Entre Eles
12 XI - Manhã
Notas iniciais
O Jeep Grand Cherokee estacionou na mesma vaga de sempre, mas ninguém desceu. O potente motor ronronava em resposta à parada. O motorista virou-se para sua passageira e juntou as sobrancelhas mais uma vez.
– Não sei se o que mais me incomoda... Se é você com roupas comuns ou você com roupas da minha mãe – comentou.
– Acho que sou eu em roupas comuns da sua mãe – riu ela arrumando um botão do blazer. – Era isso ou um vestido soado fedendo a bebida. Foi muita gentileza da sua mãe me emprestar esse terninho, é quase o meu número. Não me importo com esse negócio de etiqueta de roupa, mas prezo por andar cheirando bem. Devolverei no fim do dia lavadinho, ok?
– Não se importe com isso também, mamãe mal os usa.
– Mesmo assim ela salvou minha pele.
E então o silêncio. Não havia mais o que ser dito, era aquilo então. Fora apenas coisas de uma noite só e aquele era o fim inevitável, julgou Luna já conformada. Sem dúvida, fora uma das melhores experiências da sua vida e para sempre lembraria dela, pois não passaria disso: apenas uma lembrança.
– Então... – Ela falou depois de um tempo, quebrando o silêncio gritante que se fazia dentro do carro. – A gente se vê por...
– Quer almoçar comigo hoje? – Draco a interrompeu. Não podia deixar que ela acreditasse que tinha sido só uma transa e embora ele não fosse admitir com toda precisão, precisava garantir para ela que poderia ser tudo menos um transa qualquer.
– Olha, não precisa fazer isso...
– Não estou fazendo nada. Estou convidando-a para almoçar, que mal a nisso? Outra coisa, você veio sem carro, ouso dizer que não tem carona pra voltar.
– Gosto de andar de metrô, é ecológico. Sério, não precisamos fazer isso só porque achar...
– Ótimo, então espero você na cantina.
– Quer parar de me interromper?!
– Quando parar de ameaçar dizer besteira, talvez – cogitou ele alcançando com um braço a mochila no banco traseiro. – Estou decepcionado, uma menina tão inteligente e agora está cheia de baboseira nesta linda manhã. Vamos, temos uma aula para assistir.
Os dois saíram do carro sem mais discussões e logo passaram a caminhar juntos até um dos blocos do campus.
Era curioso o fato de atraírem olhares por todo o caminho. Luna se perguntava se era porque finalmente vestia roupas “comuns” (seja lá em que conceito isso estivesse sendo baseado) ou porque estava ao lado de Draco Malfoy – quer dizer, quando a “esquisitona” virou amiguinha do rei da universidade? A loira sorriu ironicamente só em pensar nisso, era engraçado que seres humanos naquele grau de crescimento ainda se comportassem como adolescentes de ensino médio.
Draco se inclinou para sussurrar em seu ouvido:
– Gosto muito das suas roupas, mas tenho que admitir que esse terno lhe caia muito bem, Srta. Lovegood, e acho que não sou só eu.
– As pessoas se surpreendem por tão pouco, não acha? – Ela revidou ajustando a gola da camisa branca. – E se importam com tanto, mais até do que deveriam. Enfim, acabo de me lembrar de que tenho seminário depois do almoço, então essa roupa realmente está vindo muito a calhar.
Nesse momento, uma morena com gloss demais lhes abordou com folhetos. Enquanto os distribui ela lançou grandes e famintos olhos verdes para Draco e logo em seguida uma expressão amaldiçoada para Luna, que estava tão interessada quanto uma tartaruga estaria em se locomover.
– Baile de máscaras? – Luna questionou animada estudando o folheto, voltando para o seu caminho – Eu adoro essa universidade!
– Irá comigo, então? – Draco não se demorou atrás dela.
Pararam mais uma vez.
Luna, definitivamente, não estava esperando por aquele convite, pelo menos não naquele momento.
– Tudo bem, me convenceu! – Anunciou ela depois de lembrar-se de respirar. – Vejo você no almoço.
– Isso ainda não é um sim para o baile – insistiu Draco.
Luna revirou os olhos.
– Esteja me esperando com um pudim e aí conversaremos. – E encerrou mais uma vez a discussão marchando mais rápido do que ele para seu destino.
–x-
Era uma sala de estar ampla, possuía uma parede completamente de vidro que abrigava uma bela visão da capital da Inglaterra. Hermione estava sentada ao sofá, perdida em sua cabeça enquanto admirava a sua cidade preferida, vestia enormes calças moletons e uma camiseta branca que vestiria duas dela ao mesmo tempo.
Convencera ao seu professor de não irem para um pronto socorro e ele improvisou um curativo com um kit de primeiros socorros. Ainda que o sangue não fosse mais um problema, o seu vestido estava arruinado e ela precisava urgentemente de um banho. Fora encaminhada para um conjunto de louças de porcelana, mais precisamente para a água quente de uma banheira, ficando submersa a água e ao mundo ao seu redor.
Não sabia muito bem o que estava fazendo naquele sofá, muito menos naquele apartamento, mas não poderia ter exigido ir para casa aquela altura da madrugada, pois por alguma razão, que para tanto deveria ser absurda, ela se sentia estranhamente segura naquele ambiente.
O cheiro de café inundou suas narinas e por instinto se levantou e atravessou a sala, subindo dois degraus e deu alguns passos a mais até parar num balcão de mármore, logo o cheiro de bacon e ovos se misturaram no ar e sua barriga roncou. Até aquela mistura deliciosa de aromas, ela não tinha se dado conta de quão faminta estava.
Ronald Weasley depositava o liquido viscoso em uma garrafa térmica enquanto observava o trabalho no fogão de aço inox. Dispostos no balcão já se via uma jarra de suco de laranja, torradas e salsichas fumegantes, um par de pratos, um par de canecas, talheres e um par de copos de vidro.
– Está quase pronto – avisou descansando a garrafa de café junto a do suco de laranja – Caso não queira café, temos suco. E vice-versa. Pode tomar os dois se preferi e...
– Obrigada. — Hermione lhe sorriu, ele estava na eminência de se enrolar com as palavras. Seria engraçado vê-lo nessa situação, mas sabia que só ela riria.
Acomodou-se em um dos bancos de madeira e pegou uma torrada para mantê-la distraída. Estava curiosa a respeito de como um professor de História tão ranzinza sabia cozinhar, e sobre muitas outras coisas, mas não sabia qual era o limite ou qual pergunta deveria ou não fazer. Tudo aquilo, toda aquela cena matinal parecia intima demais para ela e ao mesmo tempo que era acolhedora, parecia errada também. Mas ela ainda se pegou imaginando como seria ter aquilo todos os dias.
– Tem algum horário em Hogwarts essa manhã? – Ronald quebrou mais uma vez o silêncio. Ele estava se esforçando, Deus sabia como ele estava.
– Não. Apenas seu seminário a tarde – respondeu Hermione, observando a habilidade dele com a espátula.
– Quando se estuda em outros países, você precisa desenvolver sua culinária se não quiser morrer de fome – disse ele. – Se é isso que quer saber.
Hermione arregalou os olhos por ter sido pega e os desviou para a janela, mas não pode deixar de sorrir. Por mais leve que fosse.
– Em que países? – Ela quis saber. A pergunta soara tão silenciosa que ele quase não a pegou.
– Alguns meses em U.S.A, outros na Alemanha, Austrália. – Como ela voltou a encara-lo com interesse e expectativa, ele entendeu que não queria apenas nomes. – Foram cursos de meio semestre. Quando se leciona por muito tempo, o tédio lhe consome. É importante renovar as energias e conhecimentos.
Hermione ficou tensa com a menção do último país, mas o Sr. Weasley não havia percebido enquanto depositava uma porção do que tinha na frigideira no prato dela.
– Já estive na Austrália – comentou.
– Sério? – Agora, o professor era o interessado. – É um país muito agradável, me faz querer visitá-lo outras vezes.
– Sim, é verdade. É de fato um belo lugar, mas não compartilho da mesma vontade. – Ela disse sem pensar e talvez tenha soado um pouco amargo, o interesse no café da manhã sumira por completo.
–x-
Tinham passado todo o trajeto em silêncio e permaneceram assim quando desceram do veículo. Ela não sabia porque exatamente tinha aceitado esperar por ele em seu apartamento, mas era melhor do que esperar num estacionamento subterrâneo sozinha. Não trocaram uma palavra no elevador e isso só mudou quando adentraram no imóvel porque a educação tinha que dizer que ela ficasse a vontade e que não demoraria muito para ficar decente. Ela se acomodou no sofá e se perguntou porque suas pernas tremia como as de um adolescente no primeiro dia de aula. As imagens de mais cedo e o calor do hálito dele ainda estavam vividos em sua memória e ela não conseguia parar de pensar nas varias formas de quebrar um telefone. Pragas que só tocam na hora errada.
Ele não demorou muito para retornar, agora de banho tomado e vestido da forma mais descente que ser professor exigia. Ela parece não ter percebido sua volta e continuava a encarar uma foto no topo da lareira, onde se encontravam o trio que faziam parte. Foi estranho ele ter admirado aquilo, ela sentada aparentemente despreocupada em seu sofá parecia a coisa mais normal do mundo, era como se tudo aquilo fosse feito para ela desfrutar. Ele soltou uma suspiro pesado, fazendo-a saltar e sorrir desconcertada.
– Está pronto? – ela quis saber, ele não respondeu. Agora era quem estava hipnotizado com as coisas súbitas que vinham em sua mente – Harry? Está tudo bem?
– Eu... Hm... Sim! – acabou dizendo, tossindo um pouco. – É, está sim.
– Podemos ir então? – Gina ergueu uma sobrancelha.
– Não.
– Não?
– Não.
E sem nenhum aviso prévio Harry quebrou a distancia entre os dois e selou os lábios de Gina com os seus. Desejara isso a vida inteira e se negava a aceitar, mas a proximidade de mais cedo o desarmou. Não fazer era inútil, idiota e só trazia problemas. Já tentaram a distância, irmãs dos melhores são intocáveis, mas isso só na idade certa. Se dera conta, quase tarde demais, que agora não era mais desculpa. Gina estava ali e ele a queria, então iria pegá-la.
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