Entre Mundos
2 Capítulo Um
Notas iniciais
Theresa
3406, Período 2
Kepler-186f, 492,50 anos-luz da Terra
Manthos
Carthago, Divisão Militar
Humana. É a melhor palavra que pode descrever-me perfeita e exatamente, em um mundo onde não é permitido ser humano. Ou em palavras melhores, é um crime ser humano.
Creio que no fundo todo mundo tem uma verdade assoladora escondida sobre si, seja ela grande ou pequena, boa ou ruim. E essa é a minha, que me atormenta e me persegue diariamente, até nos sonhos – ou pesadelos. Dia após dia, hora após hora. E não posso fazer nada senão aceitá-la e conviver com ela, escondendo-a na parte mais funda do meu ser.
A visão que tenho a partir da enorme porta de correr de vidro é um triste e amargo lembrete diário disso, um cruel lembrete da sociedade aparentemente “perfeita” em que vivo. Mas todos sabem que ela não é tão perfeita assim. Nada é sempre tão perfeito quanto aparenta. A sociedade deste planeta, Kepler-186f ou simplesmente Kepler, é fria, calculista, sem emoções e extremamente materialista. Quem não é assim, passa pelo processo chamado Modificação aos quinze anos. E há, também, aqueles como eu – que mesmo depois de Modificada, sinto as emoções. Sinto-as cem vezes mais forte; continuo tendo um coração. Sou Humana. Um erro. Algo que nunca deveria ter sido criado.
Sentada em uma cadeira, com as pernas cruzadas e tomando um chá morno, assisto à noite se aproximar lentamente da cidade. Manthos, mesmo sendo organizada com seus vários Andares, é uma cidade diversificada e iluminada. Mesmo à noite, a cidade mantém-se acordada com suas luzes brilhantes e coloridas que nunca apagam, luzes que ofuscam e cortam caminho pela escuridão. Gosto dessa cidade. Mesmo com todos seus defeitos. É em pensamentos como este, sobre quão iluminada e colorida a cidade é à noite, que consigo esquecer por um breve momento os pensamentos sobre minha humanidade. Mas este leve alívio não dura muito tempo, pois alguns minutos mais tarde estes pensamentos cruéis voltam a me atormentar.
A única pessoa viva que tem conhecimento de meu segredo está, neste momento, em um hospício. Com todos os meus anos vividos aqui, na parte mais profunda do Carthago, eu entendo e tenho total e plena consciência do que este segredo causaria se revelado. É um segredo perigoso, que causaria a minha morte. Então faço o possível para mantê-lo bem escondido, enterrado nas profundezas do meu ser. E ele morrerá comigo.
Kepler-186f faz parte de um sistema planetário de cinco planetas que orbitam uma estrela-anã vermelha, como é classificada, e todos os planetas são muito próximos uns dos outros, tornando-os visíveis à nós, à população do 186f. É uma visão espetacular ver os planetas tão próximos no céu, que vão desaparecendo ao longe. Este é um de meus passatempos preferidos; ficar observando os planetas e fazer mil perguntas sobre eles, sobre outros sistemas planetários que existem, sobre estrelas, sobre o universo, em minha cabeça que nunca serão respondidas.
Gosto de pensar, ou melhor, sonhar que em algum lugar existe uma civilização onde as pessoas sejam livres de todas as maneiras possíveis; livres para viver, livres para pensar, livres para fazer o que quiserem. Porque nós estamos muito longe disto.
E é sonhando com um lugar assim que pego no sono, depois de terminar meu chá e ficar me revirando na cama por um longo tempo.
***
Sou acordada pelos raios quentes de sol que atravessam a porta de vidro da sacada e esquentam a minha face, um toque gentil como dedos que acariciam uma bochecha. Abro meus olhos lentamente e constato que o céu lá fora é límpido e claro; seria o tipo de dia perfeito para Andrômeda, minha mãe adotiva, fazer um piquenique. Ela adora, embora não o faça mais com tanta frequência.
Não preciso olhar para o relógio digital ao lado da cama pois Io, meu “robô”, me informa assim que abro os olhos que horas são. São oito e meia da manhã.
Quando passamos pela Modificação aos quinze anos, é implantado um chio altamente desenvolvido em nosso cérebro, que o transforma em uma espécie de computador na cabeça. E todos temos o “robô”, como é chamado – embora não tenha um nome apropriado –, que “opera” o “computador”. Quase todos têm nomes, e o meu se chama Io.
Hoje é o típico dia de treinamento. Quente, agradável – embora eu esteja atrasada. Em poucos minutos escovo os dentes, jogo uma água fria no rosto e passo alguns minutos em frente ao meu guarda-roupa em busca do que vestir. Não tenho uma enorme variedade de roupas e elas também não são muito coloridas, o que me deixa sem muitas opções. Meu cabelo loiro está terrível, então decido cuidar dele primeiro.
Nós, os Daeryens, somos uma raça que geralmente têm a pele parda e cabelos loiros, cinzas, pretos ou castanhos, embora haja também as exceções. Há pessoas que têm a pele muito escura – o que é mais raro, e é o tom de pele mais bonito que há – ou muito branca, como é o meu caso – albina, como meus amigos brincam –, e meu cabelo também. É loiro, porém bem mais puxado para o branco.
Somos extremamente parecidos com os humanos em quesitos de aparência física. A única coisa que diverge são os olhos; nossos olhos têm a íris branca – com um fino traço escuro ao redor que separa a íris da esclera – e ao redor da pupila há um círculo verde ou amarelo. Os meus olhos – ou melhor, o círculo de meus olhos é azul, e essa é a maior raridade que existe. “Olhos azuis” estavam extintos desde 3275, quando os últimos humanos remanescentes da Terra vieram para este planeta. Porém, ninguém sabe que meus olhos são desta cor. Desde os seis anos uso uma lente que os tornam verdes. Andrômeda e Ulysses, meus pais adotivos, sabiam o quão perigoso isso seria para mim, então Ulysses comprou uma lente verde com o pretexto de que “Andrômeda não gostava de seus olhos amarelos” – e de fato, muitas pessoas usam lentes verdes.
Ouço uma batida na porta de meu pequeno apartamento e a abro enquanto penteio meu cabelo. É Apollo, e ele não parece estar muito paciente.
— Finalmente – reclama. – Bati três vezes antes. Pensei que houvesse morrido enquanto dormia.
— O que – retruco enquanto ele entra e fecha a porta – deixaria você muito, muito triste.
— Ah, certamente, Theresa – ele dá risada e então sorri, e seus olhos brilham.
Os sorrisos de Apollo deixam seu rosto ainda mais bonito e arranca suspiros de todos. Os sorrisos de Apollo fariam até Malia, a antiga e carrancuda Governadora, suspirar. O tipo de sorriso que faz qualquer uma cair aos seus pés.
Ele morde uma maçã e lança um olhar malicioso para meu top de malha e um riso baixo escapa de meus lábios enquanto continuo penteando meu cabelo em frente ao espelho, ou tentando. Nunca tive muita paciência com essas coisas – mesmo quando criança não fazia a mínima questão de andar com o cabelo arrumado, mesmo que Andrômeda brigasse comigo por isso. Apollo percebe minha aflição ao tentar desmanchar um nó terrível e dando risada da minha expressão de irritação, ela larga a maçã, pega a escova de meus dedos e começa a deslizá-la suave e lentamente por meu cabelo, desfazendo os nós em poucos minutos.
— Você tem prática nisso – comento.
— Fazia todos os dias no cabelo de minha irmã mais nova. – ele responde, largando a escova na cômoda ao lado.
Ele continua atrás de mim, acariciando meu cabelo suavemente, e é agradável senti-lo tão perto de mim. O calor que emana de seu corpo é aconchegante. Sinto seus dedos deslizarem suavemente pelas minhas costas, e sei exatamente onde vão parar. Estremeço levemente quando eles chegam nas minhas cicatrizes e ele me abraça fortemente. Ele sabe o que sinto ao lembrar. Apollo deposita um beijo em meu ombro direito e se senta novamente na beirada da cama.
Estou prestes a prender meu cabelo em um alto rabo de cavalo quando o noto me observando atentamente e pergunto, rindo:
— O que foi?
— Nada. Só... nunca vi você de cabelo solto. Está sempre preso. Você fica ainda mais bonita com ele solto assim – Apollo diz, tocando minha bochecha com o polegar.
Um sorriso travesso atravessa meus lábios e solto as mãos de meu cabelo, soltando-o, fazendo cair em ondas.
— Apollo – falo, com um tom zombeteiro na voz, enquanto me aproximo devagar dele – sendo romântico? Nunca pensei que viveria para ver este dia chegar. – completo.
Como ele está sentado, estou um pouco mais alta do que ele, e seus olhos amarelos me encaram com um brilho malicioso, assim como seu sorriso.
— Ah, mas a minha intenção definitivamente não era ser romântico – ele retruca, e seu olhar vai até meus lábios.
Abaixo minha cabeça poucos centímetros, apenas o suficiente para me aproximar dele, e seus lábios tocam os meus lentamente, quase como uma provocação. A sensação de ter seus lábios junto aos meus é inebriante, junto com o aroma que exala de seus cabelos levemente molhados.
Nunca sei a palavra certa para definir Apollo. Não somos namorados, mas quase isso. Apenas sem sentimento algum; apenas desejo e atração. Porém é uma posição em que muitas garotas e mulheres gostariam de estar, pois Apollo é considerado “um pedaço de mal caminho” em todo o Carthago. Ele tem o rosto angular, cabelos pretos e uma leve barba, e seus olhos amarelos são penetrantes.
Posso ver seu sorriso zombeteiro e ele morde meu lábio inferior antes de dar risada, e o som de sua risada é hipnotizante.
— Eu acho que já deveríamos ter descido – falo, quando me afasto dele.
— Você está completamente certa – ele diz, mas não faz esforço algum para levantar-se da cama.
Dou risada e vou até meu guarda-roupa, à procura de algo para vestir. Coloco uma regata cinza, uma calça preta justa e um tênis confortável e por enquanto deixo meu cabelo solto. Resolvo comer alguma fruta e enquanto pego uma maçã – minha fruta preferida – digo:
— Agora você pode, por favor, levantar esse traseiro da minha cama e se mexer?
— E se eu não quiser? – ele articula, rindo.
— Aí eu transformarei isso numa ordem, e creio que você não desobedeceria uma ordem da sua General, não é, coronel? – retruco, tentando soar séria, mas minha tentativa falha pois começo a rir.
Apollo resmunga algo que não entendo, e ele olha para mim e revira os olhos, mas posso ver que também está achando graça, pois o escuto dar risada. Ao passar por mim ele rouba minha maçã e dá uma mordida.
—Você gosta de maçãs – resmungo baixinho.
Tranco a porta e nós dois descemos as escadas rindo, e ele não devolve a minha maçã.
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