Entre Fachadas
9 O Peso das Sombras
O esconderijo de Twilight não passava de uma sala subterrânea esquecida pelo tempo, escondida atrás de uma fachada de alfaiataria falida. O ar cheirava a poeira e concreto úmido. A única iluminação vinha de uma lâmpada nua pendurada no teto, que projetava sombras longas nas paredes descascadas.
Uma cortina de lona impermeável, presa por um fio de arame, dividia o espaço mínimo ao meio.
De um lado da lona, o tecido pesado do vestido de Yor caiu no chão com um baque surdo. Ela segurava as roupas civis contra o corpo, mas suas mãos falhavam ao tentar puxar o tecido. A mente dela era um turbilhão.
— Loid... — a voz de Yor saiu abafada, trêmula, ecoando no espaço estreito. — Me desculpe. Por favor, me perdoe por você ter tido que presenciar aquilo. Uma esposa de verdade, uma mãe de verdade... não deveria saber como arrancar uma vida com tanta facilidade. Eu contaminei o nosso lar com o que sou. Me desculpe por ser esse tipo de monstro perto de você.
Do outro lado da cortina, o som dos movimentos de Loid cessou completamente.
Ele permaneceu estático. Seus dedos se fecharam ao redor da camisa social que ele segurava, apertando o tecido com tanta força que os nós de seus dedos ficaram brancos. Ele ouvia o desespero dela, a forma como ela se reduzia a nada, e uma irritação genuína — uma indignação que ele raramente se permitia sentir — começou a queimar em seu peito. Como ela podia não ver a fortaleza que era?
Yor, interpretando o silêncio dele como o pior dos julgamentos, sentiu o pânico crescer. As palavras transbordaram novamente, mais rápidas, mais desesperadas:
— Se você quiser... se você achar que a Anya corre perigo comigo, eu posso sumir. Eu entendo perfeitamente se você não me quiser mais por perto. Eu só queria proteger vocês, mas eu sou... eu sou apenas uma assassina. Por favor, me perdoe por enganar você por todo esse tempo, Loid, eu—
Vush.
O som áspero dos ganchos de metal correndo pelo arame cortou a fala dela abruptamente.
Yor sobressaltou-se, colando o vestido inacabado contra o peito, os olhos arregalados de susto.
Loid havia puxado a cortina e tomado uma decisão. Ele estava sem camisa, mas o que realmente paralisou Yor foi a expressão dele. Havia uma rigidez incomum em sua mandíbula, um brilho de pura irritação em seus olhos azuis. Ele parecia genuinamente contrariado — não com o que ela fizera na missão, mas com cada palavra que acabara de sair da boca dela.
No entanto, quando ele falou, a voz não foi um grito. Foi mansa, baixa, carregada de uma intensidade que desacelerou o tempo no quarto.
— Já chega, Yor.
Ele hesitou por uma fração de segundo na linha invisível onde a lona costumava estar, como se estivesse consciente de que, ao dar aquele passo, estava quebrando uma de suas regras mais sagradas. Então, ele cruzou a distância. A irritação dele emanava em cada milímetro de sua postura, indignado por ver aquela mulher, a quem ele considerava uma das forças mais letais e admiráveis que já conhecera, se reduzir a um pedido de desculpas humilhante.
— Eu não vou ficar aqui parado ouvindo você falar de si mesma como se fosse um erro — disse ele, a voz calma contrastando com o fogo no olhar, enquanto contornava o corpo dela com passos medidos, parando exatamente às suas costas. — Você pede perdão por ter sido o escudo implacável que garantiu que nada tocasse a nossa família.
Antes que ela pudesse balbuciar qualquer reação,
— Fique quieta — ele pediu, o tom suave, mas imperativo.
Yor congelou. O rosto queimou instantaneamente de vergonha e timidez ao sentir o calor do peito despido dele quase encostando em suas costas.
Loid levou as mãos até a base do zíper aberto do vestido dela. Seus dedos tocaram a pele exposta na base das costas de Yor. O toque inicial foi firme, um comando silencioso para que ela relaxasse os ombros travados.
Devagar, ele começou a subir o zíper. Os nós dos dedos de Loid deslizaram diretamente pela espinha dela, subindo a pele com uma lentidão calculada. À medida que o contato físico se estabelecia, algo sutil mudou no ar. O tremor nos ombros de Yor começou a diminuir, e a rigidez na postura de Loid cedeu. Era como se o toque, a proximidade da pele, agisse como um anestésico contra o caos do mundo lá fora, ancorando os dois no mesmo compasso.
Enquanto subia o zíper, a voz de Loid começou a baixar de tom, tornando-se mais íntima, quase um sussurro direcionado apenas à nuca dela.
— Eu também não queria que você me visse hoje, Yor — confessou ele, e o tom ríspido desapareceu por completo, dando lugar a uma vulnerabilidade crua. — O Twilight que operou lá fora... ele é um espião frio, calculista. Que toma decisões baseadas em lógica e que descarta pessoas se for necessário para cumprir o objetivo. Eu passei a vida inteira sendo esse homem.
A mão dele continuou subindo, os dedos roçando de leve a pele aquecida das costas dela, acompanhando o fecho.
— Mas eu nunca quis que você conhecesse esse lado. Em casa, no nosso apartamento... eu queria mostrar a você apenas o Loid. Eu tinha… receio de que, se você me visse agir como Twilight, olhasse para mim e enxergasse apenas uma máquina .
A mão de Loid alcançou o topo do zíper, próximo à nuca dela. Ele afastou delicadamente os fios escuros do cabelo de Yor para prender o colarinho, mas seus dedos demoraram-se ali por um segundo a mais do que o necessário, sentindo a pulsação acelerada dela diminuir gradativamente, combinando com o ritmo da sua própria respiração.
— Você não é um monstro por ser forte, Yor — ele sussurrou perto do ouvido dela, a voz agora perfeitamente serena, completamente desarmada pelo contato. — Você é a fortaleza que mantém aquela casa de pé tanto quanto eu. Eu não vejo um erro quando olho para você. Eu vejo Yor. E eu não aceito que você peça perdão por nos proteger.
Ele afastou as mãos devagar, permitindo que o espaço entre eles aumentasse, embora a eletricidade do toque ainda pairasse no ar, densa e acolhedora.
Yor continuou de costas por alguns segundos, com as mãos espalmadas contra o peito, sentindo o coração bater forte, mas não mais por medo ou culpa. O rosto estava completamente vermelho, mas o peso que carregava na alma havia sumido.
Loid recuou, pegando sua camisa social do encosto da cadeira com a habitual eficiência prática, embora seus olhos ainda estivessem fixos nela enquanto a vestia.
— Vista o casaco — disse ele, o tom voltando ao foco profissional de sempre, mas com uma suavidade residual. — Temos uma fachada para manter assim que pisamos naquelas escadas.
— S-sim! — Yor respondeu, a voz quase falhando, mas a postura agora ereta, firme.
A escadaria do prédio sempre fora apenas um espaço de passagem.
Concreto gasto, corrimão frio, lâmpadas fluorescentes que piscavam com um atraso quase irritante. Um lugar sem importância. Invisível.
Até aquela noite.
Yor subia os degraus com o passo controlado, a bolsa pendendo do ombro como qualquer outra mulher voltando de um jantar fora. O vestido simples balançava com o movimento do corpo, e o casaco escondia com perfeição qualquer traço da assassina que o mundo subterrâneo conhecia tão bem.
Ao lado dela, Loid mantinha o ritmo exato. Nem apressado, nem lento. A mão próxima o suficiente para parecer casual, distante o bastante para não chamar atenção.
Era isso que casais faziam.
Falavam pouco. Caminhavam juntos. Existiam sem esforço.
— O restaurante estava cheio — comentou ele, em tom baixo, como se ainda estivessem na rua.
Yor assentiu, entrando no jogo imediatamente.
— Sim… mas a comida valeu a pena.
Ela estava relaxada. Ou parecia estar.
Então sentiu.
Não foi um som. Nem um movimento óbvio.
Foi aquela sensação antiga, afiada, que começava na nuca e descia pela espinha.
Eles não estavam sozinhos.
— Boa noite.
A voz surgiu do patamar intermediário, tranquila demais para aquele horário.
Adrien Keller estava encostado no corrimão, um braço apoiado, a postura casual de quem apenas coincidentemente cruzava o caminho de alguém.
Os olhos claros passaram primeiro por Yor. Detiveram-se nela por um segundo longo demais. Depois voltaram para Loid.
— Voltando tarde — continuou Adrien, sorrindo de leve. — Imagino que tenham aproveitado.
Loid sentiu o ajuste imediato dentro de si. Twilight recuou meio passo. O marido apareceu.
— É raro termos tempo só para nós — respondeu, educado. — A rotina anda cheia.
Adrien inclinou a cabeça.
— Engraçado — disse. — Sua filha comentou hoje que vocês estavam trabalhando.
O ar mudou.
Foi sutil. Mas Yor sentiu como se alguém tivesse puxado um fio invisível dentro do peito dela.
Anya.
O nome ecoou por um instante longo demais.
Ela manteve o sorriso. Mas por dentro, a Thorn Princess ergueu a cabeça.
— Crianças confundem as coisas — disse Yor, antes que Loid pudesse falar. A voz saiu doce, mas havia algo rígido sob a superfície. — Especialmente quando os pais saem à noite.
Adrien observou com atenção. O olhar dele não era acusatório. Era analítico.
— Claro — respondeu. — Só achei curioso.
Curioso.
A palavra bateu errado.
— O que eu acho curioso — disse Loid, e o tom mudou — é o quanto você parece interessado na minha família.
Silêncio.
Yor sentiu o impacto daquilo quase fisicamente.
Loid dera um passo à frente. Pequeno. Controlado. Mas suficiente.
— Somos pessoas comuns — continuou ele. — E esse tipo de atenção… não é apropriado.
Adrien piscou, surpreso por meio segundo.
— Não foi minha intenção ofender —
— Foi sim — Loid cortou, e agora não havia sorriso algum. — E estou pedindo que pare.
A escada começou a se encher de sons. Portas abrindo. Passos. Vozes curiosas.
— Está tudo bem aí? — perguntou uma senhora do terceiro andar, inclinando-se para ver melhor.
Adrien percebeu tarde demais.
Olhares. Testemunhas.
O ambiente que ele precisava evitar.
— Apenas uma conversa — disse ele, rapidamente. — Nada demais.
— Então vamos encerrá-la — respondeu Loid, firme. — Boa noite.
Sem esperar resposta, puxou Yor com gentileza suficiente para não parecer agressivo, mas decidido o bastante para não deixar espaço.
Adrien ficou onde estava.
Observando.
Calculando.
Yor não olhou para trás.
Só quando a porta do apartamento se fechou atrás deles é que ela soltou o ar que nem percebeu estar prendendo.
— Ele usou a Anya — murmurou.
— E perdeu o controle por isso — respondeu Loid. — Bom sinal.
A sala estava iluminada demais.
— Mamãe! Papai!
Anya surgiu do sofá como um foguete rosa, seguida por Franky, que levantou as sobrancelhas ao ver os dois inteiros.
— E então? — perguntou ele. — Tudo conforme?
Loid olhou para Yor antes de responder.
— Até o momento, sim.
Franky sorriu.
— Ainda bem. Porque sinceramente, Yor, se você não estivesse bem… quem ia segurar esse cara aqui?
Yor sentiu o rosto queimar.
A imagem voltou sem pedir permissão. Ela desviou o olhar rápido demais. Loid percebeu. E guardou aquilo em silêncio.
— Franky — disse ele, pigarreando. — Obrigado por ficar com a Anya.
— Sempre — respondeu o amigo. — Essa família dá mais trabalho do que parece.
Anya bocejou, esfregando os olhos.
— Vocês brigaram com o moço estranho?
— Não — disseram Loid e Yor juntos.
Ela sorriu, satisfeita.
— Que bom. Eu gosto quando vocês ficam normais.
Normal.
Loid fechou a porta depois que Franky saiu. O apartamento retomou seu ritmo conhecido. Televisão baixa. Passos pequenos. Luzes sendo apagadas.
Mas algo havia mudado. No silêncio do quarto, Loid permaneceu acordado por alguns minutos, olhando o teto.
Adrien Keller não era apenas curioso.
E Yor… Yor estava no centro do alvo.
Do lado de fora, na escadaria agora vazia, Adrien desceu os degraus lentamente.
Duas recompensas.
Um lar.
Uma mentira muito bem construída.
E, pela primeira vez, a certeza incômoda de que estava mais perto do que deveria. Mas ainda não perto o suficiente.
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