Entre Grades e Destinos
27 O Peso do Sangue
Quinze anos haviam se passado, cobrindo as cicatrizes do Vermont com o manto do tempo, embora algumas feridas nunca fechassem por completo. Ashley tomara a decisão de voltar para Nova York assim que Pietro completou a maioridade. Ela precisava encarar os fantasmas do passado. Reabriu sua clínica de psicologia em um prédio elegante de Manhattan, e Sofia, sua fiel escudeira de uma vida inteira, agora trabalhava com ela como recepcionista, gerenciando sua movimentada agenda.
Naquela tarde de outono, Ashley estava sentada em sua cadeira de couro atrás da mesa de jacarandá, revisando os relatórios de um paciente. O som de duas batidas firmes na porta cortou o silêncio do consultório.
— Pode entrar — Ashley disse, sem erguer os olhos de imediato.
A porta se abriu com um clique suave. Passos pesados e decididos ecoaram pelo carpete até pararem em frente à mesa. Quando Ashley levantou a cabeça, seu coração deu um solavanco que ela tentou disfarçar a todo custo.
Matteo Blake estava parado ali. O tempo tinha sido generoso com ele; aos quarenta e poucos anos, ele estava impecável. Vestia um terno sob medida cinza-chumbo que realçava seu porte atlético, os cabelos escuros agora traziam fios grisalhos charmosos nas têmporas, e seu olhar mantinha a mesma intensidade magnética de sempre. Ele caminhou até a poltrona em frente à mesa e sentou-se, cruzando as pernas longas, observando-a.
Ashley respirou fundo, fechando o prontuário com um estalo seco, adotando uma postura defensiva.
— O que você quer aqui, Matteo? — ela perguntou, a voz saindo fria e polida, embora por dentro tudo estivesse revirado. — Quinze anos de silêncio e você simplesmente entra na minha clínica?
Matteo sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de responder. A frieza de outrora dera lugar a uma melancolia madura.
— Eu soube que você voltou para a cidade, Ashley. E soube que o Pietro completou dezoito anos — Matteo começou, a voz grave e pausada. — Eu preciso conhecer melhor o meu sobrinho. O tempo passou, a poeira baixou e... ele é o único do meu sangue que sobrou vivo neste mundo. Eu não quero reabrir velhas guerras, eu só quero fazer parte da vida do garoto. Deixe-me conhecê-lo.
Ashley tencionou os ombros, desviando o olhar para a janela. A menção de "sobrinho" vinda de Matteo a machucava, pois ela ainda guardava o segredo da paternidade trancado a sete chaves. Deixar Matteo se aproximar era perigoso, mas ela sabia que Pietro, agora um homem, tinha o direito de conhecer o passado da família, mesmo que sob a farsa de que Damon era seu pai.
— Eu não acho que seja uma boa ideia, Matteo — ela relutou, o semblante preocupado. — O Pietro cresceu ouvindo sobre o Vermont, sobre o que aconteceu... Ele tem marcas.
— Eu só preciso de uma chance, Ashley. Um jantar. Nada mais — Matteo insistiu, os olhos escuros suplicando por um milímetro de trégua.
Ashley encarou as próprias mãos sobre a mesa, pensativa. Por fim, soltou um longo suspiro, cedendo.
— Tudo bem. Eu vou fazer um jantar hoje à noite na nossa casa. Você pode aparecer. Mas com uma condição: sem assuntos de máfia, sem menções ao passado trágico.
Ela pegou um bloco de notas, anotou o endereço do apartamento no Upper West Side e estendeu o papel para ele. Matteo pegou o bilhete, levantou-se e ajeitou o paletó.
— Obrigado, Ashley. Estarei lá às oito — ele disse, dedicando-lhe um último olhar demorado antes de girar nos calcanhares e ir embora.
À noite, o apartamento de Ashley exalava o aroma acolhedor de um risoto de parmesão e filé grelhado. Ela estava de pé em frente ao fogão, mexendo a panela, com a mente divagando sobre o encontro da tarde.
De repente, dois braços fortes envolveram sua cintura por trás, puxando-a contra um peito largo. Ashley deu um leve sobressalto, mas sorriu instantaneamente ao reconhecer o gesto. O pequeno Pietro agora tinha 1,85m de altura. Era o clone vivo e escarrado de Matteo, mas seus trejeitos corporais — como aquele abraço apertado por trás — ele havia herdado de Damon, o homem que o criara nos primeiros anos de vida.
Pietro inclinou a cabeça e beijou a bochecha da mãe de forma estalada, soltando-a para se sentar em uma das banquetas da bancada da cozinha.
— Hum, o cheiro está incrível, dona Ashley! — Pietro riu, passando a mão pelos cabelos negros e bagunçados. Ele apoiou os cotovelos na mesa, olhando para a mãe com um sorriso travesso. — Sabe de uma coisa, mãe? Eu acho que esta semana é a semana ideal. Estou seriamente querendo perder a minha virgindade. Tem uma garota na faculdade, a Chloe, e cara... eu acho que finalmente vai rolar.
Ashley quase engasgou com a própria saliva. Ela virou-se para o filho, fingindo indignação com uma colher de pau na mão, mas sem conseguir conter o riso diante da espontaneidade dele.
— Pietro! Que tipo de conversa é essa com a sua mãe na hora do jantar? — ela brincou, arqueando as sobrancelhas. — Use proteção, pelo amor de Deus, e não me faça ser avó aos trinta e poucos anos!
— Relaxa, mãe! Eu sou um jovem responsável, aprendi com a melhor — ele gargalhou, roubando um pedaço de legume da tábua de cortar.
Nesse exato momento, o som estridente da campainha ecoou pelo apartamento. O sorriso de Ashley sumiu instantaneamente, substituído por uma tensão palpável.
— Fique aí, Pietro. É o convidado que eu te falei — ela disse, limpando as mãos no pano de prato.
Ashley caminhou até a entrada e abriu a porta. Matteo estava parado no corredor. Ele usava uma calça escura e uma camisa de botões preta por baixo de um sobretudo elegante.
— Boa noite, Ashley — ele disse, com um tom de voz baixo.
— Entra, Matteo. Pode ir direto para a cozinha, eu já estou finalizando o jantar — ela orientou, fechando a porta atrás dele.
Matteo entrou no hall, retirou o sobretudo escuro e o pendurou cuidadosamente no cabideiro de parede. Ele respirou fundo, preparando-se psicologicamente para ver o filho — que ele ainda julgava ser seu sobrinho — pela primeira vez em quinze anos. Ele caminhou a passos lentos pelo corredor até cruzar o arco da cozinha.
Pietro, que estava rindo na bancada, virou o rosto para receber o convidado.
No segundo em que os olhos de Pietro focaram nas feições de Matteo, o sorriso do jovem desapareceu como se tivesse sido apagado à força. Uma descarga de adrenalina pura correu pelo corpo do garoto. Pietro tinha memórias fragmentadas, mas nítidas, dos seus dois anos de idade: ele lembrava do salão de festas, dos gritos, dos tiros e do homem idêntico àquele em sua frente derrubando o seu pai, Damon, no chão sangrento antes do FBI invadir tudo. Sofia e Ashley haviam lhe contado a história ao longo dos anos. Aquele homem na sua frente era o monstro que havia destruído sua infância.
Pietro levantou-se da banqueta em um solavanco, derrubando a cadeira para trás com um estrondo. Seus olhos escuros faiscaram de puro ódio.
— Você... — Pietro sibilou, os punhos cerrando-se ao lado do corpo, a respiração ficando ofegante. — O que esse desgraçado está fazendo na nossa casa, mãe?!
Matteo parou no meio da cozinha, pego de surpresa pela hostilidade crua do jovem. Ele estendeu as mãos em um gesto pacífico.
— Pietro... calma. Eu sou o Matteo. Eu sou o seu tio. Eu vim em paz, só quero conversar...
— Tio o caralho! — Pietro berrou, perdendo completamente a razão. O sangue dos Blake ferveu em suas veias com uma violência assustadora. — Você matou o meu pai! Você destruiu a nossa vida no Vermont, seu monstro! Suma da nossa casa! Suma!
Em um movimento rápido e impulsivo, Pietro voou por cima da bancada. Antes que Ashley ou Matteo pudessem reagir, o jovem desferiu um soco violento de direita que atingiu em cheio o maxilar de Matteo.
O impacto fez a cabeça de Matteo virar para o lado, e ele cambaleou um passo para trás, colidindo contra o armário da cozinha. O canto de sua boca começou a sangrar instantaneamente.
— Pietro, não! Para com isso agora! — Ashley gritou em puro desespero, correndo para ficar entre os dois, segurando o peito do filho com as duas mãos, tentando empurrá-lo para trás. — Pietro, se acalma! Pelo amor de Deus, não faça isso!
Pietro tentava desviar da mãe, apontando o dedo na direção de Matteo, o rosto vermelho de fúria e lágrimas de ódio brilhando em seus olhos.
— Eu não quero esse idiota aqui, mãe! Eu não quero um assassino na nossa casa! Ele tirou o meu pai de mim! Como você teve a coragem de convidar o homem que destruiu a nossa família para jantar na nossa mesa?! Você ficou maluca? Manda ele ir embora agora ou eu vou acabar com ele!
Matteo passou a mão pelos lábios, limpando o sangue, e olhou para o jovem. Ele não revidou, não ergueu a voz e não demonstrou raiva. Em vez disso, sentiu um aperto doloroso no peito ao ver o próprio filho defendendo a memória de Damon com tanta garra, sem ter a menor ideia da verdade. Matteo olhou para Ashley, que chorava de nervoso, e depois fixou seus olhos escuros nos de Pietro.
— Está tudo bem, Ashley... não grite com ele — Matteo disse, a voz saindo incrivelmente calma, embora carregada de uma dor profunda. Ele ajeitou a gola da camisa e deu um passo em direção à saída da cozinha. Parou por um segundo, encarando Pietro fixamente. — Você tem o direito de sentir ódio, garoto. Você defende o homem que te criou, e eu respeito isso. Mas lembre-se de uma coisa nesta vida... nada é o que parece ser. A história que te contaram tem mais sombras do que você imagina.
Matteo desviou o olhar, caminhou até o hall de entrada, pegou seu sobretudo no cabideiro e abriu a porta do apartamento. Ele saiu sem olhar para trás, fechando a porta com um estalo suave, deixando o apartamento imerso em um silêncio pesado e sufocante.
Na cozinha, Pietro continuava arfando de raiva, enquanto Ashley desabava encostada na pia, cobrindo o rosto com as mãos, percebendo que a teia de segredos dos Blake continuava a cobrar o seu preço, mesmo quinze anos depois.
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