Entre Irmãos

10 Capítulo 10: O Gelo Quebradiço da Virada



​Os dias que seguiram à noite de Natal foram marcados por um silêncio cortante. Elijah passou a ser um mestre na arte da evasão. Se Loren entrava na cozinha, ele saía para o quintal. Se ela tentava iniciar uma conversa sobre o passado, ele subitamente lembrava-se de uma calha que precisava de limpeza ou de um e-mail urgente para responder. Ele estava se escondendo atrás das tarefas, protegendo-se com a armadura do "homem da casa".

​Para a celebração do Ano Novo, a família se reuniu na casa de campo dos pais de Loren, uma propriedade rústica cercada por colinas e um antigo estábulo de madeira. A casa estava cheia: vozes, música e o barulho de talheres. Elijah, no entanto, era como uma sombra nos cantos. Ele ajudava a carregar lenha, servia as bebidas, brincava com Leo e Mia, mas seus olhos nunca encontravam os de Loren por mais de um segundo.

​Quando o relógio começou a contagem regressiva e os gritos de "Feliz Ano Novo!" ecoaram pela varanda, seguidos pelo espocar dos fogos de artifício ao longe, Elijah simplesmente desapareceu.

​Loren viu o vulto dele cruzando o gramado em direção à escuridão. Ela não hesitou. Deixou a taça de champanhe sobre a mesa e caminhou contra o vento gelado da madrugada, seguindo-o até o estábulo.

​O cheiro de feno e madeira antiga a envolveu. Elijah estava parado de costas, as mãos apoiadas em uma das divisórias de madeira, a cabeça baixa. A única luz vinha de uma lanterna pendurada em uma viga, criando sombras dramáticas.

​— Você não pode fugir para sempre, Elijah — Loren disse, a voz ecoando suavemente no espaço amplo.

​Ele não se moveu.

— Eu não estou fugindo. Só precisava de ar.

​— Você está fugindo de mim desde que me contou a verdade. Desde que soube que eu te procurei naquela papelaria.

​Elijah se virou bruscamente. O rosto dele estava marcado pela agonia.

— E o que você queria que eu fizesse, Loren? Que agisse como se nada tivesse acontecido? Que ignorasse que cada vez que olho para você, sinto que estou roubando a vida que deveria ser do meu irmão?

​Loren deu um passo à frente, a coragem que o champanhe e a nostalgia lhe deram impulsionando-a.

— James se foi, Elijah. E o que aconteceu na fogueira... aconteceu antes dele.

​— Não importa! — ele rugiu, mas sua voz morreu quando ela parou a poucos centímetros dele.

​A tensão acumulada por seis anos, o luto, a descoberta e o desejo reprimido colidiram naquele momento. Loren estendeu a mão e tocou o rosto dele, o mesmo gesto daquela manhã de febre, mas agora com total consciência. Elijah fechou os olhos, lutando contra si mesmo, mas quando Loren se inclinou e pressionou os lábios nos dele, a resistência dele desmoronou.

​O beijo foi desesperado, carregado de uma fome antiga e de uma tristeza profunda. Foi o encontro de duas almas que se reconheceram nas chamas de uma fogueira e se perderam na tragédia de uma família. Por um instante, o mundo lá fora, as contas pagas e o fantasma de James não existiam.

​Mas, tão subitamente quanto começou, Elijah se afastou. Ele a empurrou gentilmente pelos ombros, a respiração ofegante, os olhos cheios de horror e culpa.

​— Não — ele sussurrou, balançando a cabeça. — Nós não podemos fazer isso.

​— Elijah...

​— Não! — Ele deu um passo atrás, as mãos trêmulas. — Eu prometi que cuidaria de você. Prometi que cuidaria das crianças e da casa que o meu irmão construiu. E eu vou cumprir. Eu não vou embora de novo, Loren. Não vou deixar vocês sozinhos no escuro.

​Ele parou, a mandíbula tensa, o olhar fixo nela com uma dureza que partiu o coração dela.

​— Mas eu não vou pegar a esposa do meu irmão para mim. Eu posso ser muita coisa, Loren... posso ser um fugitivo, um soldado, um estranho... mas não serei o homem que traiu a memória do James dentro da própria casa dele.

​Loren sentiu as lágrimas queimarem.

— Você não está traindo ninguém, Elijah. Você está vivendo!

​— Isso não é viver — ele respondeu gélido, recuperando sua máscara de indiferença. — Isso é desonra. Vá para dentro, Loren. Sua família está esperando. Eu vou ficar aqui mais um pouco.

​Ele se virou de costas, transformando-se novamente na estátua de gelo que ela tanto conhecia. Loren saiu do estábulo sob o céu de um novo ano, sentindo-se mais sozinha do que nunca. Elijah estava lá, ele ficaria, ele seria o pilar... mas o beijo que deveria ser o começo de algo parecia ter sido, na verdade, a sentença final de uma distância que nenhum amor parecia capaz de percorrer.