Entre Lagrimas e Letras

1 Capítulo 1 - Angustia de uma vida


Isso pode parecer um drama adolescente, mas posso garantir que isso não é um drama e eu não sou uma adolescente, posso até aparentar com a minha baixa estatura e a cara de quem parou de envelhecer aos quinze anos, ei! Sou a nova rainha Elizabeth.

Muita merda aconteceu na minha vida antes mesmo que eu pudesse entender, fui diagnosticada aos três anos com duas doenças incomuns, a epilepsia, que eu ainda tento entender até hoje e a Hemofilia, a grande desgraça, por causa desses dois fatores eu não tive uma infância normal, não focarei na epilepsia porque acredito que ela não é o foco e nem a maior causadora do efeito cascata de coisas desagradáveis que passei e agora não sei lidar com isso.

Para entenderem melhor sobre a Hemofilia, é uma doença que deixa seu sangue ralo, podendo fazer o menor dos machucados parecer que você encontrou com o Jack o estripador, já que causa uma grande hemorragia que somente com medicamentos específicos e idas regulares ao um hospital que entenda poderá ser controlado, ou seja, passei mais tempo dentro de casa na minha infância do que os riquinhos em seus apartamentos, em quanto minha mãe lutava contra o diagnostico e dava seu melhor para manter a casa junto do meu pai e cuidava da minha irmã mais velha.

O que realmente ferrou comigo foi às palavras de um médico, que ao dizer isso na minha presença, que na época era uma criança, cometeu um ato antiético. “Mãe, sua filha vai morrer assim que virar mocinha”, ou seja, por causa da doença que deixava um corte virar uma hemorragia eu poderia morrer ao menstruar. Meu eu criança registrou aquela informação e pensou que a vida seria curta, beleza, vamos lidar com isso, viva La vida! Meu subconsciente fez todo o trabalho de me preparar para ter uma vida curta, e o que aconteceu? Por intervenção divina e por todos os esforços da minha mãe e dos médicos que me ajudaram ao longo dos anos eu fui curada, de uma doença dada como incurável, um verdadeiro milagre, que agradeço, mas posso parecer ingrata, já que com os anos a mais que ganhei meu sistema deu pane e eu não sei o que fazer.

O que se faz quando você pensou que morreria aos quinze anos e hoje se vê com vinte e quatro anos, sem um emprego, em um país onde só se importa em te escravizar e lhe fazer trabalhar até os seus músculos não aguentarem mais? Que não lhe instiga a pensar fora da caixa e não valoriza sua criatividade e individualidade? Você senta e chora? Eu não sei.

O que eu deveria aprender na minha adolescência eu não aprendi, e agora sou forçada pela sociedade a “crescer” afinal já sou adulta, mas hellou? Em quanto vocês namoravam e ia a baladas eu estava lutando pela minha vida, minhas prioridades são outras, não da para forçar uma adaptação! Mas a sociedade esta pouco se importando para os meus problemas ou o seu, “faça sua parte, lide com isso!”.

Hoje me vejo como uma pessoa estranha, que não tem ambição e se acha uma anormal com isso, afinal todo mundo tem não é? Anos indo ao um psicólogo e ao um psiquiatra ainda não me ajudaram a achar meu caminho, mas o jeito de não surtar e fazer uma merda que se arrependa depois é viver um dia de cada vez. Com todo o meu passado e traumas é claro que acabei passando a tomar remédios para ansiedade e depressão.

Ansiosa para um futuro incerto que eu não sei lidar e depressiva por um passado que me deixou um caco ao ponto de não saber o que fazer com a minha própria vida.

Hoje eu tento fugir da realidade, seja pintando, escrevendo e até mesmo lendo, embora ler fanfics e livros tenha se tornado menos rotineiro nesses últimos três anos. Queria fugir da realidade para ajudar aqueles que se perderam e assim esquecendo que eu também tenho problemas e também estou perdida, mas nem isso consigo fazer, falo do shifting, é bem popular no TikTok, não sei nessa plataforma, pra quem não sabe joga no Google. Como podem ver não tenho muitas opções a vista, virei o estereótipo de aluno de humanas e comecei a fazer pulseira, chaveiros, coisas artesanais, para ocupar minha mente e conseguir uma grana, mas adivinhem? Como todo projeto sempre tem algo que da errado, mas continuo na base de tentativa e erro, sou fã de Percy Jackson ou seja sou persistente! As vendas estão baixas também, o que me desanima, com o meu tempo no TikTok descobri que quero ser mais do que eu sou.

Quero-me sentir bem sendo eu, mesmo que seja separado em três partes, quero ser fofa e adorável, sensual e um pouco gótica suave, mas conseguir tudo isso requer meios que eu não estão no meu controle, dinheiro não brota do nada e você precisa se esforçar para conseguir alguma migalha e torcer para ninguém pisar em cima de você.

Como se toda essa merda na minha cabeça não fosse o suficiente eu sou uma pessoa incapaz de amar um ser humano, todo o anti depressivo que tomei e ainda tomo neutralizaram minhas emoções positivas, é raro eu sentir alegria, prazer, felicidade e amor, e se sinto alguma delas é por pouco tempo, eu amei uma vez, ensino fundamental e foi a única, foi como nos doramas, escrevi uma carta de confissão para o menino que eu amava, e ele me rejeitou, okay, direito dele, mas a humilhação que se seguiu dele passando a carta para seus amigos lerem e rirem da minha cara não foi nada legal, esse episódio é um dos fatores que fizeram eu ser emocionalmente o que sou hoje em dia.

Uns dizem que não ser capaz de amar é bom, não faz você se decepcionar com um amor, mas não ser capaz de retribuir os sentimentos de quem te ama principalmente dos seus pais, não te faz sentir um monstro? Porque é assim que me sinto.

Quando eu entendi o que era amor não foi nem com um ser humano, foi com os pequenos seres que são os gatos, não consigo ter uma vida sem eles, ter um em casa traz uma alegria e sensação de preenchimento, meu ultimo gato era um ruivinho amoroso e muito dengoso, pedia colo igual a uma criança, era um amor, era como um filho para mim, um membro intimo da minha família, mas um dia ele desapareceu e eu não lembro quando foi a ultima vez que eu dei um beijo em sua testa e falei “Eu te amo tá, você é a razão da minha existência” ou quando o chamei para voltar para casa antes de ele desaparecer “Ô pirralho!” era incrível quando ele aparecia, eu ouvia as suas patinhas correndo em cima do telhado e sorria, porque ele estava voltando pra mim, para sua casa, onde ele era amado por todos.

Sinto sua falta todos os dias, até mesmo de me zangar por chegar em casa todo molhado por ter pego chuva ou andado no mato molhado, mas o miado que ele fazia pedindo para o secar, eu não esqueço, ainda o ouço, como um som fantasma, e o que parte o meu coração é não saber o que lhe aconteceu, se alguém o matou ou ele foi morto por algum animal que migrou para a vizinhança, eu não tive um encerramento, e isso dói, dói muito, eu perdi o único ser que amei verdadeiramente, e ele não tinha sido o único, meses atrás eu tinha perdido minha gata que foi envenenada por meios desconhecidos.

Eu estou destruída por dentro, escrevo aos prantos porque não sei o que fazer, não importa quantos remédios eu tome, eu ainda não sei como administrar minha vida, suprir meus desejos e superar o luto. Então eu tento fazer da única forma que eu sei uma forma de por pra fora todos os sentimentos que guardei por anos, escrevendo.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!