Entre Irmãos
13 Capítulo 13: O Perdão dos Mortos e o Fogo das Sombras
O quarto de hotel era impessoal, frio e silencioso demais. Elijah estava deitado de costas, encarando o teto manchado, quando o sono finalmente o venceu, arrastando-o para um lugar que ele não visitava há anos.
No sonho, não havia luto. Havia apenas a luz ofuscante de uma praia de areia branca e o som rítmico das ondas. James estava ali, sentado em um tronco de madeira trazido pela maré, vestindo uma camisa de linho clara, parecendo mais jovem e leve do que Elijah jamais o vira.
— Você sempre foi o mais complicado de nós dois, Eli — James disse, com um sorriso que não carregava mágoa, apenas uma paz infinita.
— James... eu... — Elijah tentou falar, mas a garganta parecia cheia de areia. — Eu sinto muito. Eu falhei com você.
James soltou uma risada suave e apontou para o horizonte, onde o sol começava a se pôr.
— Você não falhou. Você deu a eles dez anos da sua vida. Você os amou quando eu não pude. Mas o seu amor por ela, Eli... esse amor não tem que ser feito de culpa. Eu segui em frente, meu irmão. Agora é a sua vez de parar de carregar o meu caixão nas costas. Ela está viva. Você está vivo. Deixe o resto para o mar.
James levantou-se e caminhou em direção à água, sumindo na claridade antes que Elijah pudesse implorar para que ele ficasse.
Elijah acordou com um solavanco, o peito subindo e descendo freneticamente. O suor frio escorria por sua têmpora. A voz de James ainda ecoava em sua mente, mas outra memória, muito mais visceral e dolorosa, começou a emergir das profundezas de sua consciência.
Flashback: Três anos atrás
Era uma noite de tempestade, muito parecida com a que levara James. Leo e Mia estavam em um acampamento escolar. A casa estava vazia, e a tensão entre ele e Loren atingira o ponto de ebulição. Eles estavam na cozinha, discutindo sobre algo sem importância — uma conta, um reparo, qualquer coisa que servisse de desculpa para a proximidade perigosa.
— Por que você não me olha, Elijah? — Loren gritara, encurralando-o contra o balcão de granito. — Por que você age como se eu fosse um pecado?
— Porque você é! — ele respondera, mas a fúria em seus olhos se transformara em desejo puro.
Ele a puxara para si com uma força que o assustara. Naquela noite, as barreiras de dez anos ruíram. O beijo foi violento, faminto, desesperado. Eles não chegaram ao quarto. Ali mesmo, sobre o balcão da cozinha, entre soluços e gemidos, eles se entregaram um ao outro de uma forma que Elijah tentara evitar por metade de sua vida. Foi cru, real e devastador.
Mas, assim que o fogo se apagou, o gelo voltou com força redobrada. No momento em que Elijah se afastou, vendo Loren com os cabelos desgrenhados e os lábios inchados, a culpa o atingiu como um chicote.
— Isso foi um erro — ele sussurrara, ajeitando as roupas com mãos trêmulas enquanto Loren o olhava com uma mistura de choque e esperança.
— Erro? Elijah, nós acabamos de...
— Não! — ele rugira. — Eu não posso fazer isso. Eu acabei de trair meu irmão na cozinha dele!
A discussão que se seguiu fora a pior de suas vidas. Loren chorara, implorando para que ele parasse de se punir, mas Elijah se trancara no quarto de hóspedes, empurrando a cômoda contra a porta. A partir daquela noite, ele se tornara um fantasma dentro de casa. Tornara-se mais frio, mais distante, transformando o ato de amor mais puro em uma cicatriz de vergonha que o acompanhara até aquela manhã de hotel.
Presente
Elijah sentou-se na beira da cama do hotel, enterrando o rosto nas mãos. O sonho com James e a lembrança daquela noite na cozinha lutavam dentro dele.
Ele sempre achara que a distância era sua maior proteção, mas agora, as palavras de Mia e a imagem de James na praia mostravam a verdade: sua distância era o que estava matando todos eles.
Ele pegou a carteira e tirou a foto de Loren que Mia mencionara. Olhou para o rosto dela — a mulher que ele amara na fogueira, a mulher que ele possuíra na cozinha e a mulher que ele estava perdendo por covardia.
Elijah levantou-se. Ele não pegou a mala, apenas as chaves do carro. Ele precisava voltar. Não como o protetor, não como o "quase pai", mas como o homem que James pedira que ele fosse.
O motor do carro roncou no estacionamento vazio do hotel. Ele tinha uma dívida de dez anos para pagar, e não era em dinheiro. Era em verdade.
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