Chegamos sem nenhum problema mecânico ou com monstros na próxima parada, o que não significava que devíamos continuar com esse carro, então deixamos o confortável jipe e surrupiamos um outro carro bem alto e parecia resistente também, atrás estava escrito EcoSport, e era cinza chumbo, seu interior era um pouco mais agradável do que o do jipe, mas não passava a mesma segurança. Paramos na cidade vizinha para almoçarmos num restaurante por kg. Continuamos por mais umas horinhas, fazendo revezamentos para dirigir, menos eu, porque queríamos chegar inteiros.

Na segunda troca de carro, já estávamos achando muito suspeito a falta de monstros por tanto tempo, então ficamos mega atentos à mínima movimentação suspeita. Enquanto aproveitávamos pra esticar nossas pernas, vigiávamos cada milímetro da rua. E graças a isso, não fomos pegos de surpresa quando um grupo de “gatos” que pareciam estar pegando fogo dobraram a esquina, vindo em nossa direção.

–Mas que merda é essa? – Tomi arregalou os olhos. – Nunca ouvi falar desses coisos estranhos.

–Eles não parecem muito perig...- Felipe interrompeu a frase quando os “gatinhos” começaram a se amontoar e formar um gato gigante em chamas.

–Fodeu. – foi tudo o que eu consegui dizer.

Entramos na loja de ferramentas que tinha do outro lado da rua e achamos um extintor de incêndio bem grandinho. Borrifamos aquela coisa (que graças a Júpiter ia bem longe) no peitoral do monstro, onde deveria ser o coração e Felipe acertou uma de suas flechas especiais e úmidas naquele espaço parcialmente livre do fogo que cobria todo o corpo do projeto de felino. Mas logo que a flecha atingiu o local desejado, reparamos que a porcaria do coração desse ser estava na ponta de seu rabo, que tinha mais chamas do que qualquer outra parte do bichano. Tirei minha espada da bota e arremessei no rabo dele, esperando que fosse decepada, o que não aconteceu, na verdade, a minha espada simplesmente voltou para mim, como se tivesse atingido alguma mola.

Tomi borrifou aquela espuma do extintor na traseira do monstro e Felipe surgiu, Júpiter sabe lá de onde, com uma corda espinhosa, que conseguiu amarrar no início do rabo daquela coisa e puxou para baixo. Corri até lá e usei minha espada como um punhal, enfiando-a na ponta do rabo e rasgando aquela pontinha macia. Observamos a criatura indefinida virar cinzas.

Passamos num mini mercado e abastecemos de comida nosso novo carro, uma Doblò preta. Seguimos a droga da viagem por aproximadamente 5h, no mesmo esquema de revezamento. Sempre que podíamos dormíamos um pouco, mas não os dois que não estavam dirigindo, um ficava acordado pra fazer companhia ao motorista e o outro cochilava, depois trocávamos. Então digamos que eu dormi mais do que qualquer um dos dois, e eles não pareciam se importar com isso.

Paramos mais uma vez em uma cidadezinha aleatória e trocamos de carro. Dessa vez pegamos um i30 preto, que é bem confortável e discreto. Não nos demoramos ali, não paramos em lugar nenhum pra comprar comida ou colocar gasolina, porque de algum jeito, demos sorte ao pegar esse carro, que já estava com tanque cheio, e na última parada compramos comida o suficiente para o resto da viagem.

Faltava menos de 12h pra chegarmos a Long Island e ao meu novo lar, então estávamos ansiosos. Os garotos queriam rever seus amigos e namoradas, que fiquei sabendo em uma das conversas motorista-pessoaacordada. Tomi está enrolado com uma filha de Apolo, Sabs; Felipe namora com, de acordo com sua descrição, uma belíssima filha de Dionísio, chamada Malu, em mais um caso de incesto, que parece ser bem frequente no Acampamento, ainda mais no chalé de Dionísio e no de Afrodite. Me explicaram também que a divisão no CHB é feita em chalés, onde os irmãos por parte de parentes olimpianos dormem juntos, as obrigações dos campistas são simplesmente como a de campistas: aprender técnicas de ataque/defesa, aprender sobre a mitologia grega, aprimorar os dons que seu pai olimpiano deu, entre outras coisas. Nada de limpar estábulos ou de limpar o refeitório, esses eram serviços das harpias.

Aproximadamente 6h depois da última troca de carros, paramos de novo e pegamos um sedan, que não faço a mínima ideia do nome. Ficamos com esse até chegarmos em Nova York. Onde paramos pra jantar comida de verdade, não salgadinhos e outras porcarias que viemos o caminho todo comendo. Faltava no máximo 3h até o Acampamento, se o trânsito não nos ajudasse. O problema é que não ajudou. O trânsito estava terrível. O caminho que deveria, segundo o filho de Hermes, durar 1h30min, demorou realmente o dobro.

Ao chegarmos na colina do acampamento, meu queixo caiu, meus pelos se arrepiaram e por algum motivo desconhecido, lágrimas vieram aos meus olhos. Uma sensação de alívio me encheu, nunca me senti tão cansada e ao mesmo tempo tão alegre. Era como chegar em casa após anos fora, como reencontrar a família depois de passar anos isolada. E bem, no fundo era isso mesmo que estava acontecendo. Eu tinha voltado pra casa, pro meu belíssimo lar, onde eu sentia que as coisas iam melhorar e eu ia finalmente me encontrar.

Deixamos o carro uns km depois da colina, em um estacionamento que estava lotado, assim não chamaríamos a atenção. Voltamos andando até a entrada do paraíso, que era realmente maravilhosa e ao mesmo tempo, simples. Me guiaram até o que chamaram de “Casa Grande”, que realmente era uma casa grande e tinha uma aconchegante varanda, com uma mesa pro tabuleiro de xadrez e uma rede. Sentada nessa rede, estava uma garota com cabelo castanho-escuro e olhos da mesma cor, era difícil olhar para seu rosto sem sentir sono. Assim que ela deu oi, minha visão ficou nublada e senti meu corpo pesado demais para me manter de pé. Ouvi um riso infantil e então apaguei.