Notas iniciais
Eu sei, o capítulo tá bem grandinho, mas eu fiquei quase um mês sem atualizar, então acho que isso compensa a demora. E tinha tantas coisas para explicar que me empolguei ehehehe Teremos muitas explicações aqui, sobre o poder da Mão de Deus, sobre o que aconteceu naquela estrada, sobre como a Legião fez aquilo e por que não matou o povo de verdade, sobre Crowley ter sido possuído e sobre o que a Legião quer dele. Então leiam com bastante calma, aos pouquinhos se for preciso. Qualquer dúvida, é só gritar. Teremos algumas referências de temporadas passadas também, revelações e muita emoção. Acho que foi o capítulo que mais gostei de escrever até agora e com certeza ele marca o início da reta final da saga. A partir de agora, cada mergulho será um flash. Como tivemos um capítulo chamado "Cinzas", achei justo que este se chamasse "Esperança." Boa leitura.

As palavras do Rei do Inferno ecoavam na mente de Mia enquanto ela tentava assimilar o significado de tudo o que tinha ouvido. Eram muitas informações para ponderar e uma decisão precisava ser tomada o mais rápido possível, como Crowley fez questão de lembrar a cada revelação feita.

O mais assustador é que tudo o que ele lhe contou fazia sentido. E era impossível não ter esperança diante disso. Mia podia mesmo estar viva. Seus amigos e Castiel também. A Legião podia não ter vencido aquela guerra, apenas ter feito todos eles acreditarem que sim.

De acordo com Crowley, a Mão de Deus tinha protegido não só ela como Sam, Dean, Bobby, Natalie, Claire e Castiel naquela estrada. A Legião não podia tocar no artefato sagrado por razões óbvias, tampouco machucar aqueles que estivessem sob seu escudo divino e protetor. Então, na impossibilidade de matá-los, entrou em suas mentes e criou aquela ilusão catastrófica, mortífera e cruel.

Se o Rei do Inferno estivesse mesmo dizendo a verdade, Mia e os outros tinham sido aprisionados em um sono profundo e abandonados a própria sorte em um local onde não poderiam ser encontrados ou resgatados.

Como os anjos caídos de Lúcifer não podiam matá-los diretamente, haviam orquestrado um plano perfeito para que eles morressem naturalmente. Aos poucos e em agonia. Era apenas uma questão de tempo. E tempo era justamente o que Crowley não tinha no momento.

O demônio havia feito um grande esforço para se projetar na mente de Mia. Assim como vinha lutando para manter a localização da jaula de Lúcifer em sigilo absoluto. Isso era muito difícil e despendia muita energia, já que ele havia sido possuído por uma legião de anjos sedentos por essa informação. Informação que, como comandante do submundo, apenas Crowley tinha.

Os anjos vasculhavam sua mente constantemente. Torturavam o demônio cada vez que faziam isso. Crowley não sabia até quando conseguiria manter o grande segredo a salvo.

A Legião estava cada vez mais perto de conseguir o que queria. E era por isso que o Rei do Inferno precisava da ajuda de Mia. Precisava que ela acordasse daquela pseudo morte o quanto antes, despertasse os outros, o libertasse da Legião e vencesse os malditos anjos por meio do poder da Mão de Deus.

Era isso ou assistir a uma nova ascensão de Lúcifer, perder o seu trono definitivamente e passar o fim dos tempos como um fantoche da Legião. No melhor dos cenários.

Por isso Crowley estava disposto a entrar em um acordo com Mia. Afinal, seus problemas com ela eram pequenos diante do que estava por vir.

Impaciente com o silêncio da caçadora, batucou os dedos sobre a mesa da fictícia cozinha e inqueriu:

— Então o que você me diz, Sweetie?

Embora as revelações de Crowley tivessem lógica, havia certos detalhes que Mia precisava entender melhor. Pensando em um deles, ela replicou:

— Tem algo que eu não compreendo. A Legião é composta por anjos. Anjos do mal, é verdade, mas ainda assim anjos. Até onde eu sei, esses seres precisam de consentimento para usar alguém como receptáculo. Como você permitiu que isso acontecesse?

Prontamente, Crowley explicou:

— Bem, o que eu posso dizer? A regra não é válida quando o receptáculo não é seu. Muito menos quando o antigo humano, que costumava habitá-lo, morreu há muito tempo e, portanto, não está mais aqui para reclamar direito de propriedade. Em outras palavras, eu não permiti, a Legião simplesmente invadiu. Como eu também estou aqui dentro de favor, não posso expulsá-los.

Embora fosse plausível, tal explicação levou Mia a outro questionamento:

— Então por que você não sai pela tangente como adora fazer? Por que não abandona esse corpo, possui outro pobre coitado e tenta resolver o problema que você mesmo criou sozinho?

Irritado e ansioso, o Rei do Inferno revirou os olhos e reclamou com ironia:

— Ótimo! Tudo o que eu precisava nesse momento! Um interrogatório! Qual parte de “nós não temos tempo” você não entendeu?

Como ainda não sabia se acreditava nele ou não, Mia inclinou-se um pouco para a frente, estreitou o olhar e o provocou:

— Para alguém que precisa de mim, você está sendo muito grosseiro. Se você quer a minha ajuda, eu sugiro que responda minhas perguntas antes. Mesmo que eu faça um milhão delas.

Apesar de contrariado, Crowley controlou a vontade que tinha de torcer o pescoço da caçadora naquele exato instante e expôs entredentes:

— Eu estou preso aqui dentro. Tentei sair, mas os malditos anjos fizeram um feitiço que me prendeu a esse corpo — de um jeito mais duro, acrescentou: — Se eu pudesse sair e resolver a situação por mim mesmo, certamente já teria feito isso. Não sem antes, é claro, dar uma passada no buraco em que você está enfurnada e terminar o que a Legião não pôde fazer.

Sem se abalar com a ameaça velada, Mia lhe lançou um sorriso artificial e questionou:

— Eu posso saber o que vai te impedir de fazer isso quando e se eu salvar o seu traseiro da Legião e do próprio diabo? Quem me garante que você não vai continuar me perseguindo até o fim dos tempos? Quem me garante que não vai me matar na primeira oportunidade?

— Infelizmente, eu preciso da sua ajuda. E eu sempre cumpro minha palavra, sempre honro meus acordos. Essa é a sua garantia — respondeu direto. E indicando o cenário em volta, da antiga casa de Mia, emendou: — Eu poderia ter te roubado assim que você nasceu, sabia? Você teria crescido ao meu lado, longe do sentimentalismo humano e totalmente familiarizada com o lado negro da força. Eu teria evitado muitos problemas assim. Mas, ao invés disso, eu cumpri minha palavra, honrei o acordo que fiz com seus pais e lhes concedi dez anos ao seu lado.

Sentindo uma dor profunda despertar dentro de si ao recordar a noite em que Cães do Inferno invadiram aquela casa e mataram seus pais, Mia retrucou duramente:

— Falar deles agora não é uma boa estratégia da sua parte e não vai me convencer que você fez isso por generosidade. Você cumpriu o acordo porque não passava de um subalterno na época, um mero comerciante do Inferno.

Mesmo ofendido com as palavras dela, o demônio mudou de postura e assentiu:

— Você tem razão. — Em seguida, pensou um pouco e argumentou: — O fato é que eu permiti que você tivesse uma vida humana e sem graça depois daquela noite, Mia. E por muito tempo depois que me tornei Rei. Até o dia em que dois caçadores e um anjo babaca resolveram aparecer no seu... destino. E agora, eu estou te dando a oportunidade de salvá-los, de salvar todos eles, o seu pescoço, o mundo, tudo o que você acredita. Qual a sua dificuldade com isso? É uma decisão simples.

— O problema é que primeiro eu preciso salvar a sua pele. Justo a sua pele — frisou, contrariada diante da ideia de ajudar o seu inimigo no que quer que fosse.

Sem se importar com isso, Crowley reiterou:

— Esse é o acordo. Mas vale lembrar que há um bônus: a trégua vitalícia entre nós. Você me deixa em paz, eu te deixo em paz, todos ficam felizes.

Mia não podia negar que tal acordo era tentador. A ideia de que não precisaria passar o resto de sua vida paranoica e fugindo da própria sombra era algo a se considerar. Por outro lado, aceitar o acordo significava que ela não poderia tentar qualquer coisa contra Crowley, caso tivesse uma oportunidade futura de derrotá-lo definitivamente.

Entretanto, Mia não era egoísta a ponto de tornar a situação mais pessoal do que já era. Aquilo era maior do que ela e do que Crowley. Havia muito em jogo. Não só a sua vida e as de sua família pouco convencional, mas a vida de bilhões de pessoas. O mundo estava em jogo. E o mundo ainda podia ser salvo.

Pensando desta forma, a caçadora finalmente saiu da defensiva e ponderou de verdade o acordo proposto. Foi então que um novo questionamento surgiu e ela o expôs no mesmo instante:

— Supondo que eu aceite e que tudo saia perfeitamente bem no final, eu volto para 2016 e o que acontece a seguir? O Crowley de lá não vai saber que eu te salvei num futuro que será reescrito sem a Legião, não vai saber sobre o acordo e a trégua. Eu terei um problema da mesma forma.

Reconhecendo que era um ponto importante, o Rei do Inferno disparou:

— Bem lembrado, Sweetie. Procure-me quando voltar ao seu tempo e me conte a verdade.

Convencida de que aquilo não seria o suficiente, Mia rebateu:

— Não, eu preciso de mais do que isso. Eu preciso que você me conte alguma coisa que apenas você sabe. Algo importante. Algo que te faça acreditar em mim.

Após pensar a respeito, o demônio sugeriu:

— Liberte-me da Legião primeiro e então nós conversamos. — Percebendo que a garota ia retrucar e insistir no assunto, justificou categoricamente: — Qualquer coisa que eu confidencie agora pode cair em mãos erradas. Em ouvidos errados. Eu estou aqui, conversando com você, mas a Legião pode assumir o controle a qualquer momento. Os anjos de Lúcifer estão a minha espreita agora mesmo. Eu estou tentando mantê-los longe desta parte de mim, mas está cada vez mais difícil. Isso me lembra que o tempo está acabando. Você precisa decidir agora. Nós temos um acordo ou não?

Pressionada pela urgência do momento e convencida de que não tinha outra opção, Mia balançou a cabeça afirmativamente ao mesmo tempo em que dizia:

— Sim, nós temos um acordo. — E subitamente ansiosa para mudar o final daquela história, indagou às pressas: — O que eu faço agora? Qual o próximo passo?

— Levante-se — ordenou o Rei do Inferno ao mesmo tempo em que fazia isso.

Então aproximou-se de Mia, já em pé do outro lado da mesa, e anunciou:

— O próximo passo é selar o acordo. Por isso, com licença.

A caçadora não teve tempo de reagir ou recuar. Foi surpreendida por Crowley que segurou seu rosto e pressionou a boca na sua. Segundos depois, ele a soltou e refletiu:

— Acho que no nosso caso, não precisa ser um beijo de língua, certo?

Depois de limpar a boca compulsivamente com a mão, Mia o fuzilou com o olhar e redarguiu possessa:

— Isso não era necessário! Não é um pacto de encruzilhada e eu não estou barganhando dez anos! Minha alma também não está a venda!

— Mesmo assim, eu precisava que você entendesse que estou falando muito sério — justificou-se, colocando as mãos nos bolsos do terno negro.

Limpando a boca uma última vez, Mia recomeçou:

— Como eu acordo desse maldito pesadelo?

— Oh... É algo bem clichê, na verdade. Uma teoria que tem tudo para funcionar, eu espero. — O Rei do Inferno aproximou-se novamente de Mia e segurou seu pescoço com as duas mãos. — Morra num sonho e acorde no mundo real, é o que dizem.

Mais uma vez, ela não teve tempo de digerir o significado de tais palavras. Antes que pudesse compreender o que Crowley estava prestes a fazer, ele o fez.

Um click foi ouvido e o pescoço de Mia estava quebrado. Seu corpo desfalecido despencou no chão e, numa resposta imediata, ela abriu os olhos e puxou o ar com força. Seu pescoço formigava, mas estava perfeitamente intacto.

A caçadora abafou um grito de agonia, devido ao que o demônio tinha lhe feito, e estreitou o olhar, tentando entender o sufocante e escuro cenário a sua volta. Tudo o que sabia era que estava deitada sobre uma superfície sólida, dura e desconfortável. Em pânico, Mia entendeu que aquilo era um túmulo.

***

Algum tempo se passou até que a garota se acalmasse um pouco. Mesmo assim, era difícil raciocinar com clareza naquela situação mórbida. Para piorar, seu corpo inteiro doía — há horas naquela mesma posição —, sua garganta queimava de sede, Mia sentia-se extremamente fraca e o ar ali dentro era rarefeito, quase escasso, o que dificultava muito a respiração.

Apesar disso, conseguiu reunir forças para erguer as mãos no estreito espaço que a separava do tampo de mármore. Logo começou a empurrá-lo e uma fresta se abriu. Mia teve que parar e descansar por alguns segundos, antes de trincar os dentes e fazer um novo esforço, aos gritos. Fez isso mais duas vezes até conseguir uma abertura suficiente para que saísse do túmulo.

Com as pernas bambas, desequilibrou-se ao lado dele. Aturdida, examinou o cenário a sua volta e percebeu que estava em uma cripta ou mausoléu. A iluminação era quase nula, proveniente apenas de algumas frestas de um enorme portão mais adiante. O piso era liso e regular. As paredes estruturadas com blocos acinzentados e antigos. O teto arqueado em uma grande abóbada.

Porém o que mais chamou a atenção de Mia foi constatar que o seu túmulo era apenas um dentre seis que havia ali.

Ainda desnorteada, ela caminhou o mais rápido que pôde até o mais próximo deles e passou as mãos pelo tampo por um momento, examinando-o. Novamente reuniu forças e empurrou a estrutura, logo revelando um rosto familiar sepultado prematuramente ali.

— Dean... — murmurou ofegante e exausta.

Apesar da situação macabra e cruel que estava vivenciando, Mia não conseguiu conter um sorriso esperançoso ao reconhecer o amigo. E se o Winchester mais velho estava ali, provavelmente o restante de sua família se encontrava nos demais túmulos.

— Dean, acorde! — Mia o sacudiu, mas foi em vão. — Dean! Anda logo! Acorda, Belo Adormecido! Eu preciso que você me ajude com os outros... Ou eu terei acordado só para desmaiar de exaustão. Com a minha sorte, vou acabar dando um mal jeito na coluna, vou ficar entrevada e a culpa será toda sua. Portanto, agora seria uma ótima hora para você abrir esses lindos olhinhos que papai e mamãe te deram...

A fagulha de esperança que ela sentiu antes se esvaiu diante da sensação de impotência que surgiu naquele momento. Dean ainda estava vivo, Mia podia perceber o seu peito subindo e descendo enquanto ele respirava fracamente, mas ela não tinha ideia de como acordá-lo. Aquele não era um sono comum, o caçador estava preso, assim como ela antes de Crowley quebrar o seu pescoço e despertá-la.

Ao lembrar deste detalhe, Mia ficou estagnada. Continuava sem saber como tirar o Winchester daquele estado. Contudo, Crowley com certeza havia pensado naquele detalhe. Tinha que ter pensado.

Se o demônio conseguiu entrar em sua mente, revelado toda a verdade e firmado aquele acordo, talvez tivesse lhe deixado algum bônus. Talvez tenha sido por isso que fez questão de se aproximar e lhe dar aquele beijo nojento. Era só uma remota possibilidade, mas ainda assim valia a pena tentar.

Pensando assim, ela tocou o rosto de Dean, fechou os olhos e se concentrou. Frustrada ao perceber que aquilo não estava funcionando, expirou com força e praguejou:

— Vamos lá, Crowley, me mostre como você fez aquilo.

Quase imediatamente, Mia sentiu o seu corpo formigar e abriu os olhos. Surpresa, viu que não estava mais na cripta e sim na cozinha do bunker. Ao reconhecer Dean sentado de frente para Natalie na pequena mesa, recebendo de bom grado pedaços de uma torta que a loira lhe dava na boca, soube que seu palpite tinha dado certo. Ela havia entrado em sua mente e estava visitando uma de suas boas memórias.

— Mia? — O caçador notou sua presença e ficou confuso.

Levantou da cadeira e foi acometido pelas últimas lembranças que tinha dela. Começou a entender que estava morto e ficou ainda mais perplexo, paralisado.

— O que você está... como... o que....

— Desculpe — Mia o interrompeu e caminhou decidida até a mesa. Pegou uma faca perto da torta e anunciou: — Eu não tenho tempo para explicar agora e isso não é nada pessoal, nada mesmo, mas... hum, acho que vai doer um pouco, Winchester. Foi mal.

Antes que perdesse a coragem, Mia fez uma careta e golpeou o amigo no abdômen. Ele arfou de dor e surpresa. Mas funcionou. Dean despertou imediatamente e sentou-se no túmulo de supetão na mesma hora em que Mia abria os olhos.

Aliviada por vê-lo bem e enchendo-se de esperança novamente, a caçadora deu uns tapinhas em seu ombro, sorriu e despejou:

— Bem-vindo de volta. Não, você não morreu de verdade. Não, seja lá o que você viu naquela estrada, não foi real. Todos estão bem, todos vão ficar bem. Por falar nisso, levante esse traseiro lindo daí e me ajude a acordar o restante deles. Eu explico tudo depois.

Dito isso, Mia seguiu rumo ao próximo túmulo.

Desnorteado e zonzo, Dean não conseguiu acatar o seu pedido prontamente. Precisou de alguns instantes para compreender o que tinha acontecido, o que ela estava insinuando, onde eles estavam e o que tudo isso significava em conjunto.

Também precisou que Mia lhe olhasse feio para enfim sair de onde estava e seguir em sua direção. Empurrou a primeira tampa de mármore e, num misto de choque e alívio, observou o rosto pálido do irmão.

Mia sorriu discretamente para Sam e tocou suas mãos unidas. Fechou os olhos, se concentrou e conseguiu se projetar na ideia de paraíso do caçador.

Em uma memória, Sam orientava Claire a cavar uma “cova.” Os dois estavam nos fundos do bunker e tudo não passava de uma lição da época em que o Winchester treinava a filha de Bobby para ser uma caçadora, lhe repassando todos os pormenores do negócio da família. Claro que havia um teor muito mais romântico naquela memória. O clima entre Sam e a fictícia esposa era quase tangível.

Apesar disso, Mia não podia perder tempo. Desculpando-se pela intromissão, pegou a pá perto dos dois e acertou na cabeça do amigo com toda a força que pôde, fechando os olhos para não ver o estrago cometido.

Sam despertou na mesma hora. Atônito, assim como ela e Dean momentos atrás. Antes de seguir para o próximo resgate, Mia lhe disse meio sem graça:

— Desculpe se, por acaso, eu desarrumei o seu cabelo, Sammy. Foi necessário. A boa notícia é que você não morreu naquela estrada. Ah! Bem-vindo e recomponha-se logo porque nós precisamos de ajuda. Deixem aquela coisa de abraço emocionado de irmãos para depois, sim?

O pedido de Mia não foi atendido. Tanto Sam como Dean haviam visto a morte um do outro pelos olhos da Legião. Era impossível ficar indiferente ao reencontro e à constatação de que estavam vivos e bem. Mesmo assim, eles tentaram ser breves.

Os irmãos estavam preocupados com Natalie, Claire, Bobby e Castiel. Também tinham visto aquelas mortes e desconfiavam que os quatro, assim como Mia, tinham assistido as mortes deles também. A verdade é que a Legião torturou cada um deles com todas as mortes primeiro e depois deixou cada um deles pensar que foi o último a ser abatido.

Procurando não pensar nisso no momento, Mia prosseguiu com os resgates e as explicações rasas, despejadas de qualquer jeito.

As boas memórias de Claire e Natalie eram muito parecidas com as de Sam e Dean. A diferença estava na forma como elas reagiram ao despertar. Enquanto Claire abraçou Mia e depois Sam, visivelmente mexida com tudo aquilo, Natalie apertou o pescoço da amiga com força devido ao susto e só soltou quando Dean apareceu no seu campo de visão e balbuciou:

— Baby? Está tudo bem. Você está bem.

Então Natalie respirou aliviada e o puxou para um abraço, enquanto Dean lhe explicava rapidamente o que tinha entendido até ali.

Bobby foi o último a ser despertado e aquele que Mia mais hesitou em matar. Em parte por ele ser uma figura mais velha, mas principalmente porque a memória que ele revivia envolveu Mia sem que ela percebesse. Todos eles estavam no bunker, bebendo e rindo, conversando sobre situações engraçadas e aleatórias. Um momento raro e de normalidade do qual também participavam Kevin, Chloe, Jody Mills e... Castiel.

Quando finalmente conseguiu se desprender da memória e fez Bobby acordar aos resmungos, Mia se afastou de todos eles e percorreu a cripta com um olhar angustiado. Seu coração batia pesadamente. Sua cabeça girava. E apenas uma pergunta saiu de seus lábios:

— Onde ele está?

Instantes se passaram até que Sam disse logo atrás dela:

— Mia, nós vamos encontrá-lo. Fique calma.

— Eu tenho certeza que o Cas está bem — Dean emendou, embora não tivesse essa certeza de fato, só queria tranquilizá-la e acreditar nisso também.

Procurando ajudar, Natalie se pronunciou:

— Ele não é humano, a Legião não podia enterrá-lo aqui com a gente. Mas ele está em algum lugar, nós vamos descobrir onde e vai ficar tudo bem.

Ainda de costas para todos, Mia enxugou os olhos discretamente, procurou se manter firme e só então girou nos calcanhares. Aflita, ouviu-se dizendo:

— Se isso foi o que a Legião fez conosco, eu não consigo imaginar o que pode ter feito para tirar... o Cas da jogada. Mas vocês estão certos, nós vamos encontrá-lo. Eu tenho muitas coisas a explicar, sei que vocês têm muitas perguntas, mas tudo isso vai ter que esperar. O Cas é a prioridade agora.

— Claro — Dean concordou em nome de todos.

Ignorando certo desgaste mental devido às projeções, Mia caminhou em direção ao portão do mausoléu e tentou abri-lo. Estava trancado, como era de se esperar.

Antes que a caçadora se pronunciasse, Sam encontrou um clips no bolso e já estava ao lado dela. Abaixou-se um pouco diante da fechadura e, minuciosamente, empenhou-se no trabalho de destrancá-la.

Algum tempo depois...

Quando o grupo finalmente conseguiu sair da cripta, viu-se diante de uma ala sombria que abrigava outros jazigos. O local era cercado por mais portões devidamente trancados e um odor acre pairava no ar escasso.

Sem trocarem qualquer palavra, todos se espalharam para checar tumba por tumba, mas algo na mente de Mia — ou em seu coração — lhe dizia que Castiel não estava em nenhuma delas.

Então ela seguiu numa direção oposta, atraída por uma porta dupla de madeira com entalhes religiosos nas laterais. Era antiga e parecia bastante desgastada pelo tempo. Bastou um empurrão de ombro para que a abertura cedesse e a caçadora passasse.

Calor. Foi isso que Mia sentiu ao se ver diante de uma escada do outro lado. Sem pensar duas vezes, começou a subir os degraus o mais rápido que conseguia. Logo ouviu uma vibração de passos atrás de si e deduziu que Sam, Dean, Bobby e as garotas a seguiam.

À medida que subia os lances de escada, a sensação de calor aumentava. Em parte devido ao esforço que a tarefa despendia, mas principalmente porque havia algo crepitando logo adiante. Ao chegar no topo e empurrar mais uma porta, Mia descobriu o que era.

Diante do altar do que parecia ser uma antiga capela, havia um círculo de fogo. As chamas da armadilha prendiam um anjo em seu interior. Castiel estava inconsciente. Preso a uma pilastra por correntes.

Não que fosse necessário dizer, mas depois de respirar aliviada, Mia avisou ao grupo logo atrás dela:

— Eu o encontrei.

E correu até o fogo que prendia o seu anjo.

— Cuidado! — Bobby alertou, referindo-se às chamas que a caçadora simplesmente havia ignorado. Parecia não enxergar direito devido à urgência do momento.

Ela deteve o passo ao mesmo tempo em que todos examinavam o cenário em volta, procurando por algo que pudesse deter o fogo. Como não havia água nem outra coisa que pudesse auxiliar na tarefa, Bobby retirou sua surrada jaqueta e aproximou-se do círculo.

Ao entender o que ele pretendia, Sam e Dean fizeram o mesmo. Logo os três pisavam nas jaquetas sobre as chamas a fim de extingui-las.

Assim que o fogo não era mais um problema, Mia terminou com a curta distância entre ela e Castiel. Preocupada e ansiosa, ergueu seu rosto com as mãos e ordenou:

— Acorde! Anjo, acorde!

Entretanto, ele permanecia inconsciente, o que fez a caçadora se lembrar de um incidente ocorrido, há muito tempo, em Mystic Falls, quando o vampiro Silas o matou.

Experimentando o mesmo medo que sentiu naquela época antes de conseguir reanimar Castiel, Mia se lembrou das coisas que Crowley lhe confidenciou. Imediatamente, abriu o sobretudo do anjo e viu que a Mão de Deus ainda estava no bolso dele, envolta por uma camurça.

De acordo com o Rei do Inferno, a Legião não podia tocar o objeto sagrado nem lhes matar diretamente enquanto o poderoso artefato estivesse com eles. Portanto, Castiel só estava perdido em um sono sobrenatural, assim como ela e os demais estavam há poucos minutos. Tinha que ter um jeito de libertá-lo daquilo.

— Você não pode entrar na mente dele como fez conosco? — Natalie sugeriu de repente.

— Eu nem sei como exatamente fiz aquilo — Mia respondeu tomada por incertezas — Crowley plantou alguma coisa na minha cabeça, mas eu não sei se funciona com anjos...

— Crowley? — Claire se surpreendeu.

— O que aquele filho da mãe tem a ver com isso? — Dean questionou, igualmente surpreso, já que Mia não chegou a revelar seu encontro astral com o demônio.

— Longa história, eu explico depois — foi tudo o que disse, antes de fechar os olhos e se concentrar.

Não sabia se iria funcionar com Castiel, mas a única escolha plausível era fazer uma tentativa.

Para sua surpresa, funcionou. Mia não identificou aquela memória, mas reconheceu seu quarto da época da faculdade. Parada na porta, ela viu uma cópia fiel de si mesma adormecida na cama. Enquanto isso, Castiel, inclinado na direção daquela Mia, tocava seu rosto sutilmente. Um sorriso sereno estampava seu rosto, mas havia certo pesar em seu olhar.

— Desculpe por ter apagado suas memórias, Mia Clarke. Foi necessário. Mas eu espero que, de alguma forma, lá no fundo, ainda se lembre de mim. Porque eu não esqueci você. É meio impossível esquecer você...

As palavras do anjo ecoavam em sua mente, levando a caçadora a entender que aquilo havia acontecido pouco tempo depois dela ter morrido pela primeira vez. Castiel tinha lhe trazido de volta à vida, porém com um preço. Naomi havia o obrigado a apagar toda e qualquer lembrança que ela possuía dele, assim como de Sam, Dean e tudo o que havia acontecido quando os conheceu e lutou contra os Cães do Inferno de Crowley.

Até aquele momento, Mia acreditava que Castiel só tinha a procurado meses depois, quando Crowley descobriu que ela estava viva e mandou um demônio até sua faculdade. Mia acreditava que o seu reencontro com Castiel tinha sido na biblioteca da instituição, quando ele salvou sua vida e a levou para o bunker. Mas, na verdade, o anjo sempre esteve por perto. Mesmo sem ela saber, mesmo quando ela não lembrava dele, ele continuou por perto.

Surpresa e mexida com a revelação, Mia abriu os olhos, saindo da mente do anjo, e pensou alto:

— Eu não posso matá-lo, ele é muito fofo.

— Como é que é? — Natalie protestou, cruzando os braços contra o peito. — Quer dizer que me atropelar com a sua lata velha tudo bem?

Se a situação não fosse aquela, talvez Mia tivesse rido da indignação da amiga em relação à forma como a matou em sonho, porém não havia clima para isso no momento.

Enquanto ela fitava o rosto inerte de Castiel sem saber o que fazer para trazê-lo de volta, Sam argumentou:

— Ele não vai morrer de verdade, Mia.

— Será que não? — questionou com um temor súbito e crescente. — O que eu sei sobre o funcionamento da mente de um anjo? E se eu matá-lo de mentirinha e acontecer de verdade? E se ele não for como vocês? E se nunca mais acordar?

Um silêncio significativo pairou no ar enquanto todos pensavam a respeito. Por fim e sem uma alternativa melhor, Dean se ouviu dizendo:

— Então eu sugiro que você encontre outra forma de trazê-lo de volta. De preferência, antes que a Legião resolva checar esse lugar e descubra que as crianças saíram da cama.

Pressionada e sabendo que o Winchester mais velho tinha razão — afinal todo cuidado era pouco —, a caçadora pensou rapidamente, teve uma ideia e anunciou:

— Okay... eu vou tentar uma coisa.

Segurando o rosto de Castiel com mais força, ela fechou os olhos, encostou a testa na sua e adentrou novamente o sonho sobrenatural no qual ele estava preso.

Desta vez, o anjo notou sua presença, afastou-se da cama e indagou visivelmente confuso:

— Mia? O que está acontecendo? O que você está fazendo aqui? Eu não... entendo...

Quando a figura do anjo oscilou por alguns segundos sem que ele de fato percebesse ou controlasse aquilo, a garota despejou afoita:

— Não mude de memória! Eu preciso te dizer duas coisas. Por mais que você não esteja entendendo nada, nada mesmo, agora, me escute.

Mesmo atordoado pelas últimas lembranças que tinha dela e dos outros naquela estrada, Castiel fez um esforço para permanecer ali e acatou seu pedido:

— Eu estou ouvindo.

Após encará-lo por algum tempo, Mia deu alguns passos em sua direção. Sem pensar duas vezes, envolveu seu rosto com as mãos, engoliu em seco e disparou:

— Primeiro, eu te amo. Segundo... Por favor, volta pra mim.

Antes que o anjo assimilasse ou reagisse de alguma forma, ela fechou os olhos e encaixou os lábios nos seus, lhe dando um beijo cálido com um forte significado.

Um beijo que funcionou como uma injeção de realidade. Como um chamado. Como uma cura para o estado letárgico em que ele se encontrava. Um beijo que fez Castiel abrir os olhos alarmado assim que ela afastou a boca da sua. Algo verdadeiro no meio das ilusões de sua mente. Algo que lhe trouxe de volta na mesma hora.

— Eu também te amo... Mia Clarke — declarou meio zonzo, desintegrando as correntes que ainda o prendiam.

— Bem-vindo de volta, Castiel, anjo do Senhor. — Aliviada, a caçadora o abraçou com força.

Enquanto todos relaxavam e a tensão se dissipava, Natalie refletiu em tom de brincadeira:

— Só para constar, mudei de ideia. Eu fico com o atropelamento que me trouxe de volta à vida mesmo.

Desta vez, uma risada escapou da garganta de Mia. Em seguida, ela enterrou todos os temores em um lugar remoto de sua mente e agarrou-se ao sentimento reconfortante que voltava a se alastrar dentro de si naquele momento, ganhando força e consistência.

Esse sentimento era esperança. Ainda havia esperança.

Notas finais
Juro que vou tentar não demorar com o próximo capítulo. Aliás, minha meta é focar em ECE e finalizá-la o quanto antes. Estou pensando em colocar minha outra fic em hiatus (os leitores vão me matar, mas tudo bem, é a vida) porque não estou conseguindo dividir o tempo e o foco com as duas. Como ECE está bem mais perto de acabar do que Trapaças do Coração, acho que terei que tomar essa medida impopular... Anyway, quero saber o que vocês acharam deste capítulo. Contem tudinho, sim? Bjs.