Notas iniciais
Existem coisas que não se podem explicar, simplesmente elas acontecem. A confiança é uma delas. E essa sempre será testada...

Após a longa conversa, descobrimos que muita coisa mudara no Reino de Piatră desde nossa saída. Claus tem comandado o reino ditatorialmente, condenando à morte todos que o contradiz. Aqueles que conseguem fogem se escondendo nas profundezas da floresta, mas poucos têm exito em suas fugas. Os lobisomens e algumas outras criaturas servem fervorosamente à Claus e poucos "rebeldes” têm escapado.

Descobrimos que os ataques ocorridos nos últimos meses foram feitos, alguns pelo próprio Adrien- aparentemente ele não tem sido muito discreto, deixando alguns rastros pelo caminho- e em parte pelos metamorfos-que vêm se alimentando na busca pelo ’’príncipe fujão”.

Finalmente as provas finais terminaram. Agora só era esperar o dia da formatura. Mas não fazia muito sentido pensar nisso. Afinal, tínhamos um ’’vampiro de estimação” no porão da nossa casa. Definitivamente as coisas não estavam mais correndo como ’’normalmente”.

Nessa manhã, Corina e Narin foram para a loja. Não tinha como ser diferente, precisávamos transparecer a ’’naturalidade” para os vizinhos. Desde que o Adrien chegou não saímos de casa nenhum momento. Isso não era nada normal, pelo menos para os meus ’’tios’’, que nunca deixaram de abrir o estabelecimento em um dia comum. Victor havia saído para reabastecer a despensa. Eu estava sozinha em casa. Era seguro, Victor jamais me deixaria sozinha se não fosse.

Estava no meu quarto rabiscando meu caderno. Minha solidão já estava ficando irritante. Resolvi procurar companhia. Fui até a entrada para o subsolo.
Seria uma boa ideia? Eu não sabia.

—...Vai continuar aí parada? -ouvi uma voz vinda do fundo do corredor. -...Eu sei que está aí, o seu coração não é muito silencioso.
Meu coração... Sempre me denunciando.
Bom, já estou aqui, não é mesmo?

Respirei fundo e segui caminhando até o final do acesso a cela.

—Você está bem?

—Não poderia está melhor, não acha? -ironizou.

— Achei que você gostaria de uma companhia.

—Onde estão seus amigos?

—Estão perto. -menti.

—Tem certeza?- sorriu de canto.

Tudo bem, foi um pouco idiota da minha parte. Claro que o Adrien sabia que eles não estavam aqui. O olfato de um vampiro é muito aguçado. Eu sabia disso, vivia com um. Eu deveria ter me lembrando...

—Bom, de qualquer forma, você não pode atravessar essas grades...- os olhos dele me secavam, um calafrio percorria minha espinha. Sentia que pareciam querer me consumir por dentro. Um silêncio ecoou pelo ambiente fechado.-... Eu acho que você não quer conversar... -eu disse me afastando.

—...Não, pode ficar.

A grave voz se propagou no espaço, fazendo os poucos pelos do meu braço levantarem.

—Tudo bem.

Sentei no chão frio, descansando minhas costas na parede do corredor, onde podia ter uma ampla visão do meu ’’companheiro”.

Os vampiros, pela própria natureza, são fisicamente muito sedutores -ajuda na ’’hora da caça”. Adrien não era diferente. Ele exalava uma beleza única, seu olhar era misterioso. Um olhar que fascinava, mas ao mesmo tempo era intimidador.

Mais alguns minutos se passaram. Ele me olhava e eu olhava para ele. Mais uma vez, um silêncio angustiante se fez presente. Isso não estava saindo como o planejado.Tinha que iniciar algo.

—...Bom, você disse que não pode seguir a ordem de Claus, por quê?

—...Tenho bons amigos no sul do Reino. Meu pai queria matar pessoas inocentes...

—Mas você faz isso, não? Digo, seus olhos estão vermelhos, você se alimenta de sangue humano...

—Humanos são presas. Aqueles que estão em Piatră não.

—Mas você já foi um humano, sua família biológica era human

Ele se manteve calado com a minha afirmação.

Ótimo o silêncio voltou a ecoar. Depois de mais um tempo Adrien quebrou a quietude.

—Você tem um cheiro diferente...- Adrien inalou profundamente o ar a sua volta. — Eu nunca senti nada parecido.

Há, o meu cheiro. Victor já havia comentado isso. Minhas duas partes exalavam um aroma único. Era doce, e dez vezes mais sedutor que de um humano.

—...Mas eu acabei de tomar banho...-brinquei. Percebi que ele não havia entendido a piada. Respirei fundo, decepcionada. -... Bom, meu cheiro é ’’peculiar” para você porque eu sou meio-humana e meio- vampira.

—Uma híbrida. Eu conheço híbridos, mas você é diferente... Não se tem muitos relatos de relações que causaram uma fusão entre os ’’dois mundos’’...

—Eu sei, provavelmente eu seja a única da minha espécie.

—...Na verdade não, eu já ouvi falar em um caso parecido com o seu...- ele disse pensativo. -Beatrice, não é?- perguntou.

Na noite em que haviam sido feitas as apresentações, nós havíamos nos apresentado com nossos nomes falsos, para manter a nossa identidade em segredo. Mas provavelmente não fomos tão cuidadosos assim. Adrien, eu algum momento, deve ter ouvido algumas de nossas conversas- estávamos acostumados a usar nossos verdadeiros nomes dentro de casa.

Arg! Péssima distração.

Assenti.

—Esse nome... Já ouvi em algum lugar...- por um instante seu olhar ficou desfocado, mas, finalmente, ele se deu conta. -...Você é a sobrinha meio-humana de Claus!

Engoli seco. Meu disfarce foi descoberto. Com certeza, a minha cara não pode encobrir a minha culpa.
Ele é esperto, não dá para negar..

—Sim. -confessei.

—Todos pensam que você está morta há anos.- ele riu. -Claus se vangloria muito por isso.

—... Claus acredita que estou morta?

Eu suspeitava que sim. Ninguém nunca veio atrás de nós, depois que fugimos. Mas agora eu tinha certeza sobre essa informação.

— Ele acha que você morreu durante uma guerra há alguns anos...Ouvi uma conversa entre os empregados do castelo há um tempo atrás... Não sei muito bem a história, as pessoas não costumam falar sobre esse assunto.

Claus acredita mesmo que eu morri com os meus pais naquela noite. Em parte, era bom saber disso, poderíamos viver tranquilos. Ele não estava a nossa procura. Por outro lado, todo o povo também acreditava em minha morte. Isso era ruim. Não havia ninguém que pudesse salvá-los das presas do Rei. Para o meu povo, não existia uma ’’segunda chance”. Não havia esperança.

***

Já se passaram três dias, desde que Adrien nos ’’encontrou” . Ele confirma que esteve observando nossa casa semanas atrás. Aparentemente o meu ’peculiar’ cheiro o atraiu até nós. Mas estava fugindo. E voltou para ’’fazer um lanche” quando conseguiu despistar os lobos.

Ele poderia está criando toda aquela história? Bem, poderia. Mas algo dentro de mim sente que ele realmente diz a verdade. Então, resolvi lhe dá um voto de confiança, embora Victor não apoie a minha decisão.

Adrien permanece encarcerado em seu ’’novo lar”. Nós sabemos que- se ele está sendo perseguido pelos metaformos- logo poderemos ter indesejáveis visitas. Mas aparentemente, o tempo está ao nosso favor- visto que os metaformos só praticam sua caçada pela madrugada, quando as ruas estão confortavelmente livres para um passeio de gigantes lobos.

Eles ainda estão rondando por Oslo. Então, estamos em uma distância relativamente segura.

Meus pesadelos se intensificaram nas últimas noites, e algumas recordações vem me fazendo refletir sobre o meu presente, meu passado... E futuro.

’’-Filha, na vida passamos por muitas aflições, mas elas são necessárias. A vida é transformar sofrimento em aprendizagem, e é por isso que devemos sempre ser fortes, enfrentando nossos medos, seguindo em frente em busca da nossa paz...”-disse minha querida Cecília, em uma tarde de primavera, enquanto brincávamos no imenso jardim do Castelo de Piatră, à alguns anos atrás. Era uma das poucas lembranças que tinha dela. O seu sorriso, sua doce voz.

Algo em mim está mudando, posso sentir. Em algumas semanas completarei meu décimo oitavo aniversário e isso vem me fazendo analisar sobre a quanto tempo venho vivido em um mundo que, embora seja parte de mim- ou do meu lado meio-humano- não me pertence.

Meu povo, há mais de uma década, sofre nas mãos de um asqueroso e vingativo ser que destrói tudo ao seu redor. Já se passou tempo demais. A decisão está tomada. Chega de sofrimento e medo. Chega de se esconder.

—Gostaria de conversar com vocês sobre algo que venho pensando... –iniciei a conversa no, até então, silencioso jantar. Todos estavam presentes, inclusive Victor, que mesmo não se alimentando conosco resolveu nos acompanhar à mesa.

—Diga querida.- disse Corina bebericando uma taça de vinho tinto.

—As coisas vão de mal a pior..

—Vamos dá um jeito nos metamorfos, não se preocupe .- disse Victor

—Não me refiro apenas a nós.- suspirei. – O nosso povo está sofrendo... Por minha causa.

—Não diga uma coisa dessas.- repreendeu Corina.

—Essa é a verdade. Corina, tudo começou quando eu nasci... Claus...-fui interrompida.

—Claus é um ser sem escrúpulos, sempre foi. Você não é a causa do comportamento dele.- refutou Narin.

—E é por isso que devo fazer algo!.- bravei.- É o que meus pais esperariam de mim. Que eu enfrentasse os meus medos e encontrasse a paz.-cerrei os olhos para conter algumas lágrimas que começaram a bailar em meus olhos.

—Beatrice, o que você está pretendendo fazer? –disse Victor.

—Meu tio, e todos, acreditam que estou morta. Irei usar isso ao meu favor.- disse baixo.- Utilizarei disso para recuperar o que é meu por direito.- conclui firmemente.

—É muito perigoso! – Corina disse espantada.

—E o que Claus pretende fazer é ainda mais. Tenho que impedi-lo!

—Estou com você, sempre. –assegurou Victor sorrindo para mim. Era o que eu precisava ouvi. Retribui o sorriso em agradecimento.

—Todos nós, minha princesa. –disse Narin.

Naquele momento, pela primeira vez, senti que estava pronta para qualquer coisa que o futuro me reservava.

Ouvimos um barulho vindo do subsolo, era Adrien, juntos fomos para o andar em que o ’hóspede” se encontrava.

—O que você quer? –disse Victor, sendo o primeiro a chegar no local.

—Estou dentro. – ele estava em pé do outro lado das grades.

—O que quer dizer com isso? –indagou Victor.

—Posso estar trancado, mas ainda consigo ouvi-los daqui. –Adrien bufou, revirando os olhos. –Quero ajudá-los a derrotar Claus. –concluiu.

—Ajudaria os que pretendem destruir aquele que o salvou?- disse Narin.

—Ele também matou minha família, e muitas outras pessoas inocentes. Está na hora de retribuir. –rosnou Adrien. –E aliás, parece que as coisas mudaram desde a última vez que estiveram lá. Precisarão de mim para chegar até Claus. Ainda existem pessoas confiáveis lá, conheço algumas que podem nos ajudar.

Meus olhos permaneciam fixos no prisioneiro.

Suas palavras me transmitiam confiança, pareciam ser muito verdadeiras.

—Você é um filho de Claus, como saber que não nos apunhalará pelas costa? –ironizou Victor.

—Ele está sendo sincero.

Eu estou ficando louca? Não sei. Mas algo me diz que eu posso confiar nele... Eu sinto que posso confiar nele.

—Como tem certeza? –Victor me fitou cuidadosamente.

—Eu... Apenas sei... – confirmei com um breve sorriso.

***

Sabíamos que enfrentaríamos muitas coisas a partir de agora. Iríamos enfrentar algo muito grande. Era preciso.

Nosso primeiro desafio seria chegar até lá. Seria preciso atravessar quatro países. Nosso primeiro destino é era Dinamarca, precisaríamos atravessar o mar para chegarmos até lá. Mas esse era um dos nossos menores problemas. O maior obstáculo seria atravessar parte da Europa com um vampiro que se alimentava de sangue humano. Era período de férias e de humanos o nosso caminho estaria cheio.

Pedi para que Victor me acompanhasse até o andar onde o outro vampiro estava.

—Então, eu finalmente poderei sair daqui? -Adrien estava sentado em um canto da sua cela. Visivelmente entediado.

—Ainda não, precisamos fazer algo antes...

—O que você está pensando?- disse Victor. Ele realmente me conhecia, sabia que eu planejava algo.

—A nossa viagem será longa. Você passará muito tempo conosco, e não teremos uma grande entre nós. Você precisa aprender a se controlar...

—Eu sei me controlar. – disse Adrien.

—É mesmo? E todos os ataques que você fez nas últimas semanas? Você estará muito perto dos humanos, por muito tempo...Não pode deixar seus instintos lhe consumirem.

Ele ficou mudo por um instante.

—E como você pretende me testar? – sorriu de canto.

Eu tirei o meu canivete do bolso- ele era de aço com detalhes em vermelho, e possuía uma frase gravada ’’Para Sempre” nele. Foi um presente do Victor no último natal. Apertei um botão que acionou a alavanca que fazia a lâmina ser externada.

—Você não está pensando em fazer isso... -advertiu Victor.

—...Estou. -estiquei o braço aproximando a lâmina no lado interno do antebraço esquerdo.- Você acha que consegue? -perguntei a Adrien. Ele riu baixo e assentiu.

—Não mesmo! -impediu Victor abaixando meu braço.

—Por que não? Pode ajudar. E ele está do outro lado da grade. Não vai me machucar... E você está aqui.

Victor relutou um pouco, mas no final concordou- contanto que eu não ficasse muito próxima da grade. Então permitiu que eu efeituasse o meu plano.

—Está pronto? -perguntei a Adrien.

Victor se aproximou um pouco mais de mim. Fixou seus olhos no rapaz do outro lado da grade. Ele não confiava mesmo nisso.

—Tudo bem, vamos brincar. -ele se levantou.

Estiquei meu braço, voltando a minha anterior posição. Com a lâmina, fiz um corte no meu braço, profundo o suficiente para que externasse uma quantidade razoável de sangue. Ardeu, mas a dor foi suportável. Logo o líquido vermelho já deslizava pelos meus dedos. Algumas gotas pingavam no chão.

Meus olhos se voltaram para Victor. Claramente ele se incomodava com a cena. Embora ele não se alimentasse de sangue humano, seus instintos ainda lutavam contra ele, mas ele aprendeu a permanecer no controle. Controle... Só aí eu me lembrei do que realmente deveria está fazendo.

Voltei meu olhos em direção a Adrien. Seus olhos intensamente vermelhos estavam fixados no sangue que escorria do meu braço. Eram os olhos assustadores que eu reconheci na noite em que ele me encontrou. Ele estava em transe, seu corpo estava paralisado. De repente ele rosnou e deu alguns passos para a frente.

O que alertou Victor, que se pôs entre mim e a grade. Victor rosnou em contra-ataque.

Adrien parou. Deu três passos para trás.

Era perceptível o quanto era difícil para ele. Mas aparentemente estava dando certo. O vermelho no olhar de Adrien se amenizou um pouco. Ele balançou a cabeça umas duas vezes retomando a consciência.

—Você...Você está bem?

—... Eu estou.- respondeu se recompondo.

—Conseguimos?- perguntei a Victor, que ainda observava atentamente o Adrien.

—...Parece que sim. -disse Victor.

—Bom, você conseguiu Adrien. Parabéns.

Ele soltou um riso fraco. Arqueou uma das sobrancelhas. Ele observava meu braço mais uma vez.

— Seu corte... Não está mais aí.

Realmente, o local do corte estava fechado, no lugar só havia uma marca superficial.

—É uma das vantagens de ser meio-vampira, eu saro rápido.-sorri.

— Interessante.-ele sorriu de canto.

—Bom, vamos tentar de novo. Mas agora sem grades. -disse vestindo uma luva na minha mão direita para que minha pele não tivesse contato com a Erva d’ ente.

—O quê?! -bravou Victor.

No final, tudo correu bem. Adrien não precisava mais ficar trancado, ele havia conquistado minha simpatia, e a de Corina também. Narin havia dado um voto de confiança a ele. Victor, repeitou a decisão de levar Adrien conosco, mas ainda preferia se manter cauteloso em depositar total confiança nele.

Mas de uma coisa tivemos logo a certeza. A decisão de voltarmos para casa fora tomada no momento certo.

***

Era noite. Victor saiu para fazer mais uma de suas rondas noturnas- notou que o cheio dos metamorfos estavam cada vez mais próximos.

Narin e Corina estavam na sala de estar, estávamos assistindo a um filme. Minha boca estava seca, levantei para pegar algo na cozinha.

Abri a geladeira. Suco de laranja, deve servir. Peguei o galão de suco e despejei no copo. Dei um gole.

—Achei que não te matar já seria uma prova da minha lealdade, mas seu amigo não confia em mim. Uma grave voz ecoou no ambiente.

Meu coração disparou com o susto.

Era Adrien, ele estava debaixo do arco da entrada da cozinha.

Respirei fundo.

—...Não é pessoal. Victor não costuma confiar nas pessoas. Sejam elas humanas ou não.

Dei mais um gole do suco. Do nada, Adrien sumiu.

—Adrien?

Pulei com outro susto ao senti algo gelado no meu ombro. Adrien estava do meu lado.

—Você pode parar de fazer isso? -disse tentando controlar meus batimentos cardíacos.

Sorriu.

Ele se aproximou um pouco mais. Uma corrente elétrica passou por todo meu corpo. Os olhos dele estavam fixos nos meus. Sua respiração era gelada e quase imperceptível. Seu rosto estava perto, muito perto. Por mais que eu quisesse, não conseguia desviar daquele olhar. Eles eram fascinantemente lindos.

—E você?- a grave voz saiu em um sussurro.

Meu coração estava acelerado. Se controla garota...

—...Eu o quê?- minha voz estava um tanto rouca, como se estivesse despertando de um sono.

—Você não duvidou da minha palavra... Como você confia em mim?

—Eu não deveria?- Senti minha respiração ficar pesada.- Você passou no teste.

Adrien arqueou uma sobrancelha. Inspirou profundamente, engoli seco, calafrios me envolveram novamente. Desconfortável, Adrien se afastou um pouco.

—Talvez ele tem razão. Talvez eu não seja um amigo. -sua voz saiu dura.

Mordisquei meus lábios. Frustrada, respirei fundo.

—Adrien, quando pensamos que todos ao nosso redor são inimigos, inimigos é tudo o que vamos encontrar...

—E quando se tenta ser o mocinho, não se pode esperar que venha sobreviver.

Um barulho soou por todo o andar.

—Eles estão aqui, precisamos ir, agora! –disse Victor bravejando ao atravessar a porta principal.

Os metamorfos estavam nas redondezas. Acabamos sendo forçados a antecipar nossa viagem.

Rapidamente nos preparamos para partir. Não tivemos muito tempo. Eu só pude pegar uma jaqueta e o meu canivete. Corri em direção ao Tesla prateado juntamente com os outros, inclusive Adrien -que usava um óculos escuro para esconder seus intensos olhos.

Viajamos por toda madrugada em direção à Dinamarca, país vizinho. Mas para chegarmos até lá, seria necessário atravessar o norte do Oceano Atlântico. Narin, Corina e eu precisávamos descansar um pouco, e embora Victor não aprovasse a ideia de pararmos, não tivemos muita escolha- era início das férias escolares, o porto estava movimentado. Não podíamos arriscar as pessoas com a presença de Adrien- caso ele não conseguisse controlar seus instintos, ele era novo nisso, todo o cuidado era pouco- então continuaríamos a viagem de ’’ferry” pela madrugada- quando as embarcações estivessem ’’menos movimentadas”.

Enquanto aguardávamos o tempo passar, nos instalamos em um alojamento- — optamos por um dormitório mais afastado, próximo aos altos alpes- mas que ainda se encontrava próximo a baía.

Acordei com o som dos sussurros dos meus companheiros de viagem. Algo estava acontecendo. Com a agitação, rapidamente despertei. Os metamorfos haviam nos alcançado. Ouvimos um forte barulho ao fundo da estalagem, seguido por um estrondoso uivo- que me fez tremer da cabeça aos pés. Eram eles, só poderiam ser.

—Victor, vocês são mais rápidos, precisam levá-la daqui. –disse Narin. –Nós só iremos atrasá-lós. –concluiu.

—Corina, Narin... –disse já com lágrimas nos olhos.

—Querida, faça aquilo que deve ser feito. –disse Corina me abraçando.

—Obrigado por tudo. –disse Victor para os velhos amigos.

—Nós te amamos filho.- disse Corina abraçando Victor.

—Agora vão! –disse Narin.

Rapidamente me agarrei às costas petrificadas de Victor. Segurei fortemente. Já havia feito aquilo várias vezes, sabia que seria muito rápido. E assim foi, rápido como uma raio, tão veloz que meus olhos não conseguiam focar a paisagem ao meu redor. Apenas consegui perceber que Adrien estava logo ao nosso lado tão apresado quanto meu ligeiro ’veículo”.

Entramos ’’clandestinamente’’ em um dos barcos que estava pronto para zarpar. Nos instalamos no fundo da embarcação, longe dos olhares de terceiros. Finalmente estávamos longe da terra firme. Isso me tranquilizou. Os metaformos não nos alcançariam tão cedo.

A travessia foi silenciosa, tanto quanto as lágrimas que rolaram em meu rosto. Percebi que Victor estava tão abatido quanto eu.

—Sinto muito por Narin e Corina. –disse Adrien aproximando-se de Victor.

—Não sinta! –rosnou. –Eles morreram por sua causa. É você que eles querem!. – bradou Victor.

—Foi você que colaborou para isso, me deixando preso!.-Irritado, Adrien rosnou colocando-se em posição de ataque.

—Parem os dois! –disse me posicionando entre eles. Por sorte, naquele momento, só havia nós três. –Victor, eles também eram importantes para mim, mas precisamos continuar...Para que o sacrifício deles não tenha sido em vão...- concluir com os olhos lacrimejados novamente.

Os músculos de Victor que até então estavam contraídos, aos poucos, relaxaram.

—Você tem razão... Me desculpe Brie. –Victor suspirou .-... Adrien...

Adrien interrompeu a fala de Victor se afastando. Caminhando em silêncio, em um canto da embarcação, ele se sentou.

Voltei meus olhos para Victor. Sua face estava entristecida, seu olhar disperso admirava o vazio. Pus minha mão em seu ombro. Seu olhar me encontrou por um instante e depois ele se afastou caminhando para um outro canto e desapareceu na escuridão.

Alguns minutos se passaram. Victor ainda não havia voltado. Adrien estava imóvel fitando incansavelmente o deck da embarcação. Lentamente me aproximo. Cautelosamente, sentei ao seu lado, mas mesmo sentindo a minha presença, ele ainda permanecia estático.

—Ãn... Desculpe, pela reação do Victor. Ele não é assim. Ele só está...-mordi meus lábios, tentando conter às lágrimas. -... Eles eram amigos há bastante tempo... Nós éramos...- inconscientemente, algumas gotas rolaram em minha face.

Adrien elevou o seu rosto, encontrando os meus olhos. Cuidadosamente, ele ergueu sua mão em minha direção, encostou seu polegar frio em minha pele e as enxugou.

Agora éramos apenas três, dois vampiros –dentre eles, um em especial, que lutava a todo o tempo contra si mesmo para que não perdesse o controle de sua sede por sangue humano- e uma fraca híbrida mergulhada em tristeza, ciente que acabara de perder, mais uma vez, alguém por quem foi cuidada e amada.

O cruzamento entre as baías durou um pouca mais de duas horas. Enfim estávamos na Dinamarca. Rumo ao próximo país, Alemanha. A partir dali seguiríamos nossa viagem pela superfície. Precisávamos de um automóvel. Seria mais seguro e confortável para mim. Embora estivesse acostumada, o corpo de um vampiro, pela sua rigidez, se tornava muito desconfortável depois de um tempo pendurada nele, e a viagem era muito longa.

Adrien ficou encarregado em encontrar um carro, enquanto eu, acompanhada por Victor, comia alguma coisa em um restaurante, num posto de gasolina.

Terminando minha refeição fui até o banheiro do estabelecimento. Levei as mãos e rosto. No espelho do lavabo, a imagem não era agradável. Fitei meu rosto por alguns minutos. Meus olhos estavam um pouco inchados e meu cabelo frisado – tentei desembaraça-los com as pontas dos dedos. O cansaço era visível em minha face

Eu estou tentando me manter forte, eu juro. Mas não tem sido nada fácil. Nem chegamos na Transilvânia ainda, e já passamos por maus bocados. Perdemos parte do nosso grupo. Metade da família.

Sinto um nó na garganta, uma angústia no peito. Não conseguir impedir de duas lágrimas caírem.

Retirei o colar que carregava no pescoço. Abri o medalhão. Ali estavam eles, juntos e felizes. Aqueles olhos eram tão acolhedores, tão puros.

—...Por que vocês não estão aqui? -sussurrei. Mais algumas lágrimas rolaram.

Respirei fundo. Duas, três vezes. Vesti o colar novamente e mais uma vez lavei meu rosto. Sequei minha pele com um papel toalha e saí do ambiente.

Ele estava sentado em um canto reservado. Estava observando as estrelas que vestiam o céu naquela noite.

Me aproximei em silêncio. Victor estava de costas para mim. O observei encostando a cabeça em um pilar dos pilares de madeira que sustentavam a área coberta do posto.

—...Oi- ele soltou, permanecendo de costas.

—Oi.- Me aproximei. Sentei à sua esquerda, e recostei minha cabeça em seu ombro. -Você está bem?

—Estou tentando ficar...-ele me envolveu com seu braço.

Suspirei.

—A vida é complicada, né?

—A nossa, com certeza.-riu sem graça.

Fechei os olhos.

Eu precisava daquilo. Um momento para respirar. Sem pensar em nada. Apenas está ali. Ao lado dele.

—Já disse que te adoro?- abri os olhos, que automaticamente encontraram os dele. -Porque eu te adoro.- sorri.

—Eu também te adoro. -ele soltou o sorriso que eu mais amava. E só ele tinha.

Poucos minutos depois, um farol se aproximou de nós. Era Adrien, que conduzia uma Range Rover preta.

—Não poderia ser menos discreto? –ironizou Victor ao observar o automóvel.

Era um carro grande e caro, realmente, chamava bastante atenção

—Ninguém irá nos incomodar se estivermos com uma ’’belezinha’’ dessa. – disse Adrien abrindo a porta traseira.

—Até o antifurto ser acionado. –Victor revirou os olhos.

—Relaxe, ninguém irá nos parar...-disse Adrien sinalizando para que eu entrasse no veículo.

—O que foi feito, está feito.- entrei no carro.

Continuamos a viagem sem paradas muito longas- apenas para as minhas necessidades básicas, como me alimentar e utilizar o banheiro, além de abastecer o carro. Victor acabou optando em se alimentar somente quando chegássemos em Cluj-Napoca- para manter a discrição- e convenceu Adrian a fazer o mesmo.

Victor havia se alimentado pouco tempo antes de iniciarmos a repentina viagem. Já Adrien não se alimenta desde que foi aprisionado em nosso porão. Há pelo menos uns oito dias. Isso me preocupava, mas ele garantia que estava bem, e que não precisaria ’’repetir a dose” tão cedo.

Atravessamos a Alemanha, Tchéquia e Hungria até chegarmos em nosso país natal, Romênia. Nossa saga- de Bergen, Noruega até a cidade de Cluj-Napoca na Transilvânia- durou pouco mais de trinta e três horas.

Depois de onze anos, estava cada vez mais perto de casa. O que estranhamente me trouxe boas e más sensações. Estava feliz, mas também receosa. Sabia que a partir de agora seria tudo diferente. Novas coisas estavam à minha espera, mas o que mais me assustava é que só às reconheceria quando as encontrassem.

Notas finais
Continua...