Entre Golpes e Beijos
1 A Inocência do Caos
O sábado pautava-se por uma lentidão quase palpável. A tarde avançava pela sala de estar dos Forger, desenhando longas faixas de um dourado preguiçoso sobre o tapete. Alheia à monotonia do relógio, Anya encontrava-se deitada de bruços, com a ponta da língua pressionada firme contra os lábios enquanto empunhava um giz de cera. Seu projeto atual era de extrema importância: desenhar uma capa monumentalmente dramática nas costas de Bond, que repousava como uma enorme esfinge de pelos brancos.
A poucos metros dali, Loid mantinha o jornal aberto diante dos olhos, embora o gesto ritmado de ajeitar os óculos de minuto em minuto denunciasse que sua mente operava em outra frequência. Do outro lado do sofá, Yor concentrava toda a sua atenção na agulha de costura, remendando com paciência o avental rosa que a filha quase reduziu a cinzas na última e desastrosa aventura culinária da semana.
Era a paz. Uma paz tão perfeita que parecia flutuar, improvável, naquele apartamento.
Até que Anya ergueu o rosto. Em suas feições, desenhou-se aquela expressão miúda e perigosa que, no dicionário particular de Loid, significava apenas uma coisa: caos iminente.
— Ma… Papi… quem de vocês dois é o mais forte?
Loid abaixou o jornal milimetricamente, os olhos azuis estreitados em pura desconfiança. — De onde veio essa pergunta, Anya?
— Curiosidade, ué. — A menina respondeu de pronto, oferecendo um sorriso largo que, para um bom observador, prometia uma catástrofe de proporções bíblicas.
Yor sentiu o sangue subir quente pelas bochechas, abandonando a agulha por um instante. — Querida, a Ma não é muito forte. Com certeza, o Loid...
A afirmação morreu no ar. Era uma mentira deslavada, e Anya possuía o mapa completo da verdade dentro de sua cabeça. “A Ma quebra gente no meio. O Papi pula prédios. Eu quero ver”, pensou a criança, os olhos brilhando em pura expectativa telepática.
— Mas vocês nunca lutaram! — Anya insistiu, cruzando os braços e inflando as bochechas em uma dramatização digna dos palcos de Berlint. — Não é justo!
O sobressalto de Loid foi nítido; ele precisou firmar os dedos ao redor da xícara para não derrubar o café no tapete. — Lutar, Anya? Isso é perigoso. Casais não lutam dentro de casa.
— De brincadeira! — Ela choramingou na velocidade de um estalo. Os olhos marejaram com uma perfeição profissional que faria inveja a qualquer atriz de teatro.
Como sempre ocorria diante das lágrimas da menina, as defesas da casa desmoronaram. Yor entrou em um pânico genuíno, soltando o avental de uma vez. — AH, NÃO CHORE! A Ma faz qualquer coisa! Qualquer coisa, querida!
— Yor, por favor, não há necessidade de exagerar... — Loid tentou intervir, a voz pragmática sendo soterrada pelo desespero da esposa.
— Mas ela está chorando, Loid! Olhe para os olhinhos dela!
Anya ergueu o rosto no mesmo milésimo de segundo, as lágrimas desaparecendo como se nunca tivessem existido. — Uma queda de braço!
Loid fechou os olhos por um breve instante, aceitando a derrota inevitável diante daquela lógica infantil avassaladora. — Tudo bem. Só uma. Para encerrarmos o assunto.
O rosto de Yor atingiu um tom escarlate que alcançou a ponta das orelhas. — Eu? Contra você, Loid-san?
— Uhum! — Anya assumiu o comando, subindo no sofá para atuar como árbitro oficial da disputa. — Quem ganhar é o mais forte da casa!
Os dois se acomodaram frente a frente diante da pequena mesa de centro. A mão de Yor avançou com uma delicadeza tímida, os dedos longos hesitando por um segundo antes de serem envolvidos pela pegada firme e precisa de Loid. Quando as palmas se selaram, o tempo pareceu sofrer um pequeno desvio. Eles estenderam o ajuste dos dedos por um período ligeiramente maior do que o protocolo exigia, pele contra pele, medindo inconscientemente a textura daquela união.
Anya inclinou-se para frente, estreitando os olhos grandes. — Vocês vão lutar… ou namorar?
O efeito foi imediato. Loid engasgou com o próprio ar, enquanto Yor perdeu o equilíbrio dos ombros, quase tombando para o lado. — ANYA! — protestaram em um uníssono defensivo e barulhento.
— Só perguntando! — rebateu a menina, sem qualquer ponta de remorso.
A contenda teve início sob o signo da cautela. Era força rigidamente medida; controle absoluto de parte a parte. Durante dez segundos intermináveis, nenhum dos braços cedeu um milímetro sequer. O que se via na sala não lembrava uma competição, mas sim uma cena de intimidade silenciosa, onde os corpos conversavam em uma frequência que nenhum dos dois sabia explicar.
Até que Loid, decidindo testar a resistência, aplicou uma fração real de força.
A resposta de Yor foi um reflexo puramente instintivo de seu corpo treinado. A madeira da mesa estalou sob a pressão renovada. O braço da mulher tremeu levemente, não por fraqueza, mas pelo esforço hercúleo de conter a própria potência devastadora. Loid manteve os olhos fixos nos dela, calculando limites, lendo as microexpressões daquele rosto tão próximo. Os olhares estavam presos; as respirações, suspensas em um compasso curto. Era uma disputa calma, contudo dotada de uma intensidade e elegância que eletrizavam o espaço entre eles.
Percebendo que a integridade física do móvel — e talvez o disfarce de ambos — corria perigo, Loid cedeu abruptamente, abrindo os dedos.
— Chega. Vamos acabar quebrando a mesa se continuarmos.
Anya franziu a testa, captando os ruídos mentais que ecoavam de ambos os lados. ''les estão se segurando… os dois. Que legal.'' O pensamento fez um sorriso perigoso brotar em seus lábios.
— Papi. Ma. Podem lutar de verdade? Tipo… num lugar especial?
Um silêncio mortal abateu-se sobre o cômodo. Loid soltou um longo suspiro, desarmado pela única força contra a qual o serviço secreto de Westalis não possuía contra-ataque: a persistência indomável de sua filha.
— Você não vai desistir dessa ideia, vai, Anya?
— Não.
Yor soltou uma risada miúda, os dedos tamborilando no colo em puro nervosismo. — Bem... talvez possamos mostrar algumas técnicas simples, Loid-san. Em um ambiente adequado e seguro, é claro.
Loid desviou o olhar para ela. Encontrou o sorriso tímido, a expressão gentil que parecia genuinamente disposta a agradar a menina, e sentiu a última de suas resistências desmoronar. — Conheço um lugar que pode servir.
Anya ergueu os braços, explodindo em comemoração. — EU AMO VOCÊS!!!
Sem perder tempo, a menina saltou do sofá e começou a empurrá-los em direção à porta, assumindo a liderança da caminhada como se guiasse uma operação militar de alta relevância.
Meia hora mais tarde, o trio estacionava diante de um galpão imponente. O edifício erguia-se de forma discreta no término de uma rua industrial pouco movimentada, ostentando o visual cinzento e rústico que o permitia desaparecer na paisagem urbana. Quando Loid sacou o molho de chaves e abriu o pesado cadeado de ferro com uma naturalidade desconcertante, Yor piscou, os olhos vagando pela estrutura.
— L-Loid… você tem acesso livre a um galpão como este?
O espião não demonstrou o menor traço de hesitação. A resposta veio fluida, moldada pela experiência de quem lidava com improvisos diariamente. — Ah, sim. É uma propriedade vinculada à clínica psiquiátrica. Nós a utilizamos para... terapias de reabilitação avançada. Exercícios de foco físico, programas de apoio comunitário. Esse tipo de atividade.
Yor sustentou o sorriso cortês, embora uma leve linha de dúvida tivesse se desenhado em sua testa. — Terapia… dentro de um galpão?
— O espaço amplo é um excelente aliado no processo de recuperação motora dos pacientes — justificou ele, utilizando a entonação pausada e técnica que conferia autoridade a qualquer uma de suas mentiras.
Antes que a lógica de Yor pudesse encontrar alguma aresta naquela desculpa, Anya cruzou a entrada em disparada, com Bond em seu encalço. Os olhos da menina reluziam diante do vão massivo de concreto. — UAAAAU! É GIGANTE! BOND, CORRE!!!
O enorme cão soltou um latido festivo, os cascos pesados ecoando contra o chão de cimento e preenchendo o vazio do galpão com uma algazarra colorida e improvisada. Yor acompanhou a cena com o olhar, deixando que um riso suave escapasse por entre os lábios. — Eles parecem… realmente muito felizes aqui.
— É — Loid murmurou de volta, os braços cruzados enquanto observava a silhueta da filha correr ao longe. — Felizes demais.
O interior do galpão guardava uma atmosfera própria, cortada pelas colunas de luz solar que atravessavam as janelas dispostas no alto das paredes. No canto esquerdo, pilhas de tatames de lona repousavam ordenadas. Com movimentos rápidos e uma precisão que denotava hábito, Loid começou a estendê-los sobre o piso rígido.
Yor acompanhava cada gesto, a curiosidade brilhando em suas pupilas escuras. — Você parece conhecer muito bem a disposição deste lugar, Loid-san…
— A rotina da clínica exige que mantenhamos um bom condicionamento físico — ele respondeu, concentrado em alinhar as bordas das placas de borracha, sem erguer os olhos. — Eu costumo praticar aqui… às vezes.
Não se tratava de uma mentira absoluta. Ele apenas omitia o fato de que aquele mesmo piso já fora palco de treinamentos táticos de sobrevivência e combates corpo a corpo da WISE.
Enquanto Loid finalizava a preparação do perímetro, Yor afastou-se alguns passos e iniciou uma sequência de alongamentos. Os movimentos de seu corpo eram fluidos, transicionando de uma postura a outra com uma elasticidade rigorosa que denunciava décadas de prática disciplinada.
Loid desviou a atenção por um breve segundo e, contra a própria vontade, deu-se conta de que observava a flexibilidade incomum da esposa. Uma de suas sobrancelhas arqueou-se sutilmente, registrando o dado técnico com um misto de admiração e alerta.
Percebendo a fixação do olhar dele, Yor recolheu as pernas imediatamente, a pele alva do rosto sendo tomada por um rubor repentino. — D-Desculpa! É um hábito bobo... das minhas aulas de defesa pessoal!
— Não há motivo para se desculpar, Yor-san — ele replicou, recobrando a voz séria e profissional de sempre. — Seu nível de alongamento é verdadeiramente excelente.
O elogio fez o coração de Yor dar um sobressalto descompassado dentro do peito, uma sensação quente que o vinho da noite anterior não seria capaz de replicar.
Antes que o silêncio se estendesse, Anya materializou-se entre os dois, a testa úmida de suor e as bochechas coradas, apontando orgulhosa para o cão que continuava a correr em círculos perfeitos. — O Bond está treinando para se tornar o grande campeão!!!
O animal soltou um latido robusto, como se estivesse assinando embaixo do decreto da dona. Loid inspirou fundo, buscando seu estoque de paciência paternal. — Anya, preciso que você e o Bond fiquem acomodados naquele canto enquanto eu e sua mãe fazemos o aquecimento. Tudo bem? É para a segurança de vocês.
A menina inflou as bochechas, pronta para iniciar um novo protesto, mas Yor agiu com rapidez. Ajoelhou-se no tatame, envolvendo as pequenas mãos da filha com um toque macio e acolhedor. — É muito importante, querida. Se não prestarmos atenção, podemos sofrer um acidente… e aí você não vai conseguir assistir à nossa demonstração.
O argumento atingiu o alvo com precisão cirúrgica. Anya soltou um suspiro dramaticamente longo, aceitando os termos do acordo. — Tá bom. Mas eu vou observar cada detalhe. TUDO.
— Perfeito — Loid anuiu, permitindo que um sorriso mínimo desenhasse o canto de seus lábios. — O papel de observadora é o mais crucial de todos.
Com a pose de uma juíza prestes a abrir um tribunal, Anya correu em direção ao limite estipulado, acomodando-se de pernas cruzadas ao lado de Bond, que sentou-se ereto. — Comecem quando quiserem! Eu e o Bond estamos prontos!!!
Loid e Yor ergueram-se por completo, restando apenas os dois sobre a superfície azul dos tatames. O ambiente ao redor pareceu sofrer uma mutação sutil; as vozes da infância recuaram para o fundo da consciência, dando lugar a um entendimento mudo que se instalou entre os adultos.
Eles estenderam os braços uma última vez, executando os giros finais de aquecimento. O ar dentro do galpão tornou-se subitamente mais denso, preenchido pelo som da respiração ritmada de ambos e pela concentração absoluta que emanava de suas posturas. Loid flexionou os pulsos, testando a mobilidade das articulações. Yor ergueu o queixo milimetricamente, a coluna alinhada em uma simetria impecável.
O movimento de abertura foi sutil: um avanço medido, seguido pelo toque breve de suas palmas espalmadas — um teste mútuo de centro e equilíbrio.
— Pronta? — A pergunta de Loid soou baixa, quase como um segredo partilhado.
— Sempre — ela respondeu, e o brilho que cruzou suas pupilas não pertencia mais à pacata funcionária da prefeitura.
E então, eles avançaram.
No canto escuro do galpão, Anya e Bond permaneciam com os olhos fixos na lona, maravilhados pela coreografia que se iniciava, como se estivessem diante de dois deuses bíblicos testando as forças da criação em absoluto segredo.
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