Entre Mundos

5 Capítulo 5


Notas iniciais
Olá pessoal! Demorei? Aqui está o capítulo e com ele chegamos ao final dessa história. Espero que vocês tenham gostado e aproveitado. Beijos.

Nada que é bom dura para sempre.

Eu já devia saber bem disso. Outro caso havia surgido no hospital. Uma menininha de seis anos. Por alguma razão desconhecida por mim, a garota havia ingerido alimentos envenenados. A toxidade foi alta demais para o sistema dela e por isso, ela entrou em coma.

Mantive-me afastada o tanto quanto pude. Sem ter que ir ao hospital semana sim, semana não. Sem precisar atravessar aquele limbo, presa a outra realidade. Durantes cinco meses não tive que me preocupar com nada. Foi uma onda incrível de sorte. E agora, a sorte acabou.

É engraçado. Durante todo esse tempo, me senti normal. Eu não era diferente das outras pessoas, não mais. Era só uma adolescente comum.

Mas era a vida de uma garotinha que estava em jogo. Eu não podia simplesmente fingir que nada estava acontecendo. Precisava deixar meus medos e preocupações para depois.

Crianças são mais complicadas. Não é a mesma coisa de tentar achar um adulto. São duas mentalidades completamente diferentes. Se for uma criança mais nova é até mais fácil. Elas não se afastam tanto. Nem tem ideia do que está acontecendo.

Se a criança for uma pouco mais velha, aí complica. Por serem mais velhas, elas entendem o que está acontecendo. E ficam mais assustadas. Especialmente quando veem alguma coisa. E também são ótimas em se esconder em qualquer lugar.

Antes de entrar no quarto, Iara me avisou para ter cuidado. A mãe da menina estava muito sensível e não gostaria nada de ver estranhos perto da filha.

Daniel estava lá, vigiando a porta. Ele tinha insistido em me acompanhar. Disse que não iria me deixar sozinha. Uma vez que eu sempre ficava meio mal quando retornava ao meu corpo.

Sempre sei onde procurar. Não fico vagando a esmo nos corredores, olhando em cada sala. Meus passos se guiam sozinhos até o espírito da pessoa.

Só que dessa vez eu não tinha ideia do que fazer. Não senti nada. Nenhum instinto básico para me mostrar o caminho. Fiquei lá o quanto pude, tentando achar a garota.

Quando acordei, Daniel já estava ao meu lado. Ele me ajudou a levantar da cadeira e teve que sustentar todo o peso do meu corpo. Minhas pernas estavam bambas.

Não havia ar em meus pulmões.

–Ela não vai acordar. – minha voz estava tão fraca que quase não era possível ouvi-la.

Isso nunca tinha acontecido antes. A garota ainda estava viva, mesmo assim, não conseguia trazê-la de volta. E eu não sabia o que mais poderia fazer.

Saímos do hospital e Daniel teve praticamente que me carregar. Eu estava completamente apoiada nele. Estava tonta demais e minha visão ainda estava embaçada. Fomos caminhando até a casa dele, por ser bem mais próxima do que a minha.

Me perguntei se era assim que alguém ficava quando bebia. Nunca tive nenhum contato com álcool. Mas me sentia inteiramente bêbada.

Não sei como Daniel conseguiu me segurar e girar a chave na maçaneta, tudo ao mesmo tempo. Quando dei por mim a porta já estava aberta. E ele já me deitava no sofá da sala. Não protestei. Na verdade, não emiti som algum.

–Alice, você está bem? – pisquei várias vezes e com força.

–Estou ótima. – ele arqueou as sobrancelhas para a minha óbvia mentira.

Me levantei no sofá e puxei Daniel para mim. Com uma repentina necessidade de ter a sua boca na minha.

Ficamos assim por algum tempo. Até ele estragar a diversão.

–Não. Não pare. – meio que choraminguei.

–Alice você está fraca.

–Você não vai dizer isso da próxima vez.

–Achei que você não fosse capaz de prever o futuro. – sorri com a confirmação na voz dele.

Me virei no sofá, ficando de costas para Daniel. Precisava mesmo descansar um pouco. E ele ficou ali, sentado no chão. Acariciando o meu cabelo. Pude sentir seus dedos indo da raiz até a metade das minhas costas. Roçando minha pele.

Era bom ter Daniel tão perto de mim. Eu me sentia segura. No entanto, havia algo de errado em nosso silêncio. Nossas mentes se sincronizavam na mesma pergunta. Mesmo que nenhum dos dois ousasse falar.

O que havia dado errado?

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–Talvez seja porque faz muito tempo. Desde a última vez.

Daniel e eu estávamos sentados no banco de uma praça. Eu observava as pessoas passarem. Agradecida pela brisa de fim de tarde diminuir o calor.

–Você pode voltar lá e tentar de novo. – Daniel continuava a falar e eu permaneci em silencio. Estava pensando no fiasco do dia anterior.

–Não vai funcionar. Eu sei.

–Você está dizendo que a menina morreu?

–Não. Ela não... – eu me sentia desesperadamente confusa.

–Alice, eu não entendo. Seus instintos. As suas certezas sobre as coisas. Nada disso.

Como se eu entendesse! Não pedi para ser assim. Não pedi para ser quem eu sou!

Só o que eu sei é que eu quase morri. Que por algum motivo isso me deu um dom sobrenatural. Eu sei que posso ajudar. E agora eu preciso de ajuda.

–Quando percebi o que podia fazer. Pesquisei muito sobre o assunto. Na internet, nos livros. Vivia enfurnada na biblioteca. Lendo sobre experiências de quase morte. Sobre pessoas que tinham ido ao outro lado e voltado.

Me senti dentro de uma tempestade naquele momento. Daniel segurou minha mão. A visão de nossos dedos entrelaçados fez tudo ficar mais fácil. Melhor.

Não havia ar em meus pulmões ou voz em minha garganta. Mas eu precisava fazer. Eu precisava dizer.

–Daniel, eu preciso da sua ajuda. Preciso que você volte lá comigo.

–É claro, Alice. Você sabe que sim.

Eu pude ouvir meu coração batendo em meus ouvidos. Falei cada sílaba devagar. Temendo o seu significado.

–Eu quis dizer, preciso que você vá comigo até o outro lado. Preciso de você na travessia.

–Como? Como eu poderia fazer isso?

–Você é como eu. É claro que pode.

Ele soltou nossas mãos.

–Do que você está falando?

–Só escute, tá legal? Ninguém se lembra de nada quando acorda do coma. Nunca. E isso é bom porque existem coisas horríveis do outro lado Daniel. Verdadeiros demônios. As pessoas não ficam sem ver nada, sem contato algum. Não é assim que funciona. As únicas exceções são... Você e eu. – dei uma pausa, esperando que ele absorvesse toda a informação. – Julgando pelas similaridades. Você pode fazer o mesmo que eu posso.

–Alice, por que você não me contou? Por que não disse nada?

Coloquei as mãos em seu rosto, forçando-o a olhar para mim. Seus olhos verdes estavam cheios de ressentimento.

–Não me odeie, por favor. Eu não queria arrastar você para isso. Já bastava um de nós.

Ele tirou minhas mãos de seu rosto e as segurou nas dele.

–Eu não posso encontrar a garota. Talvez você possa.

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Coloquei os livros de histórias infantis sobre a mesinha de cabeceira. Iara os tinha entregado a mim quando entrei no hospital. Ela disse que se era para fingir ler para os pacientes, era melhor eu fazer direito.

Havia duas cadeiras no quarto da menina, cada uma de um lado da cama. Assumi meu lugar e Daniel sentou-se do outro lado. Era tão estranho tê-lo ali comigo, naquela situação.

Peguei uma das mãos da menina e ele me imitou.

–E se eu não souber o que fazer? – a dúvida preenchia seu rosto. Eu precisava tranquilizá-lo. Era a minha obrigação.

–Vai saber. Esse dom nasceu como você. Do mesmo jeito que nasceu comigo. Você só precisa despertá-lo. Só precisa querer estar lá e não aqui.

Ele concordou com a cabeça.

Fechei meus olhos, concentrando-me em minha respiração. A costumeira eletricidade queimou minha pele, dessa vez mais forte do que eu estava acostumada a sentir.

Quando tornei a abri-los, o corpo de Daniel e o meu se encontravam desacordados sobre as cadeiras. Ele encarava a si mesmo. Sei que é uma estranha e inquietante sensação. Mas eu não podia me dar ao luxo de esperar.

O arrastei pelo braço. Foco. Precisamos de foco.

–Quanto mais tempo passarmos aqui, mais cansados estaremos ao acordar. – me virei para ele. – Daniel, você consegue senti-la?

–Eu... Acho que sim. Tenho a sensação de que preciso chegar a algum lugar.

–Ótimo. Mostre o caminho e eu sigo você.

Caminhamos por alguns corredores. Volta e meia passávamos por alguns espíritos. Daniel desviava deles e eu fazia o mesmo. Eu olhava para todos os lados, receosa. Preocupada em ver algo mais do que apenas pessoas mortas.

Chegamos à parte das salas de administração. No final do corredor, bem mais afastado, ficava o almoxarifado. Era lá que a menina estava.

A encontramos agachada no chão, escondida atrás de uma mesa. Sua cabeça estava entre os joelhos e mesmo sem ver o seu rosto, percebi que ela estava chorando.

Me abaixei para ficar mais perto dela.

–Oi. – falei baixinho. – Seu nome é Júlia, não é?

Ela levantou o rosto para mim. Afastou os cabelos para trás, mas não falou comigo.

–Está tudo bem. – continuei. – Você não precisa ficar com medo.

–Minha mãe me disse para não falar com estranhos. – sorri para a menina.

Daniel se abaixou ao meu lado.

–Você deve estar com saudades da sua família. Principalmente da sua mãe. – ele parecia ter mais jeito com crianças do que eu. – Então, Júlia. O que acha de a gente voltar? Aí você vai poder ver a sua mãe.

–Vou poder mesmo? Jura? – ela parecia ter ficado animada com a notícia.

Levantou-se na hora, segurando a mão de Daniel. Deixando que ele a guiasse de volta para o quarto. Segui atrás dos dois.

Nem mesmo um minuto havia se passado. Quando senti o frio dentro de mim, estaquei na hora. Precisava que Daniel e Júlia sumissem dali naquele mesmo instante.

–Daniel, você precisa voltar agora. Só vai funcionar se ela estiver perto do corpo. A proximidade é necessária para a conexão. Vá.

–Alice, você não vai voltar com a gente?

Neguei com a cabeça.

–Confie em mim, vai ficar tudo bem. Você vai saber o que fazer. Agora se apresse.

Ainda bem que ele acreditou em mim. Daniel pegou a garota no colo e se afastou com passos rápidos.

O frio dentro de mim aumentou.

Um deles se aproximava, eu podia sentir. Pude sentir a sensação de morte e terror. Pude sentir o medo penetrando em minha pele. A criatura apareceu no corredor, caminhando lentamente em minha direção. Trazia um sorriso sinistro preso nos lábios. Como se eu finalmente tivesse caído em sua armadilha.

Fiquei feliz por Daniel ter levado a menina embora. Por ele não estar ali. Eu não permitiria que aquela criatura assombrasse os sonhos de mais alguém, a não ser os meus.

O monstro era o meu medo. Só meu. E já estava mais do que na hora de enfrentá-lo.

A criatura me encurralou contra a parede. Deixando-me sem saída. Ergueu o braço cheio de cicatrizes para mim. Fechei os olhos. Esperando que toda a minha pesquisa na biblioteca não tivesse sido em vão.

A mão atravessou o meu peito, bem onde deveria ficar o coração. Não senti nada. Foi como se ele nem estivesse ali. Os livros falaram a verdade. Aqueles que estão no mundo dos mortos não podem tocar os que ainda estão vivos.

A criatura retirou a mão, erguendo-a diante de seus olhos. Olhou para mim com fúria e eu me pressionei ainda mais contra a parede. Ele desapareceu diante de mim e eu finalmente pude respirar.

Corri o quanto pude, sem querer ver mais nada. Só parei quando trombei com Daniel, a meio caminho de volta do quarto.

–O que você está fazendo aqui? Achei que tivesse mandado você dar o fora. – falei aturdida.

–Eu sei. Voltei para te buscar. Você estava demorando demais. – ele arqueou as sobrancelhas. – Alice, está tudo bem? Você estava correndo feito uma fugitiva.

–Correr é a minha especialidade. – respondi. – Vamos. Você vai estar morto quando acordar. É terrível quando retornamos aqui em tão pouco tempo.

Assim que voltei ao meu corpo e abri os olhos, inspirei o máximo de ar que pude. Pisquei várias vezes para clarear a visão. Me levantei, indo até Daniel. Ele se abraçou a mim, escondendo o rosto em minha cintura. Afaguei seu cabelo.

–Você está bem? – havia uma clara preocupação em minha voz.

–Só estou cansado. Atravessar tira muita energia.

–Acha que consegue se levantar? – falei com carinho. – Não seria bom sermos pegos aqui. E a menina vai acordar logo.

Daniel se levantou e eu o ajudei a manter o equilíbrio. Nem tivemos tempo de chegar à maçaneta da porta. Uma mulher irrompeu pelo quarto.

–Quem são vocês? E o que estão fazendo com a minha filha? – Iara vinha logo atrás dela. Seus lábios se mexeram, formando um “me desculpe” que só eu pude ver.

Meu cérebro começou a trabalhar. Mentir. E rápido.

–Somos voluntários. – respondi. – Lemos para os pacientes, especialmente crianças. – apontei para os livros de histórias infantis abandonados na mesinha de cabeceira.

–Mamãe? – uma voz infantil soou atrás de nós.

–Júlia? Meu amor, você acordou! – a mulher passou direto por nós, indo em direção à filha. Iara nos deu uma não tão discreta piscadela. E depois nos expulsou do quarto.

–Bem, essa foi por pouco. – Daniel colocou um dos braços ao redor do meu ombro, trazendo-me para perto. Senti um enorme alívio quando ele fez isso. – O que você acha de um sorvete agora?

Sorri abertamente.

–Sorvete parece perfeito.

A partir daquele dia, percebi que havia uma razão para Daniel e eu termos nos conhecido. Estávamos destinados a nos encontrar.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!