Notas iniciais
Hello! Cheguei com o capítulo 9! Estou postando mais cedo porque no próximo final de semana estarei no meio do mato. Leiam as notinhas finais. For now, boa leitura!

Com a respiração entrecortada — em parte por ter corrido pela floresta, mas principalmente porque estava aturdida com o que ouviu de Claire naquele momento —, Natalie piscou algumas vezes e indagou:

— Como assim o wendigo levou os dois?

Tentando disfarçar o que estava sentindo naquele momento — que se resumia a pânico e arrependimento por ter gritado com Sam minutos antes —, Claire indicou tudo em volta e respondeu:

— Bem, eles não estão em parte alguma. Já as coisas deles...

Natalie seguiu o olhar da amiga e avistou as mochilas de caça de Sam e Dean jogadas no chão, em uma clareira íngreme um pouco adiante de onde estavam.

Sem conseguir acreditar que aquilo estava mesmo acontecendo, ela procurou camuflar o nervosismo que sentia e sugeriu:

— Vamos procurar melhor. Não! Gritar é mais eficiente!

Antes que a morena pudesse processar o que ouviu, Natalie se afastou um pouco, olhou em todas as direções possíveis e passou a chamar repetidamente com a voz um tanto trêmula:

— Dean! Sam! Alguém? Dean!

— Ei! Shh. — Claire se aproximou, a segurou pelo braço e pediu silêncio, antes de explicar aos sussurros: — Como você sabe quem vai responder? Wendigos imitam a voz humana, lembra? Ele pode nos atrair para uma armadilha. Nós temos que ser mais espertas do que esse filho da mãe.

Por mais que soubesse que ela tinha razão, Natalie não conseguiu manter a calma e deixou uma confissão escapar:

— Eu não consigo ser esperta quando estou em pânico. — Ao se dar conta do que havia dito e sem querer parecer fraca, ela voltou atrás imediatamente: — Não que eu esteja em pânico, foi só uma força de expressão, é claro, e além disso...

— Tudo bem, Natalie — a outra interrompeu de um jeito compreensivo e admitiu: — Eu também estou preocupada.

Por um momento, a loira pensou apenas em assentir em sinal de concordância. Contudo, movida por um instinto de defesa, se ouviu retrucando:

— Eu não estou preocupada com o Dean, se é isso que você está insinuando. Com o Sam, pode até ser, afinal seria um crime acontecer alguma coisa com aquele cabelo, mas com o Sr. Awesome... — Natalie riu sem humor e balançou a cabeça negativamente, antes de acrescentar com ênfase: — Até poucos minutos, eu estava doida para torcer o pescoço daquele idiota! Aí o wendigo apareceu e estragou os meus planos! Só isso. Então agora eu quero matar o wendigo, para depois poder...

De repente, ela parou de falar e observou a expressão de Claire, que tinha arqueado as sobrancelhas e a encarava com uma incredulidade tangível.

Sem graça e percebendo que negar o óbvio não adiantaria nada, Natalie se recompôs e perguntou com a voz mais baixa:

— Eu não estou sendo convincente, estou?

Apesar da situação tensa e de perigo em que se encontravam — afinal, o wendigo poderia voltar a qualquer momento —, Claire não conseguiu conter um leve sorriso diante do discurso inflamado de Natalie e de sua pergunta retórica no final.

— Nem um pouco, especialmente porque você chamou o Dean daquele jeito — respondeu enquanto fitava a outra caçadora. E depois de refletir um pouco sobre o passado e o presente das duas com Sam e Dean, Claire articulou: — Olha, não é porque acabou que... acabou mesmo. Relacionamentos terminam todos os dias, mas nem sempre acontece o mesmo com os sentimentos. Seria ótimo se fosse tão simples, como um botão de liga e desliga, um interruptor, mas a vida não é assim.

Natalie lhe lançou um olhar cúmplice, entendendo perfeitamente o que a amiga estava dizendo.

Claire, por sua vez, respirou fundo e procurou retomar o foco:

— Independentemente do que aconteceu, eu não quero que o Sam se machuque. E tenho certeza que você também não quer ver o irmão dele em maus lençóis. Então, vamos fazer um esforço, pensar racionalmente e resolver esse caso, okay? Ainda é uma caçada, só... com alguns agravantes agora, mas nós podemos resolver.

Deixando que os argumentos de Claire funcionassem como uma injeção de ânimo, Natalie endireitou a postura e afastou o nervosismo, antes de assentir:

— Certo. E o que você tem em mente?

Imediatamente, a filha de Bobby olhou o chão a sua volta, deu alguns passos até uma árvore e retornou com o mapa em mãos. Ele tinha ficado com Sam, mas havia caído durante a confusão orquestrada pelo wendigo para separá-los.

Natalie se aproximou e acompanhou os dedos trêmulos de Claire sobre o papel, quando esta começou a explicar:

— O wendigo deve ter levado os dois para o seu esconderijo. Nós temos duas opções e pouco tempo para chegar em cada um desses lugares. Uma caverna ou uma mina abandonada. Eu preciso que você me ajude a escolher a primeira direção. De repente, este mapa ficou... sei lá, confuso.

Percebendo que a voz da amiga estava falhando e que agora não eram apenas os dedos que tremiam, Natalie tocou a mão de Claire sobre o mapa, fazendo-a erguer o rosto em sua direção no mesmo instante, tentou transparecer calma, segurança e só então disse:

— Claire, vai dar tudo certo. Você mesma disse, ainda é uma caçada e nós podemos resolver isso. — E quando a morena assentiu instintivamente, ela indicou uma rota no mapa e sugeriu: — Vamos por aqui, é o lugar mais próximo. Se a toca do wendigo não for lá, então nós tomamos o caminho para o outro local, tudo bem? Eu diria para nos separarmos, mas o desgraçado pode usar isso contra nós, para nos confundir ainda mais. Então vamos ficar juntas e resolver esse caso, okay?

Claire assentiu mais uma vez e dobrou o mapa junto ao corpo. Antes de começar a caminhada até a trilha que levaria as duas até a primeira opção de esconderijo, ela orientou tensa:

— Fique atenta à sua volta, está cada vez mais escuro. É o cenário perfeito para o wendigo nos levar também, mas nós temos que chegar nele primeiro.

Sentindo-se mais animada e confiante — ou pelo menos, querendo acreditar que era assim que estava se sentindo —, Natalie a seguiu dizendo:

— E nós vamos. Fator surpresa é tudo. Portanto, o wendigo que nos aguarde.

Por precaução, as duas deixaram as bolsas mais próximas do corpo e abriram as partes que continham as latas de querosene, álcool, isqueiros, fósforos e até sinalizadores. De um jeito ou de outro, o wendigo tinha que ser morto àquela noite. O mais rápido possível e certeiramente.

Poucos metros adiante, Claire pegou a mochila de Sam do chão, e Natalie fez a mesma coisa com a de Dean. Então, em silêncio e atentas a cada ruído proveniente da floresta, as caçadoras continuaram caminhando enquanto a noite caía.

***

Sentindo o corpo dolorido e a cabeça latejando de um jeito crescente, Sam lutava para se libertar da escuridão em que sua mente estava mergulhada. Ao longe, ele ouvia a voz do irmão o chamando incessantemente e de um jeito firme pelo apelido Sammy e, aos poucos, isso o despertou por completo, o libertando da névoa que confundia os seus sentidos até então.

Dean não estava longe afinal, estava bem ao seu lado, também amarrado, com os braços suspensos sobre a cabeça, preso pelas mãos por um tipo de corda e os pés tocando levemente o chão.

A posição era desconfortável e dolorosa, mas Dean estava aliviado ao ver que o irmão pelo menos tinha recobrado a consciência. Por isso, soltou a respiração com força e disse com um leve sarcasmo:

— Eu perguntaria quantos dedos você está vendo aqui, mas já que estou meio impossibilitado no momento, como você está se sentindo, Sammy?

Com a garganta seca e ainda meio zonzo, o Winchester mais novo respondeu devolvendo o sarcasmo:

— Como se um wendigo tivesse me arrastado pela floresta, me nocauteado e me amarrado na sua dispensa para fazer um lanchinho mais tarde.

— Bem vindo ao clube. — Dean arqueou as sobrancelhas e riu sem humor. — Eu sei exatamente como você se sente.

Sam limitou-se a assentir brevemente e, em seguida, passou os olhos pelo cenário em volta.

O lugar era escuro, porém raios de luz provenientes da lua vindos de alguns túneis conseguiam chegar até ali. O ar era úmido e pesado. As paredes eram rochosas e o chão plano com algumas oscilações. Apesar disso, não parecia um lugar natural, mas sim algum tipo de mina abandonada.

— Que lugar é esse? — indagou Sam.

Prontamente, Dean respondeu:

— Eu vi uma placa antiga antes de perder a consciência, acho que uma mina funcionou aqui, há muito tempo.

Sam ia prosseguir com mais perguntas, mas de repente se lembrou de algo que o deixou imediatamente preocupado. Então ele perguntou receoso:

— Espera... E a Claire? Onde ela está? E a Natalie? O wendigo não...

— Relaxa, elas não estão aqui — informou Dean. — Aparentemente, o Hannibal Lecter deixou as duas para trás. Não por muito tempo, nós sabemos que essa coisa tem uma larica e tanto. Por isso nós temos que dar um jeito de sair daqui logo, queimar o son of a bitch, encontrar as garotas e ir pra casa. — De repente, ele parou de falar, refletiu sobre a última coisa que havia dito e tentou se corrigir: — Digo...

Antes que ele prosseguisse, foi a vez de Sam o interromper solidário:

— Eu entendi, Dean. — Após um momento pensando, sentenciou: — Cada um segue o seu caminho. Elas e nós.

Tentando camuflar seus sentimentos, o mais velho olhou para um ponto qualquer da mina e disse com um falso desdém:

— Eu só espero que elas não caiam na besteira de virem atrás de nós. Seria péssimo e muito estúpido.

Depois de ponderar tais palavras, aquela situação em si e também o que aconteceu no Triângulo das Bermudas, Sam articulou:

— Elas são caçadoras. Claro que é exatamente isso que vão fazer. E quer saber? Não cabe a nós concordarmos ou não. Não é nossa escolha. Nunca foi.

Após um instante em silêncio, Dean questionou retoricamente:

— Nós ainda estamos falando desta caçada?

Sam não respondeu, pois sabia que o irmão havia entendido muito bem. A verdade é que além de ter entendido, Dean sabia que o mais novo estava certo. Não cabia a eles terem feito certas escolhas, tomado certas decisões e, mesmo assim, foi o que fizeram.

Saber que Natalie e Claire não tinham saído feridas do embate com Crowley naquela ilha era consolador, mas não era o suficiente para aplacar o vazio que passaram a sentir depois que elas deixaram o bunker.

Afastando essas reflexões, pois sabia que de nada adiantariam naquele momento, Dean se concentrou na corda que amarrava suas mãos, tentou se soltar e decidiu se focar apenas no que estava à sua volta:

— Eu não sei você, mas eu quero sair daqui logo e fazer churrasquinho de wendigo.

Sam, que também estava refletindo sobre suas atitudes com Claire, despertou de tais pensamentos e assumiu a mesma postura do irmão. Enquanto tentava se soltar, perguntou:

— Será que nós estamos sozinhos aqui?

Dean ia responder que aparentemente estavam, mas no mesmo instante ele e Sam ouviram alguém tossir próximo dali e se entreolharam surpresos. Foi o mais velho que, segundos depois, resolveu perguntar em alto e bom tom:

— Ei! Quem está aí?

A pessoa, uma garota de aproximadamente vinte anos, tossiu novamente antes de responder com a voz um tanto fraca:

— Meu nome... é Ashley Reyes.

Os caçadores se entreolharam mais uma vez e ambos se lembraram de terem lido aquele nome na notícia que os levou até Itasca. Ashley Reyes fazia parte do grupo de quatro jovens que desapareceu naquela floresta.

Tal fato deu uma injeção de ânimo nos irmãos Winchester, pois salvar pessoas era bem mais reconfortante do que apenas matar o monstro no final do dia. E se Ashley ainda estava viva, talvez os outros jovens também estivessem.

Pensando assim, o Winchester mais novo iniciou uma conversa com a garota:

— Ashley, fique calma, está tudo bem. Eu sou Sam e...

— O outro é Dean, eu ouvi — ela completou, com a voz ainda mais vacilante e sentindo um medo aterrador da situação em que se encontrava. Não sabia se podia confiar nos dois estranhos, tinha ouvido parte da conversa e ficado muito confusa. Por isso, indagou: — Mas quem diabos são vocês de verdade? E o que é aquela criatura horrível?

Depois de trocar um olhar cúmplice com o irmão, Dean revelou sem rodeios:

— Nós somos caçadores.

Um longo momento de silêncio se passou, até que Ashley gemeu de dor devido à posição desconfortável e retomou o diálogo com inocência:

— Vocês se perderam na floresta enquanto caçavam e aquela coisa medonha os trouxe para cá também? Eu sinto muito.

Sam avaliou a pergunta e a situação por alguns instantes, até que resolveu seguir o exemplo de Dean e explicou pausadamente:

— Na verdade, nós caçamos coisas... medonhas como a criatura que você viu. E sim, infelizmente, o desgraçado nos pegou.

Mais um momento de silêncio imperou por toda a mina, enquanto a garota processava o que tinha ouvido. Aquilo era absurdo, pessoas que caçavam monstros? Em outros tempos, acharia que estava conversando com dois malucos, mas depois que viu aquela criatura e foi arrastada até aquele lugar, poderia duvidar de mais alguma coisa?

— Ashley? — Dean chamou com cautela.

A jovem engoliu em seco, ignorou as câimbras nos braços suspensos e amarrados acima de sua cabeça, e então perguntou:

— Vocês podem ajudar? Nos tirar daqui?

Intrigado com a reação aparentemente tranquila da garota, Dean franziu o cenho e relembrou:

— As pessoas costumavam ficar mais surpresas antigamente.

Sam arqueou as sobrancelhas concordando com a observação do irmão. Em seguida, e embora ainda não tivesse conseguido se soltar das próprias amarras e estivesse preocupado com a situação, ele tentou passar tranquilidade e segurança a jovem:

— Nós vamos te ajudar sim, Ashley. Todos nós vamos sair daqui. Me diga, tem mais alguém com você? E como aconteceu?

Lutando para controlar a tensão que tomava conta do seu corpo e anuviava seus sentidos, a garota fez um esforço para soar minimamente audível e expôs:

— Josh e Kimberley ainda estão vivos. Nós estávamos acampando quando fomos atacados. Aquela coisa nos trouxe para cá e... devorou o Sean como se ele não fosse nada.

Sam e Dean ficaram ainda mais determinados ao ouvirem que mais dois jovens estavam vivos. Com certeza, o wendigo estava focado em armazenar o máximo de alimento possível primeiro e, por isso, só tinha devorado um dos jovens. Até o momento.

Os caçadores sabiam que o monstro era instável e que logo precisaria se alimentar novamente. Se conseguisse capturar Claire e Natalie também, não haveria motivo para um estoque tão grande de vítimas. Ele se alimentaria por puro prazer.

Procurando manter o foco, Dean retomou:

— Nós sentimos muito por Sean. Onde estão Josh e Kimberley agora?

Ashley choramingou um pouco e olhou para os amigos presos como ela, antes de responder:

— Aqui, mas eles estão inconscientes. E eu estou com medo daquela coisa voltar...

Desta vez a garota não conseguiu se segurar e deixou a tensão que sentia se transformar em um pranto crescente e desesperado. Trêmula e com mais medo do que jamais imaginou sentir algum dia, ela ouviu Sam reforçar pacientemente:

— Ashley, fique calma, vai dar tudo certo. Nós vamos sair daqui, okay? Não chore, aquela criatura pode estar por perto e te ouvir.

Quando a jovem engoliu o choro forçadamente e se obrigou a ficar minimamente calma, Dean indagou:

— Você consegue se soltar?

— Eu tentei... — ela sibilou, desanimada.

— Continue tentando — Sam orientou, enquanto ele procurava fazer o mesmo com as cordas que o prendiam.

Logo Dean retomou a tarefa também, porém as amarras estavam bem presas nos pulsos de todos eles. O wendigo era uma criatura forte e não havia medido esforços para deixar os nós bem estreitos, quase impossíveis de desamarrar. Sem escolha, os três reuniram as forças que tinham e continuaram tentando se livrar daquilo.

Algum tempo depois

Com cautela, atentas a tudo em torno delas e amaldiçoando em pensamento cada vez que seus passos faziam um ruído considerável sobre as folhas secas pelo caminho, Natalie e Claire seguiam rumo a uma entrada escura, carregando queronese e isqueiros.

Aquele lugar poderia ser a toca do wendigo, mas também poderia não ser. Havia cinquenta por cento de chance de acerto e cinquenta por cento de erro. Pelo bem de Sam, Dean e possíveis sobreviventes, as caçadoras esperavam que não fosse um engano. Dar meia volta e correr para a outra alternativa seria o mesmo que correr contra o relógio. E não havia tempo para isso. Seria muito arriscado e, provavelmente, as duas não chegariam a tempo de salvar ninguém. Isso se ainda não fossem capturadas durante o percurso até lá. Havia uma grande chance disso acontecer também.

Ignorando essa preocupação mútua, Claire e Natalie se entreolharam por um breve momento. Depois, fazendo o máximo de silêncio possível, pegaram duas lanternas nas mochilas e adentraram o lugar intimidador logo a frente. Era de dar arrepios, como estar em um filme de terror, mesmo para elas que estavam acostumadas com o sobrenatural.

Em pensamento, as duas torciam para que Sam e Dean estivessem ali, vivos, e bem na medida do possível. E como só havia uma forma de confirmar isso, elas continuaram caminhando.

***

Não importava o quanto Sam, Dean e Ashley tentassem. Apesar de seus esforços, as cordas que os prendiam não tinham se movido nem mesmo um centímetro. Os caçadores não podiam alcançar as facas reservas que deixavam presas aos tornozelos, pois seus braços estavam amarrados para cima.

Josh e Kimberley haviam acordado em pânico há poucos minutos, foram inteirados por Ashley do que estava acontecendo, da presença dos caçadores do outro lado e também tentaram se livrar das amarras. Infelizmente, igualmente sem sucesso.

A situação piorou ainda mais quando todos ouviram uma espécie de rugido animalesco e passos vindos de um túnel próximo dali. Passos que se tornavam cada vez mais audíveis. O wendigo estava nas proximidades. Pior, estava indo diretamente para aquela área.

Os jovens se desesperaram, principalmente as garotas, temendo que fossem ser as próximas refeições do monstro. Sam tentou acalmá-los, mas àquela altura não adiantou muito.

Dean continuou lutando contra as cordas e praguejando baixinho, até que uma grande e distorcida sombra surgiu no começo do corredor que dava para aquela parte. Os caçadores ficaram estagnados por um momento, vendo-a ganhar forma à medida que se aproximava.

O wendigo finalmente surgiu na entrada, com seu corpo comprido, braços longos que terminavam em mãos animalescas com garras afiadas. Seu rosto era uma mistura de humano e besta, predador e monstro. Dentes afiados e tortos ficaram visíveis quando a criatura abriu a boca, evidenciando a pele enrugada e acinzentada que cobria seu rosto.

Dean desviou o olhar daquela imagem horrenda depois de observar as orelhas pontiagudas e deixou escapar:

— Eu tinha me esquecido como você é feio. Feio de doer, sabe? Já pensou em fazer uma plástica? Talvez ajude.

Eu tinha me esquecido como você é feio. O wendigo reproduziu as palavras do caçador, imitando a sua voz com perfeição. Feio de doer, sabe? Já pensou em fazer uma plástica? Talvez ajude.

Dean revirou os olhos e retrucou em tom zombeteiro:

— Você acha bonito roubar as falas das pessoas? Desculpe, mas não fica engraçado com você dizendo.

O wendigo deu alguns passos na direção dele e o caçador se recostou mais na parede úmida atrás de si. Ignorou o asco que sentiu quando o monstro segurou o seu rosto e traçou uma linha com a unha pela sua bochecha. Então franziu o cenho e zombou mais uma vez:

— Alguém já disse que você tem um bafo de onça? Não, é injusto dizer isso. Perto de você, as onças poderiam fazer propaganda de creme dental e seria sucesso absoluto.

O wendigo chegou mais perto e o farejou. O Winchester mais velho prendeu a respiração, enquanto ouvia Sam dizer:

— Dean, eu acho melhor não provocá-lo.

Ainda com a respiração presa, o irmão assentiu:

— É, me lembre disso da próxima vez.

De repente, atraído pela voz do outro caçador, o wendigo soltou Dean e se aproximou de Sam do mesmo jeito ameaçador.

— Ei! Deixe-o em paz! — o mais velho gritou, quando a criatura farejou Sam com mais interesse.

Logo depois, a voz trêmula de Ashley ecoou até aquela parte:

— O que está acontecendo?

Imediatamente, o wendigo soltou Sam e caminhou na direção de onde ela e os outros dois jovens se encontravam.

Preocupado com a possibilidade do wendigo se alimentar de algum deles, Sam gritou:

— Fique longe deles, seu maldito!

Também tenso com aquela situação, principalmente quando Ashley e os outros gritaram ao ver a criatura diante deles, Dean emendou desesperado:

— Ei! Volta aqui, monstrengo! Eu garanto que sou muito mais gostoso! Desculpe se te ofendi com o lance do bafo, não era sério! Vem cá!

Josh e Kimberly se encolheram contra as paredes o máximo que puderam, quando o wendigo os examinou minuciosamente, bem de perto. E Ashley se agitou quando ele os deixou e começou a se aproximar dela perigosamente.

— Não... Não! Socorro! — a garota gritou em desespero, voltando a chorar.

Sam e Dean tentaram se soltar novamente e continuaram gritando para chamar a atenção do wendigo. Tudo em vão. A criatura parecia mesmo interessada naquela refeição em específico. Finalmente tinha escolhido a entrada do seu insano banquete.

As amarras de Sam finalmente se afrouxaram um pouco, mas não o suficiente. Dean continuou tentando se soltar também e Ashley se debatia para escapar das mãos asquerosas da criatura.

Foi então que, de repente, uma voz familiar para os caçadores foi ouvida:

— Psiu! Ei, bonitão!

Natalie, que havia alcançado a área onde Ashley e os outros jovens estavam acuados, chamou a atenção do wendigo no mesmo instante. Então ele soltou Ashley imediatamente e se voltou na direção da caçadora.

Em seguida, soltou um grito animalesco que ecoou por toda a parte e deu alguns passos até o centro daquela área da mina. Se preparava para atacar Natalie, quando Claire, escondida até então atrás de uma parede adjacente, jogou o queronese que possuía sobre ele e gritou:

— Natalie, agora!

O mais rápido que conseguiu, a loira acendeu um isqueiro e o jogou na direção do wendigo. Porém, o objeto não chegou a atingi-lo.

— Droga! Droga! Droga! — praguejou Natalie.

Mais do que depressa, ela arrancou outro isqueiro da bolsa e tentou acendê-lo. A chama falhou algumas vezes, antes de finalmente se firmar.

O wendigo tinha se aproximado mais e rugido em sua direção. Se preparou para correr até ela. Então a loira deu alguns passos para trás, ao mesmo tempo em que atirava o isqueiro contra ele. Desta vez, foi certeira.

O monstro não teve como se livrar das chamas que se ergueram em suas pernas de imediato e subiram por seu corpo rapidamente, conduzidas pelo líquido inflamável.

Seus gritos guturais ecoaram pela mina abandonada, enquanto os jovens respiravam aliviados e horrorizados ao mesmo tempo diante da cena.

Sam e Dean não podiam ver nada disso de onde estavam, mas tinham reconhecido as vozes das caçadoras e se entreolhavam atônitos e apreensivos, enquanto o monstro agonizava longe do alcance de visão deles.

Por fim, o wendigo perdeu forças e seu corpo se desintegrou em meio às chamas com um último grito de agonia e uma espécie de explosão, semelhante a que acontece com espíritos vingativos quando têm seus restos mortais salgados e queimados.

Instantes se passaram até que Natalie olhou para a amiga, deu de ombros e disse:

— Já foi tarde.

Claire expirou com força, aliviada, tossiu um pouco em virtude do resquício de fumaça no ar denso da mina e correu para desamarrar os jovens ao redor.

Natalie fez o mesmo e ambas orientaram que eles esperassem do lado de fora, ressaltando que o perigo havia passado e que tudo ficaria bem.

Quando finalmente ficaram sozinhas, se entreolharam, trocando uma mensagem silenciosa. Elas sabiam o que tinham que fazer agora, mas foi só depois que Dean pigarreou que as caçadoras se colocaram em movimento e seguiram rumo ao outro lado do túnel.

Aliviadas por terem apostado no palpite certo e chegado a tempo de salvá-los, elas pararam lado a lado por um breve instante e encararam os caçadores a poucos metros.

Claire não saberia descrever o que viu no semblante de Sam, mas era uma mistura de alívio, admiração e vergonha ao mesmo tempo.

Deixando a reação dele de lado, ela caminhou até Sam. Com o auxílio de uma faca, cortou suas cordas enquanto ele a olhava fixamente, ainda entorpecido por aquele momento.

Evitando o contato visual o máximo que pôde, Claire balbuciou:

— Que bom que você está bem.

Enquanto a morena terminava de soltá-lo, Natalie cruzou os braços e arqueou uma sobrancelha na direção de Dean. A postura superior era apenas um disfarce para o que realmente sentia: um profundo alívio por vê-lo bem.

Mesmo que ele fosse Dean Winchester e sempre se safasse no final, desta vez Natalie sentiu um medo real de que as coisas não terminassem bem para o veterano caçador.

E claro, havia também um prazer enorme implícito no fato dela ter o salvado do pior. Dean quis tanto protegê-la de Crowley e agora ela tinha salvado a pele dele. Parecia que o jogo tinha se invertido. E era inevitável não sentir o seu orgulho feminino e de caçadora se inflar no peito por causa disso.

Irritado com o sorrisinho de satisfação que surgiu nos lábios da caçadora sem que ela mesma percebesse, Dean questionou aos resmungos:

— Você pretende me soltar ainda hoje ou vai ficar me olhando com essa cara de "Ei, eu salvei a sua vida! Me agradeça por isso até o fim dos tempos, idiota"?

— Não seja dramático, Dean Winchester. — Natalie conteve a vontade de rir e caminhou até ele. Pegou uma faca na cintura e começou a cortar as amarras, ignorando certo abalo que a proximidade lhe causava. — E sim, eu salvei a sua vida, goste você ou não. — Depois de observá-lo massageando os punhos recém libertados, a loira concluiu de um jeito mais sério e humilde: — Mas não precisa me agradecer, eu sei que você teria feito o mesmo por mim e estou feliz por ter chegado a tempo de fazer isso por você.

Surpresa com as próprias palavras e ignorando o seu coração teimosamente acelerado, a caçadora franziu o cenho ligeiramente, deu as costas para Dean e começou a se afastar, enquanto ele piscava algumas vezes, também surpreso.

Na sequência, Claire se despediu de Sam com um meneio de cabeça, um sorriso pálido e caminhou na mesma direção de Natalie.

Antes de deixarem a mina, não resistiram e olharam mais uma vez para trás.

Mais tarde

Depois de deixarem os jovens sobreviventes no hospital mais próximo e os orientarem a dizer para a polícia e familiares que haviam se perdido na floresta, ao fugirem de um ataque de animal selvagem, Natalie e Claire deixaram Itasca imediatamente, ainda naquela noite.

Passaram no hotel apenas para pegarem seus pertences e pagarem a estadia — com cartões de crédito falsos, como de praxe —, sem trocarem qualquer palavra sobre o que havia acontecido, cada uma mergulhada em suas próprias reflexões.

Elas sabiam que Sam e Dean ficariam bem. Mesmo assim, sentiam-se estranhas por não terem se despedido direito. Contudo, o que mais poderiam ter dito ou feito numa situação embaraçosa como aquela?

Por mais que não quisessem falar sobre o assunto nem dar o braço a torcer, a verdade era que as caçadoras tinham ficado balançadas com os últimos acontecimentos. Principalmente porque perceberam algo elementar: Sam e Dean Winchester ainda eram importantes para elas. Talvez nunca deixariam de ser.

Notas finais
Então, eu não fiquei totalmente satisfeita com esse capítulo, com a descrição da caçada e do wendigo, mas espero que não tenha ficado muito nada a ver, corrido, mal escrito e tal. Mas se tiver, podem dizer que eu tento melhorar na próxima caçada. Acho que não preciso dizer isso, mas com este capítulo, eu quis mostrar que o mundo dá voltas e proporcionar uma vingancinha básica para as girls, já que elas salvaram os boys, provaram o seu valor, deixaram ambos pensativos sobre o lance da ascensão infernal, as escolhas que fizeram etc. Quis mostrar que as girls ficaram mexidas também, que sentiram medo e que chegaram a essa conclusão elementar aí no final. Só isso. Eu tinha escrito um outro capítulo depois desse, mas relendo, não gostei mais e achei desnecessário para a história. Então o próximo terá um pequeno salto temporal, vou iniciar a história de fato (acho que ECE estava correndo atrás do rabo até agora porque eu precisava abordar algumas coisas antes do início do jogo, mas me estendi demais), teremos uma big surpresa no final que eu estou gostando muito de planejar e está me dando outras ideias para o futuro da história que vão deixar o enredo mais interessante. Bobby Singer vai aparecer e será muito importante para essa tal surpresa. Em breve, acho que no capítulo 11, vamos descobrir por onde andam os demons que saíram pela tangente, o que estão fazendo da vida, o que pensam, onde vivem, o que comem etc. Quando eu voltar do meio do mato (vixe... será que tem wendigos por lá?), devo aparecer por aqui com o próximo capítulo. Inté lá. Bjs.