Entre Dois Mundos - Parte 1
8 ENTRE O QUE SE DIZ E O QUE SE GUARDA
A mesa ao lado da pista de boliche parecia agora um pequeno universo isolado.
Isabelly mantinha a postura elegante de sempre, mas havia algo diferente na forma como ela segurava o copo — menos rígida, mas presente. Os olhos verdes acompanhavam o ambiente com atenção discreta, como se tudo ao redor ainda fosse parte de um cenário que ela precisava entender antes de se entregar a ele.
Alex percebeu isso. Ela não era dispersa. Era cuidadosa.
— Você sempre observa tudo assim? — ele perguntou depois de um silêncio confortável.
Isabelly virou o rosto para ele.
— Assim como?
— Como se estivesse analisando o ambiente.
Ela pensou por um instante.
— É automático — respondeu simples. — Acho que faz parte de… crescer prestando atenção demais nas coisas.
Alex assentiu, mas não insistiu. Isabelly, por outro lado, não deixava o silêncio durar muito quando havia curiosidade envolvida.
— Você trabalha na Publisher há quanto tempo? — perguntou ela.
Alex recostou-se na cadeira.
— Pouco.
— Pouco quanto?
— O suficiente para ainda ser o “novo”.
Ela soltou um leve sorriso.
— Isso não é exatamente uma resposta.
— É a única que eu costumo dar.
Isabelly sustentou o olhar por um segundo mais do que o habitual.
— Você não fala muito sobre si não é?
— E nem você.
Ela não negou. Houve um breve silêncio entre os dois — não desconfortável, mas cheio de camadas não ditas.
Alex então completou, com mais naturalidade:
— Moro sozinho… quer dizer, não exatamente sozinho.
Isabelly inclinou levemente a cabeça.
— Não?
— Tenho um cachorro. Um pug.
— Isso conta como companhia melhor do que a maioria das pessoas — ela respondeu, quase sem pensar.
Alex soltou um riso curto.
— Se chama Milu.
Algo mudou no rosto dela — pequeno, quase imperceptível, mas real.
— Milu… — ela repetiu suavemente. — Eu gosto disso.
— Do nome?
— Da ideia.
Alex a observou por um instante. E percebeu algo simples;
Ela não estava apenas sendo educada. Ela estava genuinamente interessada.
Antes que a conversa avançasse mais, Adam e Maceli voltaram.
— Sentiram nossa falta? — Adam perguntou, se jogando na cadeira como se nada tivesse acontecido.
— Nenhum pouco — Alex respondeu automaticamente.
Maceli fingiu indignação.
— Que crueldade.
Isabelly apenas sorriu leve. Mas ambos perceberam: ela estava mais relaxada do que no início da noite.
— A gente não sumiu tá? — Adam disse. — Foi só… estratégia social.
— Claro — Alex murmurou.
Maceli bateu palmas.
— Enfim! Finalizamos oficialmente o evento caótico do boliche.
— Vitória moral nossa — Adam completou.
Alex olhou para ele.
— Não houve vitória sua.
— Eu participei e isso já conta.
O tempo passou sem pressa até o fim da noite.
Quando decidiram encerrar, o grupo saiu do boliche com o frio de Seattle esperando do lado de fora. Na calçada, as despedidas começaram a se formar naturalmente.
Maceli olhou para Isabelly.
— Dorme lá em casa essa noite?
Isabelly franziu o cenho.
— Não será incomodo pra você?
— Sabe que nunca é! E sim, isso significa que você pode invadir sem culpa!
Isabelly hesitou por um segundo e depois assentiu.
— Tudo bem.
Maceli sorriu satisfeita.
Do outro lado, Adam cruzou os braços olhando para Alex.
— E você, grande solitário… vem pro meu apartamento.
Alex nem piscou.
— Passo.
— Como assim passa?
Alex olhou para ele com calma.
— Prefiro minha paz.
Adam fez um breve silêncio e depois riu alto.
— Ele me rejeitou com elegância.
Alex deu de ombros.
— Eu tento manter padrões.
Adam riu mais ainda, balançando a cabeça.
— Você é impossível.
— Você já sabia disso.
Isabelly observava a interação dos dois com leve curiosidade.
Havia algo na amizade deles — uma leveza que ela não estava acostumada a ver com tanta naturalidade. Maceli puxou seu braço.
— Vamos antes que você decida ficar filosofando sobre amizade masculina.
Isabelly soltou um riso baixo.
— Eu não estava filosofando.
— Estava sim.
As despedidas foram rápidas depois disso.
Adam acenou exageradamente.
— Até, princesa do strike!
— Até, estrategista social! — Isabelly respondeu divertida.
Alex apenas assentiu para ela. E por um segundo, os olhares dos dois se encontraram de novo. Sem palavras. Sem interrupções. Só aquele mesmo silêncio estranho que parecia sempre surgir quando estavam próximos. Maceli percebeu. Adam também. Mas nenhum dos dois comentou.
E assim, naquela noite de sábado em Seattle, caminhos diferentes se separaram mais uma vez. Mas não como antes. Agora havia algo ficando. Algo pequeno. Ainda sem nome. Mas impossível de ignorar.
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