Entre Mundos
2 CAP 01 – Torre de Marfim
Notas iniciais
Verão de 1987
A chuva chicoteava impiedosamente a janela do quarto, enquanto um uivo fúnebre se esgueirava pelas frestas de madeira. Relâmpagos iluminavam o cômodo, seguidos pelo estrondo dos trovões. Na cama, uma garotinha estava encolhida, com a cabeça apoiada nos joelhos, tentando se esconder daquela tormenta. Chorava baixinho, e os soluços apertavam sua garganta. Podia ouvir o próprio coração pulsando nos ouvidos.
Nesse ínterim, uma senhora abriu a porta e encontrou a menina toda encolhida. Aproximou-se da cama. Era esguia e já tinha alguns anos de vida, contudo, sua beleza ainda se destacava: os lindos olhos azuis e expressivos, o nariz afilado e a boca fina e delicada. Seu rosto exibia apenas algumas marcas de expressão, e os cabelos negros tinham poucos fios brancos, que lhe acrescentavam charme. Sentou-se na cama, tocou levemente a cabeça da criança e falou ternamente.
— É apenas uma tempestade de verão. Logo vai passar... — disse, afagando os cabelos da menina, numa tentativa de confortá-la e encorajá-la a vencer o medo. Nesse instante, a garota ergueu a cabeça, revelando o rosto levemente inchado e os olhos rasos d’água. Olhou ao redor, como se procurasse algo ou alguém, mas o quarto continuava exatamente como antes. As paredes brancas tinham lindos detalhes de flores cor-de-rosa; havia um toucador rosa-chá e um espelho emoldurado por um belo parreiral, com borboletas e pequenas flores ao redor. O guarda-roupa branco tinha puxadores em forma de joaninhas. Todo o ambiente parecia saído de uma floresta encantada: era lúdico e muito bonito.
A menina continuava procurando algo com os olhos, mas Dona Mae não conseguia enxergar nada. Como que por reflexo, a mulher também olhou ao redor e perguntou:
— O que está procurando, Margha? — perguntou, olhando-a ternamente. A menina enxugou as lágrimas com a manga da camisola, fungou e respondeu com a voz embargada:
— Um homem!
Ela apontou hesitante para as vidraças. Temia que sua preceptora não acreditasse nela, dissesse que estava sonhando ou que o medo a fazia ver coisas. Imaginava que Mae lhe traria leite quente com biscoitos para ajudá-la a voltar a dormir. Surpreendentemente, porém, a mulher fez outra coisa: inclinou-se para ficar na altura dos olhos de Margha, fitou-a com atenção e perguntou:
— Como era esse homem? Descreva-o para mim. — A garotinha piscou algumas vezes, tentando assimilar a pergunta de Dona Mae. Seus olhos âmbar encontraram os da babá. Margha procurou organizar os pensamentos e explicar tudo em detalhes. Precisava que alguém a ajudasse e confirmasse que não estava enlouquecendo nem tendo miragens. Sabia que aquilo não era um sonho: era real. Respirou fundo e começou a narrar o que acontecera.
— Essas pessoas que vêm ao meu quarto, pedindo ajuda, ou que me levam até elas, não apareceram só agora, Bô. Eu fujo delas; elas me assustam. — Falava com carinho com a babá, a quem chamava intimamente de Bô; só ela usava esse apelido. A aia a escutou sem demonstrar surpresa e apenas acariciou a bochecha da menina, incentivando-a a continuar.
A narrativa foi ganhando detalhes. O homem que Margha vira pouco antes de sua ama entrar era alto e corpulento, tinha olhos castanhos, bochechas rosadas e um ar jovial. Usava um chapéu de abas largas e roupas muito diferentes, incluindo um casaco de veludo vermelho que chegava até as botas, estas na altura dos joelhos. À cintura, trazia um florete. Parecia ter saído de uma página de uma história de Alexandre Dumas. Ele tentara falar com a menina, mas, assustada, ela se esquivara e se encolhera, escondendo a cabeça. Ao terminar o relato, olhou para Dona Mae e concluiu:
— Foi quando você entrou no quarto. — A garotinha observava o rosto da senhora, que a escutara atentamente, tentando perceber se acreditara em suas palavras. Então, Mae se levantou da cama, caminhou até a janela e voltou o olhar para a menina antes de falar solenemente:
— Minha doce criança, chegou o momento de conhecer sua verdadeira natureza e seu passado. Você precisa saber quem foi sua mãe. — A garota ficou atônita com a declaração. O que Bô pretendia dizer? O que havia para ser revelado? Margha não conseguia organizar os pensamentos, mas aquelas palavras faziam sentido: não sabia nada sobre os pais nem sobre qualquer outro parente. Conhecia apenas Dona Mae, que cuidava dela e lhe dava aulas particulares, e o avô, um sujeito ranzinza que raramente procurava a neta.
Margha vivia isolada de tudo e de todos, em um quarto no alto de uma propriedade afastada da cidade, às margens de uma praia de difícil acesso. Era essa a vontade do homem que a criava: ele não gostava de contatos sociais e, agora, precisava esconder a aberração que a filha lhe deixara como um presente de muito mau gosto. Antes, tivera de esconder a própria filha; agora, a neta.
A governanta voltou para perto da cama e sentou-se novamente. Segurou com ternura o rosto de Margha, sorriu gentilmente e disse:
— Tenho comigo um baú que sua mãe me pediu, como último desejo, que lhe entregasse quando chegasse este momento. — Os olhos da mulher adquiriram um brilho diferente. A garota a encarava, espantada. Nunca vira a babá com uma aura tão iluminada! A luz parecia clarear tudo ao redor. Margha piscou e esfregou os olhos, tentando despertar de um sonho. Curiosa e surpresa, perguntou:
— Bô, onde está esse baú? E o que você sabe sobre minha mãe? — Margha olhava para ela, fascinada e cada vez mais ansiosa por saber sobre seus pais. Mae tomou a mão da menina e a conduziu até um quarto que estava muito tempo abandonado. A mulher já não estava iluminada, mas a garota sentia claramente a energia que emanava de seu corpo e se encontrava com a sua, como se pudesse se alimentar daquela aura. Margha entrou no cômodo coberto de poeira, sinal de que ninguém estivera ali havia anos.
A garota olhou ao redor, curiosa e perplexa. Como nunca tivera vontade de entrar ali? Sempre explorara sorrateiramente todos os cômodos da mansão, sem que ninguém percebesse. Pensando bem, quase todos: faltava aquele. Passou as mãozinhas pela escrivaninha empoeirada, onde havia um bloco de notas, um vaso que não via uma flor havia muito tempo e um porta-retratos. Nele, uma jovem sorridente, linda, de olhos verdes e expressivos, cabelos negros ondulados, nariz delicado e lábios rosados. Margha limpou a poeira do retrato e se emocionou ao perceber que aquela era sua mãe. Olhou para Dona Mae e apontou para a fotografia. A mulher respondeu ao gesto:
— Sim, querida, esta é sua mãe! Seu nome era Hécate. Ela amou vocês dois desde o momento em que soube da existência de ambos. — A garota olhou para a aia, sem entender a afirmação, e perguntou:
— Como assim, nós dois? Sempre estive sozinha nesta gaiola dourada, nesta torre de marfim. E agora você me diz que tenho um irmão ou uma irmã por aí? — Havia certo ressentimento em sua voz diante daquelas revelações. Mae atravessou o quarto, entrou no closet e chamou a menina com doçura:
— Venha, criança, veja o baú. Você acabou de completar dez anos e, somados aos acontecimentos que me contou, isso mostra que já está crescida o bastante para entender o que sua mãe tem a lhe dizer por meio desta arca. Você também precisa saber que tem um irmão gêmeo. O nome dele é Malcon. Houve um acontecimento marcante que separou vocês quando ainda eram bebês, acredito que as forças mágicas achavam muito perigoso que os dois ficassem juntos.
Margha ouviu tudo, surpresa, e começou a pensar em como encontraria o irmão e sairia daquela prisão. Sua cabeça girava com tantas informações. Nesse momento, seus olhos âmbar se iluminaram. Ela sentiu o poder emanando do objeto, que parecia estar misticamente ligado a ela. A energia era familiar e acolhedora. Percebeu então que aquela força estivera presente, guiando-a desde os acontecimentos iniciados meses antes, por ocasião de seu aniversário. O medo que antes sentia deu lugar a uma enorme curiosidade sobre a mãe e sobre tudo o que estava acontecendo.
Inclinou-se sobre a canastra de madeira envelhecida. A tampa tinha entalhes florais e o nome Hécate gravado em relevo; um enorme cadeado acobreado a mantinha fechada. Talvez ali houvesse pistas sobre como encontrar o garoto que era parte dela. Margha ergueu os olhos, inquisitiva, e murmurou:
— E a chave? Como vou saber o que há dentro se está trancado? — A preceptora sorriu ternamente para a menina impulsiva à sua frente.
— Está aqui! — disse, apontando para a chave presa a um cordão de prata em volta do pescoço. A peça era muito ornamentada e tinha o mesmo tom acobreado da aldrava. Mae retirou o cordão e estendeu a chave à garota, ajoelhada diante do baú.
Com as mãos levemente trêmulas, Margha pegou a chave, encaixou-a no cadeado e a girou. Com um clique, o fecho se destravou, e ela abriu o baú. Lá dentro, encontrou objetos pessoais, fotografias, um cordão com um grande pingente de ouro no qual estavam entalhados um lobo e duas serpentes entrelaçadas, um belo cristal e muitos diários. Sentiu vontade de ler cada um deles para conhecer melhor a mulher que lhe dera a vida. Dona Mae a observou com ternura, interrompeu seus pensamentos e disse:
— Já está muito tarde, querida. Você precisa descansar. Amanhã teremos muito o que conversar sobre sua mãe e sobre quem você é. — Mae beijou o alto da cabeça de Margha. A menina sorriu com o carinho, olhou ternamente para a babá e assentiu.
(...)
Deitada na cama, Margha não conseguia dormir. Pensava em tudo o que acontecera naquela noite e em todas as revelações que ouvira. De repente, assustou-se com um estrondo vindo do closet. Levantou-se, ainda vacilante, e foi até o local de onde viera o som. Mais uma vez, o mesmo homem que vira antes estava em seu quarto. Com receio, perguntou-lhe:
— Você é real ou é um fantasma? — Ela o observava sem pestanejar. O sujeito, por sua vez, fez uma vênia graciosa e respondeu, divertido:
— Bonsoir, Mademoiselle! Não sou fantasma, pelo menos espero que não! — disse, tornando a colocar o chapéu engraçado no alto da cabeça.
— Então é fruto da minha imaginação?
— Com todo o respeito, Mademoiselle, não sou fantasma, fruto da sua imaginação nem coisa parecida. Sou o grande Isaac de Porteau, da guarda pessoal do rei da França! — declarou, estufando o peito. A menina não conseguiu conter o sorriso diante de tanta afetação. Ele tornou a falar:
— Foi você quem me chamou e me trouxe para cá, querida! — Margha paralisou ao ouvir aquilo. Não chamara ninguém; apenas lera os livros da biblioteca, como sempre fazia. Então, de repente, lembrou-se de que tudo começara dois meses antes, em seu quarto, no dia do aniversário, enquanto lia o livro Os Três Mosqueteiros. Naquele mesmo dia, sentira uma luz e uma energia saírem do livro e, assustada, jogara-o para longe. Com medo, não quisera mais pegá-lo. Saiu do closet e foi até o livro, que estava debaixo da cama. O homem a seguiu e perguntou à garota:
— O que está procurando aí embaixo, criança? — perguntou o sujeito, olhando-a com curiosidade. Ela se ergueu debaixo da cama com o livro nas mãos e respondeu, eufórica:
— Devolvê-lo para dentro da história, para que você possa voltar à sua vida! — respondeu alegremente, embora não soubesse como fazer isso. Então se lembrou do baú e pensou, com uma fagulha de esperança, que talvez os diários contivessem as respostas de que precisava.
Fale com o autor