Entre Dois Mundos

3 BINGO DO DESTINO


O salão da Publisher Stars já não parecia um evento corporativo comum.

Adam Riveras e Maceli Gerrard Jones tinham assumido a organização da gincana como se aquilo fosse uma missão pessoal de caos controlado — ainda que “controlado” fosse uma palavra generosa demais para o que estavam fazendo.

— Atenção, queridos sobreviventes do capitalismo! — Adam anunciou, com um microfone improvisado. — Vamos ao nosso bingo de duplas!

Maceli revirou os olhos ao lado dele, mas sorria.

— Basicamente — ela explicou — vocês vão completar desafios em dupla. Quem completar a cartela primeiro vence.

— E perde a dignidade no processo! — completou Adam.

O salão riu. Alex não.

Ele estava ao lado de Isabelly. E isso, por si só, já era desafio suficiente.

Isabelly mantinha as mãos levemente juntas à frente do corpo, postura elegante até no improviso. Alex, por outro lado, parecia tentar entender como havia parado ali — não a gincana, mas aquela proximidade específica.

— Então… — ele começou, depois de alguns segundos de silêncio.

Isabelly virou o rosto para ele com calma.

— Então? — ela repetiu virando o rosto, voltando à atenção para ele.

Houve um breve silêncio estranho entre os dois. Não desconfortável, mas novo. Como se nenhum dos dois soubesse exatamente como se comportar quando não havia regras claras.

Alex passou a mão de leve na nuca.

— Isso parece… infantil.

Isabelly soltou um sorriso curto, quase tímido.

— Concordo. Mas aparentemente é importante para a empresa.

— Ou para pessoas que gostam de fazer adultos, parecerem colegiais — ele respondeu.

Ela riu de leve. E esse som simples fez algo estranho no ambiente ao redor dele, como se o ruído do salão tivesse ficado mais distante.

A primeira rodada começou.

Eles precisavam completar tarefas simples: encontrar alguém que tivesse viajado para fora do país, alguém que tocasse um instrumento, alguém que já tivesse trabalhado em outra área.

Alex e Isabelly se moveram juntos sem perceber quando isso aconteceu naturalmente.

— Você já viajou para fora dos EUA? — ela perguntou.

— Carolina do Sul não conta? — ele respondeu sério.

Ela olhou para ele, sem entender por um segundo… e depois riu.

— Não.

— Então sim. Já.

Isabelly balançou a cabeça, ainda sorrindo.

— Itália. Quando era criança.

— Imagino que tenha sido… diferente daqui.

Ela hesitou por um instante.

— Foi bonito. Mas… muito controlado.

Alex percebeu o tom na última palavra, mas não insistiu.

Eles continuaram marcando itens, conversando aos poucos. Pequenas frases, pequenas observações. Nada profundo, mas suficiente para criar uma espécie de trilha entre dois desconhecidos.

Em algum momento, Alex percebeu algo simples e desconcertante:

Ele não estava querendo sair dali. No meio da segunda rodada, o celular de Isabelly vibrou. Ela olhou a tela e a expressão mudou imediatamente.

Alex notou.

— Tudo bem?

Isabelly respirou fundo, tentando manter a compostura.

— Eu… preciso ir.

— Agora?

Ela assentiu, já guardando o celular na bolsa.

— Minha mãe.

A forma como ela disse aquilo não precisava de explicação.

Adam, ao longe, ainda gritava regras da gincana, completamente alheio ao momento.

Alex ficou parado por um segundo, observando Isabelly ajeitar discretamente os cabelos, como se estivesse tentando não demonstrar pressa.

— A gente ainda nem terminou — ele disse, mais baixo do que pretendia.

Isabelly olhou para ele por um instante mais longo do que o necessário.

— Eu sinto muito.

E então ela se foi. Não de forma dramática. Não com alarde. Apenas… saiu.

Como alguém que sempre precisou aprender a ir embora cedo demais.

O Happy hour terminou pouco depois, como todas as coisas que têm horário marcado para existir. Luzes sendo apagadas, pessoas se despedindo, risadas ficando para trás como eco. Alex ficou algum segundo a mais no salão quase vazio.

Adam apareceu ao lado dele, bebendo o resto do próprio copo.

— Você tá com aquela cara.

— Que cara?

— Cara de quem não queria que a noite acabasse.

Alex não respondeu. Mas também não negou.

— Quem era ela mesmo? — ele perguntou novamente depois de um instante.

Adam sorriu, percebendo exatamente do que ele estava falando.

— Isabelly Velloci, coordenadora de publicidade.

Alex repetiu o nome mentalmente de novo. Mais lentamente dessa vez. Como se estivesse tentando gravar algo que não queria perder.

— Sabe algo mais sobre ela?

Adam ergueu uma sobrancelha.

— Isso é um pedido ou uma ordem disfarçada?

— Um interesse.

— Uh… perigoso — Adam murmurou, mas já estava sorrindo como se soubesse algo que Alex ainda não sabia.

Alex finalmente desviou o olhar do salão vazio, pegando o casaco.

— Não é perigoso.

Adam o acompanhou com os olhos.

— Ainda não...

Alex parou por um instante na saída, como se esperasse algo que não sabia nomear. Então saiu.

E pela primeira vez desde que chegou a Seattle… Ele não queria apenas trabalhar ali. Ele queria encontra-la novamente.