Notas iniciais
Oi! Chegando com mais um capítulo! E como o título diz, teremos muitas memórias por aqui. Algumas vocês podem reconhecer da fic Destino. Apertem os cintos e simbora!

Sem saber o que fazer diante da situação — não que tivesse opções —, Mia observava Castiel sentado a sua frente na cama. O anjo a fitava com uma expressão intrigada, mas que de certa forma lhe parecia artificial e distante. Lembrando-se de que aquela experiência não passava de uma memória e também do incidente trágico que antecedeu tal momento, a caçadora desviou o olhar, engoliu em seco e comentou pesarosa:

— Eu mal posso olhar para você sem me lembrar do que a Legião fez... Estão todos mortos. — Analisando-o por mais um instante, completou: — Inclusive você. E eu. O que, no meu caso, não é bem uma novidade, convenhamos. — Mia riu sem humor e apertou as mãos em seu colo.

— Eu não entendo. — O anjo estreitou o olhar. — Do que você está falando?

Naquele momento, ela teve certeza de que a experiência que estava vivendo não era mesmo real. Era apenas uma boa lembrança, o dia em que Castiel surgiu em sua vida, nada mais. Nada mesmo.

Ignorando certo ardor em seus olhos e um nó crescente em sua garganta, Mia fez um esforço e respondeu:

— Você não é capaz de entender, acredite. Você... nem ao menos é real. Está mais para um robô, fantoche do além, espectro, fantasma, sei lá. Sem ofensa.

Como ela previa, o anjo pareceu não compreender suas palavras. Não era o papel dele debater algo que fugia do passado ali retratado. Castiel não podia interagir com Mia fora do enredo. Não podia entendê-la nem se indignar com o ocorrido na estrada, porque simplesmente não estava ali de verdade.

Profundamente aflita com aquilo — que podia até ser o paraíso, mas ao mesmo tempo era muito cruel —, a caçadora levantou num pulo e anunciou:

— Quer saber? Eu não quero mais viver essa memória, é demais pra mim. — Então ela fitou o anjo uma última vez, depois fechou os olhos com força e pediu com a voz embargada: — Por favor, saia da minha mente.

***

Algo líquido e gelado atingiu Mia, fazendo-a abrir os olhos com um sobressalto e passar as mãos pelo rosto molhado. Ela arfou algumas vezes, enquanto observava o cenário a sua volta. Já não estava mais em seu antigo quarto na república de estudantes com Castiel, mas sim em pé dentro de uma cova aberta.

— Água benta. — A voz de Sam ecoou em seus ouvidos.

Desnorteada, Mia olhou para cima e o viu na beirada da cova, com um cantil em mãos. Dean estava ao seu lado. Ambos com as expressões fechadas e visivelmente desconfiados. Os irmãos empunhavam armas na direção de Mia, além de a incomodarem com as luzes irritantes de duas lanternas continuamente em seu rosto.

A garota demorou alguns instantes para compreender o que estava acontecendo, mas logo se lembrou daquela madrugada, quando resolveu seguir os dois estranhos que chegaram na cidade para investigar a morte misteriosa do seu professor.

Naquela época, Sam e Dean se passaram por agentes do FBI, mas Mia ficou intrigada demais quando descobriu que a placa do Impala, que dirigiam, era exatamente igual à que ela havia sonhado, poucas horas antes. Não acreditava em coincidências e, por isso, foi até a espelunca onde estavam hospedados e depois àquele cemitério.

Na ocasião, ficou apavorada quando eles queimaram os restos mortais de uma aluna. Depois assustou-se quando o fantasma dela apareceu. Por fim, quando o espectro reduziu-se em chamas e cinzas bem diante dos seus olhos curiosos e apreensivos, Mia caiu para trás, dentro daquela cova.

— Como isso pode ser uma boa lembrança? — questionou-se indignada, enquanto os caçadores a encaravam. — Oh, certo... Não foi perfeito, mas foi assim que nos conhecemos, hum? — concluiu, depois de pensar melhor a respeito.

Como um eco do passado, Sam repetiu as palavras que disse para Mia há alguns anos:

— Parabéns, você não é um demônio.

Na sequência, Dean também desempenhou o seu papel, dizendo ao irmão:

— Okay, mas nós não podemos confiar nela. Ela estava nos seguindo sabe-se lá por quê.

Mia esboçou um leve sorriso. Não podia negar que era bom rever aqueles rostos. Contudo, ao se lembrar da van explodindo na estrada, matando as melhores pessoas que já havia conhecido, tal sorriso desapareceu e ela tornou a sentir um nó na garganta.

— Tem algum objeto cortante feito de prata com você? — Sam dirigiu-se a ela mais uma vez.

Isso não só chamou a atenção de Mia, como também a fez relaxar um pouco. A ponto de rir com incredulidade e esclarecer:

— Ah, não... Sinto muito, meninos, mas desta vez eu não vou me cortar. Fora de cogitação. Aquilo não foi divertido. E não, eu não sou um metamorfo, acreditem.

Antes que os caçadores insistissem, Mia voltou a fechar os olhos e desejou sair dali, mudando de memória novamente. E foi o que aconteceu.

***

Uma música invadiu sua mente aos poucos e logo ela reconheceu a melodia. Era Eternal Flame e isso só podia significar uma coisa.

Sem se importar que não era real, Mia permitiu-se esquecer como foi parar ali e abriu os olhos ansiosa. Como imaginava, estava diante de Castiel. Desta vez, em frente a um bar onde tinha ido com ele, Garth e os Winchester, poucos dias depois de conhecê-los. Sentiu o seu coração dar um salto enquanto observava o anjo e recordava aquela saudosa e importante noite.

— Eu não sei como dizer isso... — atrapalhou-se o anjo, apertando as mãos contra a mureta que cercava aquela parte do bar.

Sem conseguir conter um leve suspiro, Mia pensou alto:

— Dessa memória eu gosto. Gosto muito. — Mas ao perceber que estava atrasando o desenvolvimento da situação, concentrou-se e indagou: — Oops... Dizer o quê?

Ansioso e tímido, Castiel tentou articular:

— Eu... eu...

— Diga — Mia o incentivou, aproximando-se sorrateiramente, cada vez mais interessada em reviver aquele momento especial.

Castiel a fitou de um jeito mais firme, porém, mais uma vez, confundiu-se com as palavras:

— Eu não sei como isso aconteceu, mas... acho que eu... meio que...

Mia revirou os olhos, perdendo a paciência, e resolveu intervir no curso da memória:

— Deus do céu! Como eu consegui esperar você finalmente parar de gaguejar e dizer de uma vez?

Castiel franziu o cenho e inclinou a cabeça, fazendo a caçadora perceber que tinha sido muito rude. Então ela deu um tapinha no ar, mais um passo em sua direção e articulou:

— Resumindo, você disse que me ama e eu respondi que também te amo. Agora vamos ao que interessa porque, apesar de morta, eu não tenho tempo a perder. O beijo!

Sem pensar duas vezes, Mia jogou seus braços em volta de Castiel, envolvendo o seu pescoço e terminando com a já curta distância entre eles. Com o coração disparado, fechou os olhos e encaixou seus lábios nos dele com ímpeto e sentimento. Aos poucos, mergulhou em sua boca e permitiu-se sentir aquela emoção de novo.

Entretanto, a garota não conseguiu se desligar da realidade por completo. Logo um filme estava passando em sua mente. E os bons momentos com Castiel não foram capazes de apagar a dolorosa e chocante visão do seu receptáculo explodindo naquela estrada, bem diante dela.

Sentindo o desespero ressurgir dentro de si, Mia rompeu o contato de seus lábios e afastou-se abruptamente.

— Eu não posso... — Levou as mãos à cabeça e olhou para Castiel, angustiada. — Eu não consigo... aceitar. Eu não consigo me contentar com essa ideia de paraíso, quando você não está aqui de verdade.

— Mas eu estou aqui — Castiel assegurou, dando um passo a frente, contudo soou muito mecânico.

— Não. — Mia recuou e expirou com pesar. — Não está.

Foi então que uma voz muito conhecida, e que ela achou que nunca mais teria o desprazer de ouvir, adentrou aquela memória:

— Impressionante. Isso sim é o que eu chamo de dèjá vu.

Em pânico ao reconhecer de quem se tratava, a caçadora olhou para a frente do bar, onde alguns carros encontravam-se estacionados. E bem ali, a uma curta distância de onde ela e o artificial Castiel estavam, Crowley a observava com atenção.

Mia lembrou-se que o Rei do Inferno interrompeu mesmo o seu primeiro beijo com o anjo, porém não entendia por que estava revivendo aquilo. Perplexa e confusa, ouviu-se dizendo:

— Sem chance disso ser uma boa memória. Sem chance.

Após um longo e estranho momento de silêncio, Crowley colocou as mãos nos bolsos do alinhado terno que vestia e recomeçou:

— Sinto em lhe dizer, Sweetie, mas eu não sou...

Antes que o demônio prosseguisse, Mia o fitou com desprezo, tampou os ouvidos, fechou bem os olhos e recusou-se a continuar ali:

— Eu não quero te ouvir! Saia da minha mente! Saia daqui!

***

Quando abriu os olhos novamente, Mia percebeu que estava debruçada sobre uma mesa. Mais especificamente sobre um caderno, que mostrava algumas atividades a serem respondidas e desenhos a colorir. Arregalou os olhos quando viu que uma das ilustrações mostrava dois coelhos em um tipo de jardim. Ao endireitar-se na cadeira, arfou surpresa pois reconheceu sua antiga cozinha, da sua casa em Wichita Falls, onde tinha passado sua infância até os dez anos.

O lugar estava exatamente como Mia se lembrava. As paredes em tom pastel, os armários na cor marfim e os eletrodomésticos predominantemente brancos. O assoalho escuro combinava com a madeira da janela na parede da pia. No lado oposto, pequenos quadros com pinturas alegres de jarros de flores podiam ser observados. E atrás do balcão, que dividia a cozinha em dois ambientes, Mia reconheceu uma figura familiar.

Sem reação, limitou-se a observar Monica Clarke servindo café e leite em uma xícara, que Mia também reconheceu de sua infância. Contudo, só agora se dava conta de que a pequena peça de porcelana tinha um delicado anjo desenhado. Apesar de não se lembrar daquele detalhe, isso não tinha importância naquele momento, porque a única coisa que importava era que ela estava diante de sua...

— Mãe? — Sua voz soou mais baixa do que Mia previa.

— Já estou indo, apressadinha. — Monica, uma bela mulher no auge dos seus trinta e sete anos, sorriu de um jeito risonho, deu a volta no balcão, aproximou-se e posicionou a xícara na mesa, bem perto das trêmulas mãos da filha. — Eu sei o que você vai dizer, que eu coloquei mais leite do que café, mas, por Deus, Mia... Você só tem oito anos. Na sua idade, muita cafeína pode fazer mal. Portanto, se conforme e termine o seu dever.

Apesar do tom de repreenda, Monica finalizou o discurso com mais um de seus sorrisos. Antes de voltar para o balcão e começar a guardar algumas louças, lançou um olhar afetuoso para Mia.

Por um momento, a caçadora se perguntou como podia ter oito anos se a sua aparência era a de uma mulher adulta. Suas roupas haviam mudado, era verdade, Mia estava com um vestido lilás ridiculamente infantil para o seu gosto. Mas o seu corpo curvilíneo denunciava a idade com a qual tinha morrido.

Apesar de confusa, logo Mia deixou esse detalhe de lado. Então levantou-se, caminhou com passos resolutos até a mulher atrás do balcão e, sem raciocinar direito, a surpreendeu com um forte e apertado abraço, dizendo emocionada:

— Mãe! Eu senti tanto a sua falta. Eu... eu sinto muito.

— Essa é nova, Mia Clarke. — Monica parecia surpresa e desconfiada. Riu divertida, deu alguns tapinhas nas costas da filha e avisou: — Desista, eu não vou te dar mais café, mesmo com esse abraço maravilhoso.

Abraçando-a mais forte, Mia replicou com a voz embargada:

— Eu não quero café. Tudo o que eu quero está bem aqui.

— Jura? Tudo mesmo? — Outra voz familiar, porém masculina, ressoou pela cozinha. — Eu estou com ciúme, garotinha.

— Pai! — Mia gritou, tomada por uma onda de alegria e euforia.

Imediatamente, desvencilhou-se da mãe e correu na direção da porta que levava à sala. Pulou nos braços de Joseph Clarke, em pé na soleira, abraçando-o do mesmo jeito caloroso que fez com Monica.

O homem, de cabelos escuros e feições ternas, riu da reação da filha e deixou o jornal que segurava cair no chão. Ajeitou o óculos, desalinhado pelo rosto de Mia junto ao seu, e correspondeu ao seu gesto, enquanto ela desabafava:

— Pai! Eu não acredito! Ou melhor, eu acredito sim... E não me importo que isso não seja real, você está aqui, vocês estão aqui, é o suficiente... É mais do que eu mereço ou podia esperar, com certeza. Eu sinto tanto, tanto pelo o que houve... Foi minha culpa, eu sei, e não precisam me poupar dizendo o contrário. Mas por que vocês tinham que fazer aquele maldito pacto?! Não faria diferença pra mim não ter nascido, só para constar. Seria a solução para uma série de problemas, aliás. Vocês ainda estariam vivos, para começo de conversa...

— Do que essa menina está falando, Monica? — O pai parecia confuso.

A mãe cruzou os braços e supôs:

— Eu não tenho ideia, mas acho que ela está tentando me enrolar para não fazer o dever de casa. Ou talvez para pegar mais café. Quem sabe os dois?

Mia não tinha dúvida de que seus pais não eram reais. Eles não estavam ali de verdade pois, se estivessem, teriam demonstrado no mínimo preocupação por ela mencionar o pacto firmado entre eles e Crowley em uma encruzilhada. O pacto que trouxe ao mundo a filha que eles sempre quiseram ter.

Embora fosse apenas uma memória cheia de limitações e com possibilidade de intervenção quase nula, Mia não se importava. Era bom demais estar em casa de novo. Bom demais estar em família.

Ela ainda ponderava isso quando seu pseudo pai acariciou seu rosto e sussurrou como um segredo:

— Termine a lição e depois nós podemos conversar sobre estender a sua cota diária de café.

— Combinado! — Mia concordou por instinto, já que esse era um tipo de trato recorrente entre os dois quando ela era criança.

— Joseph! É por isso que essa menina é assim, você me desautoriza! — Monica ralhou, também como Mia se lembrava que ela costumava fazer.

Ela sempre teve a impressão de que sua mãe falava sério quanto à bronca. Porém agora, revivendo aquilo quase como uma expectadora, duvidava muito. O tom da repreenda era doce demais para ser verdade.

Tomada por um sentimento de nostalgia, Mia acompanhou os pais com o olhar, quando eles começaram a deixar a cozinha, rumando para a fictícia sala de estar.

— Ei! — A caçadora os chamou ao se lembrar de que tinha algo importante a dizer. Então respirou fundo e despejou: — Eu amo vocês. Pra sempre. Não importa o que aconteça, isso nunca vai mudar.

Joseph e Monica sorriram para ela.

— Nós também te amamos, querida — declararam em uníssono, rindo da coincidência em seguida.

E então eles se afastaram e desapareceram do alcance de Mia. Ela ainda assimilava a sensação reconfortante que aquela memória lhe causou, quando Crowley, sentado na mesa atrás dela, comentou com certo enfado:

— Tocante.

Prontamente, Mia virou-se e cravou um olhar furioso nele. Em seguida, fechou os olhos e desejou, com todas as suas forças, que o Rei do Inferno evaporasse dali, porém não adiantou. Irritada, ela fez um novo esforço, mas também foi em vão.

— Desista, Sweetie — Crowley aconselhou tranquilamente. — Como estava dizendo, eu não sou uma memória. Eu realmente estou aqui. Bem, não necessariamente aqui de verdade, está mais para uma projeção astral na sua mente, mas eu sou real.

Convencida de que realmente não fazia sentido o Rei do Inferno ser uma memória digna do seu pedaço de paraíso, Mia apoiou as mãos na mesa e indagou com repugnância:

— Como você se atreve? Você matou os meus pais! E agora aparece aqui?

Sem se importar com a indignação da garota, ele arqueou as sobrancelhas e se apresentou:

— Olá, eu sou Crowley, um demônio. Eu vendo pactos em troca de almas, faço maldades para aliviar o tédio e meu sobrenome é atrevimento. Muito prazer.

Com raiva, Mia respirou pesadamente e comprimiu os lábios. Mantendo-se firme, determinou:

— Você não vai me infernizar no Céu. Não vai.

— Eu não estou aqui para te infernizar, Mia — Crowley replicou prontamente, causando-lhe certa surpresa e incredulidade. — Ironia do destino ou não, a nossa ligação ainda existe e, talvez, seja a única coisa capaz de nos salvar nesse momento.

— Nos salvar? — ela repetiu com desgosto e confusão. — Do que diabos você está falando?

— Você ouviu, mas eu serei mais claro — o Rei do Inferno anunciou. Então indicou tudo em volta e confidenciou: — Alerta de spoiler: isso não é o Céu.

Mia riu com escárnio e retrucou de um jeito óbvio:

— Claro que não. Se fosse, você não estaria nele. — Incomodada com a situação, ordenou entredentes: — Agora saia da minha mente! Me deixe em paz!

Sem se intimidar, Crowley foi mais incisivo:

— Por mais que eu aprecie as nossas discussões, eu não tenho muito tempo. Então, eu sugiro que você se sente e me escute com atenção.

— Por que eu faria isso? Por que eu aceitaria qualquer sugestão vinda de você? — Mia questionou e então recordou: — Da última vez que nos vimos, você estava assistindo um bando de demônios me dar uma surra.

— Muito tarde para um pedido de desculpas, presumo? — o demônio disse em tom de deboche, mas a caçadora sentiu que havia certa verdade em suas palavras apesar de tudo. O que era bem estranho.

Na defensiva, Mia o desafiou:

— Me dê um bom motivo para confiar em você, Crowley. Me diga alguma coisa, uma mísera coisa, que me faça acreditar que você não está aqui para destruir o que sobrou de mim.

O Rei do Inferno ponderou a exigência por alguns instantes. Então, sem mais delongas, revelou:

— Você está viva.

Cética, Mia piscou algumas vezes e redarguiu seca:

— Vai para o inferno com o seu humor negro.

— Bem, eu iria. — Crowley fez uma breve pausa. — Se tivesse controle sobre minhas próprias ações neste momento, eu iria. — E visivelmente insatisfeito, emendou: — Este é o ponto, eu não tenho.

Sem saber o que pensar e sem levá-lo muito a sério, a garota reiterou:

— Eu ainda estou esperando pelo bom motivo.

Com isso, o demônio decidiu ir direto ao ponto:

— Eu vim propor um acordo, Mia.

— Eu dispenso.

Crowley não se intimidou com a rápida e afiada negativa. Ao invés disso, foi mais além:

— Aceite e você salvará não só o seu lindo pescocinho, como o daquele anjo que você tanto preza e, de quebra, a trupe de caçadores. Ignore, e será o fim de todos. Deles, do mundo e, não que você se importe, mas o meu também. Em pouco tempo, eles e você estarão realmente mortos.

Mia ficou em silêncio, avaliando tudo o que ouviu. Uma parte de si, ainda duvidada de que Crowley estivesse mesmo ali. Mas a sua consciência dizia que ele não só estava, como também falava bem sério. Incapaz de negar como suas últimas palavras haviam mexido com ela, inqueriu:

— Eles estão vivos? O Cas... ainda está vivo?

— Eu devia ter imaginado que mencioná-los seria o suficiente para ganhar a sua atenção. Tão óbvio... — ponderou o Rei do Inferno, deixando a confirmação subentendida no ar.

Embora Mia quisesse realmente acreditar nele, era doloroso demais pensar que provavelmente Crowley só estivesse brincando com ela. Debochando e tripudiando em cima do seu sofrimento. Apenas isso.

Pensando assim, ela relutou em abaixar a guarda:

— Eu não acredito em você. Aposto que isso não passa de mais um dos seus truques.

O demônio pensou um pouco. Até entendia a desconfiança da garota, dado o fato de que ele era quem era, e dado o histórico conturbado entre os dois, porém não tinha muito tempo para discutir a relação. Precisava de algo que realmente convencesse Mia de que ela, Castiel, Sam, Dean e os outros estavam bem vivos.

Logo percebeu que a única forma de provar isso e fazê-la ouvir o acordo era mostrando que aquele ambiente onde estavam não era o Céu de verdade. Apenas dizer não havia sido o suficiente, ele precisava de provas. Se Mia acreditasse nelas, talvez acreditasse em todo o resto. Talvez pelo menos o ouvisse.

Então Crowley pegou a xícara sobre a mesa e questionou:

— Diga-me uma coisa, Sweetie, ela tinha mesmo este desenho?

Mia observou o anjo retratado ali e focou em seus olhos azuis por algum tempo. Eram tão familiares, quase como uma mensagem subliminar. Puxou em sua memória como era aquela peça quando ela era criança e, embora odiasse admitir, sabia que a pergunta do seu inimigo era pertinente. E, de fato, tinha certeza que a xícara não mostrava aquela ilustração.

Percebendo que tinha chamado a atenção da caçadora, Crowley indicou algo atrás do balcão e emendou:

— E aqueles são os ímãs que você se lembra de ver na porta da geladeira?

Imediatamente, Mia seguiu o olhar dele e observou os enfeites na porta do eletrodoméstico. Surpresa, viu que eles mostravam Chaves de Salomão, sigilos enoquianos, o símbolo contra possessão demoníaca tatuado em suas costas e até um pequeno, mas inconfundível, Impala 67.

— Você acha mesmo que isso é um truque? — Crowley tornou a chamar sua atenção. — Que eu perderia o meu precioso tempo, vindo até você após sua, vejamos, milésima morte, apenas para te infernizar?

Embora entendesse que sua mente queria lhe dizer algo ao reproduzir aqueles detalhes, e que era isso que Crowley insinuava no momento, Mia se ouviu retrucando:

— Você mesmo disse que é um demônio e que faz esse tipo de coisa para aliviar o tédio. Além disso, da última vez que nos vimos, você foi bem claro ao dizer que sempre estaria a minha espreita.

Foi a vez de Crowley ficar pensativo por alguns instantes. Detestava o que estava prestes a propor, mas não conseguia encontrar outra maneira de se libertar de uma certa situação. Infelizmente, precisava de Mia. Era a única pessoa com a qual ainda conseguia se comunicar. Sua última chance. Sua última carta na manga.

— E se eu disser que estou disposto a... — O demônio relutou uma última vez, mas por fim engoliu o orgulho e prosseguiu: — Relevar minhas ameaças, caso você seja inteligente o bastante para aceitar minha oferta?

Apesar de curiosa, Mia deixou-se levar pela desconfiança e pelo passado mais uma vez:

— Eu diria que não estou interessada, valeu.

— Não mesmo? — o Rei do Inferno duvidou, fazendo o olhar da caçadora oscilar. — Você entendeu o que está em jogo, Mia? Tudo o que você conhece como mundo está prestes a ruir. Você prefere continuar aqui, fingindo-se de morta, quando pode mudar o desfecho dessa história? Quando ainda tem tempo para isso?

Aquilo tudo era muito estranho, Mia sabia. Crowley lhe propondo uma trégua? Dizendo que os Winchester estavam vivos? Que Castiel estava? Ela também? Bobby, Claire e Natalie? Mas e o que ela havia visto na estrada?

— Eu sei o que vi — sibilou, lembrando-se do incidente que, claramente, matou todos eles.

Sem pestanejar, Crowley orientou:

— Esqueça o que você viu. Não foi real.

Sentindo o seu coração se encher de esperança, mas ainda assim tomada pelas cinzas do luto recente e chocante, Mia inqueriu:

— Como assim não foi real?

O Rei do Inferno pensou na melhor forma de dizer aquilo. Precisava ser de uma maneira que não se expusesse tanto, todavia era impossível. Então, a contragosto, engoliu o orgulho mais uma vez e revelou baixinho:

— Eu fui... possuído.

— Você o quê? — Mia não conseguiu conter uma leve gargalhada, apesar da tensão que pairava no ar.

Visivelmente irritado, Crowley resmungou, elevando a voz:

— Sim, eu fui possuído. Quem nunca?

Ainda meio incrédula, a caçadora quis saber:

— Possuído por quem?

Após um breve momento em silêncio e, no fundo, sem acreditar que Mia ainda não tinha matado a charada, o demônio respondeu:

— Pela Legião.

Diante da expressão indecifrável de Mia, ele frisou:

— Sim, os mesmos anjos malditos que "mataram" todos vocês naquela estrada. — Após um breve momento em silêncio, Crowley despejou de um jeito mais enfático: — Esqueça aquela garotinha, Mia. Você viu o que a Legião queria que você visse, uma criança indefesa no meio de uma estrada deserta, precisando de ajuda. Quem resistiria? Mas na verdade, era apenas eu possuído pelos anjos de Lúcifer. Eu estava lá e sei que aquilo não foi real. Você está viva. Todos que você pensa que estão mortos, estão vivos. E cada um de vocês enxergou aquele momento de uma forma. O que importa é que de todas as formas, foi uma mentira, uma manipulação. Eu fui claro?

Mia lutava contra a ideia de se aliar a Crowley no acordo que fosse, porém, diante de tudo o que ouviu, não podia mais ficar indiferente, não podia negar que o exposto fazia sentido, que ela queria que fizesse todo o sentido. Por isso, e apenas por isso, resolveu lhe dar um voto de confiança.

Então se viu puxando a cadeira de frente para ele, na qual sentou-se em seguida. E sem mais hesitar, abaixou a guarda de vez e agarrou-se a ideia de que poderia salvar seus amigos, o seu anjo e acabar com a Legião. De que não custava tentar, ao menos. De que valia a pena tentar.

— Eu estou ouvindo — assentiu por fim.

Notas finais
Eita! Crowley is back? Sim, Crowley is back... Apesar de ter dito que a história dele com a Mia tinha acabado há alguns capítulos com um final em aberto e uma ameaça constante feat. eterna, não fiquei muito satisfeita com isso. Então quando eu avaliei a estrada até aqui e analisei melhor o planejamento da fic, tive uma ideia que curti mais, algo que trouxesse o King para a roda de novo, algo que o envolvesse e o colocasse no centro de tudo. Não como um antagonista, mas sim como o velho e conhecido Crowley. Um demônio propondo um acordo, alguém precisando vencer um inimigo em comum. Resta saber os detalhes do acordo que ele tem a propor, certo? E se a Mia vai aceitar... Por falar em Mia, gostaram da revelação de que ela está vivinha da Silva? E que todos que, aparentemente, morreram no capítulo passado, também estão? Que tudo foi uma manipulação da Legião para enfraquecer o grupo e tirar o povo do jogo? Pois é, pois é, pois é. Eu falei para vocês aguardarem e confiarem. Acredito que alguns de vocês pensaram que eu ia trazer todo mundo de volta à vida, mas isso nem é necessário porque, na verdade, nem um deles morreu de fato. Não foi real, chupa essa manga! Enganei vocês, rá! Apesar de aliviada por ter esclarecido isso, acho que temos outras perguntas agora, certo? Tipo, se todos estão vivos, então onde eles estão? Como a Mia foi parar no "Céu"? Os outros também pensam que estão mortos e também estão revivendo memórias no que acreditam ser o Céu? O que Crowley quis dizer com não ter muito tempo? Por que e como a Legião o possuiu? O que vai acontecer agora? Essas e outras respostas, no próximo capítulo... Só para constar, gostei muito de escrever essa memória da Mia com os pais. Quase nunca falo sobre o passado dela e isso é uma das minhas metas para esta temporada final. Existe um grande branco entre a morte de Monica e Joseph e o primeiro capítulo de Destino. Como foi a vida da Mia durante esse grande intervalo? Para onde ela foi depois que os Cães do Inferno mataram seus pais? Como e por quem ela foi criada? Como foi parar na faculdade? Como vivia antes de um certo anjo e dois caçadores surgirem em seu caminho? Respostas em um futuro próximo... Beijos e inté mais! PS: Completei mais uma primavera dia 20 e quero reviews de presente...