Notas iniciais
Finais são difíceis... Mas ainda teremos o epílogo, então muita calma nessa hora. Boa leitura, hunters! Leiam as notinhas finais!

Três semanas haviam se passado desde que Kevin e Chloe anunciaram a data oficial do casamento. No entanto, a proximidade da união e o fato de ser madrinha e organizadora do evento não impediram Mia de tomar uma decisão, pegar a estrada no dia anterior e dirigir até o Texas, seu estado natal.

Desde que voltou do futuro, a garota não conseguia tirar de sua mente a memória que reviveu sobre seus pais e sua infância na antiga casa da família, que ficava em Wichita Falls. Conforme os dias se passaram, percebeu que precisava fazer algo sobre isso. Algo importante e libertador. Precisava de um recomeço.

Mesmo sem entender o que estava acontecendo, Castiel não se opôs quando Mia lhe intimou a ir com ela. Ele chegou a oferecer um rápido teletransporte ao local, contudo ela recusou, dizendo que seria bom espairecer durante a longa viagem.

Eram pouco mais de duas horas da tarde quando a caçadora finalmente parou o Mustang na vaga que seu pai costumava ocupar.

O gramado ladeado por pedras e a casa branca de dois andares e um sótão estavam exatamente como Mia se lembrava. Exatamente como fez questão de preservar, mesmo não tendo ido ao lugar pessoalmente desde que Cães do Inferno cobraram o pacto que seus pais fizeram para ter uma filha.

— Mia, por que nós estamos aqui? — Castiel indagou com cuidado, despertando-a do estado letárgico em que se encontrava mergulhada.

Voltando a si, ela abriu a porta do carro e respondeu:

— Você vai ver.

Mia tinha acabado de bater a porta atrás de si quando Castiel saiu do veículo com um farfalhar rápido de asas. Caminhando ao lado dela rumo à casa, lembrou:

— O casamento é em poucas horas.

— Eu tenho certeza que nós vamos chegar a tempo, relaxa — Mia insinuou numa menção ao poder do anjo de se transportar de um lugar para o outro e levá-la consigo.

Sem saber como lhe dizer uma coisa de uma forma que não a machucasse, ele segurou o seu braço delicadamente, fazendo-a deter o passo e encará-lo, e simplesmente expôs:

— Mia, esta é a casa em que seus pais morreram. Tem certeza que quer mesmo entrar? Não parece uma boa ideia reviver o trauma de perdê-los.

Estranhamente tranquila, a caçadora argumentou:

— Esta é a casa onde eu fui feliz ao lado dos meus pais até o dia em que, infelizmente, eles foram tirados de mim. Então sim, Cas, eu tenho certeza que quero entrar. Está na hora de seguir em frente. Esta casa não precisa ser resumida a um trauma, a uma tragédia. Aliás, não é justo que ela seja.

Entendendo o seu ponto de vista, o anjo então soltou seu braço, permitindo que Mia pegasse a chave no bolso e seguisse caminho.

Logo os dois adentraram a residência. Os antigos móveis cobertos por panos brancos e o ambiente em si fizeram um filme passar pela cabeça de Mia.

— Você está bem? — Castiel preocupou-se ao observá-la caminhando pela enorme sala com um olhar distante e emocionado.

— Sim — Mia respondeu, tentando afastar certa tristeza. — É que... esta é a primeira vez que eu entro aqui desde que tudo aconteceu. Eu não tinha ideia que seria tão difícil.

— Nós podemos ir embora, se você quiser.

— Não, está tudo bem — replicou, determinada a virar aquela página e manter em sua memória apenas os bons momentos que viveu ali.

Na sequência, aproximou-se de um sofá e afastou o tecido que o protegia da poeira. Hesitou antes de sentar e expor o que estava sentindo:

— Quando meus pais morreram, eu pulei de lar provisório para lar provisório. Nunca me habituei às famílias e elas sempre desistiam da adoção por causa dos meus constantes pesadelos. É estranho voltar aqui e ver o que eu perdi. O que eu tive um dia e desapareceu. Como tudo desmoronou, sabe?

Consternado, Castiel sentou ao lado da caçadora e tentou lhe dizer algo:

— Mia...

Porém foi interrompido:

— Por favor, me deixe terminar.

O anjo decidiu acatar o seu pedido. Sentia que ela precisava se abrir e achou melhor não se opor. Após alguns instantes em silêncio, Mia recomeçou:

— Meus pais me deixaram algum dinheiro, mas ele acabou eventualmente. Apesar disso, eu nunca pensei em vender essa casa, pois era a última recordação que eu tinha deles. Embora eu nunca tenha voltado aqui até hoje, pareceu errado me livrar dela, entende? Então, ao invés disso, eu trabalhei em tudo o que pude e morei em mais lugares do que consigo me lembrar. Espeluncas, em sua maioria. — Apertou as mãos em seu colo, respirou fundo e prosseguiu com o relato: — Só depois de muito tempo eu me estabeleci numa pequena cidade em Minnesota. Tinha um jornal lá. Eu só servia o café, bebia algumas xícaras quando ninguém estava por perto, é claro, e cuidava dos arquivos. Mas foi esse pequeno contato com o jornalismo que me incentivou a ir para a faculdade. Parecia o certo, sabe? Recomeçar, investir numa carreira, ter um emprego e uma vida normal, ignorar os pesadelos bizarros que me assombravam há anos... — Ela fez uma pausa e concluiu: — Meses depois, eu conheci o Ric. Tudo deu muito certo por um tempo. O resto, você já sabe.

— Mia, eu sinto muito. Por tudo. — Castiel colocou a mão sobre as dela e a fitou com carinho. Não sabia o que mais podia dizer naquela situação.

Por um momento, lhe pareceu errado ter entrado em sua vida. Sentia que havia piorado tudo ao trazer o sobrenatural para a rotina de Mia, por mais que o maior culpado, sem dúvida, fosse Crowley.

Como se tivesse lido os pensamentos dele, a garota sorriu e disse:

— Está tudo bem. Embora trágico, tudo o que aconteceu comigo me fez a pessoa que eu sou hoje. Uma pessoa melhor e mais forte, eu acho. E me trouxe até aqui, até esse momento, até você. Acho que era mesmo o meu destino. Claro que eu lamento muito ter perdido as pessoas que perdi, mas eu não troco a vida que se revelou para mim depois que você apareceu no meu quarto... anjo tarado.

As palavras finais arrancaram um sorriso do anjo, enquanto Mia também sorria e lhe lançava uma piscadela para arrematar. Os dois se entreolharam por um longo momento. Um momento especial e de cumplicidade.

Por fim, Mia se endireitou no sofá e decidiu ir direto ao ponto, expondo o motivo para ter pedido que Castiel a acompanhasse naquela empreitada pessoal:

— Você me perguntou por que nós estamos aqui, e a resposta é simples, Cas. Eu não quero viver para sempre no bunker. Eu quero ter um porto seguro para voltar depois de dias na estrada caçando, mas eu quero um lugar meu. Nosso, na verdade. — Ela olhou tudo em volta e completou em tom conclusivo: — Eu só quero voltar para casa e construir novas memórias aqui. Ótimas memórias. Com você. Se você quiser, obviamente.

— Se eu quiser? — Castiel repetiu sem acreditar que ela pudesse pensar que ele não desejava aquilo. — Quando você quiser, Mia. Aonde quer que você vá, conte comigo.

Profundamente feliz e satisfeita, a caçadora abriu um largo sorriso, bateu no ombro dele e disse em tom divertido:

— Eu sempre conto. Só quis que você pensasse que tinha alguma escolha, bobinho. — Ela levantou num pulo e determinou os últimos detalhes: — Então, num futuro próximo, okay? Eu ainda quero atormentar uns caçadores aí por mais algum tempo. Comer a torta do Dean, colocar loção depilatória no shampoo do Sammy, aprontar com o Bobby e as garotas também, colocar a culpa nos rapazes e sair correndo, esse tipo de coisa.

— Soa divertido. — Castiel também se pôs de pé.

Colocou as mãos na cintura de Mia quando ela ficou na ponta dos pés e jogou os braços em volta do seu pescoço.

— Obrigada por ter vindo comigo, anjo — disse antes de beijá-lo demoradamente, cumprindo o que prometeu sobre construir novas e boas memórias naquela casa, a fim de virar a página e honrar os inúmeros momentos de alegria que teve com seus pais ali também.

Quando Mia, por fim, afastou o rosto e recuperou o fôlego, Castiel estreitou o olhar e insinuou:

— Eu responderia o seu agradecimento, mas acho que isso nos faria perder o foco. E nós temos um compromisso importante, lembra?

Zonza com o efeito do beijo, Mia demorou algum tempo para entender o que o anjo queria dizer com aquilo. Quando enfim se deu conta que Kevin e Chloe iriam se casar em poucas horas, bateu na própria testa e gritou:

— Claro! O casamento! Eu pego o carro depois. — Mia puxou Castiel pela mão rumo à saída. — Vamos nessa!

Antes de fechar a porta atrás dos dois, ela percorreu o interior da casa com um olhar esperançoso e sorriu uma última vez para o seu lar.

***

Longe dali, a caminho de New Jersey, onde o casamento aconteceria, Claire fez um último ajuste na gravata de Sam enquanto ele dirigia.

Os dois tinham solucionado um caso envolvendo uma casa assombrada por dois espíritos vingativos, na Pensilvânia, e tiveram que se arrumar no hotel e agora no veículo, a caminho.

— Obrigado — Sam agradeceu pela ajuda com a gravata.

Claire sorriu em resposta, ajeitou-se no banco do passageiro e abriu um estojo de maquiagem em seu colo, tomando cuidado para não amassar o longo e delicado vestido laranja que usava.

O caçador a observou de soslaio e flertou:

— Se você está tentando ficar ainda mais linda, desista. Além de impossível, vai acabar me desconcentrando. Eu posso provocar um acidente, sabia?

Imediatamente, Claire sorriu e se reaproximou dele com interesse. Os dois olharam para a estrada e o retrovisor por um instante, a fim de terem certeza que não havia nenhum veículo por perto. Em seguida, trocaram um beijo carinhoso.

— Provocar um acidente? — Claire repetiu enquanto observava como Sam estava bonito com o traje formal. — É por isso que você está dirigindo, e não eu — devolveu o flerte e voltou para o seu lugar.

***

Também a caminho e voltando de uma caçada à vampiros em Maryland, Dean dirigia o Impala enquanto Natalie colocava um vestido de cetim verde no banco traseiro.

O Winchester, que já estava devidamente pronto para o casamento, não resistiu a uma boa espiada pelo retrovisor e comentou em tom galante:

— Se verde é assim, imagina madura.

Natalie riu da cantada barata e orientou:

— Olhos na estrada, Sr. Awesome. Olhos na estrada.

Ele sorriu e obedeceu. Pelo menos, por alguns instantes.

***

Horas depois, em uma pequena igreja, Kevin e Chloe oficializaram a união sob os olhares atentos de familiares, colegas de Princeton e, claro, na presença de seus melhores amigos do ramo sobrenatural. Inclusive, Bobby e Jody, que haviam chegado juntos à cerimônia.

Emocionados, o profeta e a hacker selaram seus lábios com um beijo apaixonado quando o padre, por fim, os declarou marido e mulher. Embaixo de aplausos e de uma chuva generosa de arroz comandada por Mia, deixaram a igreja.

Logo, todos seguiram para o salão alugado pela Sra. Tran e pela família de Chloe. E a festa organizada por Mia seguiu animada noite adentro.

Esquecendo por um momento a vida maluca e perigosa que levavam, Sam e Claire dançavam lentamente na pista ao lado dos recém-casados e outros convidados. Logo, Dean e Natalie se juntaram a eles, seguidos por Bobby e Jody Mills.

Aquela dança podia até não combinar muito com os caçadores, porém eles também mereciam um momento de normalidade e diversão de vez em quando, certo?

Ainda mais quando estavam ali para celebrar a felicidade de dois amigos queridos e que, sabiamente, tinham conseguido se afastar do olho do furacão em prol de uma vida normal.

Tudo o que desejavam era que Kevin Tran e Chloe Lee fossem muito felizes a partir daquele momento. Que vivessem em paz e que, nunca mais, se envolvessem com o sobrenatural por conta dele ser um profeta e ela, uma profetisa em potencial. Podia ser difícil, mas eles estavam se saindo bem até agora.

Mia observava todos eles a certa distância, esboçando um discreto sorriso e pensando em tudo o que passaram, em tudo o que enfrentaram e venceram até ali.

Não tinha ilusões. Sabia que a qualquer momento um novo trabalho poderia surgir ou uma nova ameaça poderia os desafiar. Quem sabe algo arruinasse tudo?

Apesar da constante preocupação com o futuro, por ora, Mia permitiu-se ficar feliz por todos e por si mesma. Aos poucos, convenceu-se de que eles poderiam vencer qualquer coisa e em qualquer tempo. Quem teria coragem de dizer o contrário?

Mia ainda refletia sobre essas coisas quando a música atual terminou e uma nova começou a tocar. Logo reconheceu a melodia de Eternal Flame e, imediatamente, pegou-se pensando em um certo anjo de sobretudo.

Virou-se, a fim de procurá-lo pela festa, mas não foi preciso. Castiel já estava ali. Tinha acabado de surgir atrás dela, gerando um leve vento com suas asas, que brincou com o cabelo de Mia e seu belo vestido lilás.

Antes que a garota falasse qualquer coisa, Castiel lhe estendeu a mão e recordou algo que ela mesmo havia argumentado no futuro:

— Não é uma história de verdade se nós não dançamos em algum momento.

A caçadora sorriu em concordância e segurou a mão do anjo, aceitando o convite sem pestanejar, convicta de que não existiria momento mais perfeito do que aquele. Então, eles caminharam até a pista e se aproximaram pouco a pouco.

Com as mãos firmes na cintura de Mia, e ela envolvendo o seu pescoço entre os braços, os dois dançaram lentamente. Seus olhos fixos um no outro, sem desviarem-se por nenhum segundo.

Alguns versos depois, Mia não conseguiu ficar mais calada e despejou:

— Ei! Você sabe que eu te amo, certo?

Com um brilho carinhoso e ligeiramente convencido no olhar, Castiel respondeu:

— Depois desses anos e de tudo que vivemos, acho que deu para perceber, Mia.

— Ok, só checando mesmo porque, às vezes, você é muito lento. Sem ofensa — debochou, dando de ombros.

O anjo sorriu e a trouxe para mais perto de si. Suas bocas se encontraram por um longo momento. Depois, ainda de olhos fechados, a caçadora repousou a cabeça em seu peito e disfarçou um suspiro.

A música estava quase acabando quando Castiel retribuiu:

— Eu também te amo, Mia.

Sem que ele visse, ela abriu os olhos e sorriu. Depois se recompôs e fez pouco caso:

— Conte algo novo, gênio.

Fim

Notas finais
E aí? Gostaram? Acho que foi um dos capítulos finais mais curtinhos que escrevi kkkk Mas eu contei o que queria contar com ele e espero que tenham gostado. Eu precisava explicar algumas coisas sobre o passado da Mia e também indicar a casa em que ela vive com Castiel na fic "O caso do Slender Man". Também precisava mostrar mais um tiquinho dos casais ♥ Eu amei esta última cena entre Miastiel ♥ Isso mesmo, última. Já estou com saudade do meu otp kkkkkk Socorro! O que vou fazer sem os coelhos? Não sei ao certo o que estou sentindo agora, mas é uma mistura de nostalgia e sensação de dever cumprido. Vou falar mais disso e conversar um pouquinho com vocês nas notas finais do epílogo, então preparem os lencinhos ahahahah Beijos!