Entre Irmãos

2 Capítulo 2: O Intruso no Quarto ao Lado



​O som da mala de Elijah arrastando pelo assoalho de madeira parecia um trovão no silêncio sepulcral da casa. Loren estava parada na soleira da cozinha, os braços cruzados sobre o peito, observando-o subir a escada com uma familiaridade que a irritava profundamente.

​— O quarto de hóspedes está com poeira, Elijah. E a fechadura emperra às vezes — disse ela, o tom de voz gélido. — Talvez um hotel na cidade seja mais confortável para alguém que gosta tanto de liberdade.

​Elijah parou no degrau, mas não se virou. Seus ombros largos pareciam ocupar todo o corredor.

​— Eu não vim em busca de conforto, Loren. Vim para garantir que meus sobrinhos tenham alguém para consertar o que quebrar. Incluindo a segurança deles.

​— Nós estávamos bem antes de você aparecer — rebateu ela, embora soubesse que era mentira. As contas se acumulavam na mesa e o jardim já começava a ser engolido pelo mato.

​— Estavam sobrevivendo. É diferente — ele respondeu, finalmente entrando no quarto e fechando a porta com um clique seco.

​A janta foi um exercício de tortura. Loren mal tocou na sopa, focada apenas em limpar o rosto de Mia e garantir que Leo terminasse os vegetais. Elijah comia em silêncio, mas seus olhos não saíam dela. Ele observava as olheiras profundas sob os olhos de Loren e o modo como suas mãos tremiam levemente ao segurar a colher.

​— Posso levar o Leo para a escola amanhã? — Elijah perguntou, tentando quebrar o gelo.

​— Não — Loren respondeu de imediato, sem olhar para ele. — Eu levo. Eu sempre levo.

​— Você parece exausta. Deixe-me ajudar com as crianças pelo menos...

​— Você quer ajudar? — Ela finalmente levantou o olhar, as íris brilhando com uma mistura de cansaço e fúria. — Então comece não tentando ocupar o lugar dele. Você não é o pai deles, Elijah. Você é apenas o homem que fugiu quando as coisas ficaram difíceis na última vez. Não finja que se importa agora.

​O silêncio que se seguiu foi pesado. Elijah não se defendeu. Ele apenas baixou o olhar para o prato, aceitando o golpe como se já estivesse acostumado a ser o vilão daquela história.

​Mais tarde, após colocar as crianças na cama, Loren passou pelo corredor e viu a fresta de luz vinda do quarto de hóspedes. Ela ouviu o som de papel sendo rasgado e algo que parecia um suspiro pesado.

​Por um momento, ela pensou em bater. Pensou em pedir desculpas pela dureza das palavras. Mas então, a imagem de James sorrindo em seu terno de casamento veio à mente, e a presença de Elijah ali, naquela casa, parecia uma traição viva.

​Ela seguiu para o seu próprio quarto e trancou a porta. Do outro lado da parede, ela sabia que o irmão do seu falecido marido estava acordado, ocupando um espaço que não lhe pertencia, mas que ele se recusava a abandonar.

​Loren deitou-se e encarou o teto. O problema não era Elijah ser um estranho. O problema era que, no escuro, o som da respiração dele vindo do quarto ao lado era idêntico ao de James. E isso a apavorava mais do que a solidão.