defender — sorriu, divertida. — E quanto à minha mãe… falarei sobre ela quando for o momento certo. Por enquanto, esse será nosso segredo! Agora, vamos logo, ela já deve estar nos esperando!



O sol brilhava alto no céu azul. Era uma tarde belíssima. O mar tinha tons de anil e a areia era macia e dourada. As duas garotas estavam sentadas, rindo e conversando como se fossem amigas de toda a vida. Porthos observava de perto, ainda atento, mas com o coração mais leve. Algo lhe dizia que aquela menina era de confiança. E foi então que Margha perguntou, cheia de curiosidade:

— Como é viver no vilarejo? Como é sua avó? E os moradores? — Foram tantas perguntas que Kelly nem sabia por onde começar. Na verdade, ela também tinha muitas perguntas sobre aquela garota que mais parecia uma fada do que uma pessoa comum. Organizaram as ideias e Kelly sorriu:

— Por onde começar… Bem, morar em um lugar pequeno é tranquilo, mas é também bem previsível. Acabamos conhecendo a rotina de todos. Conhecer vocês foi a coisa mais emocionante que me aconteceu nessas férias. Na verdade, não moro aqui; venho passar os verões com minha avó desde que era bem pequena. Ela é o melhor do mundo para mim. Mesmo que a vida aqui seja simples, amo estar com ela — riu, com carinho.

Porthos ouvia tudo com atenção. Ele e Margha viviam afastados do mundo, e ouvir sobre a vida lá fora os enchia de uma alegria renovada. Então Kelly sorriu e disse:

— Agora é a minha vez de saber sobre vocês!

Olharam-se, sem saber bem o que contar, sem assustar a nova amiga. Margha sorriu, suave:

— Bem… moro aqui desde que nasci. Minha mãe faleceu quando eu era bem pequena — fez uma pausa, e Kelly pousou a mão sobre seu ombro com ternura. Margha sorriu e continuou: — Mal me lembro dela. Fui criada pelo meu avô, mas foi minha Babá quem realmente me educou e cuida de mim como uma mãe. E Porthos é um amigo querido da família, que sempre esteve ao meu lado. Gosto muito de ler, de pintar… minha vida é bem tranquila, na verdade, bem parecida com a sua aqui no vilarejo.

Kelly a observou, fascinada:

— Você é uma fada, não é? Ou algo assim? — corou, envergonhada. — Desculpe a minha curiosidade, é que você parece ter saído de um conto de fadas. Se não for, por favor, não se ofenda!

Margha olhou para Porthos, que sorriu em resposta, e depois voltou seu olhar para a nova amiga:

— Sou uma bruxa. Mas não daquelas de histórias assustadoras — sorriu, com doçura, e olhou-a com seriedade. — Mas isso, Kelly, é nosso segredo. Não pode contar para ninguém, nem para sua avó. É muito importante que assim seja, para que possamos continuar nos encontrando.

Kelly ouvia tudo com os olhos brilhando. Seu desejo de viver algo extraordinário parecia ter se tornado realidade.

— Prometo! Será nosso segredo — disse, emocionada.

Margha estendeu a mão. Porthos, compreendendo o gesto, colocou a sua sobre a dela e fez um sinal para que Kelly fizesse o mesmo. Então as três mãos se uniram e disseram, juntas, o lema que Margha amava desde criança:

— Um por todos e todos por um!

Riram juntas. E assim, com aquele segredo selado, nasceu a aliança dos três amigos: os Três Mosqueteiros.