Entre Grades e Destinos
24 A Linha Tênue entre o Medo e o Afeto
Os dias que se seguiram trouxeram uma mudança sutil, mas profunda, na rotina do Vermont. Damon parecia determinado a cumprir a promessa que fizera naquela manhã após o ultimato. A agressividade crua deu lugar a uma atenção constante e a um carinho genuíno. Ele não a encurralava mais com ameaças; em vez disso, trazia brinquedos novos para Pietro, ajudava nas tarefas da casa com uma leveza que Ashley nunca imaginou ver em um Blake, e a tratava com uma paciência quase reconfortante.
O cérebro humano é complexo e, como psicóloga, Ashley sabia disso melhor do que ninguém. A convivência forçada, a proteção que ele de certa forma oferecia contra a fúria de Ricardo, e a imagem dele agindo como um pai dedicado para Pietro começaram a embaralhar os sentimentos dela. A repulsa inicial foi, lentamente, sendo desgastada pelo hábito. Ela começou a se acostumar com a presença dele, com o cheiro do seu perfume no sofá, com o som da sua risadaecoando pela sala. Tanto que, quando Damon desapareceu de repente, um vazio estranho se instalou na casa.
Foram quinze dias de silêncio absoluto. Damon precisara voltar às pressas para Nova York para resolver uma crise financeira nos novos carregamentos do porto, deixando Ashley sem qualquer notícia.
Nas duas semanas de ausência dele, Ashley pegou-se várias vezes parada em frente à janela da sala, olhando para a rua deserta, esperando ver o carro importado escorregar pelo meio-fio. O silêncio da casa a incomodava. Ela sentia falta da movimentação, da segurança que a figura imponente dele trazia contra o resto do mundo e, acima de tudo, sentia falta do olhar de Pietro acendendo ao ver o "pai" entrar pela porta.
Na décima quinta noite, o cansaço do consultório fez Ashley pegar no sono mais cedo. A casa estava mergulhada na escuridão e no silêncio da madrugada.
Por volta das três da manhã, o som quase imperceptível da porta da frente sendo destrancada cortou a calmaria. Passos descalços caminharam pelo corredor. A porta do quarto de Ashley se abriu devagar. Damon entrou, exausto da viagem, com os olhos pesados, mas fixos na silhueta loira adormecida sob os lençóis. Em silêncio, ele retirou o terno, a camisa e as roupas, ficando apenas de cueca box. Ele escorregou para baixo das cobertas, deitando-se ao lado dela, e envolveu a cintura de Ashley com seus braços longos, puxando-a para junto de seu peito quente.
O movimento e o calor repentino fizeram Ashley despertar. Ela piscou contra a escuridão, sentindo os braços firmes ao seu redor. Ao reconhecer o toque e o perfume dele, seu coração deu um solavanco, e uma onda de alívio genuíno, misturada com uma urgência que ela não conseguiu conter, tomou conta de sua voz.
— Damon?... Meu Deus, você voltou — ela disse, virando o corpo de frente para ele na cama, as mãos tocando os ombros nus do homem, a voz saindo carregada de uma preocupação real. — Onde você estava? Quinze dias sem dar um único sinal de vida... Eu achei que... achei que o seu pai tivesse descoberto sobre nós, ou que algo terrível tivesse acontecido com você em Nova York! Por que não ligou?
Damon, que esperava encontrar a habitual frieza ou uma esquiva mecânica, paralisou por um segundo. Um sorriso largo, de canto, genuinamente feliz e vitorioso, surgiu em seus lábios na penumbra do quarto. Ele acariciou o rosto dela com o polegar.
— Olha só para você, loira... — ele sussurrou, a voz rouca pelo cansaço e pela satisfação. — Você estava preocupada comigo? Quem diria... Parece que a doutorinha puritana está realmente começando a gostar de mim de verdade.
Ashley sentiu as bochechas corarem na escuridão. O orgulho e o fantasma do passado tentaram fazê-la recuar. Ela desviou o olhar por um segundo, tentando adotar uma postura defensiva para camuflar o que realmente estava sentindo.
— Não seja ridículo, Damon — ela mentiu, a voz tentando soar firme, embora estivesse colada ao peito dele. — Eu estava preocupada porque o Pietro passa o dia inteiro olhando para a porta, perguntando pelo pai. Ele sentiu a sua falta, chorou duas noites seguidas querendo brincar com você. Eu fiz isso pelo nosso filho, só isso.
Damon soltou uma risada baixa, rouca, o peito vibrando contra o dela. Ele não se deixou enganar pela desculpa, mas adorou o fato de ela estar usando Pietro para esconder o próprio afeto.
— É... o Pietro. Claro — ele ironizou, puxando o queixo dela para que olhasse nos seus olhos. — Vou fingir que eu acredito nessa sua desculpa de mãe dedicada, Ashley. Mas a verdade é que você sentiu a minha falta na sua cama. E eu senti a sua.
Ele não deu tempo para que ela argumentasse. Damon a tomou nos braços com uma intensidade renovada pela saudade das duas semanas de distância. Ele a beijou com paixão, e desta vez, Ashley não precisou fechar os olhos e imaginar Matteo para suportar o ato. Ela se entregou ao toque de Damon, respondendo aos estímulos dele de forma ativa, deixando-se levar pela onda de carinho e calor que ele oferecia. Naquela noite, a farsa deu lugar a uma conexão real na escuridão do quarto.
Na manhã seguinte, os raios de sol iluminavam a cozinha. Damon já estava vestido com um terno novo, pronto para ir ao porto resolver os trâmites do galpão. Ele segurava a mão de Ashley na porta da frente, despedindo-se com um beijo carinhoso nos lábios.
— Volto para o jantar, querida. Comprei um presente para o Pietro — ele disse, piscando para ela antes de descer os degraus da varanda e entrar no carro.
Ashley acenou, com um sorriso leve no rosto, fechando a porta em seguida. No mesmo instante, a porta dos fundos se abriu e Sofia entrou na casa, trazendo uma sacola com pães frescos. Ela olhou para Ashley, notando o semblante mais relaxado e os olhos brilhantes da amiga.
As duas se sentaram à mesa da cozinha para tomar o café da manhã. O silêncio reinou por alguns minutos enquanto Ashley servia o café fumante nas xícaras.
— Ele voltou ontem à noite, não foi? — Sofia perguntou, quebrando o silêncio, o tom de voz misturando cautela e preocupação.
Ashley segurou a xícara com as duas mãos, olhando para o líquido escuro. Ela soltou um suspiro longo, o peso da confissão que estava prestes a fazer deixando sua voz trêmula.
— Sim, ele voltou de madrugada, Sofi — Ashley começou, os olhos azuis buscando os da amiga com uma honestidade assustadora. — E... eu preciso te contar uma coisa. Eu passei as últimas duas semanas angustiada, olhando pela janela todos os dias. E ontem, quando ele deitou do meu lado... eu senti um alívio tão grande. Sofi... eu acho que estou começando a sentir algo de verdade pelo Damon. Não é mais só o medo pelo Pietro. Ele tem sido tão atencioso, tão carinhoso com a gente... Eu estou gostando dele.
Sofia colocou a xícara na mesa com um estalo, o rosto empalidecendo instantaneamente. O pavor tomou conta de seus olhos. Ela segurou as mãos de Ashley através da mesa, a voz saindo em um sussurro urgente de aviso.
— Ashley, não... pelo amor de Deus, me diz que você não está fazendo isso — Sofia pediu, o nervosismo explícito em suas feições. — Você está perdendo o juízo? Nós estamos falando do Damon Blake! Ele te chantageou, ele te ameaçou com uma arma na cabeça há poucas semanas, ele bateu no meu rosto! Esse carinho dele é uma armadilha para te prender!
— Eu sei o que ele fez, Sofi! Eu não esqueci! — Ashley rebateu, a voz embargada pelas próprias contradições. — Mas as coisas mudaram. Ele cuida do meu filho, ele me protege do Ricardo... Ele me dá uma estabilidade que eu nunca tive desde que fugi de Nova York.
— Ashley, escuta o que eu estou te dizendo — Sofia implorou, apertando os dedos da amiga, temendo pelo futuro dela. — Dois irmãos, Ashley. Você se apaixonou pelo Matteo, viveu uma história intensa com ele, teve um filho dele... e agora está se entregando e sentindo coisas pelo irmão mais velho, o homem que odeia o Matteo e que gerencia o crime nesta cidade! Os dois são mafiosos, Ash. O sangue deles é perigoso, o mundo deles é cercado de mortes e mentiras. Você está entrando em uma teia doentia. Se o Matteo descobrir a verdade, ou se o Ricardo descobrir sobre o Pietro, essa sua ilusão de família feliz vai virar um banho de sangue. Você tem que tomar muito cuidado, ou esse sentimento vai acabar destruindo você e o seu filho.
Ashley engoliu em seco, olhando para o vazio da cozinha. As palavras de Sofia ecoaram como um aviso sombrio em sua mente. Ela sabia do perigo, sabia da complexidade daquela teia, mas seu coração já havia cruzado a linha de não retorno. Ela estava presa entre dois irmãos, dois monstros das sombras, e o preço de seus novos sentimentos poderia ser alto demais para pagar.
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