Entre Linhas
4 O Chamado das Pedras
Como?
A pergunta martelava em meus pensamentos enquanto observava a porta do quarto, agora apenas uma estrutura de madeira comum, recusando-se a ser um portal. Meus dedos tremiam ainda pressionando as páginas do livro maldito.
Por que não funcionou?
Então veio a tona, doloroso como uma facada:
"Só funcionará se você desejar voltar com toda sua alma"
O livro exigia desespero, um anseio visceral pelo lar.
E eu não desejava. Não verdadeiramente. Desde que chegara a esta época estranha, uma parte de mim — a parte que sempre sonhara com aventuras — estava fascinada. O cheiro de pão fresco nas padarias, o tilintar dos sinos das carroças, até mesmo o medo constante de ser descoberta... Tudo isso me mantinha presa aqui tanto quanto o feitiço do livro.
Duas Semanas Depois
A cidade revelava seus segredos a mim lentamente. Naquela manhã, enquanto acompanhava Celeste ao mercado, meus olhos foram irresistivelmente atraídos para as torres do castelo que dominavam o horizonte.
Até logo — menti para Celeste, desaparecendo entre a multidão antes que ela pudesse responder.
Minhas botas ecoavam nas pedras centenárias da Rua dos Ourives, cada pedra um testemunho silencioso de séculos de histórias sussurradas. O sol brincava de esconde-esconde entre as nuvens, lançando sombras fugidias que pareciam sussurrar segredos.
Em uma esquina deserta,
Preciso de um nome, pensei, girando uma moeda entre os dedos. Algo que não me prenda, mas que também não me delate.
Cara... ou coroa? — sussurrei para mim mesma quando...
Os gritos cortaram o ar como vidro quebrado, antes que a moeda caísse.
Meu corpo congelou. O som vinha de um beco — gritos abafados, o ruído de tecido rasgando. Quando me aproximei silenciosamente, a cena que se desenrolou fez meu sangue gelar:
Uma jovem de vestido azul-claro, não mais velha que dezesseis anos, lutava contra uma figura encapuzada. Seus olhos — tão azuis quanto seu vestido agora manchado — encontraram os meus. Neles havia um pedido silencioso mais eloquente que qualquer grito.
A figura encapuzada a arrastava para uma carruagem preta, seus cavalos inquietos batendo os cascos contra o calçamento. Antes que pudesse pensar nas consequências, meu corpo se moveu sozinho. Enquanto o sequestrador lutava para dominar a garota que se debatia como um animal encurralado.
Corri em passos leves,
Pulei para dentro da carruagem escura, meu vestido escarlate desaparecendo na escuridão do interior.
A porta se fechou atrás de mim com um baque surdo. O interior cheirava a medo e mofo. A garota tremia, seus olhos agora refletindo perplexidade junto com o medo.
Quem... — ela começou, mas meu gesto silencioso a interrompeu.
Fora, a voz do sequestrador ressoou:
Agora o Rei ficará satisfeito.
Minhas mãos encontraram o punhal que Celeste insistira que eu carregasse.
Bem, pensei, parece que escolhi me meter em problemas.
A carruagem começou a se mover, nos levando para Deus sabe onde. No escuro, senti a garota tentar segurar minha mão com força desesperada. Eu deveria estar aterrorizada. Em vez disso, pela primeira vez desde que chegara a este tempo, me senti completamente viva.
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