Entre Dois Mundos
6 Seis.
Notas iniciais
Há alguém me observando do canto escuro do meu quarto.
Sei disso porque vejo as formas sinuosas de seu corpo se movendo nas sombras.
— O que você quer? — digo, minha voz meio grogue pelo sono.
Como não há resposta, ligo a luminária ao lado de minha cama para encarar Rose. Seus olhos abatidos e a boca apertada como se estivesse lutando para não chorar.
— Rose...
Meu coração se parte em pequenos estilhaços ao vê-la assim. Nesses últimos dias, eu tenho me afeiçoado tanto aquela pobre alma...
Rose então se agacha com o rosto escondido entre as mãos e soluça, num choro baixinho e eu me pego levantando e me ajoelhando diante dela, ignorando totalmente os arrepios e todos os outros sintomas da aversão do meu corpo à sua presença.
— Por favor, não chore... — sussurro, usando o tom de voz doce que papai usava comigo quando eu me machucava — Estou aqui...Tudo vai ficar bem.
Subitamente seu pranto é interrompido, dando lugar a risadas de escárnio e desprezo.
Não, aquilo não era Rose.
— Quem é você? — pergunto com cuidado.
Devagar, ela tira as mãos do rosto e ergue os olhos completamente negros para mim.
Sua voz rouca me envia calafrios violentos quando ela ri e sopra:
— Quem sou eu? Sou seu pior pesadelo.
Sento na cama, ainda arquejante.
— Um pesadelo, Jessie... Apenas um sono ruim. — medito, ciente de que não iria funcionar. Nunca funcionava.
Repito a frase mais algumas vezes antes de puxar os joelhos contra o peito, num abraço apertado.
Às vezes me pergunto quando minha velha armadura vai desmoronar.
Se fazer de forte para as pessoas e até para si mesmo, nos custa uma grande carga de energia. Em algum ponto da vida, você simplesmente sobrecarrega e é aí que a mascara cai.
Acidentalmente eu derrubo o celular, quando abro a gaveta do criado-mudo para retirar meu caderno de desenhos.
Desde meus quatorze anos, quando meus sonhos se tornaram reais demais para simplesmente esquecer, desenvolvi o hábito de rabiscá-los num papel.
Não que eu tivesse talento pra coisa. Para ser sincera, era até bom que eu não soubesse traçar com precisão as coisas que eu via.
Ainda lembro o choque da minha avó quando vislumbrou colados nas paredes do quarto de sua netinha, desenhos de Livvy sentada no umbral da janela ou sentada ao seu lado enquanto assistia ao noticiário.
Tudo bem, não era uma coisa muito esperta, colar desenhos de pessoas mortas nas paredes do meu quarto, mas mantê-las ali, onde as pudesse ver, era apenas um lembrete de que eu jamais voltaria a ser a antiga Jessie.
Aquela Jessie morreu no acidente, junto com mamãe. E como a mamãe, jamais voltará.
Termino de desenhar e largo o caderno aos pés da cama, lançando um último olhar para o canto escuro.
Se eu fechasse um pouco os olhos, eu ainda podia ouvir seu riso rouco.
"Sou seu pior pesadelo", sussurrou.
No papel, os olhos rabiscados me encaravam de volta. Frios e negros, como a própria morte.
— Não acredito que vai fazer o que acho que você vai fazer.
Não preciso me virar para saber que a dona da voz é Livvy, minha fantasminha não tão camarada, que vira e volta surge para uma visita surpresa.
— Eu gostaria de dizer entre e fique à vontade, mas parece que vocês fantasmas não o menor senso de educação. — resmungo enquanto sento na cama, tentando calçar um de meus tênis detonados sem precisar soltar os cadarços.
Ela da um suspiro e se senta/se joga ao meu lado, me encarando séria.
— Você não tá pensando em fazer algo idiota, não é?
— Depende do que você considera idiota. — Retruco.
— Estou falando sério, Jessie.
Fecho os olhos e dessa vez sou eu quem suspira.
— Livvy... Tô indo ver a Mel, ok?
— Você só pode estar brincando...
Ela sustenta meu olhar por um tempo, como para saber o quão decidida estou, antes de encarar as dedos entrelaçados com força.
— Tenho tido pesadelos cada vez mais reais... — sussurro, meus cabelos ainda molhados do banho pingando no jeans azul de minha calça — Agora não se trata apenas de sonhar com uma mulher morta me perseguindo na escola, Livvy. Eu sinto que algo ruim vai acontecer.
O aperto em suas mãos se intensifica.
— Não quero que se machuque... — murmura num tom tão doce, que se eu pudesse eu a teria abraçado.
— Preciso fazer isso. — Digo, me levantando para pegar a toalha e tirar um pouco do excesso de água no cabelo.
Depois de algum tempo ela finalmente assente e se vira para mim com seu sorriso espertinho.
— Vou com você.
— Não é como se eu pudesse te impedir. — murmuro, tentando parecer mal-humorada, mas falho terrivelmente e devolvo o sorriso.
— Não pode mesmo. Você é o mais próximo de irmã que eu já tive.
As vezes Livvy podia ser muito fofa.
— Vamos juntas, deixe os outros fantasmas comigo. — e então põe a mão no queixo, pensativa — E você, se encontrar algum suspeito humano, mire nas bolas.
Tudo bem, não tão fofa assim.
Engulo o nódulo em minha garganta, quando dou os últimos passos que me separam da lápide de Mel.
O lugar, que dias atrás estava abarrotado de pessoas e de repórteres a toda parte, parece frio e especialmente solitário esta manhã. Por incrível que pareça, não há nem mesmo espíritos no local.
As pessoas já estavam começando a esquecer...
É impossível não sentir o aperto no peito ao lembrar o nosso último encontro na escola,saber que aquele sorriso gentil com covinhas seria apagado tão violentamente...
— Melanie...
— Não devia estar aqui.
Me viro para encarar um par de olhos azuis curiosos.
— Hum?
— Eu disse que não deveria estar aqui. — repete a garotinha — É assustador.
Sinto meus lábios se contrairem num sorriso.
— Estou visitando uma amiga. Onde estão seus pais?
A marota da de ombros e sobe numa das lápides ao estilo Livvy e exibe graciosamente a boneca de pano em suas mãos.
— Meg e eu não gostamos da minha madrasta. Então deixamos papai e vovó chorando e viemos dar uma volta pelo bosque.
— Bosque?
— É, bosque. — ela diz, me encarando como se eu fosse estúpida por não perceber uma coisa muito óbvia — Qual o seu nome?
— Jessie. E o seu?
— Sou a Emma. — ela levanta num pulo, seus cachos dourados e seu vestido florido a faziam parecer mais boneca que a que estava em suas mãos. — Se está procurando sua amiga Mel, ela já foi embora.
— O quê? — pergunto confusa.
Então ela leva a boneca até o ouvido, como se lhe estivesse sussurrando algo e da uma risadinha.
— Meg mandou dizer pra tomar cuidado. — ela sorri e da uma piscadela, antes de correr, desaparecendo entre as lápides.
Suspiro frustrada e chuto um cascalho aos meus pés, que estranhamente tilinta como metal quando bate contra uma parte meio trincada do túmulo de Melanie e eu agacho para estuda-lo.
Não era um simples pedregulho, mas um anel, que seria muito bonito se não tão sujo.
Guardo-o no bolso, antes de correr os dedos pelas riscas do granito verde.
— O túmulo foi violado. — alguém murmura por detrás de mim e eu me viro rapidamente para encarar uma Livvy sombria.
"Ela já foi embora", a menininha disse.
— O que os outros te contaram?
— Jessie, só me escuta, ok? — pede sua voz tremulante — Você tem que sair daqui.
— Não sem antes você me explicar...
— Não há tempo. — me interrompe se virando para trás um instante, antes de voltar seus olhos para mim, sua expressão apavorada — Por favor...
Eu nunca antes havia visto esse olhar em Lvvy.
Engulo em seco e assinto, antes de me afastar dali.
Sentada sobre a bancada da cozinha, eu observo o tal anel.
A estrutura metálica de prata, agora livre de toda aquela sujeira, brilha entre meus dedos enquanto eu analiso os símbolos talhados na parte de dentro.
Parecia ser uma frase, num idioma antigo.
Entretanto, não foram apenas as inscrições que me chamaram a atenção, mas a familiaridade que o anel me passava.
Eu já havia visto em algum lugar...Mas onde?
Suspiro frustrada e o devolvo ao bolso, antes de descer do balcão num salto e por os fones de ouvido, selecionando aleatoriamente alguma música.
Sorrio quando a reconheço.
"The time" de Black Eyed Peas.
Provavelmente essa seria uma das músicas favoritas de Livvy...
Livvy, que já devia estar aqui.
Checo as horas no relógio no mesmo instante em que ouço um estrondo vindo de cima.
A essa hora do dia, a casa estaria vazia.
Todos os meus instintos gritam para que faça o contrário, mas eu pego uma das facas na gaveta do armário e rumo na ponta dos pés para a escada, tomando cuidado para não fazer o mínimo barulho.
A cada passo que dou os sons vão ficando mais altos e percebo que eles vêm do meu quarto, como se alguém estivesse revirando tudo, derrubando os móveis e pertences.
Colo as costas contra a parede e aperto com força a faca em minhas mãos no momento em que algo de vidro é arremessado contra a porta.
Sangue quente escorre pelo meu rosto, confirmando que o que está do outro lado não era apenas um ladrão.
Engulo o nó em minha garganta.
SejacorajosaSejacorajosaSejacorajosa...
Então abro a porta e congelo.
O quarto está intacto. Cama, livros, papéis, mesmo a mochila meio aberta largada no canto. Tudo do mesmo jeito que deixei...
Não. Nem tudo.
Encima da escrivaninha estava meu caderno de desenhos aberto e eu me aproximo.
Na mesma folha em que eu havia traçado os olhos negros do sonho, havia uma mensagem rabiscada numa letra bonita e elegante.
"Querida Jessie,
Desculpe por a ter assustado mais cedo. Foi tentador... O cheiro do sangue escorrendo em seu nariz sempre foi tão doce, minha pequena Somberson. Ele é a prova de que você é minha. Portanto evite lugares perigosos novamente.
Eternamente seu,
C."
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