Entre Dois Mundos - Parte 1
2 SEXTA-FEIRA DE NOVEMBRO
Seattle parecia mais fria do que o normal naquela sexta-feira de Novembro de 2011. O tipo de frio que não ficava só do lado de fora, ele entrava pelas frestas, pelos pensamentos, e se acomodava em silêncio dentro das pessoas.
Na sala de criação da Publisher Stars, o clima era de leve euforia. A empresa havia batido metas importantes, e o burburinho do happy hour já começava a se espalhar pelos corredores como uma onda inevitável.
Alex de Oliveira não parecia parte disso.
Sentado perto da janela, ele observava a chuva fina riscando o vidro como se procurasse respostas lá fora. O rosto sério, a postura firme, mas os olhos — castanhos e distantes — denunciavam outra coisa. Um homem presente apenas fisicamente.
— Pela milésima vez, Oliveira… você vai ou não vai pro happy hour? — a voz de Adam Riveras cortou o silêncio como um estalo.
Alex nem virou o rosto de imediato.
— Eu não entendo o entusiasmo por álcool corporativo e pessoas fingindo felicidade — respondeu seco, mas sem agressividade.
Adam riu, jogando-se na cadeira ao lado dele.
— Isso se chama socialização. Algo que humanos normais praticam.
— Eu sou humano o suficiente pra evitar isso.
— Você é um caso perdido, isso sim.
Alex finalmente desviou o olhar da janela, encarando o amigo por um instante. Adam tinha aquele sorriso fácil, aquele tipo de energia que parecia nunca cansar. O oposto dele em quase tudo.
— Eu vou — disse Alex, depois de um silêncio breve.
Adam arqueou as sobrancelhas.
— Milagre.
— Não comemora. Ainda posso desistir.
— Eu já estou comemorando por dentro.
Em outro local da Publisher Stars, em uma realidade que parecia feita de outro tipo de luz, Isabelly Velloci ajustava discretamente o cabelo enquanto caminhava pelos corredores da empresa.
Elegante até no modo de andar, ela cumprimentava todos com um sorriso educado, daqueles que não pertencem a uma pessoa só, mas ao papel que ela precisava cumprir. Por fora, tudo era controle. Por dentro, nem sempre.
— Você não precisa ir se não quiser — disse Maceli Gerrard Jones, surgindo ao seu lado com um sorriso leve, observando-a de canto.
— Eu preciso — respondeu Isabelly, sem hesitar.
Maceli a conhecia bem demais para acreditar em respostas tão simples.
— Sua mãe?
Isabelly não respondeu de imediato. Apenas ajeitou a manga do blazer, como se aquilo organizasse também seus pensamentos.
— Ela acha importante… eu aparecer.
Maceli soltou um suspiro curto.
— Ou ela acha importante você ser vista como “a escolha perfeita” pro Arnold Stroheim.
O nome caiu entre elas como algo pesado.
Isabelly manteve o sorriso no rosto, mas os olhos verdes perderam um pouco do brilho.
— Não vamos falar disso hoje.
— Você sempre diz isso — Maceli murmurou, mas não insistiu.
Mais tarde naquela noite, o salão da Publisher Stars estava iluminado por luzes quentes, música suave e o tipo de alegria que empresas tentam fabricar quando querem parecer família.
Alex chegou atrasado.
Terno escuro, postura impecável, mas a expressão de quem preferia estar em qualquer outro lugar do mundo. Adam já o esperava encostado no balcão com duas bebidas na mão.
— Você veio mesmo — disse ele, entregando um copo.
— Ainda estou considerando isso um erro.
— Você considera tudo um erro.
Antes que Alex respondesse, uma movimentação diferente atravessou o ambiente.
Não era barulho. Era presença.
Isabelly Velloci entrou no salão como se o próprio ar se reorganizasse para recebê-la. Vestia algo simples, mas absolutamente elegante. Cabelos escuros caindo sobre os ombros, olhos verdes observando tudo com uma calma cuidadosa.
Alex, que até então não prestava atenção em ninguém, parou.
Não foi consciente. Foi instintivo.
— Quem é ela? — ele perguntou, sem perceber que tinha falado em voz alta.
Adam seguiu o olhar dele e sorriu de canto.
— Ah… Aquela é Isabelly Velloci.
Alex repetiu o nome mentalmente, como se testasse o som.
Do outro lado do salão, Isabelly também parecia sentir algo fora do lugar. Um breve instante. Um olhar atravessando o espaço cheio de pessoas.
Ela encontrou Alex sem querer — ou talvez exatamente por querer, sem saber.
E o mundo, por um segundo, pareceu mais silencioso do que deveria.
— Não olha agora — disse Maceli, percebendo.
— Eu não estou olhando — respondeu Isabelly, rápido demais.
Mas já era tarde. A empresa organizou uma dinâmica para quebrar o gelo: uma gincana em duplas. Homens e mulheres sorteados aleatoriamente.
Quando os nomes foram sorteados, o destino — ou algo muito parecido com isso — decidiu sem hesitação.
ALEX DE OLIVEIRA E ISABELLY VELLOCI.
O salão pareceu reagir antes deles. Adam soltou uma risada baixa, quase incrédula.
— Isso vai ser interessante…
Alex não disse nada. Isabelly também não.
Mas quando seus olhares se cruzaram novamente, agora sabendo que teriam que ficar lado a lado, algo invisível já tinha começado a mudar de forma.
E nenhum dos dois sabia ainda… Mas aquele encontro não tinha nada de casual.
Era o começo de dois mundos colidindo. E nenhum deles sairia ileso disso.
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