Entre Dois Mundos

26 ESCOLHAS DO CORAÇÃO


Ao entrar na suíte da mãe, Isabelly imediatamente se aproximou da cama. Helena estava sentada, ainda um pouco pálida, enquanto uma das empregadas organizava um copo d’água ao lado.

O medo que Isabelly sentira segundos antes ainda estava estampado em seu rosto.

— Mãe… você está bem?

Helena tentou manter a postura habitual.

— Foi só uma tontura.

Lorenzo, parado próximo à janela, cruzou os braços.

— Tonturas não são normais, Helena.

Ela lançou um olhar discreto ao marido.

— Eu já estou melhor.

Mas Isabelly continuava preocupada. Sentou-se ao lado da mãe na cama e segurou delicadamente sua mão. Por alguns segundos permaneceu em silêncio.

Então falou baixinho:

— Me desculpa pelo meu comportamento nesses últimos dias.

Helena pareceu surpresa pela sinceridade da filha.

Lorenzo observou as duas por um instante antes de tomar a decisão mais sensata.

— Acho melhor deixar vocês conversarem sozinhas.

E saiu calmamente da suíte. Assim que ficaram a sós, o ambiente pareceu mais silencioso do que nunca. Helena suspirou devagar antes de voltar à postura firme que sempre manteve.

— Eu só quero o seu bem, Isabelly.

A jovem assentiu.

— Eu sei.

Ela abaixou os olhos por um momento, organizando os próprios pensamentos.

Depois voltou a encarar a mãe com delicadeza.

— Mas… meus planos são diferentes dos seus.

Helena permaneceu calada. Dessa vez, ouvindo. Realmente ouvindo. Algo raro. Isabelly percebeu isso.

E continuou.

— Meu coração já escolheu outra pessoa.

A expressão de Helena mudou imediatamente. Quase imperceptivelmente. Mas mudou. Mesmo assim, ela não interrompeu. Então Isabelly começou a falar de si mesma de uma forma que talvez nunca tivesse feito antes. Falou sobre o quanto gostava de trabalhar na Publisher Stars.

Sobre finalmente sentir que estava construindo algo próprio. Sobre os amigos que fizera desde que chegaram a Seattle após o internato. Sobre como Maceli havia sido importante conseguindo aquela oportunidade para ela.

— Tudo lá… é como eu imaginava que minha vida seria.

Ela sorriu de leve ao mencionar a amiga.

— Maceli praticamente virou uma irmã para mim.

Helena ainda a observava em silêncio. Sem julgamentos imediatos. E aquilo encorajava Isabelly a continuar.

Então o nome inevitável surgiu.

— Arnold é um homem influente… educado… importante.

Ela respirou fundo.

— Mas não é ele.

O silêncio depois daquela frase foi profundo. Helena olhou demoradamente para a filha.

Como se estivesse percebendo algo pela primeira vez. Talvez Isabelly realmente tivesse deixado de ser apenas “a menina perfeita” que ela tentava moldar. Talvez estivesse vendo uma mulher diante dela agora.

— Você mudou muito — Helena disse finalmente.

Isabelly sorriu de leve.

— Seattle mudou muita coisa.

Helena permaneceu olhando para ela por mais alguns segundos.

Então algo raro aconteceu. Ela sorriu também. Pequeno. Discreto.

Mas sincero.

— E apesar de tudo… eu tenho orgulho da mulher que você se tornou.

Os olhos de Isabelly marejaram imediatamente. Porque talvez fosse exatamente aquilo que ela sempre quis ouvir da mãe. As duas sorriram uma para a outra num raro momento de paz.

Pouco depois, Lorenzo retornou à suíte. Isabelly levantou-se calmamente.

— Acho que vou me deitar. O evento foi cansativo.

Lorenzo assentiu.

— Descansa filha.

Ela se despediu educadamente dos dois antes de deixar o quarto.

Mas Helena permaneceu observando a porta por alguns segundos após a saída dela. Pensativa. Talvez, pela primeira vez… questionando as próprias certezas.

Já em seu quarto, Isabelly vestia roupas leves para dormir enquanto Seattle permanecia silenciosa além das enormes janelas da mansão.

Ela sentou-se na cama segurando o celular. Pensou alguns segundos.

E então enviou uma mensagem para Alex. Não precisava de grandes textos.

Só queria senti-lo próximo outra vez. Perguntou como ele estava. Disse que queria vê-lo no sábado seguinte.

Do outro lado da cidade, Alex respondeu quase imediatamente:

"Já estou contando as horas."

Isabelly soltou uma risada baixa, completamente apaixonada. Apoiou o celular no peito enquanto encarava o teto do quarto. Mas então… as lembranças da conversa com Arnold voltaram. O almoço de domingo. Franz Stroheim.

A pressão silenciosa de Helena. A insistência de Arnold. E naquele instante… uma ideia começou a surgir lentamente em sua mente.

Ousada. Arriscada. Talvez até caótica. Mas extremamente tentadora. Ela se sentou novamente na cama. Os olhos brilhando com uma coragem incomum.

Porque se Arnold estaria naquele almoço… então talvez fosse hora de mudar completamente o jogo. E a primeira pessoa que precisava estar ao seu lado era óbvia. Maceli. Sua fiel escudeira. Depois Adam. E por último… Alex. O homem que seu coração já havia escolhido.