Entre Dois Mundos
31 O FIM DA DISPUTA
Sentados em um banco de cimento mais afastado do jardim, Isabelly e Arnold finalmente tiveram o momento que ele tanto queria.
Talvez, o último. O som distante das conversas e da leve movimentação da mansão chegava abafado até eles. Mas naquele instante, o mundo parecia reduzido apenas aos dois.
Mais longe, observando tudo com atenção, Maceli cruzava os braços.
— Isso tá estranho demais.
Adam imediatamente completou:
— Se ele tentar qualquer besteira… o caos vai começar oficialmente.
Maceli concordou com a cabeça.
— Finalmente algo organizado nessa tarde.
Alex, porém não dizia nada. Apenas observava. Silencioso. Mas atento a cada detalhe. Arnold respirou fundo antes de começar a falar.
E pela primeira vez… sem arrogância. Sem postura ensaiada. Sem aquela necessidade constante de parecer superior. Apenas Arnold.
— Acho que admiro você desde muito antes de entender o que sentia.
Isabelly permaneceu em silêncio. Escutando.
Arnold sorriu discretamente ao voltar no tempo através das próprias lembranças.
— Seu aniversário de quinze anos…
Os olhos dele carregaram nostalgia.
— Você estava impecável.
Isabelly abaixou o olhar por um instante, quase tímida.
— Minha mãe fez questão disso.
Arnold riu baixo.
— Eu fui o garoto sortudo escolhido pra dançar a valsa com você.
Ele então balançou a cabeça lentamente.
— Acho que foi ali que tudo começou pra mim.
As palavras saíam leves. Sem pressão. Sem cobrança.
— Depois disso… eu sempre queria participar de qualquer lugar onde você estivesse. Os finais de semana aqui na casa dos Velloci… minha mãe adorava visitar Helena. O rosto dele suavizou ao mencionar a mãe falecida.
Isabelly apenas escutava. Agora com um olhar mais compreensivo.
Arnold então desviou os olhos para o restante do grupo mais distante.
Adam falava alguma coisa exagerada enquanto Maceli claramente debochava dele. Alex observava os dois como quem já tinha desistido de controlar aquela dupla há muito tempo.
Arnold sorriu. De verdade.
— Você tem sorte.
Isabelly o encarou curiosa.
— Seus amigos… são absurdamente verdadeiros. E completamente caricatos.
Ela acabou rindo. E aquela cena… Arnold rindo abobadamente junto dela… era tão rara que até parecia outro homem.
Lá do outro lado do jardim, Adam estreitou os olhos.
— Tá. Agora eu quero saber do que eles estão rindo.
Maceli respondeu imediatamente:
— Provavelmente de você.
— Impossível. Minha imagem é impecável.
Alex acabou rindo também.
E isso só deixou Adam ainda mais desconfiado.
A conversa voltou a ficar mais séria.
Isabelly então comentou suavemente:
— Você deve ter sofrido muito quando sua mãe partiu.
O semblante de Arnold mudou na mesma hora. Talvez ninguém falasse sobre aquilo daquela forma havia anos.
— Sofri.
Foi tudo que respondeu. Mas foi sincero.
Isabelly então segurou delicadamente as próprias mãos sobre o colo antes de dizer:
— Você não precisa se sentir sozinho, Arnold.
Ele a olhou em silêncio.
— Você pode contar comigo…
Ela sorriu gentilmente.
— Como amiga.
A ênfase naquela palavra foi suave. Mas clara.
Arnold abaixou a cabeça soltando uma pequena risada sem humor.
Então voltou os olhos para Alex ao longe.
— É ele, não é?
O silêncio de Isabelly respondeu antes mesmo das palavras.
Ainda assim, ela confirmou:
— É.
Arnold respirou fundo.
— Realmente… eu nunca teria chances.
Ela sorriu sem graça.
— No começo também não foi fácil.
Arnold balançou a cabeça negativamente.
— Me sinto um idiota por ter seguido conselhos da sua mãe.
Dessa vez, porém, Isabelly não permitiu que Helena fosse atacada.
Porque agora… ela finalmente compreendia a mãe.
— Ela só queria me proteger do jeito dela.
Arnold concordou lentamente. Talvez pela primeira vez sem ressentimento.
Então veio a revelação inesperada.
— Vou sair de Seattle.
Isabelly imediatamente ergueu o olhar.
— O quê?
— Talvez você não tenha notícias minhas por um tempo.
Ela pareceu genuinamente surpresa.
— Pra onde vai?
Arnold observou o horizonte iluminado do jardim antes de responder:
— Frankfurt.
Os olhos dela arregalaram levemente.
— Lar dos Stroheim – ela completou.
Ele assentiu.
— Existem assuntos inacabados por lá. Negócios da família… algumas coisas que preciso resolver sozinho.
Por alguns segundos, Isabelly apenas o observou.
Os olhos verdes brilhando suavemente sob a luz daquela tarde.
Então ela segurou as mãos dele. Com carinho.
Com sinceridade.
— Quando precisar… eu vou estar aqui.
Arnold sorriu emocionado.
Então brincou:
— Só não leva a Maceli.
Ela riu imediatamente.
— Isso eu não posso prometer.
Os dois acabaram rindo juntos mais uma vez.
Mas agora… os olhos dos dois estavam marejados.
E quando se abraçaram não existia mais disputa.
Nem tensão. Apenas carinho fraterno.
Do outro lado do jardim, os três observavam a cena surpresos.
Adam foi o primeiro a falar:
— Tá… isso definitivamente não terminou como eu imaginei.
Alex finalmente relaxou os ombros.
— No fim… ela resolveu tudo sozinha.
Maceli imediatamente corrigiu:
— Não. A presença da gente fez ela se sentir forte pra resolver.
Alex sorriu concordando. Porque ela tinha razão.
Arnold e Isabelly retornaram juntos até o grupo.
O clima estava leve.
Muito diferente do início do almoço. Então Isabelly decidiu fazer algo inesperado. Ela apresentou oficialmente Arnold ao seu pequeno mundo.
Apontou primeiro para Adam.
— Esse é Adam. O rei do caos.
Adam imediatamente estendeu a mão.
— Título merecido.
Arnold riu baixo apertando sua mão.
Depois Isabelly apontou para Maceli.
— E essa é a irmã que eu nunca tive.
Maceli ergueu o queixo elegantemente.
— E protetora em tempo integral.
Arnold assentiu.
— Disso eu já percebi.
Por fim… os olhos dela encontraram Alex.
E o sorriso surgiu diferente. Mais suave. Mais apaixonado.
— E esse…
Ela hesitou por um instante.
— É o Alex.
Não precisava dizer mais nada. Arnold entendeu imediatamente.
Olhou diretamente para Alex.
Depois estendeu a mão. Alex apertou firme.
E Arnold disse, sincero:
— Você foi um homem sortudo por ter sido escolhido.
Alex respondeu com serenidade:
— Eu sei.
Pouco depois, Franz retornou procurando o filho.
Os Stroheim já precisavam partir.
Franz cumprimentou todos cordialmente antes da despedida.
E assim o almoço finalmente chegava ao fim naquele final de tarde ensolarado de Seattle.
Adam olhou em volta teatralmente.
— Impressionante. Nenhum caos aconteceu.
Maceli respondeu:
— Ainda.
Isabelly então olhou para todos eles.
O pai. Os amigos. Alex.
E sorriu emocionada.
— Amo vocês.
O grupo silenciou por um instante.
Até Adam fazer careta dramática.
— Ah não… sentimentos.
Todos riram. E finalmente… Alex recebeu o beijo que esperara o dia inteiro. Calmo. Apaixonado. Sem medo.
O suficiente para deixar Maceli e Adam completamente sem jeito.
— Certo… vou olhar pras árvores — murmurou Adam.
— Faço questão de esquecer essa cena — completou Maceli.
Mas os dois sorriam. Porque no fundo… estavam felizes.
Só que… a história ainda não terminara. Ainda faltava uma última aprovação.
Helena.
Adam lentamente virou o rosto para Maceli.
Os dois se encararam.
E praticamente pensaram a mesma coisa ao mesmo tempo.
...
Fale com o autor