Entre Flores e Sombras (Sebastian e Sam - Stardew)
10 Teoria do Caos
Noite fria de outono. Um sentimento enorme de angústia.
Sebastian enrola um cachecol em seu pescoço e sai de casa, evitando fazer muito barulho.
Fica em pé ao lado do Lago da Montanha. Seu lugar de refúgio. A mente se embaralha num turbilhão de pensamentos.
Por causa dela.
Coloca a mão no bolso do moletom favorito. Tateia até encontrar a caixa de cigarros, acende um até a metade.
Mas quando vai tragar, desiste e joga a bituca no chão, amassando-a. Olha para o cigarro como um hábito que já não serve para nada.
Depois se senta no chão, a grama fria roçando em suas calças xadrez.
Após acender e apagar o cigarro, ele reflete:
— Hum... às vezes uma coisa idiota muda tudo.
Ele se encolhe entre os joelhos, irritado consigo mesmo. Fechou a cara, se sentindo um velho dramático.
Um pouco hesitante, ele pega um caderninho e um lápis que estavam no outro bolso. Com as mãos tremendo um pouco, resolve escrever sobre o que o afligia.
"Eu disse pra mim mesmo que ia esquecer."
"Não deveria olhar pra ela daquele jeito."
"O Sam gosta dela. Ele merece alguém como ela"
"Mas então, por que me sinto assim?"
O garoto respirou fundo, olhando para o lago cristalino. Uma brisa fria atinge seu rosto, fazendo-o se arrepiar. Era somente ele e o barulho dos grilos ali. Nada mais.
Então decide rabiscar um poema na outra página do caderno.
"O jeito que ela diz meu nome—"
Ele rabisca tão forte que rasga o papel.
— Não, isso não deveria... — suspira, sem completar o pensamento.
Ele passa as mãos nervosamente nos cabelos escuros, procurando soluções para o conflito interno que sentia. Fechou o caderno com força, como se aquilo fosse resposta o suficiente.
— Katarina...
Ele ficou ali até o cigarro esfriar no chão, sentindo o mundo quieto demais para tanto barulho dentro de si.
**
Na manhã seguinte, um Sebastian derrotado levanta da cama. Ainda sonolento, sem saber que horas eram — afinal, não tinham janelas no porão — vai ao banheiro para escovar os dentes.
Ao se olhar no espelho, percebe as olheiras profundas ficando mais escuras ainda. Estava dormindo mal, de novo.
Também por causa dela.
Voltando para o quarto, o moreno ligou o computador, apesar de estar sentindo dificuldade em focar no monitor. Já eram dez horas, precisava tomar logo seu café da manhã se não quisesse ficar sem apetite para o almoço.
Mesmo assim, resolveu procrastinar um pouco rolando na internet. Acabou caindo num fórum aleatório de conselhos amorosos. Aquilo era patético... mas ele continuou rolando mesmo assim.
— Em que ponto cheguei, huh? — refletiu, frustrado.
Após algum tempo se entretendo lendo relatos de outras pessoas sofrendo por desilusões amorosas, Seb escutou risadas no andar de cima.
Uma risada que ele conhecia muito bem.
As palmas das mãos começaram a suar. Queria vê-la, mas sentia urgentemente que deveria evitá-la.
Seria injusto com Sam, seu melhor amigo.
Levantou da cadeira e ficou andando em círculos pelo quarto, pensando no que deveria fazer. A barriga roncava de fome e não poderia ficar esperando mais. Estava há muitas horas sem comer nada.
— Foda-se. — ele concluiu, tentando se manter indiferente. Abriu a porta do porão e subiu rapidamente, tentando não ser notado.
Para o azar dele, ela estava logo em frente às escadas, conversando com Maru.
Ao percebê-lo, a irmã mais nova piscou para o mais velho, divertida, apontando com o queixo para ele, fazendo Kat notá-lo.
— Legal, valeu maninha. — pensou, irritado.
Pra piorar tudo, Katarina estava muito bonita hoje. Ele reparava nos cabelos vermelhos presos num rabo de cavalo frouxo. Geralmente ela o mantinha solto... – notava
Ao perceber que agora ela o encarava, tentou não retribuir o olhar, mesmo que quisesse muito. Desviou a cabeça rapidamente em reflexo, como alguém que tira a mão de uma superfície quente.
Maru pigarreia, como quem quer atenção total dele. Relutante, ele se vira primeiro para a irmã, evitando olhar diretamente para Katarina.
Mas ao perceber os olhos doces dela voltados para si, sentiu que seria uma injustiça não dar uma olhadinha de volta.
Seu gesto é rápido, ele não quer perder o controle dos pensamentos novamente.
Mesmo assim, ele demora meio segundo a mais nos lábios dela.
Rapidamente sente o rosto esquentar. Seria péssimo se as duas o flagrassem fazendo aquilo. Engoliu em seco.
— De pijama ainda? — Maru levantou uma sobrancelha.
— Vou tomar café agora. — ele cortou, seco. Queria logo ir para cozinha e finalizar aquele encontro o mais rápido possível.
— A Katarina veio me ver hoje, estávamos falando de alguns projetos tecnológicos para ajudar no manejo das plantações. — apontou Maru, ajustando os óculos.
O moreno apenas levantou as sobrancelhas, como quem achava "interessante". Mas quando foi se virar para ir ao outro cômodo, a ruiva o interrompeu:
— Não vai me cumprimentar? — Kat inclinou a cabeça, travessa. Esse pequeno gesto fazia o corpo de Sebastian reagir de forma inexplicável.
– Oi. — disse ele secamente. Depois, virou de costas e se apressou para encher uma xícara de café, tropeçando no meio do caminho.
Katarina arqueou uma sobrancelha, apagando o sorriso. Ela e Maru se entreolharam, sem entender porquê Seb havia sido tão... grosso. Sem motivo nenhum.
Ao chegar na cozinha, as mãos de Sebastian tremiam.
— Droga. — ele resmungou para si.
Tomou rapidamente seu café e comeu uma fatia de pão. Balançava a perna direita, angustiado. Ele terminou de comer depressa e andou a passos largos de volta ao porão.
Ao passar pelas duas novamente na escada, Seb apenas pressionou os lábios, mudo. Maru encarava com desaprovação o irmão mais velho descendo despreocupadamente.
**
No meio da tarde, o rapaz de cabelos escuros estava deitado em sua cama, lendo quadrinhos e mascando chiclete. Um dos seus passatempos preferidos.
Escutou batidas na porta do quarto e ignorou, imaginando ser Robin. Sabia que ela abriria a porta de toda forma logo em seguida.
Mas se surpreendeu ao se deparar com uma Maru com um semblante preocupado.
— Ei... — ela entra no quarto e fecha a porta atrás de si.
Sebastian a ignora, mantendo os olhos focados no quadrinho que estava lendo.
Ela permanece ali em pé, de frente para a porta de madeira, construída pela mãe deles. O mais velho percebe que Maru não sairia dali até ser notada. Uma coisa poderia afirmar sobre ela: sabia o que queria e sempre conseguia.
Revirando os olhos, ele finalmente encara a irmã.
— O que foi? — pergunta, impaciente.
— Não gostei da forma como você tratou a Kat hoje mais cedo — diz Maru, séria, mas sem dureza.
— Tá. — ele volta a olhar para os quadrinhos, tentando parecer indiferente, mesmo que o nome da ruiva o deixe em alerta.
Maru respira fundo.
— Você pode me levar a sério só uma vez? Tem algum motivo pra isso?
— Não tem motivo nenhum. — Seb suspira, cansado.
— Então por que fez aquilo? — Maru franze a testa. — Ela ficou sem graça, Seb.
Ele aperta os olhos, incomodado. Não queria magoar Katarina, só não sabia como se afastar sem parecer um idiota.
— Tô só... tentando não complicar as coisas.
— Complicar pra quem? Pra você ou pra ela? — Maru solta, mas o tom é mais preocupado que sarcástico. — E para de afastar as pessoas, Tião.
— Pelo amor de Deus, não me chama assim. — ele revira os olhos.
Maru se aproxima e senta na ponta da cama. Seb se afasta um pouco, mas não a impede.
— Dá pra ver que você tá evitando a Kat — continua ela, com calma. — E, olha... eu sei que é difícil gostar de alguém e não saber como agir.
Isso mexe nele. Ele larga os quadrinhos e a encara, num silêncio pesado.
— Maru... — ele passa as mãos nas têmporas. — Eu não quero falar disso. Eu só... tô cansado.
Ela baixa um pouco o olhar, tocada mais pela tristeza do irmão do que pelo mau humor dele.
— Tá. Só... não esquece que ninguém consegue viver sozinho.
Ela sai, fechando a porta devagar.
**
Sebastian passou a tarde toda se arrependendo das decisões que havia tomado naquele dia.
Não havia sido justo com sua irmãzinha. Planejava pedir desculpas no outro dia, depois comprar morangos pra ela pra recompensar.
O que mais doía é que Maru estava certa: Seb gostava de Katarina e não sabia demonstrar isso. Ou melhor, não poderia.
Por causa do Sam.
Sentado em frente ao computador, sem foco, estava tentando decidir como passaria a próxima madrugada em claro: quadrinhos ou videogame?
Foi quando olhou para o caderninho aberto em cima da mesa. Leu novamente as frases que havia escrito na noite anterior.
Ele repetiu mentalmente várias vezes, até que decidiu fazer algo estúpido.
Num ato impulsivo, pegou o celular e procurou o nome dela na lista de contatos. Sentou na cama e abriu o aplicativo de conversas, no número dela. Clicou para ver a foto de perfil.
Levantou o canto da boca ao olhar pra ela. O cabelo ruivo esvoaçante se destacava, o rosto iluminado pela luz de um pôr do sol, que lembrou o rapaz daquele último dia de verão em que estavam conversando sobre vulnerabilidades.
Ela estava sorrindo. E aquele sorriso o matava. Como ela conseguia mexer tanto com ele?
Abrindo novamente a janela de conversas, começou a digitar o que tanto queria dizer pra ela:
"Você estava linda hoje."
Ele mantém o dedo acima do botão de apagar, mas desiste.
— Se eu apertar esse botão muda algo? Ou muda tudo? — mordeu o lábio inferior.
O garoto começou a sentir medo das próprias dúvidas e tentou se acalmar, suspirando fundo...
– Não, eu não deveria...
Mas sem querer deixa o celular cair em cima de seu rosto.
— Ai, caralho.
Jogou o aparelho de lado, massageando o nariz.
Foi quando ouviu uma notificação chegar.
Ele congela.
— Não pode ser...
Um erro de toque.
Um deslize mínimo.
Um bater de asas.
E o mundo inteiro sai do lugar.
Sebastian pega o celular mais rápido que um vulto, o coração disparado. A confirmação:
Ela havia visto a mensagem... e respondido.
O caos começava com coisas pequenas, e agora Sebastian sabia:
Ele tinha acabado de provocar uma tempestade.
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