POV Kira

Se encontrar a Jennifer no caminho, de um soco nela por mim “ Yukki sussurrou pra mim, antes de eu aceitar ir com a Ruby para sei lá onde.
Ri baixo ao perceber que a garota se mantinha o mais longe possível de mim.
– Sente-se ali – Ela apontou para um cadeira que estava num canto de uma sala, assenti:
– Sabe o que estou fazendo? – Perguntou, neguei com a cabeça.
Ela misturava líquidos coloridos e incolores num tubo de ensaio transparente, eu conseguia ver tudo se misturando e mudando de cor. Senti um cheiro forte de álcool e algo parecido com suco de uva:
– Não se preocupe,não vou te embebedar – Falou – O cheiro pode parecer de bebida alcoólica,mas são só algumas poções
– Pra que?
– Você viu coisas Kira,coisas que não sabia explicar e era muito nova para saber o que significavam – Respondeu,jogando umas três pílulas ou algo do tipo na mistura em uma cor roxa – Eu quero tentar fazer você se lembrar disso, são coisas importantes que podem nos ajudar em...
– Em me controlar? – A interrompi, ela me olhou surpresa e decepcionada – Eu ouvi o que estavam falando...
– Desculpe, eu não queria que fizessem isso... Mas...
– Eu sei,não se preocupe – Retruquei,brincando com um Pêndulo de Newton que estava na mesa do meu lado – Não me importo de verdade, eu só... Não quero causar mais problemas
A Ruiva me encarava triste,ainda misturando coisas no tubo.O único barulho que ouvíamos na sala eram as bolinhas metálicas batendo:
– Vai demorar muito? – Perguntei, ela jogou algo parecido com água no tubo e vi o mesmo borbulhar. Ela pegou e me estendeu o vidro:
– Você vai sentir uma tontura,enjoo talvez.Mas tente se manter sentada e de olhos abertos de preferência
– Por que?
– Você já vai descobrir – Ela sorriu, encarei o tubo em minha mão e o bebi em um gole.
O vidro se quebrou, acho que fiz força demais no punho. Vi os cacos caírem e alguns ficarem presos nos meus dedos,que estavam sangrando um pouco.
O sorriso da mulher morreu,e fez menção de sair da sala.Provavelmente para pegar algum curativo ou coisa do tipo:
– N-Não...Não preciso... – Murmurei, minha garganta estava ardendo e minha visão ficou embaçada. Tudo parecia fazer barulhos altos ou se mexer rapidamente,quando tudo parou e ficou um silêncio perturbador na sala.

Eu só ouvi o pêndulo...

Abra os olhos.
O que?
Abra, agora.

Obedeci.
Uma aldeia, com as estradas coloridas em sangue de monstros.
Guerra?
Tudo passava rápido demais ao meu redor, eu era um fantasma em minhas próprias lembranças.
Vi o mesmo homem andando com um sorriso psicótico no rosto, ele passava entre os seres que lutavam sem interesse algum. Ele queria algo que estava depois do campo de batalha.
Ele caminhou até um Lobisomem que havia acabado de derrubar três Fúrias,apontou um rifle na direção dele e atirou.O Lobisomem desviou,mas a bala passou raspando em seu braço,ele rugiu e pulou em cima do homem.Os dois ficaram rolando pela grama ensanguentada,quando levantaram percebi que o Lobisomem usava um colar.
O humano apontou novamente o rifle para ele,e disparou.Duas balas brilhantes e prateadas atingiram a barriga do Lobisomem,que caiu grunhindo e sangrando no chão.
O monstro começou a mudar e assumiu a forma de uma pessoa,uma mulher com duas balas na barriga gemendo de dor.Ela pegou o colar,e antes que o humano o agarrasse de suas mãos ela o jogou para o alto dizendo “Leve para longe” baixo.
O Lobo de luz apareceu e pegou o colar com a boca,parou alguns segundos encarando a mulher e depois correu floresta a dentro.O homem xingou algo em latim e apontou a arma para a cabeça da mulher,que tinha um sorriso de deboche no rosto.

– Kira? Kira! – Ouvi, coloquei as mãos na cabeça e há sacudi um pouco, abri os olhos e vi Ruby me encarando – Esta bem?
– Claro... – Murmurei, senti algo escorrendo pela minha testa e passei a manga da blusa ali. Sangue,da minha mão provavelmente:
– Tome – Ela me estendeu um copo com algo transparente – É água,sem poções para você por hoje
– O que aconteceu? – Perguntei, bebi a água em um gole e coloquei o copo na mesa:
– Você entrou em alguma memória, o que viu?
–... – Encarei o pêndulo em silêncio, ele ainda batia:
– Kira?
– Um homem contra um Lobisomem, um colar que a mulher jogou pro alto e o lobo o levando pra longe... Eu...Não sei,aquilo não é uma memória minha,não pode ser uma memória minha...
– Estranho...
– Ruby?
– Sim?
– Você... Você estava lá,não estava? Quando a Guerra aconteceu, eu ouvi vocês falando
– Sim, eu estava, por quê?
– Eu quero saber o que aconteceu,o que aconteceu de verdade – Ela desviou os olhos,encarando uma estante de livros -...Quem era aquela mulher?
–...Kira,vá para o seu dormitório e não fale para ninguém do que viu aqui,tudo bem? – Não neguei nem assenti,apenas me levantei e sai da sala fechando a porta atrás de mim.
Aquilo tudo era a Guerra,certo? Uma parte dela, pelo menos... O Lobo pegou o colar,e ele vai me dizer onde está.

POV Zoe

Isso é ruim,muito ruim,muito ruim mesmo:
– Ta de brincadeira né? – Jeff perguntou, Dante negou com a cabeça – MAS QUE MER...
– Não grite, to sem paciência pra escândalos – Yukki interrompeu, Jeff se calou e cruzou os braços:
– Você ta dizendo que a Kira é uma Lobisomem,e que se ela se descontrolar,todo mundo morre? – Jason perguntou,os professores se encararam e negaram:
– Não que todos morram,afinal a garota não é tão forte assim,mas tem grandes chances disso – O professor de matemática disse:
– Então você quer dizer que a Kira pode matar a gente? – Menma perguntou,eles assentiram:
– Legal,a gente ta ferrado – Peter murmurou:
– O que acham que pode acontecer? – Maya encarava Yukki em um misto de desespero e susto:
– Ela fez 16 anos a quanto tempo? – A professora de artes perguntou,como nenhum de nós sabia encaramos Yukki e Maya:
– Ahnn,alguns dias acho – A Esbranquiçada murmurou,coçando a nuca:
– Certo,onde ela esta? – Dante perguntou,Ruby entrou na sala com uma mão na cabeça e suspirou,cansada:
– A mandei para o quarto,por quê? – A Ruiva perguntou,eu e os outros demos um tapa em nossas testas:
– O que foi crianças? – O professor de biologia perguntou:
– Você a mandou pro quarto? Ela não vai obedecer,já deve ter ido pra qualquer outro lugar – Maya respondeu e nós concordamos,Ruby pareceu entender e Dante suspirou:
– Deixem ela – O homem disse – Ela vai voltar,sempre volta
– Queríamos ter certeza disso – Lucy retrucou,saindo da sala.A seguimos até o nosso quarto,Menma abriu a porta e confirmamos o que pensávamos.
Ela nunca obedece.

POV Kira

Corri até o meio da floresta e parei,tentando achar o caminho de antes:
– Que droga,onde isso fica afinal? – Falei, me lembrei da flor de Sakura.
Coloquei minha mão no bolso da jaqueta e vi que a flor não estava mais lá,eu devo ter a deixado cair em algum lugar:
– Ótimo,nunca vou achar o caminho agora – Disse alto,encarei os lados e pensei em qual poderia ser o certo:
– Ahnn,direita? – Segui o caminho com mais pedras,continuei reto até outra intercessão – Quer saber? Dane-se
Comecei a correr pra direção que achei certa,que seria não seguir caminho nenhum.Senti o cheiro daquele chá e parei,olhando para os lados,vi Alex acenando em cima de uma pedra:
– Eu falei que era só seguir o nosso instinto – Ele disse,pulando da pedra e sorrindo:
– Ahnn,você sabe onde aquela mulher esta? – Perguntei,ele me encarou por alguns segundos tentando saber quem seria:
– Amaterasu? – Assenti – Claro,vem – Fui puxada para a caverna e andamos por alguns corredores,até um tipo de salão com grama,flores e uma árvore de Flor de Cerejeiras no centro.
Aquela mulher estava sentada em baixo da árvore,a grama estava mesclada entre verde e rosa:
– Sabia que viria – Disse quando chegamos perto,ela se virou sorrindo – Aceita um pouco de chá?
Assenti e ela me puxou,me fazendo sentar ao lado dela.Amaterasu encarou Alex e ele balançou a cabeça,saindo do local:
– O quer saber? – Perguntou subitamente,encarei minha xícara e senti o olhar dela em mim – Sei que veio para saber algo,o que deseja saber?
– Sobre a Guerra – Ela estava colocando algumas pétalas dentro do bule,parou e ficou encarando o nada – Você sabe sobre ela,não sabe? A Guerra,os doze...
– Quer mais chá? – Perguntou sem emoção,minha xícara ainda estava cheia e ela sabia disso:
– Não
–...A Guerra foi algo horrível,Kira...
– Eu sei,eu vi – Respondi,ela me encarou surpresa – Eu tenho lembranças disso,lembranças de provavelmente toda a Guerra...
–...Lembrança em Alma – Falou tomando um gole de seu chá:
– O que é isso?
– Você se torna uma alma em suas lembranças,um espírito,fantasma,chame como quiser – Respondeu – Bruxos muito poderosos podem fazer este tipo de feitiço,desde que tenha como base algo ou alguém que esteve no local que deseja ter Lembranças em Alma
– Que?
– Alguém te passou memórias da Guerra,ou o Bruxo fez o feitiço com algum objeto que esteve lá – Disse,assenti lentamente pensando no que poderia ser.
O Lobo pegou...
O Medalhão.
– Tem...Tem uma coisa que apareceu na minha memória,era um tipo de colar ou medalhão eu acho... – Murmurei,vi Amaterasu tremer um pouco as mãos e ouvi o chá balançar.Como eu ouvia aquilo?
– Medalhão...? Com quem estava? – Ela parecia tentar se convencer de algo,os olhos fixos nas pétalas que caiam da árvore:
– Uma mulher,ela levou dois tiros de um cara com uma espingarda – Respondi,ela me encarou:
–...Uma mulher,hm? E você se lembra como ela era? – Parei um pouco para pensar:
– Não me lembro de muito,tudo parecia ser feito de tinta,borrões por todos os lados – Ela assentiu – Mas...O tom era diferente
– Sim... – Falou,a encarei confusa:
– O que disse?
– A mulher que você viu,que estava com o medalhão e levou os tiros – Por um momento encarei algumas das pétalas que se desprendiam da árvore e caiam suavemente,flutuando até o chão – Tente vê-la de novo...
As pétalas pararam,o chá perdeu o aroma e tudo ficou borrado.
Eu estava na cena,na mesma cena.A imagem do homem ainda estava borrada,mas não me preocupei com isso.Fixei meu olhar na mulher caída e tentei ao máximo ter uma visão melhor dela.
A imagem ficou nítida,o sorriso debochado e a respiração lenta,os cabelos entre a grama enquanto a mesma era colorida em vermelho vivo pelo sangue que escorria de seu corpo,a calmaria que ela possuía tendo uma arma apontada para a cabeça.
Fechei os olhos esperando o disparo,mas nada veio.Os abri lentamente,pronta para fechá-los a qualquer cena que eu provavelmente não esqueceria tão cedo.O homem com a arma estava caído,enquanto outro segurava a arma,mas não por muito tempo já que ele a bateu contra o joelho e a partiu em dois.Jogou ambas as partes longe,chutou a cabeça do humano caído e ouvi um estralo.
Morto?
Talvez.
O homem encarou a mulher e viu o sangue,gritou algo e a pegou no colo correndo com ela para algum lugar.

– Acorde – Abri meus olhos de imediato,levantei um pouco a cabeça e vi que ainda estava ali,em baixo da árvore de Sakuras:
– O que...O que aconteceu? – Balancei um pouco a cabeça e vi Amaterasu me estender outra vez uma xícara de chá,a peguei e encarei seu conteúdo por alguns minutos:
– Isso esta acontecendo vezes demais em um dia,para alguém não treinado – Ela comentou – Possivelmente você foi induzida a...
– Uma pessoa me deu alguma coisa pra beber,depois eu tive essas memórias estranhas – Respondi aleatoriamente,na verdade eu nem ouvi a pergunta dela:
– Alguma poção de lembrança rápida,eu presumo – Falou – Estas poções não são boas para quem tem memórias bloqueadas ou que lhe foram dadas...
– Espera,como assim bloqueadas? Eu tenho memórias bloqueadas?! – Ela me encarou como se dissesse “É claro,não sabia?” e assentiu levemente – Por que bloquearam isso?!
– Existem coisas que você não deve e nem precisa se lembrar,as da Guerra foram dadas a você por alguma razão,não foram bloqueadas na sua mente
– Esta brincando? – A mulher me olhou sem expressão – Há alguns dias eu estava na minha escola normal,depois fui obrigada a ir para esta escola onde qualquer um pode me matar em poucos segundos.Descobri que tudo o que eu achava que era real,era uma ilusão,uma grande mentira.Se...Se eu tivesse essas memórias eu saberia que era mentira! São minhas lembranças,por que as tiraram de mim?! Eu fui enganada pelas pessoas que eu confiava,e se quer saber,eu não confio nelas agora – Ela continuava sem expressão alguma,enquanto eu estava a ponto de desabar – Eu não quero isso,não quero essas lembranças,não quero saber de nada disso,não quero estes poderes,não quero que mais ninguém morra...Eu quero esquecer...
Me ajoelhei no chão e apertei minhas mãos contra a minha cabeça.Aquelas memórias doíam,saber de tudo isso doía,ver pessoas morrendo doía.
Tudo aquilo doía,e dói.
– Gostaria de passar a noite aqui? – Perguntou,levantei minha cabeça e a encarei,vi o céu escuro pelas paredes de vidro do lugar.Era como se ela tivesse ignorado tudo o que eu disse:
– Não – Respondi,me levantei e caminhei até a entrada:
– Esta tarde para voltar,não acha? – Perguntou de novo:
– Quem disse que vou voltar...? – Sai do salão e andei em direção à saída da caverna,era fácil decorar a saída daquele lugar.Vi Alex em outro corredor,mas não me dei o trabalho de ir me despedir dele.
Sai do corredor e vi a neve,olhei um pouco e consegui ver a silhueta da escola ao longe.Desci a montanha e caminhei na direção oposta,apenas andando,sem pressa.
Eu odeio correr.