Entre Grades e Destinos
22 O Ultimato e as Sombras do Passado
A manhã de domingo nasceu fria e ensolarada no Vermont, cobrindo o gramado da frente da casinha de Ashley com uma fina camada de geada. Na sala de estar, o som das risadas do pequeno Pietro ecoava de forma acolhedora enquanto ele empilhava blocos de montar coloridos no tapete, sob o olhar atento e carinhoso de Sofia.
Na cozinha, o aroma doce de massa de panqueca dourando na chapa tentava trazer uma ilusão de normalidade àquele lar. Ashley estava de pé em frente ao fogão, espátula na mão, o olhar perdido no horizonte através da janela sobre a pia. O anel de noivado em seu dedo parecia pesar uma tonelada. Ela havia cruzado a linha de chegada do prazo de Damon; a farsa agora era oficial.
O som da porta da frente sendo aberta sem cerimônia fez o estômago de Ashley revirar. Passos firmes e pesados ecoaram pelo corredor.
Damon entrou na cozinha. Ele usava roupas casuais de domingo, mas a aura de dono do lugar permanecia intacta. Sem dizer uma palavra, ele caminhou até Ashley, postou-se exatamente atrás dela e envolveu sua cintura com os dois braços, puxando as costas dela contra o seu peito. Ele inclinou a cabeça e cravou os lábios no pescoço dela, distribuindo beijos possessivos e molhados na pele macia.
Ashley fechou os olhos com força, os nós dos dedos ficando brancos ao apertar o cabo da espátula. Seu instinto inicial era gritar, empurrá-lo e correr para o quarto, mas ela respirou fundo, forçando o próprio corpo a relaxar sob o toque dele. Ela sabia que agora era noiva dele aos olhos do mundo. Dizer "não" naquele momento, ou demonstrar repulsa física, acenderia o ódio e o orgulho ferido do mafioso, colocando Pietro em risco iminente. Ela engoliu o choro e deixou que ele a marcasse.
Damon afastou o rosto por alguns centímetros, um sorriso vitorioso e de canto nos lábios ao notar a submissão dela.
— É assim que eu gosto, loira. Você está finalmente aprendendo a se comportar como a minha mulher — ele sussurrou perto do ouvido dela, a voz arrastada. Ele deu as costas, encostando-se no balcão da cozinha enquanto a observava. — Mas eu tenho novidades de Nova York. O meu irmãozinho de ouro me ligou ontem à noite. O Matteo viu as fotos da nossa festa no jornal.
Ashley travou instantaneamente. Ela desligou o fogo do fogão com um clique seco e virou-se para Damon, o rosto perdendo toda a cor, o coração batendo desordenado no peito.
— O... o Matteo? — a voz dela saiu em um fio. — Ele sabe? O que você disse para ele, Damon?
— Eu disse a verdade que ele precisava ouvir — Damon riu, cruzando os braços, deliciando-se com o desespero dela. — Disse que você me procurou para esquecer o trauma que ele causou, que nós passamos uma noite maravilhosa juntos logo após a separação e que o Pietro é o meu filho legítimo. E tem mais... ele ficou arrasado, mas aceitou. Ele me garantiu que vai estar presente no nosso casamento. Ele quer ver de perto a família que nós construímos.
A menção de que Matteo acreditava que ela o havia traído com o próprio irmão, que Pietro era fruto de uma noite doentia com Damon, rasgou a alma de Ashley. A dor da injustiça e o pânico de ver Matteo novamente, agora tomado por um ódio profundo, quebraram a barreira de contenção que ela havia construído.
A raiva silenciada por dois anos explodiu. Ashley deu dois passos à frente, os olhos azuis faiscando de puro desprezo, esquecendo-se temporariamente do perigo que o homem representava.
— Você é um monstro, Damon! Um desgraçado doentio! — ela gritou, a voz trêmula de puro asco, as lágrimas finalmente transbordando. Ela o empurrou pelo peito com as duas mãos, afastando-se dele em seguida. — Eu te odeio! Eu odeio cada milímetro do seu corpo, odeio o seu perfume, odeio a sua voz! Você usou uma criança inocente para me prender nessa mentira nojenta! Eu prefiro morrer a me casar com você!
O sorriso de Damon desapareceu instantaneamente. Seu rosto contraiu-se em uma máscara de pura fúria assassina. O orgulho do herdeiro dos Blake foi ferido da pior forma possível.
Com a velocidade de um predador, Damon avançou. Sua mão direita foi direto para a parte de trás da calça e, com um estalo metálico, ele sacou sua pistola preta de calibre 9mm. Ele prensou Ashley contra o balcão com o peso do próprio corpo e cravou o cano frio da arma diretamente contra a têmpora dela.
— Repete isso, sua vadia! — ele sibilou entre os dentes, os olhos injetados de sangue, a voz saindo como o rosnado de um animal. O cano da arma pressionava a pele de Ashley com tanta força que deixava uma marca vermelha. — Você acha que está em posição de gritar comigo na minha cara? Eu tenho sido paciente demais com você, cozinhando, brincando de papai, dando o tempo que você pediu! Mas a brincadeira acabou. Você acha que me odeia? Você não viu nada. Se você abrir essa boca para falar do Matteo ou me rejeitar de novo, eu estouro os seus miolos aqui mesmo, limpo o sangue do chão e levo o Pietro para Nova York antes do almoço!
Ashley paralisou, o choro congelando em sua garganta. O olhar de Damon era o de um homem completamente insano, pronto para puxar o gatilho.
— Damon... por favor... — ela murmurou, o corpo inteiro tremendo sob o peso dele e o frio do metal na cabeça.
— Escuta bem o que eu vou te dizer, Ashley — Damon continuou, aproximando a boca do rosto dela, o hálito quente misturado ao cheiro de pólvora. — O prazo acabou. O anel está no seu dedo. E naquela noite... hoje à noite, você vai ser minha de verdade. Na minha cama, no meu quarto. Você aceitando com um sorriso ou chorando de nojo, eu não me importo mais. Eu vou ter o que é meu por direito.
— Solta ela, seu desgraçado! — o grito de Sofia ecoou na entrada da cozinha.
Sofia, ouvindo os gritos da sala, havia corrido até ali. Ao ver a cena da amiga com uma arma na cabeça, ela perdeu o controle. Sofia avançou, pegando uma pesada panela de ferro de cima do balcão e erguendo-a na direção de Damon.
— Tira as mãos dela ou eu quebro a sua cabeça, seu mafioso de merda! — Sofia esbravejou, o rosto vermelho de puro nervosismo e coragem.
Damon girou o corpo parcialmente, sem soltar Ashley. Seus olhos focaram em Sofia com um desdém mortal. Com um movimento rápido e brutal, ele desferiu um tapa violento com as costas da mão livre no rosto de Sofia. O impacto foi tão forte que a moça cambaleou para trás, colidindo contra a parede e caindo sentada no chão da cozinha, a panela caindo com um estrondo metálico. Damon apontou a arma diretamente para o peito de Sofia, o dedo indicador tensionando o gatilho.
— Sofia, não! — Ashley gritou em puro desespero, jogando-se na frente da linha de tiro, cobrindo a amiga com o próprio corpo. Ela olhou para Damon com os olhos arregalados de pavor, implorando pela vida de todos naquela casa. — Damon, para! Por favor, não atira! Eu faço o que você quiser! Sofia, abaixa isso! Fica calma!
Ashley respirou fundo, tentando estabilizar a própria voz para controlar o psicopata diante dela. Ela olhou nos olhos escuros de Damon, forçando uma submissão total em seu tom de voz.
— Damon... abaixa a arma. Por favor. Está tudo bem — ela disse, a voz saindo macia, embora o coração sangrasse por dentro. — Você tem razão. Nós somos noivos agora. Sofia, me escuta... pegue o Pietro, vá para o quarto dele e fique lá com ele. Eu... eu vou sair com o Damon hoje à noite. Nós vamos jantar fora, vamos conversar como um casal. Eu vou com ele, Sofia. Por favor, vá para o quarto.
Damon observou a transição de Ashley, vendo o pânico se transformar em total rendição para salvar a amiga e o filho. O poder que ele exercia sobre ela inflou o seu ego novamente. Lentamente, o sorriso de canto retornou aos seus lábios. Ele relaxou os músculos, baixou a pistola e a guardou velozmente no coldre sob a jaqueta.
— Viu só? Não é tão difícil ser uma boa menina, loira — Damon ironizou, ajeitando a gola da camisa. Ele deu um passo à frente, segurando o queixo de Ashley com força, forçando-a a olhar para ele. — Eu vou passar aqui às oito da noite. Esteja deslumbrante para o seu noivo. Se eu notar um único milímetro de cara feia... a conversa vai ser diferente.
Ele deu um tapinha leve na bochecha dela, virou as costas e caminhou em direção à saída, rindo alto enquanto passava pela sala. O som da porta da frente se fechando com força indicou que ele finalmente havia ido embora.
Ashley desabou no chão da cozinha imediatamente, ajoelhando-se ao lado de Sofia. As duas se abraçaram com força, chorando o pranto do mais puro terror e impotência. Sofia tinha um pequeno corte no lábio por causa do golpe, e Ashley limpava o sangue da amiga com a manga do casaco.
— Me desculpa, Ash... me desculpa, eu tentei ajudar... — Sofia soluçava, o corpo inteiro tremendo.
— Você quase morreu, Sofi! Nunca mais faça isso, eu imploro! — Ashley pediu, apertando os ombros da amiga. — Se ele atira em você, eu nunca ia me perdoar. Eu preciso jogar o jogo dele, é o único jeito.
Minutos depois, após se acalmarem minimamente, as duas sentaram-se à mesa da cozinha, longe dos olhos de Pietro que continuava brincando na sala. A atmosfera era de pura derrota.
— E o Matteo, Ash? — Sofia perguntou, a voz saindo baixa e nervosa. — O Damon disse que ele sabe... que ele acredita que o Pietro é filho dele. O Matteo deve estar com um ódio mortal de você agora.
Ashley limpou uma lágrima solitária que caía por seu rosto, olhando para a aliança de diamante em sua mão. Um sorriso triste e sem vida surgiu em seus lábios.
— De qualquer jeito, Sofi... o Matteo me odeia naquele momento — Ashley murmurou, a voz oca de dor pura. — Ele viu as fotos, ele ouviu a história do Damon. Para ele, eu sou a mulher que o abandonou, veio para as montanhas e se entregou ao irmão dele para gerar um filho. O Matteo nunca vai me perdoar por isso. Ele me odeia com todas as forças da sua alma agora... e talvez seja melhor assim. Se ele me odiar, ele fica longe do Vermont. Ele fica longe de mim e do Pietro, e o Ricardo nunca vai descobrir a verdade. Eu aceito o ódio do Matteo, contanto que o meu filho continue vivo.
Enquanto o desespero reinava no Vermont, em Nova York a engrenagem da desconfiança começava a trabalhar.
Matteo Blake estava de volta ao seu apartamento na cobertura. Ele não conseguia dormir, não conseguia comer. A imagem de Ashley beijando Damon não saía de sua mente, mas a sua inteligência e o seu treinamento de administrador diziam que algo naquela história estava profundamente errado. O depoimento de Damon havia sido perfeito demais, cínico demais. E a reação de Ricardo na mansão havia sido defensiva. Havia lacunas naquela linha do tempo que a dor do ciúme quase o impedira de ver.
Matteo pegou o telefone e discou para um número privado e altamente confidencial. O homem do outro lado atendeu na primeira chamada:
— Mr. Marquet. O que precisa?
— Marcus — Matteo disse, a voz saindo rígida, desprovida de qualquer emoção. — Eu quero que você pegue o primeiro voo para o norte amanhã cedo. Vá até a pequena cidade do Vermont onde o meu irmão gerencia o galpão.
— Qual é o alvo da investigação, senhor?
— A noiva dele, Dra. Ashley Park — Matteo ordenou, os olhos escuros fixos no horizonte de prédios de Manhattan através do vidro. — Eu quero tudo, Marcus. Quero os registros médicos do nascimento daquela criança, a data exata em que ela entrou no hospital, o histórico de aluguel da casa dela, a rotina, os passos dela com o meu irmão. Eu quero saber se o que o Damon me disse pelo telefone é a verdade ou se aquela família está sustentando uma farsa pelas minhas costas. Investigue tudo em total sigilo. Ninguém pode saber que você está lá, principalmente o Damon.
— Considere feito, chefe. Em poucos dias eu te trago as respostas — o detetive respondeu antes de desligar.
Matteo guardou o celular no bolso do paletó e cerrou os punhos. Ele estava perto de entregar o ponto final ao FBI e acabar com o império dos Blake, mas se Damon estivesse usando Ashley em algum jogo doentio, o casamento no Vermont não seria apenas o funeral da máfia... seria o acerto de contas definitivo entre os dois irmãos. As sombras estavam se movendo, e a verdade estava prestes a vir à tona com a força de uma tempestade.
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