Entre Gregos e Romanos
3 Cap. 2
No meio da madrugada, levantamos e partimos para o resto da viagem. Ainda não estávamos completamente descansados, o que explicou o silêncio que pareceu durar uma eternidade. Mas quando começamos a falar, não paramos mais, porque acho que nos tocamos de que aqueles seriam nossos últimos momentos juntos, já que assim que eu começasse minha viagem sozinha e Vini voltasse para o Júpiter, nossas comunicações seriam totalmente cortadas.
–Já parou pra pensar como seria sua vida se seu pai não fosse Baco? Se ele fosse só um cara comum? – Vini interrompeu uma conversa tosca que estávamos tendo.
–Pra ser sincera, já. E eu não tenho certeza se seria muito melhor do que isso. Você sabe, seriam outros problemas e tudo o mais... Você já pensou sobre isso?
–Sempre penso. Não é algo muito agradável ser um filho de Vênus, aquela deusa é louca. Como você sabe, tive a “maravilhosa” oportunidade de bater um papinho com aquele ser, e aquilo foi realmente chocante. Pra ela, o relacionamento perfeito é totalmente bagunçado e cheio de interferências, e ela pega bem mais pesado com os filhos. Então eu adoraria ser só um adolescente comum, com alguns probleminhas amorosos. – o filho da deusa do amor suspirou.
Nunca tinha parado pra pensar nisso, em como meu melhor amigo era mais do que azarado, ou como a mãe dele prefere “tem uma vida amorosa interessante”. Romanos não prestam muito atenção nem aos próprios sentimentos, quem dirá aos alheios.
Depois dessa mini conversa pesada, o clima ficou esquisito, como se tivéssemos falado de algo proibido e o arrependimento tivesse batido, o que não deixava de ser real. Não era certo falar mal de seu parente divino, assim como não era seguro, porque os deuses são realmente sensíveis às ofensas, então era bem provável que, se Vênus estivesse desocupada, a vida amorosa de Hengles ficariam zilhões de vezes mais “interessante” agora, depois desse comentário dele sobre odiar isso. Ou talvez Júpiter ficasse irado pela preferência de um semideus pela normalidade dos mortais e transformasse o pobre garoto num humano comum, sem qualquer memória dessa vida de agora (se bem que pelo o que eu ouvi em lendas, essa era a especialidade de Juno, sua esposa).
Algumas horas depois, já havíamos voltado a conversar normalmente, ignorando a conversa anterior e decidimos parar pra comer algo. Escolhemos uma floresta com várias árvores que pareciam ser frutíferas para pousar e colher alguma coisinha para gastar menos da comida que havíamos guardado de Nova Roma. Nada de estranho ocorreu nessa nossa parada, o que foi um pouco estranho, mas deu um baita alívio. Continuamos viagem por mais algumas horas, com pequenas pausas para o lanche e uma descansada básica. E assim foi até chegarmos em Lincoln, NE, 1 dia inteiro de viagem desde San Francisco, CA, onde meu antigo lar fica.
Senti que havia algo errado assim que pousamos. O ar estava pesado, havia uma neblina que parecia que não deveria estar ali e estava estranhamente quieto, sem nem um piu de uma ave sequer, mas era só até ali que Vini poderia me acompanhar, e os outros lugares na cidade eram muito visíveis. Tinha que ser aqui, infelizmente.
Descemos dos pégasos e tiramos um pacote de comida desidratada da mochila, estávamos abrindo aquele saquinho quando ouvimos fortes passadas atrás de nós. Olhei desesperada para Vini, que estava desesperado procurando por sua espada, que tinha caído em algum lugar daquela clareira, mas com a escuridão presente, era bem difícil, pra não dizer impossível, de achar.
–Para de procurar por essa porcaria. Só distrai seja lá o que for isso, e eu ataco, a gente não vai conseguir achar essa maldita espada antes desse troço chegar aqui! – sussurrei apressadamente.
–Por Júpiter, eu preciso achar essa merda, Mille!
–Eu sei, mas não antes dessa coisa ser derrotada. Foca nisso, Vinicius.
Ele fez um barulho de concordância, mas continuou olhando para baixo e para os lados, caçando a maldita. E assim ele estava quando, do meio das árvores, saiu um touro enorme. Só que não era realmente um touro. Era a porcaria de um minotauro. Não tive tempo de gritar para Vini correr, quando vi, o monstro já estava atacando meu amigo que justo naquele momento estava indefeso. Saltei nas costas daquele projeto de touro e enfiei minha espada em sua garganta, rasgando-a completamente, transformando aquele ser em pó. O único problema é que já era muito tarde para o mais velho dos Hengles, que estava com seus ombros dilascerados, e com o pescoço num ângulo estranho.
–Você nunca será feliz de novo, Gustavo, eu não vou deixar, nem mesmo morto. – os olhos de meu melhor amigo se reviraram de um jeito insano, e nesse momento percebi que não haveriam outras palavras soltas por aquele filho de Vênus.
Em estado de choque, percebi que estava realmente sozinha nesse mundo. Sem mãe, sem melhor amigo, sem casa, aparentemente sem pai. Os motivos pra continuar estavam acabando, se já não tinham acabado. Continuar pra quê? As coisas perderam o sentido. Não conseguia encaixar Gustavo, um filho de Marte da Terceira Coorte com o nervosismo das últimas palavras de Vini. Meu cérebro demorou uns minutos para trabalhar no estado de torpor em que se encontrava, mas acabei lembrando do último verão, quando Giovanna, a irmã mais nova do Vini foi estuprada e morta por esse imbecil. Foi então que reparei que as últimas palavras não tinham sido simples últimas palavras. Eram uma praga das mais poderosas.
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