Entre Cinzas & Esperança
18 Sem Sinal
Notas iniciais
Mia ouviu um ruído ao longe e aos poucos abriu os olhos. Metros acima, um vento constante e suave balançava os galhos de várias árvores, causando o barulho que a acordou.
A cor verde inundou suas retinas como um choque de realidade. Por entre as copas das árvores, podia-se ver trechos de um céu carregado de nuvens. Devia ser algo em torno de meio dia. Estava nublado e frio, mas não parecia que ia chover.
Ao se sentar abruptamente, Mia percebeu que estava no chão do que parecia ser uma densa floresta. Confusa, levantou-se, passou as mãos pela roupa a fim de retirar algumas folhas secas e observou tudo em volta com atenção.
— Cas? — chamou.
Não houve resposta. Mia estava sozinha. Por um momento, lembrou de Crowley e do acidente que a levou ao Hotel California há alguns anos. Atordoada, perguntou-se como tinha ido parar ali, em uma floresta tão parecida com aquela onde acordou antes de encontrar o lendário e irreal hotel.
Logo seus pensamentos entraram nos eixos e Mia matou a charada. A última coisa que se lembrava era de Castiel em seu quarto, dizendo que havia chegado o momento da viagem ao futuro e que em breve eles iriam se reencontrar.
Buscando confirmar sua suspeita, a caçadora procurou o celular no bolso da jaqueta e checou a 02 de novembro de 2020.
Boquiaberta ao chegar a conclusão de que aquela maluquice de viagem atemporal havia mesmo funcionado, ela tentou ligar para o anjo, já que ele não tinha aparecido quando o chamou instantes atrás. Entretanto, o aparelho estava sem sinal, deixando-a frustrada.
Mais uma vez, Mia olhou tudo em volta e arriscou:
— Cas? Hello? Você está por aí?
E mais uma vez não houve resposta.
Então, depois de guardar o celular no bolso novamente, a caçadora se pôs a caminhar por uma trilha e reclamou aos resmungos:
— Nunca acredite em um homem quando ele diz que estará logo atrás de você. Principalmente se ele for um anjo que adora desaparecer nos momentos mais oportunos.
Com medo por Castiel não estar ali e do que poderia encontrar naquele futuro, Mia continuou andando pela trilha, até que a vegetação se tornou rasteira e logo terminou no acostamento de uma longa estrada.
Ao reconhecer uma placa do outro lado da via, Mia sorriu aliviada. A menos que tivesse enlouquecido, o lugar ficava bem perto do ferro velho de Bobby Singer. Vinte minutos de caminhada e logo estaria lá.
Depois de checar o celular de novo e constatar que continuava sem serviço, a caçadora respirou fundo e seguiu caminhando.
***
Não muito longe dali, Dean e Natalie se entreolhavam confusos. Há apenas um segundo, estavam no Impala, no acostamento de uma estrada em Lebanon. Então Castiel apareceu, disse coisas sem sentido, tocou em suas testas e agora eles estavam ali, em uma loja de conveniência de um posto de gasolina qualquer.
— Por que o Cas nos enviou para esse lugar? — Dean cortou o silêncio, observando as prateleiras ao redor e dando-se conta de que ele e Natalie eram os únicos clientes no momento.
Depois de olhar rapidamente na direção do balcão metros adiante, onde um rapaz magricela ouvia música alta com fones de ouvido e folheava um tabloide despreocupadamente, a caçadora tornou a fitar Dean e respondeu num tom baixo:
— O único ser que poderia responder isso não veio com a gente, então... eu não faço ideia.
O Winchester ficou em silêncio, pensando um pouco sobre os últimos segundos, até que tomou uma decisão, se pôs em movimento e chamou a loira:
— Tudo bem, vem comigo.
— O que você vai fazer? — Natalie o seguiu apreensiva, e também meio desnorteada devido à viagem até ali.
— Descobrir o que está acontecendo. — Dean parou em frente ao funcionário da loja e bateu a mão no balcão. — Ei, amigo, com licença! — disse em alto e bom tom, o que finalmente chamou a atenção do rapaz.
Assustado ao ver que tinha companhia, ele soltou o tabloide, atrapalhou-se para retirar os fones, recuou um pouco e gaguejou ao questionar:
— O que vocês estão fazendo... aqui? Nós estamos fechados para almoço... Como... como vocês entraram?
— É o que nós estamos tentando entender também — Dean respondeu com sinceridade. — Que lugar é esse? — quis saber.
Confuso com a pergunta, o rapaz uniu as sobrancelhas e rebateu:
— Como?
— Onde diabos nós estamos?! — o caçador reforçou mais ríspido do que gostaria.
Atônito e imaginando que aquilo pudesse ser um assalto ou coisa pior, o rapaz respondeu o óbvio para ganhar tempo:
— Ãn... Na minha loja, acho.
Quando Dean revirou os olhos irritado, ele acrescentou meio atrapalhado:
— A loja não é minha, na verdade. É do meu tio! Ele gosta de tirar um cochilo depois do almoço... Mas me diga, como vocês entraram afinal? Eu tenho certeza que tranquei a porta depois de virar a placa...
Enquanto ele ria de um jeito nervoso e tentava tatear o botão do alarme sob o balcão, Natalie pegou o jornal que havia sido largado antes e passou os olhos por uma manchete.
— Isso não é importante — Dean desconversou, antes de refazer a pergunta de um jeito mais polido: — Por favor, apenas responda, onde nós estamos?
— Red Cloud, Kansas — informou o sujeito, no fundo estranhando que aqueles dois assaltantes não soubessem disso. Pareciam tão perdidos e, de certa forma, inofensivos.
Talvez fosse um truque. Pensou ele, mantendo-se na defensiva.
Um pouco aliviado, o Winchester refletiu:
— Ótimo, não muito longe de casa.
Enquanto ele procurava o celular a fim de ligar para Sam e via que estava sem sinal, o rapaz finalmente localizou o botão que acionaria o alarme. Entretanto, antes que ele pudesse apertá-lo, Natalie soltou uma sonora gargalhada, chamando a atenção dele e também de Dean.
— Algo engraçado, coração? — o caçador perguntou com ironia, pois não entendia como Natalie conseguia ler fofocas numa situação como aquela.
Ainda rindo, ela mostrou uma manchete para ele e explicou:
— Aqui diz que o traseiro da Kim Kardashian explodiu. Literalmente. — Voltando o jornal para si, segurou o riso e leu: — Ela nega, mas fontes seguras garantem que a socialite deu entrada em uma clínica de cirurgia plástica às pressas, na semana passada. Kim passa bem, já os seus famosos, e outrora avantajados, glúteos, nem tanto...
Sem conseguir mais se conter, Natalie voltou a gargalhar, contagiando até mesmo o sujeito apreensivo atrás do balcão.
Dean, por sua vez, arregalou os olhos e ponderou em tom divertido:
— Um traseiro daquele tamanho era um risco constante mesmo.
— Eu vou queimar no inferno por rir de uma tragédia dessas, não vou? — Natalie comentou, enxugando os olhos marejados de tanto dar risada, antes de respirar fundo e partir para a próxima notícia: — Oh! Veja só! Orlando Bloom, Katy Perry e Selena Gomez finalmente assumem relacionamento poliamoroso. Após quatro anos de muita especulação, eles finalmente admitiram que sempre estiveram juntos. Não houve traição afinal, tudo era consensual entre o trio, que de quebra já anunciou que irão formalizar a união no próximo verão... — intrigada, Natalie interrompeu a leitura e questionou: — Como assim quatro anos?
Desconfiado e começando a unir certos pontos, Dean pegou o jornal das mãos da loira e disse:
— Espere um pouco, deixe-me ver uma coisa.
Natalie cruzou os braços, lhe lançou um sorriso torto e debochou:
— Humm... Parece que alguém também gosta de uma boa fofoca do universo dos famosos, não é?
Ignorando a piada, o caçador passou o olhar pelo cabeçalho do tabloide. Após matar a charada, virou o jornal na direção dela e orientou:
— Natalie, dê uma olhada na data.
Ao fazer isso e descobrir que, ao que tudo indicava, aquele dia era 02 de novembro de 2020, a loira ficou boquiaberta por alguns instantes. Em seguida, expôs a conclusão a que Dean já havia chegado:
— Castiel nos trouxe para o futuro.
— Foi exatamente o que ele fez — Dean assentiu, jogando o tabloide sobre o balcão.
Sem saber o que pensar e como sair daquela estranha situação, o funcionário da loja perguntou:
— Quem é Castiel e do que vocês estão falando?
— Se eu explicasse, você não acreditaria — sibilou o Winchester, enquanto pegava o celular de Natalie no bolso da jaqueta dela e via que também estava sem sinal.
Achando um absurdo que o caçador nem ao menos tivesse pedido licença para fazer aquilo, Natalie ironizou:
— A educação mandou lembranças.
— Jura? Manda um beijo pra ela — reetrucou com um sorriso sonso, enquanto guardava o aparelho de volta.
Porém logo Dean desmanchou o sorriso e o olhar de Natalie oscilou consideravelmente. A menção à palavra beijo acabou levando os dois a se lembrarem da situação anterior àquela, quando ainda estavam em 2016, dizendo que não precisavam um do outro, para no fim terminarem aos beijos e amassos no Impala.
De repente, o sujeito atrás do balcão pigarreou e com isso chamou a atenção do casal, trazendo-os de volta à realidade.
Convencido de que eles não pretendiam assaltá-lo e que talvez fossem mesmo inofensivos, ele gesticulou pausadamente:
— Olha, está tudo bem, eu não quero saber como vocês entraram aqui. Também não quero confusão, okay? Então se isso é tudo e se não pretendem comprar nada, será que vocês poderiam apenas... ir embora?
— Oh... Claro! — Dean concordou prontamente, deixando o rapaz aliviado. — Posso usar o seu telefone antes? — pediu, já trazendo o aparelho sobre o balcão para perto de si, retirando do gancho e discando o número do irmão.
— À vontade — assentiu o sujeito, trocando um rápido olhar com Natalie, que sorriu torto e arqueou as sobrancelhas.
Então Dean tentou contatar Sam. Porém sem sucesso. Ligou para Castiel na sequência e, por fim, para Bobby, Mia e Claire. Também não teve êxito.
— Estranho... As ligações caem direto na caixa postal — comentou, fazendo uma última tentativa, novamente para o irmão.
Distraída, Natalie levou a mão ao queixo e sugeriu:
— Talvez esse lance de viagem no tempo tenha mexido com os aparelhos e comunicações de alguma forma. — Olhando para cima, ela arriscou: — Castiel, por acaso você está por aí? Seria um bom momento para aparecer, viu?
Intrigado, perdendo a paciência com os dois malucos diante de si e sem se importar mais em ser educado, o funcionário da loja reiterou:
— Muito bem, vocês poderiam ir agora?
— Claro! — disseram os dois ao mesmo tempo.
Então Dean colocou o telefone no gancho, sorriu amarelo para o rapaz e caminhou com a loira rumo à saída. Ela tentou abrir a porta e só então percebeu que estava trancada.
Natalie destrancou-a rapidamente na sequência e saiu acompanhada por Dean, antes que o funcionário do lugar voltasse a perguntar como eles entraram no estabelecimento e ainda trancaram a porta sem que ele percebesse qualquer movimento.
Então eles se afastaram dali, percorrendo o posto de gasolina lado a lado com passos apressados, até que Natalie decidiu romper o desconfortável silêncio que havia se instalado:
— Eu ainda não acredito que estamos mesmo no futuro. Há poucos minutos, nós estávamos... Nós...
Sentindo o seu rosto corar ao lembrar, mais uma vez, que ela e Dean estavam aos beijos no Impala, quando Castiel apareceu e os jogou em 2020 daquela forma, a loira desconversou imediatamente:
— Deixa pra lá.
De soslaio, o Winchester percebeu quando ela engoliu em seco. Então sorriu discretamente e provocou:
— Não se preocupe, Natalie Jones. Eu não vou contar para ninguém que você andou agarrando o seu ex por aí.
— Ótimo, Dean Winchester! — Ela fechou a cara e lhe lançou um olhar desdenhoso. — Porque, caso não tenha percebido, foi você que não se segurou, não resistiu, partiu para cima de mim e agora fica falando de si mesmo na terceira pessoa.
Um pouco irritado com o impasse, o caçador respirou fundo, deixou o orgulho de lado e decidiu ser franco:
— Quer saber? Nós nos agarramos ao mesmo tempo.
— Muito bem, é justo — assentiu a loira, dando-se por vencida. — Mas eu não quero falar disso agora — esquivou-se.
— E eu não quero mais falar — insinuou o caçador, detendo o passo.
Quase ao mesmo tempo, Natalie também interrompeu a caminhada e voltou-se na direção dele. Se encararam por longos instantes, trocando um olhar significativo e intenso.
A verdade era que ela também não queria falar. Não havia mais nada a ser dito. Os dois já tinham falado tudo em 2016. Já haviam discutido a relação exaustivamente várias vezes e isso sempre os levava aquele mesmo ponto: não importava o quanto dissessem que a história deles tinha acabado e que era melhor assim, nem Natalie nem Dean conseguiam se convencer disso. Simplesmente porque era mentira.
Eles perceberam isso na última conversa no Impala e enxergavam isso agora também. Estava tão na cara, que não podiam mais ignorar. Ainda eram importantes um para o outro. Nunca deixaram de ser.
Movidos por esse sentimento, os dois se aproximaram e uniram seus lábios demoradamente. Quando suas bocas se afastaram algum tempo depois, a mão de Dean ainda estava no rosto de Natalie, acariciando-a sutilmente. Ambos aliviados com o fim daquele impasse.
Entretanto, por mais que quisesse que aquele momento pessoal e íntimo não acabasse, a caçadora sabia que algo importante estava acontecendo em volta deles, naquele mundo, naquela realidade. E que ela e Dean estavam ali por uma razão igualmente importante.
Pensando assim, a caçadora lembrou:
— Sem querer cortar o clima, Sr. Awesome, mas nós precisamos encontrar os outros e impedir o fim do mundo.
Sem conseguir conter um leve sorriso por ouvir aquele apelido, Dean concordou, imitando-a:
— Muito bem, é justo, Baby.
Também sem conter um discreto sorriso, Natalie voltou a caminhar, levando o caçador a segui-la, enquanto dizia animada:
— Vamos começar procurando no ferro velho do Bobby. Está mais perto do que o bunker.
— Mesmo assim é uma caminhada e tanto até lá — Dean ponderou.
Prontamente, Natalie propôs uma saída:
— Vamos roubar um carro então.
Em tom divertido, o Winchester a parabenizou pelo plano:
— Essa é a minha garota.
***
Enquanto isso, Sam e Claire caminhavam por uma estrada de Esbon, também no Kansas. Confusos como os demais, os dois já tinham checado a data nos celulares e deduziram que Castiel os enviou para o futuro.
Eles já tinham chamado pelo anjo, porém não receberam qualquer retorno. Assim como Mia, Dean e Natalie, também não conseguiram contato via celular, pois seus aparelhos estavam sem sinal. Sem opções, o casal seguia pelo acostamento da estrada.
Por mais que aquela fosse uma situação atípica que envolvia uma missão importante, seus pensamentos insistiam em voltar para aquela biblioteca em 2016, onde eles haviam decidido recomeçar e estavam aos beijos até Castiel aparecer.
Constrangida ao se lembrar do flagrante, Claire riu sem perceber, chamando a atenção de Sam.
— Qual é a graça? — indagou, curioso.
— Exatamente isso. Graça, Castiel, situação embaraçosa, você sabe... — insinuou.
O Winchester captou a mensagem prontamente e riu por um momento, também meio constrangido. Em seguida, opinou:
— É, com certeza ele nos deve explicações e um pedido de desculpas por ter aparecido daquela forma e justo naquele momento.
Claire sorriu de canto e continuou andando ao seu lado. Após alguns segundos de caminhada silenciosa, Sam pigarreou e recomeçou:
— Quando isso acabar... Nós podemos...
O caçador não precisou dizer mais nada. Claire sabia aonde ele estava querendo chegar. Sam queria ter certeza de que a conversa na biblioteca não tinha sido em vão. Ele queria saber se o que ele e Claire faziam antes de Castiel interrompê-los tinha importância para ela. E principalmente, se os dois poderiam retomar de onde haviam parado.
A resposta da caçadora foi segurar a mão dele e dizer sem rodeios:
— Sim, podemos.
Satisfeito, Sam segurou a mão da caçadora de volta e lhe lançou um breve sorriso. Em seguida, eles se beijaram por um longo momento e depois voltaram a caminhar, ainda de mãos dadas.
Quinze minutos e logo chegariam no ferro velho de Bobby Singer. Esperavam que Castiel tivesse enviado ao menos o velho caçador para um local familiar.
***
Sam e Claire não podiam ter certeza disso naquele momento, mas era lá mesmo que Bobby estava, em sua antiga casa. E ainda assim, sentindo-se perdido como eles.
Atônito, o caçador observava dois bebês dentro de um berço em seu quarto. O lugar estava diferente do que ele se lembrava. Além do berço e das duas pequenas pessoas que o encaravam, é claro, havia um toque sútil na arrumação, um toque feminino, de Jody Mills. Um porta-retrato sobre o criado-mudo mostrava a Xerife ao lado dele.
Bobby teve vontade de se aproximar, pegar a fotografia e confirmar se aquilo no rosto dele era mesmo um sorriso de felicidade. Porém havia algo mais importante para se preocupar naquele momento. Os bebês podiam ter parado de chorar assim que o viram, mas ele sabia que ainda precisava fazer alguma coisa a respeito deles.
— Olá — disse por fim, fitando os dois pares de olhos inocentes e curiosos. — Eu sou Bobby. Acho que vocês já sabem disso, não é?
As crianças, um menino e uma menina que não tinham mais de um ano, mexeram os pequenos braços e pernas impacientemente ao som da voz do caçador. Pareciam gostar bastante dele.
— Certo, vocês ainda não sabem falar — deduziu pensativo. — O que é uma pena porque eu adoraria que alguém me explicasse quem exatamente vocês são. Sem chance de me contarem, presumo?
A menina sorriu de um jeito risonho e Bobby inclinou a cabeça, intrigado. O menino levou as mãozinhas à boca, enquanto chutava o ar com suas perninhas ligeiramente tortas. De repente, o caçador viu algo de familiar neles.
— Jody disse seus netos — lembrou baixinho. — Meus netos.
Bobby estreitou o olhar e finalmente entendeu quem eram aqueles dois bebês. Tocando o rosto da menina, ele opinou:
— Você, definitivamente, tem alguma coisa da Claire. — Acariciando o rosto do menino na sequência, emendou: — E você, se parece muito com um Winchester que eu conheço.
Por fim maravilhado com a descoberta, Bobby olhou de um para o outro e refletiu:
— Sabem, eu sou um caçador. Me dê um vampiro, lobisomen, ghoul, fantasma, o que for e eu me viro. Mas bebês? Eu não sei o que fazer.
Um segundo depois, a voz de Jody Mills ecoou pelo recinto:
— Você está se saindo bem.
Imediatamente, o caçador olhou na direção da porta, onde ela se encontrava recostada na soleira. Não fazia muito tempo que tinha chegado ali. Havia ouvido apenas a última frase do caçador.
— De qualquer forma, tente isso — indicou, adentrando o quarto e entregando duas mamadeiras para o marido. — Eles devem estar com fome.
Antes que Bobby assimilasse a orientação, alguém tocou a campainha da casa. Então Jody se despediu dele com um sorriso e se afastou dizendo:
— Não se preocupe, fique com as crianças, eu atendo.
E então ela se foi, deixando Bobby sozinho com a tarefa de alimentar dois bebês esfomeados ao mesmo tempo. Não quaisquer bebês, mas aqueles bebês.
Sem se intimidar com o desafio e começando a gostar bastante daquele futuro, ele se inclinou na direção do berço e sorriu discretamente.
***
Enquanto isso, Jody desceu as escadas e caminhou rumo à porta de entrada. Antes que pudesse perguntar quem era, a visitante tocou a campainha novamente e bateu algumas vezes na porta, fazendo um batuque ritmado e impaciente.
— Já vai! — a Xerife gritou, destrancando e finalmente girando a maçaneta.
Assim que reconheceu a figura de Mia Clarke em sua soleira e percebeu algo diferente nela, a expressão serena de Jody se esvaiu e deu lugar a um visível espanto. Confusa, ela mediu a caçadora da cabeça aos pés algumas vezes. A tensão se espalhou por seu corpo, deixando-a em alerta imediato.
— Jody! Ai meu Deus! — Mia entrou imediatamente e a abraçou forte, sem cerimônia. — Eu não acredito! Que bom te ver aqui! — acrescentou, rindo de empolgação e felicidade por Jody fazer parte do futuro de Bobby Singer de alguma forma.
A Xerife não correspondeu ao gesto, e ainda reagiu de uma forma que a caçadora com certeza não esperava. Antes que Mia pudesse entender o que estava acontecendo, Jody se desvencilhou dela, a virou, puxando o seu braço direito para trás abruptamente, e a empurrou contra a porta, mantendo-a presa e imóvel.
— AU! Isso doeu! Ainda está doendo! Ai! O que há de errado com você? Eu pensei que nós fôssemos amigas! — a garota reclamou, confusa e assustada com a recepção agressiva.
E ficou ainda mais perdida quando Mills inqueriu duramente em seu ouvido:
— Quem diabos é você e o que fez com a verdadeira Mia?
— O quê...? — balbuciou sem entender o porquê daquela pergunta idiota.
A Xerife ia refazê-la quando, de repente, o ruído de asas batendo rapidamente se espalhou pela sala e a voz grave de Castiel questionou:
— O que está acontecendo aqui?
— Bem que eu gostaria de saber — Jody limitou-se a dizer, sem olhar para o anjo no meio de sua sala.
— Cas... — Mia murmurou aliviada, tentando se soltar.
Quando finalmente conseguiu se livrar da Xerife, ela seguiu o som daquela voz familiar e, sem pensar duas vezes, se jogou em seus braços, o envolvendo calorosamente.
— Cas! — repetiu mais alto e fechou os olhos. — Ufa, ufa, ufa! Finalmente você apareceu, hein? Por que demorou tanto? — comentou antes de procurar o rosto dele e pressionar os lábios em sua boca com um selinho demorado e intenso.
Entretanto, assim que Mia afastou o rosto e sorriu, ela viu certa confusão nos olhos azuis e curiosos que a fitavam de volta.
Em seguida, Castiel inclinou a cabeça, estreitou o olhar em sua direção e perguntou:
— Quem é você?
— Muito engraçado... — começou a dizer, ainda sorrindo e dando um tapinha no ar.
Mas então uma possibilidade passou por sua mente e ela arregalou os olhos, disparando num ritmo acelerado:
— Ai meu Deus, você perdeu a memória! Eu jurava que nós tínhamos passado desta fase e, no entanto, olha só! Sério? De novo? Espere um pouco, quem perdeu a memória da última vez mesmo? Oh! Eu, claro! Então não deixa de ser justo que esta seja a sua vez de bancar o esquecido, não é? Deve ser um efeito colateral da viagem até aqui. Tem que ser. Vai passar.
Preocupada, Mia recuou um pouco, mas não soltou o anjo totalmente. Foi então que ele ergueu o queixo da caçadora com o dedo, a observou profundamente e esclareceu:
— Eu sei quem você é... Mia Clarke. O que estou dizendo é que você não é a minha Mia. — Concentrando-se mais no olhar dela, concluiu surpreso: — Você é do passado.
Receosa e quase matando a charada, a garota arriscou:
— E você é...?
Alguém pigarreou, levando-a a se virar imediatamente e perceber que havia outro Castiel na sala. Um Castiel que tinha aparecido ali ao mesmo tempo que o primeiro, mas não havia sido notado até então, pois se materializou do outro lado da sala e demorou alguns instantes para se recuperar da viagem atemporal. Um Castiel que parecia muito insatisfeito com a cena romântica que presenciou.
Sentindo seu rosto ruborizar ao se dar conta da gafe cometida, Mia se afastou do Castiel do futuro rapidamente e assentiu:
— Ah tá, entendi. — Depois de acenar para o Castiel certo, do seu presente, sorriu amarelo e o cumprimentou: — Oi, anjo. Não é nada disso que você está pensando. Nada mesmo. Só um terrível engano. Acredite, um dia nós vamos rir disso.
— Você o beijou — ele acusou, erguendo o queixo para indicar a sua cópia atrevida do outro lado do recinto.
Dando alguns passos na direção do anjo correto, Mia fez pouco caso:
— Não seja ridículo. Com ciúmes de si mesmo? Tudo tem limite. — Ela parou diante dele e passou os braços em volta do seu pescoço. Então piscou e fez graça: — Sem neura, você ainda é o meu favorito.
O Castiel favorito sorriu em concordância e resolveu esquecer o mal entendido, deixando Mia aliviada o suficiente para abrir um largo sorriso e lhe dar um selinho demorado na sequência. Por um momento, ela esqueceu-se de onde e quando estava, de tudo que estava em jogo naquela realidade.
Mas então Jody Mills pigarreou e voltou a se manifestar:
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo aqui?
O trio olhou para ela imediatamente. A Xerife estava boquiaberta e desnorteada com a cena diante de si. Apontando para os anjos, questionou:
— Por que tem dois Castiel na minha sala e por que nem um deles está estranhando a presença de um metamorfo aqui?
Ao perceber que a última parte era para ela, Mia protestou indignada:
— Ei, olha a boca! Eu não sou um metamorfo!
— Tampouco é a Mia! — Jody rebateu no ato.
Rindo sem humor, a caçadora insistiu:
— É claro que eu sou eu! Quer ver a minha identidade, Xerife Mills?
Antes que as duas discutissem ainda mais sobre aquele ponto, o Castiel do futuro resolveu intervir:
— Ela é Mia Clarke. Mas de outro tempo. — Indicando o outro Castiel, completou: — Assim como ele sou eu, mas não o eu de hoje. O eu de hoje sou eu.
— Gênio. — Mia revirou os olhos diante da explicação óbvia demais. E voltando-se para o seu Castiel, brincou: — Viu? Nem se compara a você.
Jody mal tinha assimilado o significado de tudo aquilo, quando passos foram ouvidos no topo da escada. Então ela e os demais olharam prontamente para Bobby, que segurava no colo os dois bebês recém alimentados.
Depois de ouvir toda a confusão no andar de baixo, o caçador percebeu que tinha chegado o momento de revelar quem ele era de verdade também.
Pensando assim, olhou especificamente para a esposa e anunciou:
— Por falar nisso, Jody, tem algo que eu preciso te contar.
Bobby não precisou dizer mais nenhuma palavra. Boquiaberta, a Xerife Mills despencou sentada no sofá atrás de si, captando a revelação implícita.
— Isso vai ser confuso e divertido — Mia confabulou baixinho.
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