​Quinze anos haviam se passado, cobrindo as cicatrizes do Vermont com o manto do tempo, embora algumas feridas nunca fechassem por completo. Ashley tomara a decisão de voltar para Nova York assim que Pietro completou a maioridade. Ela precisava encarar os fantasmas do passado. Reabriu sua clínica de psicologia em um prédio elegante de Manhattan, e Sofia, sua fiel escudeira de uma vida inteira, agora trabalhava com ela como recepcionista, gerenciando sua movimentada agenda.

​Naquela tarde de outono, Ashley estava sentada em sua cadeira de couro atrás da mesa de jacarandá, revisando os relatórios de um paciente. O som de duas batidas firmes na porta cortou o silêncio do consultório.

​— Pode entrar — Ashley disse, sem erguer os olhos de imediato.

​A porta se abriu com um clique suave. Passos pesados e decididos ecoaram pelo carpete até pararem em frente à mesa. Quando Ashley levantou a cabeça, seu coração deu um solavanco que ela tentou disfarçar a todo custo.

​Matteo Blake estava parado ali. O tempo tinha sido generoso com ele; aos quarenta e poucos anos, ele estava impecável. Vestia um terno sob medida cinza-chumbo que realçava seu porte atlético, os cabelos escuros agora traziam fios grisalhos charmosos nas têmporas, e seu olhar mantinha a mesma intensidade magnética de sempre. Ele caminhou até a poltrona em frente à mesa e sentou-se, cruzando as pernas longas, observando-a.

​Ashley respirou fundo, fechando o prontuário com um estalo seco, adotando uma postura defensiva.

​— O que você quer aqui, Matteo? — ela perguntou, a voz saindo fria e polida, embora por dentro tudo estivesse revirado. — Quinze anos de silêncio e você simplesmente entra na minha clínica?

​Matteo sustentou o olhar dela por alguns segundos antes de responder. A frieza de outrora dera lugar a uma melancolia madura.

​— Eu soube que você voltou para a cidade, Ashley. E soube que o Pietro completou dezoito anos — Matteo começou, a voz grave e pausada. — Eu preciso conhecer melhor o meu sobrinho. O tempo passou, a poeira baixou e... ele é o único do meu sangue que sobrou vivo neste mundo. Eu não quero reabrir velhas guerras, eu só quero fazer parte da vida do garoto. Deixe-me conhecê-lo.

​Ashley tencionou os ombros, desviando o olhar para a janela. A menção de "sobrinho" vinda de Matteo a machucava, pois ela ainda guardava o segredo da paternidade trancado a sete chaves. Deixar Matteo se aproximar era perigoso, mas ela sabia que Pietro, agora um homem, tinha o direito de conhecer o passado da família, mesmo que sob a farsa de que Damon era seu pai.

​— Eu não acho que seja uma boa ideia, Matteo — ela relutou, o semblante preocupado. — O Pietro cresceu ouvindo sobre o Vermont, sobre o que aconteceu... Ele tem marcas.

​— Eu só preciso de uma chance, Ashley. Um jantar. Nada mais — Matteo insistiu, os olhos escuros suplicando por um milímetro de trégua.

​Ashley encarou as próprias mãos sobre a mesa, pensativa. Por fim, soltou um longo suspiro, cedendo.

​— Tudo bem. Eu vou fazer um jantar hoje à noite na nossa casa. Você pode aparecer. Mas com uma condição: sem assuntos de máfia, sem menções ao passado trágico.

​Ela pegou um bloco de notas, anotou o endereço do apartamento no Upper West Side e estendeu o papel para ele. Matteo pegou o bilhete, levantou-se e ajeitou o paletó.

​— Obrigado, Ashley. Estarei lá às oito — ele disse, dedicando-lhe um último olhar demorado antes de girar nos calcanhares e ir embora.

​À noite, o apartamento de Ashley exalava o aroma acolhedor de um risoto de parmesão e filé grelhado. Ela estava de pé em frente ao fogão, mexendo a panela, com a mente divagando sobre o encontro da tarde.

​De repente, dois braços fortes envolveram sua cintura por trás, puxando-a contra um peito largo. Ashley deu um leve sobressalto, mas sorriu instantaneamente ao reconhecer o gesto. O pequeno Pietro agora tinha 1,85m de altura. Era o clone vivo e escarrado de Matteo, mas seus trejeitos corporais — como aquele abraço apertado por trás — ele havia herdado de Damon, o homem que o criara nos primeiros anos de vida.

​Pietro inclinou a cabeça e beijou a bochecha da mãe de forma estalada, soltando-a para se sentar em uma das banquetas da bancada da cozinha.

​— Hum, o cheiro está incrível, dona Ashley! — Pietro riu, passando a mão pelos cabelos negros e bagunçados. Ele apoiou os cotovelos na mesa, olhando para a mãe com um sorriso travesso. — Sabe de uma coisa, mãe? Eu acho que esta semana é a semana ideal. Estou seriamente querendo perder a minha virgindade. Tem uma garota na faculdade, a Chloe, e cara... eu acho que finalmente vai rolar.

​Ashley quase engasgou com a própria saliva. Ela virou-se para o filho, fingindo indignação com uma colher de pau na mão, mas sem conseguir conter o riso diante da espontaneidade dele.

​— Pietro! Que tipo de conversa é essa com a sua mãe na hora do jantar? — ela brincou, arqueando as sobrancelhas. — Use proteção, pelo amor de Deus, e não me faça ser avó aos trinta e poucos anos!

​— Relaxa, mãe! Eu sou um jovem responsável, aprendi com a melhor — ele gargalhou, roubando um pedaço de legume da tábua de cortar.

​Nesse exato momento, o som estridente da campainha ecoou pelo apartamento. O sorriso de Ashley sumiu instantaneamente, substituído por uma tensão palpável.

​— Fique aí, Pietro. É o convidado que eu te falei — ela disse, limpando as mãos no pano de prato.

​Ashley caminhou até a entrada e abriu a porta. Matteo estava parado no corredor. Ele usava uma calça escura e uma camisa de botões preta por baixo de um sobretudo elegante.

​— Boa noite, Ashley — ele disse, com um tom de voz baixo.

​— Entra, Matteo. Pode ir direto para a cozinha, eu já estou finalizando o jantar — ela orientou, fechando a porta atrás dele.

​Matteo entrou no hall, retirou o sobretudo escuro e o pendurou cuidadosamente no cabideiro de parede. Ele respirou fundo, preparando-se psicologicamente para ver o filho — que ele ainda julgava ser seu sobrinho — pela primeira vez em quinze anos. Ele caminhou a passos lentos pelo corredor até cruzar o arco da cozinha.

​Pietro, que estava rindo na bancada, virou o rosto para receber o convidado.

​No segundo em que os olhos de Pietro focaram nas feições de Matteo, o sorriso do jovem desapareceu como se tivesse sido apagado à força. Uma descarga de adrenalina pura correu pelo corpo do garoto. Pietro tinha memórias fragmentadas, mas nítidas, dos seus dois anos de idade: ele lembrava do salão de festas, dos gritos, dos tiros e do homem idêntico àquele em sua frente derrubando o seu pai, Damon, no chão sangrento antes do FBI invadir tudo. Sofia e Ashley haviam lhe contado a história ao longo dos anos. Aquele homem na sua frente era o monstro que havia destruído sua infância.

​Pietro levantou-se da banqueta em um solavanco, derrubando a cadeira para trás com um estrondo. Seus olhos escuros faiscaram de puro ódio.

​— Você... — Pietro sibilou, os punhos cerrando-se ao lado do corpo, a respiração ficando ofegante. — O que esse desgraçado está fazendo na nossa casa, mãe?!

​Matteo parou no meio da cozinha, pego de surpresa pela hostilidade crua do jovem. Ele estendeu as mãos em um gesto pacífico.

​— Pietro... calma. Eu sou o Matteo. Eu sou o seu tio. Eu vim em paz, só quero conversar...

​— Tio o caralho! — Pietro berrou, perdendo completamente a razão. O sangue dos Blake ferveu em suas veias com uma violência assustadora. — Você matou o meu pai! Você destruiu a nossa vida no Vermont, seu monstro! Suma da nossa casa! Suma!

​Em um movimento rápido e impulsivo, Pietro voou por cima da bancada. Antes que Ashley ou Matteo pudessem reagir, o jovem desferiu um soco violento de direita que atingiu em cheio o maxilar de Matteo.

​O impacto fez a cabeça de Matteo virar para o lado, e ele cambaleou um passo para trás, colidindo contra o armário da cozinha. O canto de sua boca começou a sangrar instantaneamente.

​— Pietro, não! Para com isso agora! — Ashley gritou em puro desespero, correndo para ficar entre os dois, segurando o peito do filho com as duas mãos, tentando empurrá-lo para trás. — Pietro, se acalma! Pelo amor de Deus, não faça isso!

​Pietro tentava desviar da mãe, apontando o dedo na direção de Matteo, o rosto vermelho de fúria e lágrimas de ódio brilhando em seus olhos.

​— Eu não quero esse idiota aqui, mãe! Eu não quero um assassino na nossa casa! Ele tirou o meu pai de mim! Como você teve a coragem de convidar o homem que destruiu a nossa família para jantar na nossa mesa?! Você ficou maluca? Manda ele ir embora agora ou eu vou acabar com ele!

​Matteo passou a mão pelos lábios, limpando o sangue, e olhou para o jovem. Ele não revidou, não ergueu a voz e não demonstrou raiva. Em vez disso, sentiu um aperto doloroso no peito ao ver o próprio filho defendendo a memória de Damon com tanta garra, sem ter a menor ideia da verdade. Matteo olhou para Ashley, que chorava de nervoso, e depois fixou seus olhos escuros nos de Pietro.

​— Está tudo bem, Ashley... não grite com ele — Matteo disse, a voz saindo incrivelmente calma, embora carregada de uma dor profunda. Ele ajeitou a gola da camisa e deu um passo em direção à saída da cozinha. Parou por um segundo, encarando Pietro fixamente. — Você tem o direito de sentir ódio, garoto. Você defende o homem que te criou, e eu respeito isso. Mas lembre-se de uma coisa nesta vida... nada é o que parece ser. A história que te contaram tem mais sombras do que você imagina.

​Matteo desviou o olhar, caminhou até o hall de entrada, pegou seu sobretudo no cabideiro e abriu a porta do apartamento. Ele saiu sem olhar para trás, fechando a porta com um estalo suave, deixando o apartamento imerso em um silêncio pesado e sufocante.

​Na cozinha, Pietro continuava arfando de raiva, enquanto Ashley desabava encostada na pia, cobrindo o rosto com as mãos, percebendo que a teia de segredos dos Blake continuava a cobrar o seu preço, mesmo quinze anos depois.