Entre Fachadas

1 O vizinho novo


O cheiro de café fresco preenchia a cozinha antes mesmo do sol vencer completamente as cortinas claras do apartamento. Era um cheiro doméstico, comum, quase banal. E justamente por isso, perigoso. Loid Forger sabia disso melhor do que ninguém.

A rotina era uma armadura. Uma que precisava parecer natural demais para levantar suspeitas.

Yor estava de pé junto ao balcão, as mãos ocupadas com algo simples demais para combinar com a precisão quase cuidadosa de seus movimentos. Usava um vestido claro, confortável, apropriado para uma manhã comum. O cabelo preso de forma prática deixava alguns fios soltos perto do rosto, rebeldes o suficiente para suavizar sua presença. Ela parecia… normal.

Normal era uma palavra traiçoeira.

— Anya, sente-se direito — disse Loid, sem erguer o tom de voz, enquanto ajustava a gravata com uma mão e folheava o jornal com a outra.

— Tô sentada! — Anya respondeu, exagerando o esforço, os pés balançando no ar. — Só pensando.

Isso fez Loid erguer os olhos por um segundo a mais do que o necessário.

— Pensando em quê?

Anya inclinou a cabeça, os olhos verdes brilhando com aquela expressão que misturava curiosidade genuína e algo impossível de classificar.

— Como hoje parece um dia estranho.

Yor virou-se lentamente.

— Estranho? — perguntou ela, num tom suave demais, quase cauteloso.

Anya deu de ombros.

— Não sei. Só parece.

Loid fechou o jornal com mais força do que pretendia. Um gesto mínimo. Quase nada. Mas Yor percebeu. Sempre percebia.

— Deve ser só ansiedade por causa da escola — disse ele, recompondo-se rápido. — Não é, Anya?

— Talvez… — ela respondeu, sem convicção alguma.

O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi… atento. Como se os três estivessem ouvindo algo que ainda não tinha som.

Loid terminou o café primeiro, levantando-se com a precisão habitual. Pegou o casaco, ajustou a manga, conferiu o relógio. Tudo dentro do esperado. Antes de sair, passou pela cozinha novamente, agora sem Anya olhando.

Yor estava perto demais.

Ele se inclinou levemente e tocou os lábios nos dela num selinho rápido, discreto, quase profissional. Mas não foi exatamente assim que se sentiu. Houve um microssegundo a mais. Um calor breve. Um acordo silencioso.

— Tenham um bom dia — disse ela, com um sorriso pequeno, reservado só para ele.

— Você também — respondeu Loid, a voz baixa.

Anya apareceu no corredor.

— EI! — os olhos se estreitaram. — Vocês tão cochichando de novo.

— Não estamos — disseram os dois, rapidamente.

Ela sorriu. Um sorriso perigoso.

***

O prédio dos Forger era antigo o suficiente para parecer confiável. Nada chamativo. Nada moderno demais. Um lugar onde pessoas entravam e saíam sem que ninguém prestasse atenção suficiente.

Eles optaram pela escada naquele dia.

O som de passos ecoava suavemente, misturados a vozes femininas que vinham do andar de cima. Duas senhoras desciam devagar, conversando com a intensidade típica de quem tinha muito a dizer e tempo de sobra para dizer.

— Bom dia, senhor Forger! — disse uma delas, sorrindo largo.

— Bom dia — respondeu Loid, educado, parando automaticamente.

— O senhor ficou sabendo? — perguntou a outra, inclinando-se conspiratoriamente. — Temos um novo morador.

Anya arregalou os olhos.

— Novo? Onde?

— No seu andar, eu acho — respondeu a senhora. — Um homem sozinho. Estrangeiro, dizem.

Loid inclinou a cabeça levemente.

— Estrangeiro?

— Sim, sim. Muito educado. Um sotaque diferente. Bonito, até — ela riu. — Mas quieto demais.

Quieto demais.

Loid sorriu.

— Que bom que o prédio está se renovando — disse, num tom perfeitamente neutro.

As senhoras trocaram um olhar animado.

— Pois é. Esperamos que seja alguém tranquilo.

Loid assentiu, despedindo-se. Continuou descendo a escada com Anya ao lado. A expressão dela havia mudado.

— Papai — murmurou ela, segurando sua mão com mais força. — Gente quieta é estranha.

Ele apertou a mão dela de leve.

— Nem sempre.

Mas sua mente já estava trabalhando.

****

Do lado de fora, o caminhão de mudança ocupava metade da rua. Caixas empilhadas, um homem coordenando o transporte. Tudo parecia comum demais.

Até não parecer.

O novo vizinho estava ali.

Alto. Postura relaxada demais para alguém recém-chegado. Cabelo claro, bem arrumado. Um sorriso educado que não alcançava os olhos. Os olhos eram atentos. Calculistas.

Ele se virou no exato momento em que Loid o observava.

— Bom dia — disse o homem, dando um passo à frente. — Sou Adrian Keller. Acabei de me mudar.

Loid estendeu a mão.

— Loid Forger. Prazer.

O aperto de mão foi firme. Medido. Demorando um segundo a mais.

Anya olhou para o homem… e congelou.

A mente dele era barulhenta. Organizada. Fria. Cheia de mapas, números, alvos. Parecida demais com a do pai. Só que mais escura. Mais afiada.

Ela abraçou a perna de Loid com força.

— Anya? — ele perguntou, atento.

— Ele é estranho — murmurou ela, escondendo o rosto.

Adrian sorriu, inclinando-se um pouco.

— Crianças costumam estranhar novidades.

Loid puxou Anya para perto.

— Ela é sensível.

— Entendo — respondeu Adrian, os olhos fixos demais.

Eles se despediram com educação. Loid caminhou com Anya até a esquina. Não olhou para trás.

Mas sentiu.

O olhar acompanhando cada passo.



Naquele dia, Loid soube de duas coisas com absoluta certeza.

A primeira: aquele homem não era apenas um vizinho.

A segunda: qualquer ameaça que se aproximasse daquela porta não estaria lidando apenas com Twilight.

Estaria lidando com uma família.

E isso mudava tudo.