Entre Linhas e Sombras
2 O Arquivo Perdido
O laboratório temporário montado para os pesquisadores dentro do Instituto Forense Internacional era silencioso, exceto pelo som dos ventiladores dos servidores e do leve tilintar de teclas sendo pressionadas. Grissom e Sara estavam sozinhos numa das salas restritas, iluminados pela luz fria dos monitores.
— Você já viu isso antes? — perguntou Sara, apontando para o slide que havia aparecido em sua apresentação.
Era uma imagem perturbadora: um corpo feminino em uma posição cuidadosamente montada, cercado por espelhos e fios, com símbolos entalhados no chão ao redor. Havia data e local: Los Angeles, 2007. Mas sem nome. Sem contexto.
Grissom franziu o cenho.
— Isso nunca foi tornado público.
— Você reconhece o padrão? — insistiu ela, voltando-se para ele.
— O símbolo entalhado na madeira… sim. É usado em comportamentos de isolamento ritualístico. Eu vi algo semelhante na Argentina, anos atrás. Mas essa cena parece uma reconstrução. Alguém quer chamar atenção para algo que foi... ignorado.
Sara cruzou os braços, tensa.
— Então não é só uma provocação. É uma mensagem.
— E tem mais — completou Grissom, colocando um pendrive sobre a mesa. — Essa manhã, deixaram isso na recepção do hotel com meu nome. Sem remetente. Sem bilhete.
Sara conectou o dispositivo ao computador. Havia apenas um vídeo. Nele, uma filmagem antiga de vigilância mostrava uma mulher entrando em uma delegacia no sul da Califórnia. A imagem era granulada, mas o rosto dela ainda visível.
Sara congelou.
— Grissom... essa mulher...
— É a irmã de uma vítima nossa de 2005. Você lembra do caso?
— Como esquecer?
O caso envolvia uma série de suicídios encenados que, no fim, foram atribuídos a um único assassino com transtorno de personalidade esquiva. A irmã da última vítima havia desaparecido semanas depois do encerramento da investigação. A polícia não conectou os eventos. Mas talvez devesse ter.
— Ela está viva. Ou estava — disse Sara, ainda olhando para a tela. — E alguém quer que a gente investigue isso agora.
Grissom respirou fundo. Cruzou o olhar com o dela.
— Isso não é mais uma conferência. É um chamado. Alguém está reabrindo o passado com precisão cirúrgica. E está usando a gente como chave.
Mais tarde naquele dia – Café do Instituto
Os dois sentaram-se em uma mesa isolada do café anexo ao instituto. Sara mexia no café sem realmente bebê-lo. Grissom observava os rostos dos outros pesquisadores. Estavam cercados de especialistas, mas um deles sabia demais.
— Você acha que pode ser alguém da conferência? — ela perguntou em voz baixa.
— Se for, é alguém com acesso a arquivos confidenciais. Ou alguém que trabalhou no caso. Ou... um dos nossos.
Sara sentiu o estômago revirar.
— Se for isso, estamos dentro de uma rede de manipulação. E sem saber o tamanho do jogo.
Ele assentiu.
— E não estamos em Las Vegas. Aqui, somos apenas visitantes. Sem jurisdição. Sem rede de apoio.
— Então precisamos agir como sempre fizemos: discretos, metódicos... e juntos.
Houve um breve silêncio. Mas nesse silêncio, algo voltou a vibrar. A familiaridade entre eles, o cuidado mútuo, o jeito como o tempo nunca pareceu suficiente — e agora, finalmente, talvez fosse.
No hotel – Quarto de Sara – Mais tarde
Sara examinava cópias de registros do caso antigo que Grissom trouxera do FBI, usando seu notebook. Imagens dos corpos, perfis psicológicos, transcrições de interrogatórios. A névoa começava a se desfazer, revelando uma linha tênue entre os casos de 2005, o desaparecimento da irmã, e a nova provocação.
Ela ouviu a porta. Grissom entrou, com dois copos de chá nas mãos.
— Pensei que você poderia precisar de um pouco de camomila. E talvez de companhia.
Ela sorriu, cansada.
— A única companhia que me entende quando fico obcecada por pistas.
Ele se sentou ao lado dela no sofá. Durante alguns minutos, trabalharam em silêncio. Até que ela quebrou o momento.
— Grissom... por que você aceitou esse convite de última hora?
Ele demorou um instante para responder. Olhou para ela com um peso sincero nos olhos.
— Porque eu soube que você estaria aqui. E porque... talvez eu tenha me cansado de fugir.
Sara ficou em silêncio. Mas havia algo diferente em seu rosto. Algo mais vulnerável. Mais aberto. Mais pronto.
— Eu também me pergunto há quanto tempo estou só sobrevivendo.
Ele tocou a mão dela. Um gesto simples. Mas ali, no meio da ameaça crescente, das sombras do passado e do risco iminente, esse toque era abrigo.
Na tela do notebook, uma imagem piscou.
Um e-mail novo. Sem remetente. Apenas um título:
"Próxima chave: 731 Pine Street. Amanhã. Sozinhos.”
O jogo tinha começado.
E desta vez, o perigo era pessoal. E inescapável.
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