Notas iniciais
E ainda que hoje venhamos ser capazes de tudo para te-lá, no futuro, tudo que queremos é perdê-la, mas ela nunca nos deixará partir.

Despertei, com um irritante som que parecia ser emitido por um inseto. Abri meus olhos. Uma forte claridade envolveu meu rosto, mas rapidamente se desfez. Logo encontro uma nova imagem...

O que está acontecendo?

Eu estou em uma caverna... São pedras... Pedras, cercada por gotículas de água em fios transparentes. São teias... Teias de aranha.

Ah, então é daí que vem o barulho... Da aranha marrom gigante que está me observando. Me observando?.

Pisco os olhos algumas vezes. Não, a aranha não está me observando... E ela também não era gigante... Na verdade, era minúscula. E está no alto da outra extremidade da caverna. Há alguns metros de distância. Eu estou confusa? Doida? Eu podia jurar que aquela teia à pouco estava há poucos centímetros de mim...

Que cheiro é esse?.

Inalei profundamente. É mata... Flores... E cachorro?

— Você acordou. -ouvi um leve suspiro.

Virei meu rosto. Victor está em pé, ao lado do meu leito.

—Victor. –disse me pondo sentada. Eu estava sobre uma pedra, forrada por folhas silvestres verdes. Observei rapidamente o espaço. Estávamos na antiga caverna de Carlisle.

—Você me assustou. –seus olhos se estreitaram um pouco. –Milla disse que você estava sentindo muita dor. Está melhor?

A dor! Agora eu me lembro. Era insuportável... É verdade. Ela desapareceu. Finalmente.

—Sim, desculpe. Foi tudo muito rápido, eu estava... –interrompi minha fala.

O que que eu estava fazendo mesmo?... Ah, sim. Eu estava com o Adrien, em seus braços. — Uma onda de emoções se instalou em mim. Não consegui conter um pequeno sorriso. Victor me olhou confuso.

—...Estava à caminho e passei mal. -completei rapidamente. — Senti uma dor no peito. -completei. -...Não conseguia me mover... Você e Adrien brigaram?

—...Você ouviu isso?... –gemeu baixo.

—Eu ouvi tudo. –cruzei os braços em desaprovação.

—Eu não sabia o que estava acontecendo, ok? -revirou os olhos. -Eu fiquei nervoso.

Mordi os lábios.

— Tudo bem, eu entendo. – sorri franco. – ...Senti sua falta. -estiquei os braços. Ele sorriu e se aproximou. Eu o abracei forte. Ele fazia falta.

— Brie... Você está me... Esmagando. –sua voz saiu falhada.

—Desculpe. — Eu o soltei rapidamente. Eu o estava esmagando, como assim? É ele que tem que controlar a força quando nos abraçamos, não eu! Olhei minhas mãos, estavam absolutamente normais para mim. O fitei confusa.

—Você está muito forte...- afirmou.

—...Está tudo confuso... Eu estou vendo coisas. Àquela aranha. –apontei para o canto da parede de pedra. – Em um segundo ela era gigante, no outro, minúscula...

—Espera. — Ele me interrompeu. — você consegue ver aquela aranha? –disse surpreso. Em outros tempos, eu nunca seria capaz de conseguir enxergar tão claramente em uma grande distância. Minha visão nunca foi tão boa quanto estava sendo agora.

Assenti.

— Agora você me diz que eu estou te esmagando. Isso é impossível! -coloquei minhas mãos sobre o rosto.- Está tudo errado!- Balancei a cabeça algumas vezes. Uma lembrança veio em minha mente.- ... Completa nas duas formas... Viorel disse que eu ficaria muito forte depois que ocorresse. Mas isso só aconteceria depois do meu aniversário...- disse ainda mais confusa.

—...Feliz aniversário. –ele riu baixo.

—O quê? É hoje?- disse boquiaberta. Eu me confundi na data? Não, impossível.

—Bom, na verdade, foi ontem... Você ficou desacordada por mais de dois dias.

—Dois dias?!

***

Já estava tempo demais naquela caverna. Victor me acompanhou até à área externa da gruta. Imediatamente meu olfato identificou aromas diferentes. Diversos sons eram audíveis em um raio de muitos metros. A floresta estava muito mais movimentada do que eu imaginava que poderia estar. Muitas pessoas caminhavam de um lado para o outro. Homens e mulheres exerciam diferentes atividades e haviam tendas montadas entre as árvores.

Ao me ver, Milla correu em nossa direção. Ela estava radiante, vestindo um largo sorriso no rosto.

—É bom vê-la acordada. –disse Milla me abraçando inesperadamente. Seus braços me envolveram de modo que em não pudesse corresponder ao abraço. Alguns fios do seu cabelo faziam cócegas em meu rosto.

—Também estou feliz em te ver.- Ao inspirar, percebi que um natural cheiro exalava do seu corpo. Um cheiro que eu nunca havia reparado antes. -Milla, Adrien tinha razão, você cheira a cachorro. — Ela me soltou, apertando os olhos em desaprovação. –Mas eu juro que é um poodle!

Sua feição irritada logo se desfez e o sorriso voltou ao seu rosto.

— Você está com um ótimo olfato.- ela riu.

Senti uma presença em minhas costas. Ao virar, encontrei um par de lindas esferas negras.

—Adrien! –o abracei.

—Ãn... Sempre soube que você era forte, mas nem tanto assim. –sua voz saiu em um sussurro desconfortável.

—Ops. – o soltei envergonhada. — Desculpe. Acho que terei de aprender a controlar isso. – mordi o lábio inferior. Um pequeno sorriso surgiu no canto de sua boca. Em seguida, Carlisle se juntou a nós. Embora, ele houvesse surgido em sua velocidade comodamente rápida, pela primeira vez, sua chegada não foi imperceptível aos meus olhos.

—Como se sente?- disse Carlisle, utilizando de sua habitual e gentil entonação. Ele tocou levemente meu rosto com a ponta dos dedos. Ao sentir sua pele sobre a minha, percebi que a temperatura de sua mão não incomodava ao entrar em contato com a minha. Sua pele não estava fria como naturalmente era.

—Melhor do que nunca. –sorri e ele sorriu em resposta. –...Mas me digam, o que está acontecendo aqui? – sinalizei para o grande grupo que nos observava.

Carlisle se voltou de frente para a multidão. –Piatrianos, eu vos apresento a princesa Beatrice, a legítima herdeira do trono de Piatră!

Um silêncio ecoou e a aglomeração se curvou por alguns instantes, em seguida, em um único tom, uma estridente saudação seguida de muitos aplausos se propagou na extensão da Hoia- Baciu ovacionando a volta da princesa ao Reino.

—Viva a princesa Beatrice, Viva!!!

***

Quase três dias se passaram desde o dia que perdi a consciência. Além de passar o meu 18º aniversário completamente adormecida, fui a última a receber às mais novas notícias.

A primeira, é que encontramos muitos aliados. Temos um acampamento na floresta, em torno da caverna, que está alojando pouco mais de oitenta aldeãos de várias regiões de Piatră e muitos outros estão à caminho.

A segunda, é que a notícia de que a princesa estava viva e havia retornado para o Reino se espalhou muito rápido. O acampamento ficou conhecido pelos vilarejos e muitos vieram ao nosso encontro e se juntaram a nós, mas essa também era uma notícia ruim. Segundo informantes de Nicu, infiltrados no Castelo, o Rei já está ciente da nossa localização, mas devido a migração e ao apoio de boa parte do povo, Claus tem hesitado um ataque. Mas todos nós sabemos que isso não deve durar muito tempo. Ele tem um exército e, com certeza, está preparando algo e não podemos perder tempo.

Carlisle e Nicu estão treinando nossos soldados para a inevitável batalha que se aproxima. E possuem um ardo caminho a percorrer, afinal, grande parte dos aldeãos, e eu me incluo, nunca lutaram diretamente em uma guerra antes. Temos um longo trabalho pela frente.

Por fim, eu. Primeiramente, me sinto mais forte que nunca, literalmente. Viorel disse que eu teria muito o que aprender, pois muitas coisas em mim mudariam, e mudaram... Eu não era mais uma colegial solitária que possuía uma história de vida completamente inimaginável por seus colegas de classe, uma menina que vivia uma vida cercada de segredos e mentiras. Não, eu não era. Hoje eu havia encontrado o meu verdadeiro “eu”. Agora, eu tinha o que eu mais desejava, ser mais parecida com àqueles que eu amava. A partir de hoje, eu não era mais a “garota pálida com habilidades estranhas”. A partir de hoje, eu não era mais uma “espécie sem definição”, uma meio-vampira ou meio-humana. Eu estava completa, completa nas duas formas. Agora eu era uma vampira-humana.

Mais o que significava isso? Bom, eu estou aprendendo a identificar aos poucos. A todo tempo descubro uma nova faceta da minha atual realidade.

Minhas antigas condições humanas permaneceram em mim. Meu coração permanece batendo em meu peito e sangue corre em minhas veias. Ainda posso me alimentar como um humano comum ou como um vampiro, e a habilidade de cura está presente em meu organismo. Mas agora, eu sou mais que isso.

Consigo ver, ouvir e sentir coisas diversas à longas distancias. Meu corpo já não é mais frágil como o de um humano normal. Eu sou mais forte, rápida e ágil que qualquer outro humano ou vampiro. Dormir, eu ainda durmo, mas já não é algo tão necessário para o meu corpo. Mas dentre todas essas coisas, o mais importante aconteceu. Agora a imortalidade habita em mim.

***

!!!- o som do corpo se chocando com força no chão de terra ecoou pela clareira. Aquela imagem havia se repetido pela quarta vez consecutiva.

—Hahaha! –Adrien, que estava alguns metros afastado, gargalhou. –Eu disse que ela era forte!

—Nicu? Você está bem?-perguntei ao transformo que havia caído em sua forma tigre bengala.

—Grrr... — Nicu rosnou se colocando em pé nas quatro patas. Nicu caminhou em alerta, dando voltas ao meu redor. Os olhos do felino brilharam instigados. Meus sentidos acompanhavam todos os seus movimentos. Eu podia ouvir a agitação da pulsação do seu coração, sua respiração era inconstante e suas garras se expandiram sob as patas quando aderiam a areia solta. De repente, ele saltou em minha direção, soltando um grave rugido. Ele foi muito rápido, mas jogando meu corpo para o lado, consegui desviar de seu ataque. Uma grande nuvem de areia se levantou. Micropartículas de poeira tomaram minha visão. Milésimos de segundos depois, vejo uma mancha escura entre a fumaça amarelada, sinto um forte impacto e uma grande estrutura surge sobre o meu corpo, fincando meus braços contra o chão.

—Muito esperto. – disse encarando o listrado animal sobre mim voltando a sua forma humana.

—Quem sabe na próxima, princesa. –Nicu sorriu de canto e se colocou de pé, me permitindo levantar.

—Truque velho, amigo. –bufou Adrien ao se aproximar em meio segundo.

—Nunca subestime os clássicos. –Nicu riu. — Bom, devo ir. O dever me chama. — ele curvou sua cabeça me cumprimentando. — Foi uma honra.

—A honra foi minha Nicu. -sorri em agradecimento. Em seguida, Nicu correu pela área aberta na sua forma de guepardo e desapareceu entre as árvores.

— Bom, eu também quero me divertir. –Adrien sorriu para mim. – Prometo não pegar leve.

— Eu sei que não. –sorri em resposta.

Era o meu segundo dia dentro do meu velho corpo, mas com novas habilidades. Eu estava disposta a conhecer mais tudo isso. Tudo que envolvia minhas capacidades e limitações. Precisava me preparar para a batalha que estava por vim. Mais cedo ou mais tarde, esse dia chegaria. Para isso, pedi a Adrien que me ajudasse com essa missão.

Nos posicionamos no centro da grande clareira. Retomando o nosso treino, que havia sido interrompido um pouco mais cedo por Nicu, quando ele, curioso com a minha nova forma, me desafiou para um duelo.

Adrien me ensinou alguns golpes básicos. Confortavelmente úteis e perfeitamente compatíveis ao nosso ágil corpo. Adrien era um ótimo jogador. Quando estava em posição de ataque, sua estrutura mudava, seus músculos se contraiam, o que fazia me lembrar aos documentários sobre animais selvagens. Panteras, especificamente. Seu rosto se enrijecia e seus olhos ficavam ainda mais sombrios e hipnotizantes. Sua postura de predador era incrivelmente sexy.

—Se concentre. – ele disse. – Mantenha o foco no seu adversário.

—É um pouco difícil isso... -arqueei as sobrancelhas, sorrindo de canto.

Ele riu baixo.

— Se você não consegue se concentrar quando enfrenta um oponente bonito, não teremos muitos avanços.

Revirei os olhos.

— Tudo bem. – assenti.

Adrien era bastante rápido e seus movimentos nunca eram previsíveis. Já havia perdido as contas de quantas vezes ele conseguira me derrubar no chão. Era irritantemente frustrante. Eu não conseguia acompanha-lo.

—Vamos Brie. -ele disse sarcástico, após mais uma vez ter desviado do meu ataque.

— Arg! Chega, eu sou péssima nisto. – disse retirando o pó preso em minha roupa.

—Achei que não fosse de desistir tão fácil. – ele cruzou os braços.

— Hoje eu sou! -bufei.

Ele sorriu de canto.

— Vamos, eu sei que você consegue. – estendeu a mão em minha direção. Eu hesitei por um instante, mas acabei segurando e ele me puxou contra seu corpo. -Feche os olhos. -ele disse. Obedeci desconfiada. – Identifique o espaço. O que você ouve?

Respirei profundamente e concentrei minha atenção nos sons ao meu redor. Podia ouvir o assobiar do vento batendo contra as folhas das árvores. Pássaros cantavam ao norte, perto do riacho que corria forte em sua temporada de cheia. Podia ouvir os passos de um cervo pastando à poucos quilômetros dali, pela força de suas pisadas sobre o solo, era um animal de média estatura. Agora, eu ouvia leves passos no chão, Adrien se movimentava lentamente ao meu redor.

—Você é perspicaz. -sua voz soou em minha esquerda, virei meu rosto em sua direção. — Use isso a seu favor. -agora ele estava à minha direita. Respirei fundo e tentei acompanhar os movimentos de Adrien. Acabei percebendo uma coisa. Adrien não estava sendo tão imprevisível assim. Direita, esquerda, esquerda, direita, direita, esquerda. Ele estava utilizando padrões repetitivos em seus movimentos. De novo... Direita, esquerda, esquerda...

Direita! Abri os olhos, me lancei em direção ao meu oponente, finalmente conseguindo impedir o próximo movimento.

—Você me pegou. –ele disse soltando um pequeno riso.- De novo, mas agora, olhos bem abertos.

Voltamos a posição de ataque. Cercávamos um ao outro andando em círculos, esperando uma mínima distração. Focados, nossos olhos estavam fixos um no outro. Após alguns instantes, inesperadamente ele avançou em minha direção. Direita, foi a direção que ele havia escolhido e me preparei para impedir seu ataque, mas em míseros instantes, senti sua presença vindo pela esquerda e suas mãos imobilizaram o meu braço direito contra as minhas costas.

—Aqui. –ele sussurrou em meu ouvido. Rapidamente, com a mão livre, agarrei o colarinho de sua jaqueta, jogando o seu corpo contra o chão.

—Não. — corrigi, caindo sobre o seu corpo para impedi-lo de fugir. -Aqui. — sorri satisfeita.

—Hahaha. -ele riu divertido. — Sempre me surpreendendo.

Só então havia me dado conta de quão próximos estávamos. Sinto meu rosto corar quando Adrien me envolve em seus braços, me prendendo contra ele. Nos entreolhamos. Sinto meu corpo ser jogado para o lado e Adrien toma a minha antiga posição. Nossos rostos estavam tão próximos que nossos narizes encostavam um no outro, e eu só tinha uma visão. Seus olhos. Aqueles brilhantes olhos negros me fitavam sedutoramente, refletindo o meu rosto em sua íris. Lentamente, Adrien deslizou suas mãos nos meus braços e encontrando minhas mãos, entrelaçou seus dedos entre os meus, e então, nossos lábios se encontram em um lento e delicado beijo. Em poucos instantes, um choque de atração se propagou entre nossos corpos nos prendendo cada vez mais, deixando o beijo mais desesperado.

Estávamos perdidos em nossa bolha até que um barulho chamou nossa atenção. Alguém estava vindo.

Adrien me dá mais um beijo rápido e levantando, segura a minha mão para que eu faça o mesmo. O barulho tornou-se mais alto e logo uma grande loba negra surgi entre as árvores em direção ao campo aberto. Era Milla. Nos aproximamos dela.

—O que houve?- Adrien indagou.

“Más notícias.” –a doce voz de Milla soa em minha cabeça.

Rapidamente, corremos de volta ao acampamento. Milla nos guiou até a caverna de Carlisle, onde nossos amigos estavam reunidos.

—Onde vocês estavam? –perguntou Íon assim que entramos na gruta.

—Na clareira, treinando. –respondi. Meu olhar logo encontrou Victor que estava em pé no canto da parede. Ele secou Adrien por um instante, mas percebendo que eu o observava, desviou o olhar para o grupo. –O que está acontecendo? — disse me posicionando ao lado de Carlisle.

—Novas informações do Castelo. Claus pretende nos atacar nessa noite. -anunciou Nicu.

—Essa noite?- disse surpresa.

—E essa não é a pior parte... -resmungou Milla. Enruguei minha testa desentendida.

—Hoje à noite haverá uma lua de sangue. — Íon soltou com um tom de voz nada agradável.

—O que isso quer dizer? — perguntei já aflita com a resposta.

—Bebedores de sangue humano ficam muito mais poderosos em noite como esta. Quando o sol a terra e a lua estiverem em perfeito alinhamento, são poucos minutos, mas seriam suficientes... — disse Carlisle.

Um silêncio angustiante se consolidou no local. Lua de sangue. O Rei havia esperado o momento certo para atacar. Sangue humano era a única fonte de alimento para Claus e os atuais habitantes do Castelo. O fenômeno noturno tornaria muito mais forte, nosso pequeno exército seria massacrado em dois tempos. Pela primeira vez, nossa escolha pela abstinência do sangue humano colocava em risco vida de muitos, incluindo nós mesmos.

—Atacaremos antes. -disse Adrien quebrando a quietude. Victor bufou irônico com o comentário.

— Já está anoitecendo. — reprovou Nicu -Temos um grupo de aldeões despreparados e pouco tempo.

—Ora. — Íon bufou. — Onde está o seu senso de aventura, meu amigo?

—Nós sabemos que entre nós três, sou o mais sensato. — Nicu arqueou a sobrancelha.

—Não é hora para pensarmos nisso. Precisamos tomar uma atitude. -alegou Adrien.

—Se não conseguimos terminar tudo antes do alinhamento, seremos massacrados. Pessoas inocentes vão morrer. — Victor se manifestou.

—Pessoas inocentes vão morrer de qualquer forma. -Adrien cruzou os braços fitando Victor. — A escolha é morrer lutando enquanto ainda temos chance ou esperarmos pelo pior aqui.

—Adrien tem razão — entrei na discussão. — Ainda não é o fim. Nós podemos conseguir. -voltei meus olhos em direção a Carlisle que até o momento se encontrava pensativo. — ... Carlisle? — chamei sua atenção esperando seu parecer.

Carlisle permaneceu em silêncio por mais alguns instantes e soltou:

— Nicu, reúna o povo. — ele voltou os olhos em minha direção. -É hora de reencontrar a família.

Assenti em acordo.

—Sim, senhor. — Nicu curvou sua cabeça e rapidamente se movimentou em direção a saída.

—Precisamos de um plano. — anunciou Carlisle.

Carlisle lideraria o ataque, era o mais capacitado para essa função. Havia nascido e viveu por muitos anos no Castelo dos Dalca e conhecia nosso adversário muito bem.

O plano era concentrar um grande grupo na área externa do palácio. A movimentação despistaria os guardas da real invasão que ocorreria pelos túneis do Castelo. Utilizaríamos um túnel, conhecido por Carlisle, localizado na floresta, mas que levaria diretamente ao interior do Castelo. Teríamos de pegar Claus de surpresa, antes da meia noite, quando a Lua de sangue estivesse completa.

—... Íon, você ficará responsável pela liderança dos metamorfos. Milla, seu dom será muito útil na linha de frente, terá um papel crucial. Adrien e Victor... -Carlile interrompeu sua fala. — Onde está Victor?. -Automaticamente meus olhos procuraram pelo vampiro. Ele não estava na caverna.

—...Mas ele estava aqui agora...- Milla comentou.

—Eu vou procura-lo. — disse já desaparecendo da vista dos presentes.

Assim que sai da gruta, notei que a noite já havia caído. Respirei fundo e imediatamente senti o rastro do cheiro de Victor. Ele estava em algum lugar perto dos... Carvalhos. Rapidamente, corri em sua direção.

—Victor? — chamei. Ele estava sentado entre os galhos de uma alta árvore. Ele olhou para mim, mas não respondeu e virou o rosto para o lado contrário.

—Por que você saiu sem avisar? — dei três passos em direção a árvore. -O que há de errado contigo?

Ouvi um baixo rosnado.

—O que há de errado comigo? — Abruptamente ele se precipitou na terra firme, poucos metros à minha frente. Seu pouso fora tão suave que não emitiu qualquer som. -O que há de errado com você! — soou irritado.

—Comigo? Como assim?- questionei desentendida.

—Ah! Por favor. — disse irônico — Você e o Adrien...

—Ah, isso...- mordi os lábios.

—Porquê não me contou? — revirou os olhos. — Ah! Não, não precisava, não é mesmo? Afinal, vocês dois não são muito discretos... -bufou com raiva.

—Ãn... Victor, qual o seu problema? — meus olhos se juntaram tentando compreender aquela cena.

—ARG!- Victor soltou um grave rosnado. Repentinamente, ele se voltou contra uma árvore dando-lhe um soco no tronco. Com o golpe, pequenas lascar de madeira foram lançadas pelo ar, deixando um grande buraco na estrutura arbórea. — Ele é o problema! — bradou. -Ele é tão irritante com aquele jeitinho arrogante de "eu sou mais rápido"- ele imita Adrien de forma exagerada. -Como você pode confiar nele? Você não vê que ele esconde algo? Como alguém chama de pai a pessoa que matou sua família? Que destruiu sua vida?!

Instantaneamente a lembrança da minha conversa com Adrien na floresta voltou a minha memória. O segredo. Victor não poderia saber que Adrien havia mentido. Não poderia.

—Ele... Ele tem seus motivos... Eu tenho os meus motivos.

—Seus motivos... -ele bufou.

—Você acha que não sou capaz de tomar minhas próprias decisões? — indaguei desacreditada.

Ele se aproximou, fixando seu olhos no meu.

— Não, você não é! Sabe porquê? Por que elas só te metem em encrenca. Você se acha invencível, mas você não é! Nunca foi e também não é agora!

—Mas eu ainda estou aqui, não estou?! -alterei o volume da minha voz.

—Mas por quanto tempo?! -sua testa se enrugou com raiva.

Eu nunca o havia visto daquela maneira. Um nó surgiu em minha garganta.

— ...Eu não sei...- sussurrei.

Ele suspirou após minha resposta.

—E é por isso que estou aqui. -abaixou a cabeça. — Essa é a minha função, mas aparentemente você esqueceu disto...

—Victor... -por um segundo, fiquei sem fala- ...Eu nunca esque...

—Sim, você fez. -ele me interrompeu, voltando seu olhar para mim de novo. — Você me esqueceu. -seu maxilar enrijeceu. — Eu estava aqui, mas você decidiu ir para Maiade sem mim e...

. -Ah, sim... — interrompi sua fala. -Então é isso? -cruzei os braços irritada. — Não se trata de mim ou do Adrien. Se trata de você! Do seu ego ferido, porque pela primeira vez, não era de você que eu precisava. Eu não acredito nisso, Victor!

—Talvez seja mesmo! Talvez eu não suporte ter que te dividir com outra pessoa. Sempre fomos nós Brie, lembra? nós!... -ele grita alto– ele cerrou os dentes e rosnou baixo.

Após um silêncio que se apoderou do ambiente, ele suspirou.

— Você não entende, não é?- continuou acomodando suas mãos entre meu rosto. — Eu estou te perdendo... — ele deitou sua testa na minha e pressionando os olhos continuou. -... E você é tudo o que eu tenho.

Meus olhos permaneceram vidrados em seu rosto tristonho.

—Victor... -soltei com a voz embargada.

—... Eu não escolhi a imortalidade... Vivi décadas me perguntando, por quê eu. Por que eu deveria ser condenado a vive-la. Por muitas vezes eu pensei em acabar com tudo isso... -ele suspirou profundamente e sorriu — ...Quando você nasceu, eu entendi o propósito de tudo isso... Eu precisava viver a eternidade para de encontrar...

Algumas lágrimas rolaram em meu rosto.

—...Obrigada... Obrigada por fazer parte da minha vida. — os olhos dele se abriram e se fixaram nos meus. — Desculpa... -o abracei escondendo meu rosto em seu peito.

—Eu que lhe devo desculpas. — ele apoiou seu queixo em minha cabeça. — ...Você é a melhor coisa que a eternidade me deu... — ele beijou meus cabelos. — Eu te amo, Brie.

—Eu te amo, Victor.

Notas finais
Continua...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.