Entre Cinzas & Esperança
16 Tempos desesperados exigem medidas desesperadas
Notas iniciais
Em seu quarto no bunker, Mia encontrava-se sentada na cama, com as costas apoiadas na cabeceira e um travesseiro no colo, enquanto Natalie estava esparramada na poltrona ao lado e Claire recostada na cômoda perto da porta.
Depois de chamar as duas ali para conversar sobre a atual situação envolvendo Sam e Dean e uma possível reconciliação entre eles, Mia observou as amigas por algum tempo, esperando que se manifestassem sobre o assunto. Todavia, como nenhuma delas disse uma palavra sequer nos momentos seguintes, Mia inqueriu um pouco impaciente:
— E então?
— Então o quê? — rebateu Claire, trocando um rápido olhar com Natalie.
— Não se façam de desentendidas, garotas. Vocês entenderam muito bem — recriminou. — Até quando vocês e aqueles dois caçadores charmosos lá embaixo vão continuar fingindo que não querem se agarrar loucamente e fazer as pazes de uma vez?
Na defensiva, Natalie se ouviu protestando:
— Quem disse que eu quero agarrar o Sr. Awe... — Ao perceber o que diria, ela pigarreou, se mexeu um pouco inquieta e reformulou com uma falsa indiferença: — Digo, fazer as pazes com Dean Winchester?
Estreitando o olhar na direção dela, Mia insinuou:
— Não sei, um forte palpite talvez. — E voltando-se para a outra caçadora, indagou: — Claire? Algo a dizer? Que não seja mentira, por favor.
A filha de Bobby hesitou um pouco, mas por fim, achou melhor ser franca e cautelosa ao mesmo tempo:
— Mia, eu entendo que você tenha boas intenções e agradeço por isso. Sam é importante pra mim, eu não vou negar o óbvio, mas... Bem, eu diria que o pior já passou, mas que eu e ele precisamos de mais tempo. Pode ser que tudo acabe se resolvendo em algum momento, pode ser que não. De qualquer forma, eu não quero apressar as coisas, nem criar expectativas. Além disso, nós temos um assunto importante para nos preocupar agora.
Mia sabia que o tal assunto era a missão envolvendo a Legião de Lúcifer, mas assim como Natalie, não se ateve tanto a esse argumento. Sabia que a viagem ao futuro e o que tinham que fazer lá eram muito importantes, mas também sabia que Claire estava usando isso como desculpa para não pensar no outro assunto igualmente importante.
Além disso, algo no discurso de Claire intrigou Mia, fazendo-a semicerrar o olhar enquanto Natalie deduzia:
— Humm. Pelo visto, alguém andou conversando com o Sr. Cara de Cachorrinho Que Caiu do Caminhão de Mudança. Acertei?
Um pouco sem graça, Claire olhou de uma para a outra algumas vezes, antes de explicar:
— Nós conversamos... sim. Mas foi só isso. Uma conversa, uma trégua, algo assim. Desculpem por não ter comentado com vocês, mas quer saber? Se isso der em nada, eu teria contado à toa.
Fazendo um esforço para não pensar em certa palavra mencionada, Mia riu sem humor e refletiu:
— Tão pessimista quanto o Moose. Vocês foram mesmo feitos um para o outro.
Em seguida, Mia ficou em silêncio, se perguntando por que Sam não lhe contou que ele e Claire andaram conversando, abrindo os corações, essas coisas. De certo, o caçador não quis fazer alarde, pois a conhecia muito bem e sabia que ela veria nisso um forte incentivo para investir na missão cupido. Bem, agora Mia sabia e, portanto, pretendia fazer exatamente o que Sam temia.
Sem esquecer de Dean e Natalie, ela resolveu dar o próximo passo naquela empreitada. Então, fingindo certo conformismo e desânimo, respirou fundo e avisou:
— Bem, neste caso, eu vou dizer aos dois para não terem muita esperança.
Natalie e Claire se entreolharam imediatamente. Depois observaram Mia levantar da cama e caminhar na direção da porta. Foi a loira que resolveu adiar a sua iminente saída, levantando da poltrona e dizendo:
— Espere aí, como assim? Eles... eles pediram para você conversar com a gente?
Sem que elas vissem, Mia sorriu antes de soltar a maçaneta, girar nos calcanhares e retomar a atuação:
— Para sondar o terreno, na verdade. Vocês sabem como Sam e Dean Winchester, cada um do seu jeito, são orgulhosos e reservados, mas sim, eles me pediram para checar se ainda possuíam alguma chance com vocês.
Depois de avaliar o que ouviu, Claire franziu o cenho, cruzou os braços e contrapôs:
— Desculpe, mas é meio difícil acreditar que qualquer um deles pediria algo assim. Ainda mais para você. — Quando Mia a encarou um pouco ofendida, ela ergueu as mãos em sinal de rendição e emendou: — Sem ofensa.
— Tempos desesperados exigem medidas desesperadas — argumentou Mia, mantendo a expressão impassível, embora por dentro estivesse rindo.
Observando-a com certa desconfiança, Natalie questionou:
— Você está falando sério?
— É claro! — assegurou meio no susto. Porém, percebendo que precisava ser mais convincente, Mia expirou com força e resolveu mudar de estratégia: — Mas não se preocupem, não está mais aqui quem falou. — Ela segurou a maçaneta novamente e arrematou: — Ah! Para evitarmos certos constrangimentos, vamos fingir que essa conversa não aconteceu, tudo bem? Por favor, ajam naturalmente quando estiverem perto deles e não toquem nesse assunto.
A porta mal havia sido aberta, quando a voz de Natalie foi ouvida mais uma vez:
— Mia, espere...
Disfarçando outro sorriso, a garota voltou-se na direção da loira, arqueou as sobrancelhas tranquilamente e indagou:
— Pois não?
Após hesitar um pouco ao se perguntar se aquilo era uma boa ideia, Natalie concluiu o óbvio: no fundo, ela queria sim conversar com Dean, resolver as coisas de uma vez por todas entre eles, com certeza agarrá-lo se tivesse oportunidade para tal.
Entretanto, orgulhosa demais para admitir, sem querer demonstrar seus sentimentos e com receio de se decepcionar, caso depositasse muita esperança naquela chance, ela cruzou os braços contra o peito e, fingindo indiferença, assentiu:
— Se aquele idiota quiser conversar comigo, diga que eu estou... iinclinada a negociar. — Desconfortável com o silêncio embaraçoso que se instalou no quarto, Natalie apressou-se em mudar o foco, apontando para a filha de Bobby e afirmando: — A Claire também vai conversar com o Sam!
— O quê?! — surpreendeu-se a morena, olhando dela para Mia algumas vezes.
Claire também hesitou. Assim como Natalie, estava receosa. Contudo, ela e Sam já haviam dado um passo na noite anterior. Talvez fosse o momento para dar mais um. Talvez não trouxesse nenhum progresso, mas não custava nada tentar.
Pensando assim, ela soltou um longo suspiro e se deu por vencida:
— Tudo bem. — E olhando especificamente para Mia, ressalvou desconfiada: — Embora eu ainda não acredite muito nessa história.
Ignorando completamente a observação, Mia abriu um largo e vitorioso sorriso e, antes de deixar o quarto, limitou-se a dizer:
— Ótimo! Eu as manterei informadas, girls.
***
Depois de encontrar Sam e Dean na cozinha do bunker, pegar uma das garrafas de cerveja deles espalhadas sobre a mesa e sussurrar a mesma missa que havia rezado às caçadoras momentos atrás, Mia esperou que eles se manifestassem.
Convencida de que, mais uma vez, tinha feito uma excelente atuação, ela camuflou a ansiedade que sentia, até que o Winchester mais velho piscou algumas vezes e perguntou incrédulo:
— Desculpe, o que você disse?
— Isso mesmo que você ouviu. — Mia recostou-se no assento da cadeira e expôs com tranquilidade: — Contrariando o que vocês me pediram, eu fui falar com a Naty e a Claire. Mas antes que eu sequer tocasse nos nomes lindos de vocês, elas começaram a desabafar. Disseram como estavam felizes por mim e pelo Cas termos voltado e como queriam ter a mesma sorte com... dois caçadores aí.
Mia coçou a nuca e desviou o olhar, esperando que a breve demonstração de nervosismo não fosse interpretada como um claro sinal de que estava mentindo. Mas foi exatamente o que Sam e Dean pensaram naquele momento.
Intrigado, o mais velho batucou os dedos na pequena e antiga mesa da cozinha e argumentou:
— A Natalie não admitiria uma coisa dessas.
— Nem a Claire. Muito menos para você. — Sam riu incrédulo, mas quando a amiga o fitou ofendida, ele acrescentou: — Eu quis dizer, do jeito que você está relatando que aconteceu, okay? Sem ofensa.
Dando de ombros, Mia levou sua garrafa à boca. Porém, ao se dar conta de que já tinha bebido tudo, pegou a de Sam, que ainda estava na metade, tomou um generoso gole a fim de dissipar a ansiedade e prosseguiu com o teatro:
— Bem, o que eu posso dizer? Aparentemente, tempos desesperados exigem medidas desesperadas.
Isso não pareceu ser o suficiente para convencer os caçadores de que ela estava dizendo a verdade. Os dois trocaram um olhar significativo por um longo instante e, quando tornaram a encarar Mia, ela resolveu se fazer de vítima:
— Por acaso, vocês estão duvidando de mim? — como não obteve resposta, emendou divertida: — Olha, elas me pediram para sondar o terreno, não para pedir uns nudes. Se bem que... — Mia terminou a cerveja de Sam, sorriu ao ver que ele e o irmão tinham arregalado os olhos e achou melhor tranquilizá-los: — Brincadeirinha.
Dean engoliu em seco, pois a palavra mencionada por ela acabou lhe lembrando outra coisa. Outra pessoa. Brincar, no sentido libertino da coisa, com Natalie.
Bons tempos. Ele pensou com saudade.
Ao sentir um calor ligeiramente lascivo, Dean fez um esforço, afastou esse pensamento impróprio e entornou a cerveja, tomando um longo e refrescante gole.
Logo depois, semicerrou o olhar na direção de Mia e, visivelmente intrigado, analisou-a por algum tempo, levando Sam a fazer o mesmo.
Diante disso, ela decidiu ser mais incisiva. Então levantou-se da cadeira e seguiu rumo à porta, enquanto anunciava:
— Certo, só tem uma maneira de resolver esse impasse. Eu vou chamar as duas agora mesmo e vocês tiram essa dúvida cruel de uma vez.
— Mia! — Dean a chamou imediatamente, fazendo-a estancar no lugar de pronto.
— Pois não? — indagou, girando nos calcanhares e controlando a vontade de rir.
O Winchester mais velho pensou por alguns instantes. Então, após um conflito interno, resolveu dar um voto de confiança a Mia e uma chance a si mesmo. Mesmo porque estaria mentindo, caso dissesse que a ideia de acertar os ponteiros com Natalie não tinha passado por sua cabeça várias e várias vezes. Desde que eles romperam, na verdade.
— Okay — sibilou por fim.
Embora quisesse comemorar imediatamente, Mia achou melhor não demonstrar tanta euforia e pediu com uma falsa confusão:
— Defina okay.
Dean revirou os olhos, tomou mais um gole da cerveja, enquanto se levantava e se apoiava na pia. Só depois de pensar mais um pouco sobre aquilo, ele articulou:
— Se Natalie Insuportável Jones quer conversar comigo, diga que eu estou... aberto a negociações. E que o Sammy aceita conversar com a Claire também, é claro.
— O quê?! — protestou o mais novo, soltando um riso baixo.
— Qual é, Sammy? Eu sei que vocês já andaram considerando o assunto. Não se faça de santo — acusou Dean.
Então ele e Mia encararam Sam firmemente, levando-o a ficar sério aos poucos, incapaz de negar, e a avaliar a situação como um todo. E a verdade é que ele e Claire tinham mesmo conversado um pouco na noite anterior. As coisas continuavam mal resolvidas entre eles, porém quem sabe fosse um bom momento para fazer uma nova tentativa?
Ao perceber que não tinha nada a perder mesmo, Sam acabou se dando por vencido:
— Tudo bem. — E estreitando o olhar na direção de Mia, salientou: — Mas eu ainda não sei se acredito totalmente em você. Essa história está muito mal contada.
— Uau! — exclamou ofendida. — É isso o que recebo em troca por tentar ajudar? Por intermediar a situação como uma verdadeira amiga faria? Desconfiança? Descrença? Ingratidão?
— Menos, coelha. Menos — cortou Dean, antes de retomar o assunto: — Eu vou me arrepender por perguntar isso, mas qual o próximo passo agora?
Mia suspirou satisfeita e lançou um sorriso displicente aos dois. Em seguida, explicou o que tinha em mente, dizendo que a ideia tinha partido de Natalie e Claire.
Posteriormente, ela diria a mesma coisa às duas, é claro.
Mais tarde
Passava das sete horas da noite e Dean seguia com o Impala por uma estrada de Lebanon. Ele pretendia ir a uma lanchonete das proximidades que, em sua opinião, tinha a melhor torta de limão de todos os tempos, entre outros sabores.
Por mais incrível que pudesse parecer, Natalie estava ao seu lado no carro. Não havia dito uma palavra sequer desde que eles deixaram o bunker, há cerca de quinze minutos, mas estava ali.
Como ela evitava olhá-lo diretamente, preferindo se concentrar na paisagem do lado de fora, Dean tentou chamar a sua atenção, dizendo a primeira coisa que lhe veio à cabeça:
— Eu ainda não acredito que concordei com essa ideia de encontro.
Confusa, a loira voltou-se na direção dele com o cenho franzido e questionou:
— Como assim? A ideia foi sua.
A princípio, o Winchester pensou que a caçadora estava brincando com ele — não no sentido libertino, infelizmente. Então, igualmente confuso, ele a fitou por um longo instante e depois tornou a se concentrar no percurso.
Seu olhar ficou distante, assim como seus pensamentos. Por fim, o caçador lembrou-se da conversa de horas atrás, enquanto Natalie também fazia isso e ambos chegavam a mesma conclusão.
— Mia. — Dean esmurrou o volante de um jeito contido e fechou a cara. — Claro, eu devia saber. No fundo, eu sabia.
— É, acho que eu também. — admitiu, um pouco constrangida. — Mesmo assim, ela me paga. Eu vou trancá-la em algum lugar do bunker e deixá-la sem café por uma semana. Um mês talvez — acrescentou em tom de ameaça, embora não estivesse falando realmente sério.
Natalie só estava com raiva por ter se permitido acreditar na conversa fiada da garota, o que a levou àquela situação embaraçosa com Dean.
— Entre na fila porque aquela coelha trapaceira está com os dias contados — o caçador retrucou, despertando Natalie de tais pensamentos.
Então ela o observou de soslaio por alguns instantes, enquanto o Impala continuava seguindo pela estrada. Um silêncio aterrador se instalava entre eles cada vez mais. E não deixou de ser incômodo mesmo quando Dean ligou o rádio.
Every breath you take tocava na estação, quando a caçadora pediu:
— Pare o carro.
— Por quê? — indagou Dean, olhando-a rapidamente.
— Não é óbvio? Nós fomos enganados. Portanto, não há nenhum motivo para prosseguirmos com isso — emburrada, Natalie reforçou: — Pare o carro. Por favor.
O Winchester não respondeu nada, porém achou melhor acatar o pedido. Então, aos poucos diminuiu a velocidade até parar no acostamento. Desligou o motor e, embora fosse desnecessário, informou mesmo assim:
— Pronto. Baby parada.
Só então Natalie percebeu que não sabia o que dizer, muito menos fazer diante daquela saia justa. Não podia seguir sabe-se lá para onde com Dean e continuar com aquela palhaçada de encontro orquestrado por Mia. Tampouco podia voltar para o bunker e fingir que não tinha concordado com a ideia.
Meio contrariada, ela respirou fundo e finalmente rompeu o silêncio:
— Já que nós estamos aqui, eu acho que devíamos conversar de uma vez. A Mia não vai nos deixar em paz, se não fizermos isso, então... eu começo.
— Muito bem — o Winchester assentiu, virando-se um pouco no banco, a fim de ter uma visão melhor de Natalie.
Sem olhar diretamente para ele nem medir bem as palavras, ela cruzou os braços e despejou com desdém:
— Eu não sei por que diabos concordei com esse encontro ridículo, se estou muito bem sem você, obrigada. Aliás, eu acho que o nosso relacionamento foi um grande erro. Caçadores não deviam se envolver, muito menos se casar. Nós dois fomos estúpidos em pensar que algo assim daria certo. — Natalie riu sem humor e prosseguiu: — De qualquer forma, eu quero que você saiba que eu não te odeio mais por ter mentido pra mim. Eu sei que não fui honesta algumas vezes também, admito. E sabe por que nós agimos assim? Porque amor é fraqueza. Não só na nossa existência, mas em qualquer uma, pergunte por aí. Por isso, eu estou muito feliz que o nosso casamento, que nunca deveria ter acontecido, finalmente tenha terminado. E também quero que você saiba que eu não sinto a sua falta, Dean Winchester. A menor falta. Nem um pingo sequer. Eu estou ótima!
Ainda assimilando as duras palavras, Dean arqueou as sobrancelhas surpreso e anunciou meio na defensiva:
— Uau! Acho que eu não esperava palavras tão doces, mas tudo bem. Minha vez. — Depois de pigarrear, ele seguiu o exemplo de Natalie, fechou a cara e simplesmente despejou: — Eu concordo com tudo o que você disse, em gênero, número e adivinha? Em grau também. Amor é fraqueza. Sempre. E é por isso que, eventualmente, nós íamos cometer os mesmos erros de novo. Ainda bem que não vamos mais, que o mal foi cortado pela raiz, que a nossa história é passado e que eu estou ótimo sem você. Eu não sinto a sua falta, Natalie Jones, eu não tenho pesadelos com você, nem com suas pernas horrorosas em volta de mim, eu não ouço a sua voz irritante pelos cantos, nem tenho saudade do seu sorriso pela manhã, muito menos de caçar com você, o que era bem entediante por sinal. Eu estou perfeitamente bem. Melhor impossível!
— Ótimo — Natalie resmungou entredentes, o fuzilando com o olhar.
— Esplêndido — rebateu Dean, sem se intimidar e lhe lançando um olhar nada amigável também.
— Formidável! — A loira ergueu as mãos por um momento.
— Magnífico! — Dean sorriu azedo, fazendo uma careta de desgosto.
— Excelente!
O Winchester abriu a boca para retrucar, porém hesitou. Pensou um pouco e, por fim, admitiu:
— Eu não consigo pensar em mais palavras.
A loira riu e sugeriu com ironia:
— Que tal estupendo?
— Estupendo parece bom — o caçador assentiu, dando de ombros.
Então ele e Natalie se encararam por um longo instante, sem dizerem mais nenhuma palavra, embora seus olhares dissessem muitas coisas naquele momento. Coisas que eles não conseguiam expor, admitir, mas que de alguma forma estavam ali, pairando no ar como uma verdade absoluta e inquestionável.
Movidos por essa verdade, no minuto seguinte Dean e Natalie se aproximaram rápido, se lançaram nos braços um do outro sem cerimônia e selaram os lábios com um beijo abrupto e instintivo.
Um beijo que ia contra tudo o que disseram até ali. Um beijo que ficava mais profundo e envolvente à medida que Dean segurava a nuca de Natalie com força, e ela o puxava pela jaqueta com urgência. Um beijo cheio de saudade e calor. Cheio de verdade.
Em dado momento, o caçador rompeu o contato e murmurou:
— Awesome... Como eu pude esquecer de awesome?
— Eu não sei... — Natalie replicou, sem fôlego. — Awesome é uma boa palavra — concluiu, ao mesmo tempo em que voltavam a se beijar com ímpeto.
Quando o beijo já não podia ser distinguido com clareza em meio a uma confusão de braços, mãos e amassos, um farfalhar de asas chamou a atenção dos dois, os interrompendo e, definitivamente, os assustando muito.
Ainda tomados pelo sobressalto, eles ouviram a voz quase mecânica de Castiel ressoar no banco de trás:
— Olá.
— Cas! O que... o que você está fazendo aqui?! — Dean ralhou, enquanto Natalie se recompunha como podia e tentava esconder o rosto com o cabelo.
Constrangido, o anjo hesitou um pouco, antes de se inclinar na direção dos dois e dizer:
— Desculpe por interromper, mas está na hora. Eu explico tudo futuramente.
Antes que o casal pudesse questionar qualquer coisa, Castiel tocou as testas de ambos simultaneamente com a ponta dos dedos. E de repente, Dean e Natalie não estavam mais no Impala. Na verdade, não estavam nem mais em 2016.
***
Não muito longe dali, em uma biblioteca, Sam e Claire estavam acomodados em uma das mesas do recinto, onde haviam chegado há uns dez minutos e começado a conversar.
Em torno deles, algumas pessoas estavam debruçadas na leitura de livros, fazendo pesquisas e trabalhos para seus cursos acadêmicos.
Alguns metros à esquerda, uma bibliotecária organizava documentos e os guardava atrás de um balcão. De vez em quando, ela erguia o olhar sobre o óculos, observava o pouco movimento do lugar e chamava a atenção de quem estivesse falando um pouco mais alto.
Depois de lançar um sorriso amarelo para a mulher e um breve aceno, Claire apoiou a mão na lateral do rosto, a fim de disfarçar o movimento de seus lábios, e sussurrou para Sam:
— Se nós sabíamos que era uma armação da Mia, então por que concordamos com esse... encontro?
O Winchester olhou de canto para a bibliotecária. Então, ele pegou um livro qualquer sobre a mesa, o abriu a esmo, indicando uma página qualquer para disfarçar, e respondeu baixinho:
— Eu odeio admitir, e que a Mia nunca saiba disso, mas talvez nós estivéssemos precisando de uma intervenção como a dela. De qualquer forma, nós estamos aqui, então...
— Por falar em aqui, por que uma biblioteca, Sam? — questionou Claire, também com o tom de voz baixo. — Nós mal podemos sussurrar nesse lugar, sem que aquela moça simpática ali nos peça, gentilmente, para calar a boca.
Sam encarou Claire por um momento, enquanto pensava a respeito, e lamentou:
— Desculpe, foi mesmo uma péssima escolha. — Porém, após uma breve pausa e enchendo-se de coragem, o caçador resolveu arriscar: — Nós nos conhecemos em uma biblioteca, lembra? Eu só pensei que seria um lugar interessante, com um significado, perfeito para... recomeçar talvez.
O argumentou desarmou Claire e a fez pensar realmente no assunto. Nela, em Sam, no que eles costumavam ter, em como era bom e em como ela lamentava por ter acabado.
Apesar da saudade, Claire fez um esforço e procurou manter o foco:
— E como exatamente nós vamos recomeçar, se mal podemos conversar aqui?
Com o olhar fixo no dela, Sam abandonou o livro de uma vez e respondeu firme:
— Esse é o ponto, Claire. Menos conversa.
A caçadora engoliu em seco e sentiu o seu coração disparar sob o efeito daquela insinuação. Torceu para que Sam não percebesse que ela havia ficado um pouco desnorteada. E o ouviu com atenção, quando ele retomou:
— Uma vez, várias talvez, você me disse que eu pensava demais. Bem, é você quem tem pensado muito ultimamente.
Sem conseguir conter um leve riso — prontamente repreendido pela bibliotecária —, Claire sussurrou em resposta:
— Sam Winchester, se você não fosse tão certinho, eu diria que me trouxe aqui para dar uns amassos entre uma estante e outra.
Após um momento de absoluto silêncio, o caçador arqueou as sobrancelhas e insinuou:
— Talvez eu não seja certinho.
Surpresa por ele estar se arriscando tanto, porém ainda receosa sobre um possível recomeço, Claire piscou algumas vezes e tentou desconversar:
— Isso é loucura.
— Por quê? — Sam indagou, lhe causando certo arrepio.
Claire manteve o olhar cravado no dele por longos instantes, enquanto se fazia a mesma pergunta e era vencida, pouco a pouco, pelo clima sugestivo no ar. Mais do que isso, pelo mesmo desejo irresistível refletido no semblante do caçador e que agora fazia o seu coração bater ainda mais depressa.
Talvez Sam estivesse certo afinal. Talvez eles conversassem demais, pensassem demais e nunca chegavam a lugar nenhum. Talvez fosse hora de tentar outra coisa, dar um passo diferente, de verdade, arriscar, não pensar.
— É uma boa pergunta — Claire se ouviu sibilando, enquanto procurava a mão de Sam sobre a mesa.
Em um segundo, ela esbarrou em seus dedos. No outro, Sam já havia entrelaçado sua mão com uma força gentil, prontamente correspondida.
Após uma rápida olhada para a bibliotecária — debruçada sobre uma infinidade de documentos e completamente distraída com isso —, os dois sorriram em concordância, se levantaram e seguiram rapidamente rumo ao labirinto de estantes do lugar. Não encontraram ninguém pelo caminho, mas mesmo assim, foram cautelosos e só pararam quando alcançaram o final do último corredor.
As luzes chegavam mais fracas ali. E perderam a importância quando Claire fechou os olhos e sentiu as mãos quentes de Sam envolverem seu rosto. Ela o puxou mais para si pela camisa e mergulhou em sua boca sem pensar, apenas seguindo seus instintos e vontades.
O beijo evoluía a cada instante, tornando-se mais intenso e ardente. Suas mãos estavam por toda a parte. Era difícil respirar. Quem visse a cena não saberia dizer onde começava um e terminava o outro. As únicas coisas que ainda os separavam eram as roupas, porém isso parecia ser um mero detalhe.
Mas, assim como havia acontecido com Dean e Natalie, algo também interrompeu Sam e Claire. Alguém, na verdade. Que se materializou a uma distância mínima deles, espalhando uma leve brisa pelo corredor e um bater de asas por toda a parte.
Atônitos, os dois se separaram imediatamente e olharam na direção de Castiel sem acreditarem que ele estava mesmo ali.
Ainda mais sem jeito e confuso — afinal era a segunda vez que cortava o clima, sendo que nem sabia que os casais tinham se acertado —, o anjo deu um passo à frente, tocou em suas testas e repetiu o breve discurso de antes:
— Desculpe por interromper, mas está na hora. Eu explico tudo futuramente.
Antes que Sam ou Claire assimilassem a embaraçosa situação, eles não estavam mais ali. Não estavam mais naquele ano.
Enquanto a bibliotecária procurava o casalzinho apaixonado que devia estar se agarrando pelos cantos, Castiel também desapareceu.
Mas ao contrário de Sam, Dean, Natalie e Claire, ainda estava naquele tempo. No presente. Ainda precisava encontrar duas pessoas antes de partir também. Bobby e Mia.
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