Entre Cinzas & Esperança
13 Papo bíblico
Notas iniciais
Passava das oito horas da noite. Sam, Claire, Natalie, Mia e Bobby ainda estavam reunidos na sala principal do bunker, mergulhados na pesquisa, aparentemente sem fim, sobre os anjos caídos de Lúcifer.
O ruído de folhas sendo continuamente viradas só foi silenciado quando os passos de Dean, retornando à sala, foram ouvidos.
Ele trazia uma bandeja e ao passar por Mia — sentada em uma poltrona de couro e com uma antiga bíblia no colo —, lhe entregou uma generosa xícara de café e disse:
— Mais combustível, Miss Cafeína.
Ignorando o apelido, ela lhe lançou um sorriso desdenhoso, mas pegou a bebida revigorante, visivelmente agradecida e animada.
Mais cedo, Mia havia feito uma quantidade generosa de café para todos. Porém, àquela altura, ninguém mais estava interessado na bebida. Exceto ela, é claro, já que café nunca era dispensável para Mia Clarke.
Enquanto ela bebia, Dean seguiu rumo à mesa e colocou dois pratos com salada na frente do irmão e de Claire, ao mesmo tempo em que explicava:
— A sua comida de coelho, Sammy. — Olhando para a ex-cunhada, emendou: — Que eu sei que você também adora.
— Obrigada, Dean — ela agradeceu meio sem jeito, pois teve a impressão que havia algo subentendido na observação dele sobre ela e Sam terem gostos parecidos. Ou talvez fosse só impressão sua.
— Valeu — Sam limitou-se a dizer e, sem perceber, olhou para Claire por um segundo longo demais.
Rapidamente, ele disfarçou e deu a primeira garfada na salada. A caçadora fez o mesmo, enquanto percorria um manuscrito dos Homens das Letras com os olhos, tentando se concentrar na leitura.
Enquanto isso, Dean hesitou um pouco, mas acabou servindo um X-Bacon para Natalie, preparado por ele mesmo na cozinha.
A loira desviou a atenção do livro que estudava, e ficou olhando para o prato na sua frente por um longo momento, inevitavelmente mexida com a gentileza do ex, um pouco incrédula e um tanto salivante também.
— Seu favorito, pelo o que me lembro — Dean falou, sério. Então ele indicou um segundo X-Bacon na bandeja e completou mais relaxado: — Coincidentemente, o meu também — e tentando dissipar o clima que se instalou no ar, provocou: — Bom apetite, insuportável.
— Obrigada, idiota. — Natalie sorriu torto, antes de se render ao seu lanche favorito e dar uma generosa mordida nele.
Dean sorriu discretamente ao ver a satisfação estampada no semblante da loira.
Finalmente, ele se acomodou à mesa, ajeitou o seu prato diante de si e paquerou a bomba calórica com um olhar faminto. Antes de dar a primeira mordida, pegou o último item da bandeja — uma garrafa de whisky —, empurrou-a para Bobby e brincou:
— E esse é o seu combustível. Mas eu espero que deixe um pouco pra mim, mesmo porque na sua idade, é bom não abusar do álcool.
— Idjit — xingou Bobby, abrindo a garrafa e preparando a primeira dose de whisky em um copo que já estava sobre a mesa.
Ao notar que Mia observava atentamente o que ele estava fazendo — com uma expressão no mínimo suspeita —, o velho caçador cortou:
— Nem pense nisso, filha. Eu não vou dar bebida para uma criança.
Indignada, ela retrucou prontamente:
— Para o seu governo, eu tenho vinte e sete anos. Quase vinte e oito.
Sem se intimidar, Bobby reforçou:
— Como eu disse, uma criança.
Sentindo que não adiantaria insistir, Mia fechou a cara e se acomodou melhor na poltrona, de uma forma que ficasse de costas para a mesa e, consequentemente, para o homem que havia lhe recusado uma simples dose de whisky.
Depois de observá-la por alguns instantes e ponderar a motivação da garota para querer beber, Bobby a chamou:
— Ei.
Assim que Mia, relutante, olhou em sua direção, ele tentou tranquilizá-la:
— O Cas vai voltar. Não vale a pena tomar um porre só porque ele não está aqui agora. Além disso, whisky não é tão bom quanto café, certo?
Depois de ponderar as palavras dele, Mia percebeu que o caçador tinha razão. Então, sem ressentimentos, ela sorriu e fez um sinal de joinha antes de voltar à pesquisa.
Na sequência, Dean indagou de boca cheia:
— Então, o que nós sabemos até agora?
Sam remexeu algumas anotações sobre a mesa e respondeu:
— Não muito, mas por sorte alguns membros dos Homens das Letras se dedicaram exclusivamente ao tema. Eu acho que eles eram quase como teólogos, porque seus trabalhos estão cheios de referências ao Velho e Novo Testamento. Então, resumindo... — O caçador tomou fôlego e expôs de um jeito meio didático: — Os anjos caídos, como já era de se esperar, são forças espirituais de pura maldade, extremamente inteligentes e manipuladores, conhecidos também como Príncipes das Trevas. Eles podem se transfigurar em anjos de luz, o que significa que Gabriel estava dizendo a verdade. Eles não se passaram por anjos no Triângulo das Bermudas, mas definitivamente usaram um tipo de ilusão para nos enganar. É uma habilidade deles, assim como de todos os anjos, alterarem a realidade, mudarem a própria aparência, essas coisas. Nós pensamos que eram simples demônios, foi o que vimos, mas obviamente eles são bem mais do que isso.
— Awesome! — Dean resmungou com ironia. E deixando o prato vazio de lado, inquiriu: — Como nós matamos os desgraçados?
Meio frustrada, Natalie informou:
— Aparentemente, nós não podemos, é como se eles já estivessem mortos.
Ao perceber que Dean não havia entendido porque, claramente, não tinha prestado muita atenção nas etapas da pesquisa até ali, Bobby interveio:
— É o que está escrito na bíblia. Quando foram expulsos do paraíso, tais anjos morreram para Deus. Logo, eles não podem ser mortos novamente pelo Homem.
Enquanto o Winchester mais velho ponderava a informação, Claire checou suas anotações e anunciou:
— Vejam... Um Homem das Letras destacou um breve resumo da queda de Lúcifer. Talvez nos ajude a pensar com mais clareza. — Depois de ajeitar uma folha em específico, ela leu: — "Houve peleja no céu. Miguel e seus anjos de Deus pelejaram contra o dragão e seus anjos; todavia não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama Diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos. Eles o venceram pelo sangue do Cordeiro e pela palavra do seu testemunho."
Quando terminou de ler, Claire ergueu o olhar na direção de todos, esperando que eles dissessem alguma coisa.
Entretanto, parecia que eles estavam mais perdidos do que antes, talvez esperando por notas explicativas ou na dúvida se aquilo era mesmo tudo.
Para indicar que sim, era tudo por ora, ela pigarreou e concluiu:
— É Apocalipse, capítulo 12, versículos...
— Okay. — Dean ergueu as mãos sobre a mesa, interrompendo-a, enquanto assimilava o texto bíblico e tentava fazer o que Claire sugeriu, pensar com clareza. Segundos depois, articulou: — Acho que todos concordamos que Miguel não é uma opção. Mas definitivamente, nós temos anjos do nosso lado e talvez eles possam ajudar, se for preciso. Agora... Sangue do Cordeiro? O que é isso?
Mia soltou um riso com certa incredulidade e se ouviu respondendo:
— Uma clara referência ao Cordeiro de Deus, aquele que retira os pecados do mundo e nos dá a paz. — Diante do silêncio e dos olhares intrigados em sua direção, ela acrescentou pausadamente: — Jesus Cristo. Crucificado. Se sacrificou como um cordeiro por nós. — Quando todos, quase simultaneamente, arquearam as sobrancelhas, a caçadora resmungou: — O que foi? Eu fiz catequese quando era criança.
— Fez? — surpreendeu-se Dean.
— Sério? — indagou Sam, também surpreso.
Só então, ele e Dean deram-se conta que não sabiam muito sobre Mia. Sua infância depois que os pais morreram nas garras dos Cães do Inferno, sua adolescência, tudo era desconhecido, um mistério para eles e também para Bobby, Claire e Natalie.
Deixando a questão de lado por ora, Dean retomou:
— De qualquer forma, Jesus Cristo não era nascido na época dessa peleja aí, certo? Então...
Mia ajeitou-se melhor na poltrona e explicou:
— Não importa. Para o catolicismo, o Pai, o Filho e o Espírito Santo são um mesmo Deus em três faces. Daí o termo Santíssima Trindade.
— Ora, ora. Você fez mesmo catequese — debochou Dean, analisando a amiga por um momento.
— Eu queria saber qual era o gosto da hóstia — confessou Mia, dando de ombros. — Mas, voltando ao assunto que realmente importa — retomou, um pouco sem graça com a própria confissão —, a Bíblia está cheia de menções ao passado, presente e futuro. Tudo está conectado, então é uma questão de interpretação.
Depois de pensar um pouco sobre o que ouviu, Sam ponderou:
— Em outras palavras, você está dizendo que nós podemos entender sangue do Cordeiro como sangue de Deus de uma forma geral?
— Acho que sim — limitou-se a assentir.
Após um momento de silêncio, durante o qual todos pensaram em possíveis teorias, Natalie resolveu arriscar e expôs a sua:
— E se for mais do que isso? Uma metáfora? Tipo, uma arma divina? Algo feito por Deus, empunhado por Ele, que contenha parte do Seu... Sangue e poder? E se palavra do seu testemunho forem palavras de verdade, algum tipo de ritual talvez?
— São possibilidades interessantes — concordou Claire, anotando as observações da amiga.
Em seguida, Sam tornou a se manifestar:
— É como Mia disse, em matéria de Bíblia, nem tudo pode ser levado ao pé da letra, há várias interpretações, adaptações, pontos de vista. Por exemplo, — ele olhou para Dean e Bobby especificamente e continuou: — nós já vimos que os Cavaleiros do Apocalipse não tinham cavalos, e sim carros, certo? — E voltando-se para Natalie, concluiu: — Então, o sangue de Deus pode sim ser uma arma. Quem sabe?
Um tanto impaciente com todo aquele assunto, Dean batucou os dedos na mesa e recapitulou:
— Resumo da ópera, nós não podemos matar os Príncipes das Trevas, mas podemos trancafiá-los de volta no Inferno, usando uma arma que, temporariamente, iremos chamar de Sangue de Deus e um ritual desconhecido, que não sabemos se é um ritual mesmo ou outra coisa. Ou seja, nós não temos nada.
— Quase nada, mas já é alguma coisa. Melhor que nada — corrigiu Natalie, numa tentativa de fazê-lo pensar positivo e enxergar algum progresso no que estavam descobrindo.
— Parem com isso os dois — reclamou Mia, com o rosto ligeiramente corado ao ouvir a palavra proibida que lhe remetia a outra coisa.
Enquanto Dean e Natalie erguiam as mãos, pedindo desculpas silenciosas, Claire opinou:
— É um começo.
— Que nos leva a outras perguntas — anunciou Sam, subitamente preocupado e um tanto distante. — De que arma exatamente nós estamos falando? E de que ritual? O que nós vamos encontrar no futuro? Nós vamos conseguir impedir a Legião dos Príncipes das Trevas e uma nova ascensão de Lúcifer? Impedir... O fim do mundo?
Um silêncio sepulcral se instalou na sala, todos olharam para Sam e refletiram sobre suas perguntas com certo receio. Até que Claire, sentindo que não eram apenas perguntas jogadas no ar, mas que ele estava se lembrando da época em que libertou Lúcifer, de tudo o que aconteceu depois daquilo, possivelmente se culpando pelo passado e quem sabe pelo futuro, colocou sua mão sobre a dele na mesa num gesto solidário.
Tal atitude fez o caçador erguer o olhar automaticamente até encontrar o dela. E então Claire tentou transmitir a esperança que sentia, enquanto o fitava de um jeito inevitavelmente carinhoso e dizia com firmeza:
— Eu não sei todas as respostas, mas eu acredito que sim, nós vamos impedir Lúcifer e sua Legião. Vai dar tudo certo, Sam.
Os dois se encararam por um longo momento, até que o caçador assentiu brevemente e olhou para a mão de Claire ainda sobre a sua. Ao se dar conta do que havia feito, ela a afastou rapidamente e se recompôs como pôde.
— Que assim seja, filha — profetizou Bobby. — Armas divinas, certo? — frisou depois de tomar um pouco do whisky. — Vamos procurar por essa coisa então.
Na sequência, o velho caçador se levantou, caminhou até um armário arquivo e abriu uma gaveta. Momentos depois, jogou uma pilha de pastas sobre a mesa e anunciou:
— Um novo começo.
Todos se entreolharam e depois cada um pegou uma pasta. Mia aproximou-se e pegou uma para si também. Depois seguiu para um sofá, se acomodou nele e começou a ler o conteúdo do arquivo, enquanto bebericava o restante do café.
Mais tarde
Horas depois, quando já passava da meia noite e o cansaço estava estampado no semblante de todos, Sam fechou o seu último arquivo dos Homens das Letras e colocou a pasta no centro da mesa, sobre uma pilha maior.
Em seguida, foi a vez de Claire e Natalie concluírem suas partes e colocarem os arquivos sobre o amontoado.
Infelizmente, elas, Mia e os caçadores só tinham encontrado informações vagas sobre armas divinas e nenhuma pista concreta.
Convencido de que Castiel talvez pudesse ajudar nessa parte quando voltasse do passado, Dean fechou o último arquivo e olhou rapidamente na direção de Bobby, que estava em outro canto da sala, revirando uma estante em busca de informações úteis.
— Eu acho que é o suficiente por hoje — Dean opinou, mas recebeu em retorno apenas palavras quase inaudíveis resmungadas pelo experiente caçador, o que deixava claro que Bobby ia passar a madrugada absorto naquela busca.
— Eu concordo — disse Claire, chamando a atenção dos Winchester e de Natalie. Levantando-se da cadeira, ela anunciou: — É melhor eu voltar pra casa agora.
— Ótimo, então vamos. — Natalie se pôs de pé e esticou o corpo, bocejando um pouco.
Sam e Dean trocaram um olhar significativo e, no instante seguinte, estavam de pé também. Foi o mais velho que tomou a palavra primeiro:
— Como assim? Vocês podem ficar aqui. Amanhã, digo hoje... Mais tarde, enfim, nós podemos continuar de onde paramos.
— Não tem necessidade de vocês irem embora, dirigirem cansadas assim para voltarem aqui em poucas horas — foi a vez de Sam argumentar. — O bunker é enorme, com certeza eu e Dean podemos nos acomodar em qualquer canto, enquanto vocês duas ficam com os... — Ele pigarreou, um tanto constrangido, e completou a sugestão: — Nossos quartos que... costumavam ser de vocês também.
Sentindo-se meio idiota, Sam desviou do olhar de Claire por um momento, até que ela replicou com certa cautela:
— Obrigada, mas eu não acho que seja uma boa ideia.
— Vocês podem ficar nos seus antigos quartos então — propôs Dean. — Estão um pouco empoeirados porque faz tempo que o Sammy não faz uma boa faxina por lá, mas eles estão no mesmo lugar — brincou, provocando o irmão para disfarçar o clima estranho no ar. Em seguida, ele voltou-se para Natalie e deixou escapar: — Ah! No seu caso, só tem o colchão porque nós quebramos a antiga cama, lembra?
Natalie sentiu o seu rosto ruborizar e um calor impróprio ao recordar não só aquela ocasião, mas também as várias camas que ela e Dean quebraram pelo caminho, até conseguirem uma de carvalho bem resistente.
Enquanto Claire continha um riso e Sam olhava para o chão, Dean atreveu-se a piscar para a ex e provocar:
— Bons tempos, hein?
O mais rápido que pôde, Natalie retomou o assunto inicial e tentou escapar daquela saia justa:
— Eu não trouxe roupas. Com certeza, a Claire também não. Portanto, é melhor nós irmos embora.
Depois que a loira lhe deu uma cotovelada, a filha de Bobby concordou meio atrapalhada:
— Sim, com certeza, eu preciso de banho e não tenho roupas aqui.
Sam e Dean se olharam rapidamente e, logo depois, o mais novo contra argumentou:
— Eu tenho certeza que ainda tem alguma coisa de vocês nos armários. — Olhando para Claire, também recordou o passado: — Na pior das hipóteses, você pode pegar uma camisa minha. Você gostava de dormir com elas, lembra?
A morena sentiu o seu coração acelerar subitamente, mas logo depois se manteve firme e replicou:
— Obrigada, mas deve ter alguma roupa minha no armário.
— Isso é um sim? — Sam quis confirmar, ao mesmo tempo em que tentava não transparecer a felicidade genuína que sentia diante da possibilidade de Claire dormir sob o mesmo teto que ele de novo, mesmo sendo em quartos separados.
Ainda olhando para ele, Claire indagou:
— Natalie? O que você acha?
Depois de analisar a situação, perceber o quanto estava cansada para dirigir e que realmente não valeria a pena, pois logo pela manhã, todos deveriam se reunir no bunker novamente, Natalie respirou fundo, vencida, cruzou os braços e assentiu:
— Tudo bem. — E semicerrando o olhar na direção do ex-marido, exigiu: — Mas nada de me espiar durante o banho ou quando eu estiver dormindo. Ouviu, Dean Winchester?
No mesmo instante, ele a encarou com desdém e rebateu:
— Só nos seus sonhos eu faria algo assim, Natalie Jones.
Depois de retribuir com um sorriso sonso, ela lhe deu as costas e marchou rumo à escada. Então Claire se despediu de Sam e Dean com um tímido boa noite e logo seguiu a amiga.
Bobby, por sua vez, observou o desfecho da cena, meio escondido atrás de um livro. Estava satisfeito pelas garotas terem ficado e, principalmente, pelos rapazes terem tomado algum tipo de iniciativa quanto a elas. Talvez aquela missão maluca envolvendo os Príncipes das Trevas trouxesse algo bom afinal.
Enquanto Bobby voltava a atenção ao livro, Sam e Dean se aproximaram do sofá onde Mia dormia. Havia arquivos dos Homens das Letras por toda a parte e um deles repousava sobre o peito da caçadora e embaixo de sua mão. Ela havia pegado no sono em algum momento da leitura.
Depois de trocar um olhar cúmplice com o irmão, Dean esbarrou no joelho da garota, recebendo um gemido de reclamação em troca, e a chamou:
— Ei, Mia. Chega por hoje. Hora de ir para a toca, Coelha.
— Me deixa. — Ela virou para o outro lado, derrubando alguns papeis no chão e respirou profundamente.
Então Sam fez uma tentativa:
— Okay, claramente você está com sono e não quer ser incomodada, mas se continuar aí, vai dormir muito mal e acordar cheia de dores.
— Eu não ligo — resmungou com a voz mole. — E não estou com sono de verdade, Samuel. Eu só quero... Ficar aqui. Me deixa ficar aqui. Está tão bom... Aqui.
Segundos se passaram e os irmãos perceberam que Mia estava quase dormindo de novo. Então o mais novo decidiu insistir, falando mais alto do que antes, a fim de despertá-la de qualquer jeito:
— Ah, claro! Dá para perceber que você não está com um pingo de sono, Mia, me desculpe. — Assim que ela suspirou irritada, Sam abandonou o tom irônico e emendou: — Café nunca te impediu de dormir como uma pedra. O que é um grande mistério, por sinal.
Logo depois, Dean também se manifestou em alto e bom tom:
— Quer saber? Você devia ser estudada pela ciência. É incrível que tanta cafeína não te impeça de babar no meu sofá como agora. Eca!
Prontamente, Mia abriu os olhos assustada e checou se estava mesmo babando no estofado antigo. Ficou aliviada ao perceber que não, porém irritada com a brincadeira sem graça e, principalmente, por ter despertado de vez com isso.
— Vocês não vão me deixar em paz, vão? — questionou mal humorada, olhando para os dois por sobre o ombro.
— Não até você ir para o seu quarto — foi Sam quem respondeu, a encarando com um leve sorriso.
— Boa noite, Mia — desejou Dean, numa tentativa de encerrar o assunto.
A contragosto, ela se sentou, passou as mãos pelo rosto para espantar um pouco do sono e, por fim, levantou.
— Boa noite, mocinhas — debochou, seguindo meio trôpega rumo ao quarto.
O Winchester mais velho revirou os olhos e torceu:
— Tomara que o Cas volte logo e dê um jeito nesse mau humor. Ela está mais azeda do que a Natalie.
Sam riu levemente e, junto com Dean, ouviu Mia retrucar do topo da escada:
— Eu estou com sono, não surda, babaca.
Minutos depois
Sam caminhava pelo corredor em direção ao seu quarto, mas diminuiu o ritmo ao perceber que a porta estava aberta e a luz acesa. Em silêncio, ele se aproximou e parou na soleira. Então viu que Claire estava lá.
Em pé diante do guarda-roupa aberto, ela parecia ter esquecido qual era a sua parte no móvel. Ou talvez tivesse aberto o lado de Sam propositalmente.
O caçador teve certeza disso quando notou que Claire já tinha pegado uma camisola do seu lado no guarda-roupa e a segurava junto ao corpo. Mas então, o que ela estava procurando no lado dele?
Alheia à presença de Sam e guiada pelos sentimentos que ainda nutria por ele, Claire passou os dedos por algumas camisas arrumadas nos cabides.
Deixando-se levar pela saudade, ela se aproximou mais um pouco, puxou uma das peças para si, fechou os olhos e levou o tecido ao rosto, sentindo o cheiro de Sam impregnado nela. Era um cheiro inebriante que permanecia mesmo com a roupa lavada.
Sem conseguir mais se conter, o caçador sorriu diante da cena e rompeu o silêncio:
— A proposta ainda está de pé. Escolha uma.
Assustada e constrangida, Claire soltou a camisa e olhou para a entrada do quarto com o rosto ruborizado. Antes que ela tentasse se explicar, Sam decidiu ir um pouco mais longe. Indicando a camisa xadrez que vestia, ele sugeriu com o olhar fixo no dela:
— Se preferir, eu posso te emprestar esta. É sua em um minuto.
Surpresa com a audácia, Claire franziu o cenho e questionou:
— Você está flertando comigo?
— Você estava cheirando as minhas camisas, não dá para me julgar por tentar. — O Winchester apoiou-se no batente e cruzou os braços, sem deixar de olhá-la.
Claire sorriu inevitavelmente, mas fez um esforço para se recompor em seguida. Então, ela fechou a porta do guarda-roupa, caminhou até o meio do quarto e, sem dar muita importância para aquele flagrante, achou melhor explicar:
— Olha, eu não quero mais discutir ou brigar com você. E até aceito que o destino ou um arcanjo maluco, tanto faz, tenha nos unido de novo para enfrentar esses malditos anjos caídos, mas... — Ela hesitou um pouco, antes de concluir o raciocínio: — Nada mudou. Eu ainda estou tentando te esquecer, Sam.
Apesar do balde de água fria, ele não se intimidou. O flagrante de momentos atrás lhe deu certa segurança para retrucar firme:
— Algo me diz que você não está conseguindo. O que é bom, porque eu não estou tentando esquecer você.
Claire engoliu em seco e ignorou as batidas nervosas do seu coração. Sam ainda mexia com ela, ainda era importante para ela, os sentimentos ainda estavam ali. Talvez, aquilo nunca fosse mudar mesmo.
Sem saber mais o que dizer e querendo fugir daquele embate, ela caminhou até a saída, dizendo:
— Você deveria.
— Boa conversa. — Sam riu irritado, a seguindo com o olhar quando ela passou pela porta.
A caçadora ainda deu alguns passos pelo corredor, mas parou em seguida, girou nos calcanhares e sugeriu meio nervosa:
— Nós não podemos recomeçar de outro jeito? Sei lá, sermos... Amigos?
Desta vez, as palavras de Claire realmente mexeram Sam, de um jeito negativo, fazendo-o encará-la e redarguir no mesmo instante:
— Não. E você sabe disso. Aliás, é engraçado você me dizer isso hoje. Parece uma piada de mau gosto, se olharmos para o passado.
Claire entendia o que Sam queria dizer e se arrependeu imediatamente do que havia dito. Sabia que tinha sido uma idiota por propor algo assim e que tinha o magoado.
Quando se reencontraram anos depois de Stanford e se aproximaram de verdade, os dois ficaram amigos e tentaram ser apenas isso por algum tempo. Mais por teimosia de Sam do que por vontade dela.
O caçador relutou em se permitir viver algo maior, pois achava que não merecia isso e que iria colocar a vida de Claire em constante perigo. Com o tempo, ela se impôs, deixou claro que aceitava o risco, o conquistou de vez. Sam se permitiu merecer algo maior.
Por isso, ela não podia simplesmente jogar a história de apenas bons amigos no ar e achar que tudo ficaria bem assim. Era como pisar nos sentimentos dele, subestimá-lo.
— Desculpe — a caçadora disse por fim.
— Boa noite, Claire. — Ele começou a fechar a porta, ainda irritado.
Aproximando-se rapidamente, a morena segurou a porta e pediu:
— Espera!
O Winchester expirou com força, mas por fim tornou a fitá-la nos olhos e aguardou enquanto Claire parecia tomar uma decisão. Naquele momento, ela percebeu que talvez Sam estivesse certo, talvez ela fosse mesmo incapaz de esquecê-lo.
Então, enchendo-se de coragem, ela apontou para a roupa dele e o surpreendeu ao dizer:
— A camisa... Eu aceito.
Sam riu meio incrédulo, até perceber que Claire estava falando sério. Sua vontade era de beijá-la e levá-la para dentro do quarto imediatamente, mas precisava ter certeza que era o que ela queria também.
Sendo assim, ele flertou mais uma vez:
— Você sabe que eu não pretendia te deixar ficar com ela em apenas um minuto, certo?
Sentindo o seu rosto quente ao captar o tom sugestivo, Claire respondeu:
— Sim, mas... Um passo por vez. Vamos com calma.
Embora não fosse exatamente o que queria ouvir, Sam entendia que aquilo era um progresso. Claire não parecia mais tão magoada com ele, talvez eles pudessem recomeçar algum dia. Talvez o recomeço fosse aquele momento.
Pensando assim e rompendo o contato visual por alguns instantes, desabotoou a camisa, a retirou em seguida e estendeu a peça na direção da caçadora. Quando ela a segurou, suas mãos se tocaram brevemente e seus olhares voltaram a se encontrar.
Sam ainda vestia uma camiseta branca por baixo. Estreitou o olhar ao notar certa ansiedade no semblante de Claire. Mais do que isso, Sam percebeu que ela estava desapontada, com certeza esperava que ele não estivesse usando a segunda peça.
Por um momento, pensou em perguntar se Claire queria a camiseta também, mas por ora, achou melhor não apressar as coisas. Foi como ela disse, um passo por vez.
Por isso, Sam optou por encerrar conversa, desejando sinceramente:
— Durma bem, Claire.
Ela assentiu e, antes de se afastar, retribuiu:
— Você também, Sam.
***
Enquanto isso, Natalie estava no quarto que costumava dividir com Dean. Indignada, ela mexia em uma gaveta do guarda-roupa e reconhecia várias peças que lhe pertenciam, ao mesmo tempo em que o caçador vinha pelo corredor e aproximava-se da porta.
— Tarado! — xingou a loira, sem ver que ele estava por perto. — Ficou com as minhas calcinhas! Olha só, quantas! E meus shorts... Até a minha camisa do Batman! Mas é muito filho da pu...
— Ei! — Dean a interrompeu, adentrando o quarto naquele exato instante. — Olha a boca — repreendeu.
Voltando-se imediatamente na direção dele, Natalie indicou as roupas dentro da gaveta e indagou:
— Você quer me explicar o que significa isso?
— Claro — assentiu, tranquilamente. E ocultando o fato de que não tinha colocado aquelas peças na última mala que Bobby levou para o ferro velho, onde a loira estava vivendo desde que deixou o bunker, Dean despejou: — O Bobby não é seu empregado e por isso não tinha obrigação nenhuma de levar o restante das suas coisas. Você mesma poderia ter vindo aqui e pegado, mas obviamente estava com medo de me ver, entrar nesse quarto, recordar o passado, talvez ter uma recaída...
Aos risos, Natalie rebateu:
— Desculpe, o que você disse?
— Você ouviu — reafirmou o Winchester, a encarando com firmeza.
Por mais que no fundo soubesse que o que ele dizia era a mais pura verdade, Natalie permaneceu na defensiva e contrapôs:
— Sim, eu ouvi, você tem uma imaginação muito fértil.
Convencido de que tinha acertado na mosca — que Natalie tinha mesmo evitado voltar ao bunker, pois seus sentimentos não tinham mudado e ela tinha receio de não resistir —, Dean cruzou os braços e desafiou cheio de si:
— Será?
Sentindo-se confrontada, ela engoliu em seco e insistiu:
— Sim. Com certeza anda tendo alucinações... Sonhos talvez? — Ao perceber certa oscilação no olhar de Dean, Natalie o encarou por um longo instante e indagou mais confiante: — Você sonha comigo, não é?
Movido por um instinto de defesa e incapaz de admitir que a loira estava certa quanto àquilo, o caçador mentiu do jeito mais convincente que conseguiu:
— Sinto em desapontá-la, mas você é maluca. — Antes que ela retrucasse, ele tentou inverter o jogo, dando um passo à frente e insinuando: — Mas eu aposto que você sim tem sonhado comigo, certo?
Natalie riu sem humor, ignorou todas as noites que teve sonhos impróprios com Dean — e não tinham sido poucas vezes —, também deu um passo à frente, diminuindo consideravelmente a já mínima distância entre eles, e desconversou:
— Não, graças a Deus, eu não tenho pesadelos há um bom tempo.
Estreitando o olhar na direção dela, o caçador provocou com uma incredulidade tangível:
— Pesadelos, hein? Sei.
Natalie respirou fundo e o fuzilou com o olhar, mas não foi capaz de negar o óbvio. Naquele momento, eles souberam que ambos tinham sonhado com o outro. Só não conseguiam admitir para si mesmos, muito menos em voz alta, que dirá refletir sobre o que esses sonhos significavam.
Encerrando o embate por ora, Dean tornou a se pronunciar:
— Então... Tem mais alguma coisa que você queira pegar nesse quarto, Natalie?
— Oi? Como assim... Pegar? — atrapalhou-se, já que por um momento pensou que Dean estava se referindo a ele próprio.
Franzindo o cenho, ele esclareceu:
— Suas coisas, você pegou tudo?
Sentindo-se uma idiota, mas aliviada por Dean não ter percebido que ela havia pensado outra coisa, Natalie apanhou todas as roupas da gaveta, improvisou uma trouxa e confirmou:
— Sim. Isso é tudo.
— Então, boa noite. — O caçador lhe lançou um sorriso sonso. E indicando a porta, desejou sugestivamente: — E bons pesadelos.
Irritada, a loira marchou em direção à saída, esbarrou no braço dele propositalmente e resmungou entredentes:
— O mesmo pra você.
Dean a seguiu com o olhar, aproveitando para dar uma boa secada na caçadora. Assim que ficou sozinho, sorriu e relaxou o corpo. Não podia negar que sentia falta das suas brigas com Natalie. De uma forma insana, aquilo era excitante.
De repente, ele cogitou espiá-la tomando banho e distraiu-se com pensamentos impróprios sobre isso. Entretanto, repreendendo a si mesmo, fez um esforço e afastou a ideia para um lugar remoto de sua mente.
Dean só não sabia se ia conseguir resistir ao ímpeto de dar uma inocente conferida em Natalie, quando ela já estivesse dormindo.
E também não sabia se ele mesmo ia conseguir pegar no sono aquela noite. A caçadora estava tão perto, tão ao seu alcance. E ainda assim... Tão longe.
Talvez o melhor que ele fizesse fosse esquecê-la de uma vez. No entanto, uma parte de si se recusava a fazer isso. Simplesmente não conseguia. Essa mesma parte queria acreditar em um possível recomeço entre eles.
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