Entre Cinzas & Esperança
24 Última noite na Terra?
Notas iniciais
Era pouco mais de dez horas da noite e Claire estava em um bar em Hood River. A pequena cidade no interior de Oregon havia aparecido no último pesadelo de Mia como o destino da Legião. Porém, desde que Claire chegou ali com Sam e os outros, tudo estava completamente normal e pacífico.
Era nessa estranha calmaria e também no atentado dos anjos caídos há dois dias que a caçadora pensava quando Sam entrou no bar.
Depois de percorrer o local com o olhar e reconhecer a esposa no balcão, ele seguiu até ela, trilhando um caminho por entre as mesas ocupadas por moradores de Hood River e por pessoas que estavam de passagem pela região.
— Ei. — Sam apoiou-se no balcão, chamando a atenção de Claire. — Eu imagino que você já deve estar cansada de ouvir cantadas do tipo, mas eu tenho que perguntar. Você vem sempre aqui?
A caçadora sorriu discretamente, deixou a cerveja de lado e entrou no jogo:
— Olá, estranho. Na verdade, é a minha primeira vez na cidade.
Enquanto puxava uma cadeira e acomodava-se ao seu lado, Sam prosseguiu:
— Sério? E o que está achando?
Após pensar um pouco, Claire respondeu:
— Estranhamente pacata demais.
— Você parece desapontada — constatou, trazendo a garrafa dela para junto de si. Tomou um gole antes de indagar: — O que te trouxe aqui afinal?
Prontamente, a caçadora replicou:
— Oh, o de sempre. O mundo está prestes a acabar; eu, meu marido e mais alguns membros da família viemos para impedir que isso aconteça.
— Droga... Você é casada? — Sam fingiu estar frustrado. — Seu marido é muito ciumento?
Claire controlou o ímpeto de rir e pôr fim àquele teatro. Na sequência, pegou a cerveja de volta e prosseguiu:
— Um pouco. Mais paranoico e protetor do que ciumento.
— Então eu tenho uma chance? — Sam uniu as sobrancelhas, esperançoso.
— Talvez. — Claire o observou por alguns instantes e logo um sorriso surgiu em seu rosto. — Quem eu estou tentando enganar? Eu não resisto a uma cara de cachorrinho perdido mesmo.
— Sorte a minha. — O Winchester riu enquanto se aproximava mais dela.
Por instinto, Claire terminou com a curta distância e tocou seus lábios com um beijo suave e carinhoso por um longo momento. Quando se afastaram, Sam acariciou o rosto dela enquanto relembrava o ocorrido há alguns dias, no caminho até ali. Por fim, perguntou:
— Falando sério, como você está?
Sem entender do que se tratava ou talvez só fingindo que não havia captado, Claire rebateu:
— Como assim?
Por mais que fosse um assunto delicado e que no fundo não quisesse abordá-lo, o caçador sentia que talvez ela quisesse, que talvez fosse necessário para superar a experiência traumática. Sendo assim, limpou a garganta e articulou pausadamente:
— Nós não conversamos sobre o que aconteceu. Sobre o que... a Legião nos fez enxergar naquela estrada. Não que eu queira muito falar disso, mas se você quiser...
Incomodada, Claire cortou de repente:
— Não importa, não foi real. — Percebendo que tinha sido muito taxativa, pensou melhor e emendou menos na defensiva: — Foi doloroso, claro. Para todos, aliás. Mas não aconteceu de verdade. Além disso, nós temos um problema bem maior no momento para nos preocupar.
Sam sabia exatamente qual problema era esse. A Legião.
— Nem me fala. — Após uma pausa, voltou-se para a caçadora e inqueriu: — Como você está lidando com isso, a propósito? Eu quero dizer, sobre ter que salvar o Crowley. Eu sei que o mundo dá voltas, mas isso parece ser um pouco demais.
— Ele aprontou com cada um de nós, Sam. Ele é um demônio, no final das contas — Claire fez questão de pontuar. — Mas, bem ou mal, nós lhe devemos uma agora. Além disso, perto da Legião e de uma possível ascensão de Lúcifer, Crowley é o menor dos nossos problemas. Se nós temos que salvá-lo para salvar o mundo, que assim seja. O inimigo do meu inimigo é meu amigo, certo?
— Infelizmente, parece que sim — Sam admitiu a contragosto. — De qualquer forma, eu prefiro aliado temporário do que amigo.
— Soa melhor para mim também — Claire limitou-se a concordar, e então observou tudo em volta por alguns instantes. — A cidade está muita tranquila mesmo. O que será que a Legião está esperando para atacar de novo?
— Não faço ideia. — Depois de pensar um pouco e lembrar de um detalhe importante, o Winchester ponderou: — Talvez mais um dia? De acordo com o pesadelo da Mia, amanhã pode ser um dia importante. Decisivo talvez.
Claire assentiu com um discreto meneio de cabeça e tomou o último gole da cerveja. Ficou girando a garrafa vazia por algum tempo entre as mãos, pensativa e um pouco distante. Em seguida, olhou para Sam de soslaio, engoliu em seco e admitiu meio sem jeito:
— Foi difícil... Sabe, ver você morrer, meu pai, todo mundo. Eu realmente acreditei que era o fim e... foi desesperador.
Em silêncio, Sam observou a esposa por um longo momento. Assimilou suas palavras, refletiu sobre como tinha sido atingido por aquela experiência e só então tornou a se manifestar:
— Foi difícil para mim também. Mas como você mesma disse, não importa, não foi real. Nós vamos superar, Claire.
Procurando acreditar nisso, a morena sorriu em concordância ao mesmo tempo em que Sam segurou sua mão sobre o balcão. Por fim, ela conseguiu relaxar o suficiente para mudar de assunto:
— Quer saber? Eu acho que nós devíamos voltar para o hotel agora. Eu quero manter a esperança, mas vamos ser realistas? Existe uma chance desta ser a nossa última noite na Terra e, certamente, eu não quero passar nossas últimas horas em um bar. É muito público para o que eu tenho em mente diante de um possível fim do mundo.
Quando Claire terminou de falar, tinha um brilho diferente em seu olhar. Isso porque tudo o que ela queria naquele momento era esquecer o que estava em jogo, todos os problemas, toda a pressão envolvida e se desligar um pouco.
Mesmo se tudo desse certo no final, como no fundo Claire acreditava que daria, ela não queria passar as próximas horas apreensiva em relação à Legião e sofrendo por antecedência. Tudo o que queria era um momento de paz e normalidade no meio disso tudo. Tudo o que queria era ficar com Sam.
Captando seu tom sugestivo e a mensagem implícita em suas palavras, o caçador riu mais relaxado e dissimulou uma crítica:
— Então esse é o seu melhor argumento para me arrastar para um quarto?
Com um sorriso leve e travesso, Claire desceu do banco, apoiou a mão no ombro do caçador e despejou cheia de si:
— Desculpe, mas até onde sei, eu não preciso argumentar muito com você.
— Uau! Convencida e direta — ele pontuou, deixando um riso escapar. Então ajeitou-se no assento e indagou fingindo um tom sério: — Me diga, você é romântica assim com o seu marido?
A resposta de Claire foi fechar os olhos, lhe dar um beijo demorado nos lábios e se afastar enquanto dizia:
— Não me faça esperar, Sam Winchester.
O caçador seguiu a esposa com o olhar e, sem saber se ela ouviria ou não, prometeu:
— Nunca, Claire Singer.
No instante seguinte, ele pegou algum dinheiro na carteira e colocou sobre o balcão. Na sequência, levantou-se e também deixou o bar.
***
Incomodada por um pesadelo, Natalie se revirava continuamente na cama e murmurava coisas sem sentido durante o sono. Quando Dean entrou no quarto do hotel, carregando uma sacola com dois pedaços generosos de torta que havia saído para comprar meia hora antes, e sem querer bateu a porta atrás de si, Natalie finalmente despertou.
Ofegante e meio desorientada, ela sentou na cama de supetão e demorou alguns instantes para entender que havia adormecido depois do banho.
— Pesadelo? — ele arriscou ao analisar a loira.
Sem querer admitir que havia sonhado com a morte de Dean e dos outros projetada pela Legião há alguns dias, Natalie riu sem humor e desconversou:
— É, bonecas. Você sabe como eu odeio bonecas.
— Tanto quanto eu detesto aviões — assentiu sem olhar para ela diretamente. Ao invés disso, se concentrou em retirar as embalagens de torta da sacola e arrumá-las sobre a pequena mesa perto da janela.
Mesmo convicto de que não era com bonecas que Natalie estava sonhando, resolveu não alimentar o assunto. Ela havia acreditado nele — ou fingido que sim — quando Dean acordou ligeiramente perturbado durante a viagem, alegou que havia tido um pesadelo com um avião caindo e fez piada da própria fobia. Nada mais justo que ele também respeitasse o fato de que Natalie não queria falar sobre a experiência mórbida e cruel orquestrada pela Legião e seus reflexos.
— Torta? — Dean lhe ofereceu, rompendo o silêncio que havia se instalado.
— Claro! Torta é sempre uma ótima pedida. — Natalie pulou da cama e ajeitou rapidamente a camiseta do Metallica que vestia.
Sem fazer questão de ser discreto, Dean mediu a caçadora com o olhar da cabeça aos pés, concentrando-se por tempo demais nas belas pernas que o short do improvisado pijama deixava à mostra.
Adivinhando os pensamentos do caçador, Natalie cruzou os braços surpresa, arqueou as sobrancelhas e articulou de um jeito acusatório:
— Sério, Sr. Awesome? O mundo acabando e você aí, pensando em... brincar? Hilário.
Por um momento, Dean pensou em negar a insinuação da esposa, mas se deteve. Os dois já tinham colocado um ponto final nas desavenças e admitido que precisavam um do outro. Sendo assim, não fazia sentido negar o óbvio.
Podia não ser o cenário ideal com tudo o que havia acontecido, porém o que mais Dean podia fazer naquele momento?
Conversar sobre o ocorrido há dois dias na estrada? Não, definitivamente não. Desabafar sobre a experiência cruel orquestrada pela Legião só o faria pensar ainda mais nisso e o deixaria enfurecido. E dar tal gostinho ao inimigo não estava nos seus planos.
Talvez passar as próximas horas tentando adivinhar quando e como os anjos de Lúcifer sairiam das sombras de novo? Sendo que não havia tido muito sucesso nisso desde que chegou ali? Também não.
Parecia perda de tempo continuar alimentando a apreensão e o suspense. Com certeza, os problemas não iriam desaparecer como num passe de mágica nas próximas horas. E quando tivesse que dar as caras, a Legião faria isso de uma forma ou de outra.
A verdade era que, naquele momento, Dean percebeu que tudo o que queria era esquecer o que estava em jogo por algum tempo. De certa forma, achava que merecia um momento de paz e uma boa dose de libertinagem enquanto isso.
Pensando assim, ele não disfarçou um meio sorriso ao argumentar com malícia:
— Esse é o ponto, Natalie Jones. O mundo pode estar acabando, mas eu ainda não estou morto. Nem você.
Começando a gostar do rumo daquela conversa e a perceber que seria ótimo esquecer a Legião por ora, a loira resolveu lhe dar corda:
— Você não vai me dizer que essa é a nossa última noite na Terra, vai?
— Por quê? — Dean estreitou o olhar e a mediu mais uma vez. — Funcionaria?
Como resposta, Natalie mordeu o lábio por um instante e deixou a resposta no ar:
— Que fique bem claro que é uma péssima cantada, mas... É, talvez.
Enquanto dava alguns passos na direção dela, o Winchester apontou para a mesa que ficava para trás e indagou:
— Torta depois?
Assim que Dean parou na sua frente, Natalie jogou os braços em volta do pescoço dele e assentiu:
— Ela vai continuar lá mesmo, certo?
Depois de envolver a cintura da esposa e olhar para a sua boca com visível interesse, Dean provocou:
— Até quebrar a cama?
Sem conseguir mais resistir ao desejo que ganhava força dentro de si, Natalie respondeu com um sorriso:
— Ah... Eu não espero menos do que isso, docinho.
No momento seguinte, o caçador encerrou a conversa definitivamente, encaixando os lábios nos dela e trazendo Natalie para mais perto de si. Em meio ao beijo ardente, ela arrancou a jaqueta de Dean e logo partiu para a camisa. Não demorou muito para que caíssem sobre a cama abraçados.
No dia seguinte
No corredor de uma loja de conveniência, Mia pegou um jornal da prateleira e passou os olhos rapidamente pelo cabeçalho. Girou nos calcanhares e o indicou para Castiel enquanto despejava com impaciência, ironia e velocidade:
— Viu só? 05 de novembro de 2020. Exatamente a data que apareceu naquele meu pesadelo de séculos atrás. Nós estamos em Hood River há quase 24 horas. Ah! E qual é mesmo o nome dessa simpática lojinha? Oh! Certo, Daisy’s. Eu sonhei com isso também, lembra? Com tudo isso. E tudo está exatamente como na minha premonição, exceto por um detalhe pouco importante: nem sinal da Legião. Agora me diga, o que diabos os soldadinhos do capeta estão esperando?
— Talvez você se acalmar um pouco e tomar o seu primeiro café do dia — o anjo respondeu incrivelmente sereno, estendendo um copo térmico com a bebida que havia providenciado numa lanchonete ao lado. — Você não é você quando está sem cafeína.
— Agora não é uma boa hora para fazer gracinha, anjo — a caçadora ralhou. — Mas eu aceito. Café é sempre café.
Então Mia pegou o copo e deu o primeiro gole. Um segundo gole bem generoso. Respirou fundo e saboreou o terceiro. Foi quando ouviu Castiel indagar:
— Melhor?
— Melhor — assentiu após se autoanalisar rapidamente e perceber que havia relaxado.
Depois de observá-la um pouco e se convencer que Mia parecia mesmo mais tranquila, Castiel a seguiu pelo corredor da loja. No caminho, a caçadora largou o jornal numa prateleira qualquer e passou os olhos por alguns produtos sem enxergá-los de verdade, apenas tentando se distrair com algo superficial.
Por conhecê-la muito bem, Castiel sabia que Mia não estava daquele jeito apenas pela Legião não ter se manifestado desde que eles chegaram na cidade. Ela estava assim também devido ao que a Legião já havia lhes feito.
Acreditando que seria bom se Mia falasse a respeito, o anjo pigarreou brevemente e tentou inserir o assunto:
— Eu estava pensando e acho que seria bom conversar sobre o que aconteceu.
Sem olhar para trás, Mia foi taxativa:
— Eu estava pensando e, pela milésima vez, não.
— Por que não? — Castiel insistiu, insatisfeito com mais uma negativa, pois já havia tentado fazer a caçadora se abrir antes e não obteve sucesso.
— Porque... — Mia expirou com força e girou nos calcanhares, fazendo o anjo parar na sua frente. — Porque não foi real, porque não importa e porque nós não temos tempo para ficar remoendo traumas que não vão nos levar a lugar algum. Caçadores não podem se dar a esse luxo. Nem anjos, acredito eu. Além disso, tocar nesse maldito assunto só vai reforçar o que a Legião nos fez. E aqui entre nós, tudo o que eu quero é esquecer essa parte da história. Acho que é o que todo mundo quer, hum? O que você devia querer também.
— Mia, eu entendo e quero esquecer assim como você, mas antes seria bom...
Sem lhe dar chance de prosseguir, a caçadora acrescentou num ritmo frenético:
— Olha, eu só quero chutar o traseiro daqueles malditos anjos e anular qualquer esperança que eles tenham de resgatar Lúcifer da jaula. Talvez essa seja a minha forma de lidar com o que houve, ok? Me concentrar no que viemos fazer, salvar o mundo se pudermos, ignorar o fato de que concordei em salvar a pele do Crowley no processo, voltar para casa o mais rápido possível, caçar mais monstros, monstros menos complicados do que tudo isso, e maratonar minhas séries favoritas nas horas vagas como qualquer ser humano relativamente normal. Fazer minha parte, seguir em frente e virar a página, em outras palavras. O que tem se mostrado meio difícil já que a Legião cismou de ficar nas sombras desde que chegamos aqui. Sério, essa apreensão e suspense vão me matar! — Vendo que Castiel a encarava com uma expressão estranha e meio zonzo, indagou: — O que foi agora?
Sem cerimônia, ele pegou o copo de suas mãos e esclareceu:
— Eu não devia ter alimentado o seu vício. Você está falando mais rápido do que antes e voltou a ficar agitada. Chega de café por hoje.
Aborrecida, Mia tentou reaver a bebida, mas Castiel manteve a mão longe do seu alcance. Então ela o olhou feio e protestou:
— Você devia se envergonhar por tomar o doce de uma criança, anjo malvado.
— É para o seu próprio bem — Castiel se defendeu prontamente. E ao notar um discreto e enigmático sorriso no semblante até então fechado de Mia, quis saber: — O que foi agora?
Dando um passo a frente e passando o indicador pela lapela do sobretudo, ela flertou:
— Você fica uma gracinha quando está preocupado com a minha sanidade. — Com o olhar fixo no dele, emendou de um jeito sugestivo: — Sério, dá vontade de pegar e levar pra casa.
Por um momento, Castiel quase acreditou em Mia. Entretanto, quando a garota se aproximou mais e tentou pegar o café sorrateiramente, ele recuou e redarguiu:
— Desista, eu não vou devolver.
Depois de esconder a frustração por seu plano ter falhado e ouvir uma música romântica que havia começado a tocar na rádio do estabelecimento, Mia jogou os braços em volta do pescoço do anjo, sorriu e mudou de estratégia:
— Ei, você quer dançar?
Confuso com o súbito convite, Castiel franziu o cenho e replicou:
— O que... Como assim?
A caçadora revirou os olhos e explicou:
— Dançar, dois pra lá, dois pra cá. Nós sempre dançamos em algum momento e, já que esse pode ser o nosso derradeiro fim, acho que devíamos dançar uma última vez para fechar com chave de ouro e evitar arrependimentos.
— Não seria a última vez, Mia. Nós chegamos até aqui. Tenha um pouco de fé — Castiel rebateu, ligeiramente incomodado com o pessimismo implícito. — De qualquer forma, nós não podemos dançar aqui. Estamos em uma loja, caso não tenha percebido.
— E daí? — Mia riu e deu ombros. — Nós já fizemos coisas bem piores entre prateleiras. Em corredores de bibliotecas, por exemplo.... e do bunker! Uau! Agora eu entendi por que nos chamam de coelhos. Faz todo o sentido! — Ainda relembrando essas ocasiões e após se calar por um longo instante, ela exclamou: — Oh!
— Oh? — Castiel repetiu intrigado, pois parecia que a caçadora tinha desistido de recuperar o café e pensado em outra coisa.
Confirmando que havia mesmo esquecido o café — pelo menos por ora —, Mia abriu um largo e malicioso sorriso, aproximou-se mais um pouco do anjo e insinuou com a voz ligeiramente rouca:
— Eu tive uma ideia melhor. Muito melhor. Dançar me parece extremamente sem graça agora.
Antes que Castiel decodificasse totalmente a mensagem, Mia terminou de vez com a distância entre os dois, inclinou o rosto e tocou seus lábios com um beijo lento e suave, mas que dizia exatamente qual era a sua intenção.
Por mais que achasse aquilo loucura, dado o momento e local, Castiel não resistiu ao instinto de corresponder e logo o beijo se tornou mais envolvente e profundo. Sem perceber, ele deixou o café na prateleira e segurou o rosto de Mia entre as mãos, enquanto ela o abraçava de um jeito caloroso por baixo do sobretudo.
Quando o anjo a encurralou entre seu corpo e a prateleira, uma voz masculina e nem um pouco satisfeita com a cena ecoou pelo corredor:
— Ei! Isso aqui não é um motel! Saiam agora mesmo!
Castiel já tinha se desvencilhado de Mia e recuado alguns passos, mas ela o empurrou mesmo assim, olhou dele para o jovem funcionário da loja algumas vezes e fingiu-se de vítima:
— Tarado!
— O quê? — Castiel retrucou sem entender a atitude dissimulada.
Mia, por sua vez, manteve-se no papel, apontou na direção do anjo e o acusou:
— Ele roubou meu café e ainda me agarrou!
Sem pensar duas vezes, ela pegou o copo abandonado na prateleira atrás de si e se colocou em movimento imediatamente. Sua atuação convenceu o funcionário que, pasmo e revoltado com o ocorrido, orientou:
— Tudo bem, vai na frente, moça. Eu te dou cobertura.
Assim que Mia passou por ele controlando a vontade de rir, o rapaz fuzilou Castiel com um olhar de reprovação e tentou intimidá-lo com uma postura firme. Porém isso não o deteve por muito tempo. Logo o anjo deu alguns passos pelo corredor a fim de seguir na mesma direção que Mia.
— Ei! Parado aí! — foram as últimas palavras que o rapaz pronunciou, tentando impedir Castiel de prosseguir.
— Desculpe — o anjo lamentou antecipadamente. Na sequência, tocou a testa do funcionário, fazendo-o desmaiar no mesmo instante e despencar no chão.
Quando ele estava quase alcançando Mia, ela olhou para trás e o provocou com uma bronca:
— Francamente, Cas, onde você estava com a cabeça? Por tudo que é mais sagrado, isso é uma loja! Comporte-se!
Ao olhar para a frente, a caçadora não teve tempo de impedir que seu corpo se chocasse com o de alguém que vinha na direção oposta. Bobby havia acabado de entrar no local e, enquanto Mia se recompunha e Castiel pegava o copo de café de volta, indagou:
— O que está acontecendo aqui?
— Nada — o anjo respondeu sério, levando Mia a olhar para o chão e segurar o riso mais uma vez.
Preferindo não entrar em detalhes, o velho caçador decidiu ir direto ao assunto que lhe levou ali:
— Certo. Eu encontrei uma coisa, parece um sinal. Me sigam.
Assim que ele se virou e caminhou até a saída, Mia ergueu as mãos e comemorou animada:
— Um sinal! Finalmente!
Em seguida, ela e Castiel foram atrás de Bobby.
***
Depois de passarem por seis quarteirões e encontrarem poucos moradores durante o percurso, o trio virou em uma viela sem saída e caminhou até o final dela. Em silêncio, observaram a palavra “Croatoan” escrita com tinta vermelha, aparentemente fresca, no muro.
— Parece um sinal para mim também — Castiel opinou por fim. E voltando-se para Mia, lembrou: — Exatamente como no seu sonho, certo?
— É — a caçadora confirmou, pensativa. — Pena que depois dessa parte tudo ficou nebuloso e confuso. Eu não tenho ideia do que pode acontecer agora.
Bobby pegou o celular no bolso e, antes de se afastar um pouco dos dois, anunciou:
— Eu vou avisar os outros.
Em seguida, foi a vez de Mia dar alguns passos rumo à saída do beco.
— Aonde você vai? — Castiel a seguiu com um olhar intrigado.
— Dar uma volta. — A garota girou nos calcanhares. — Você sabe, olhar vitrines, checar as promoções do futuro, talvez cortar o cabelo, essas coisas.
Ignorando a brincadeira final, o anjo uniu as sobrancelhas e questionou preocupado:
— Sozinha? Em uma cidade que pode ser infestada por Croatoan a qualquer momento? Com os anjos de Lúcifer à espreita? Parece uma péssima ideia.
Mia colocou as mãos na cintura e pensou um pouco. Logo depois, argumentou:
— Talvez algo por aí me ajude a lembrar de algum detalhe importante do meu sonho. Não se preocupe, eu vou ficar bem e manterei contato. — Dando alguns passos para trás, repetiu as palavras que Castiel lhe disse minutos antes: — Nós chegamos até aqui. Tenha um pouco de fé, anjo.
Por fim, piscou para ele, virou-se e seguiu caminho, logo desaparecendo do seu alcance de visão. Quando ele se preparava para ir atrás de Mia, Bobby resmungou:
— Balls! — Observando a tela do celular, explicou: — Sem sinal.
O anjo pegou seu próprio aparelho no bolso do sobretudo, viu que estava sem serviço e murmurou:
— Estranho... O meu também. — Depois guardou o celular e disse: — Eu vou até o hotel. Fique de olho na Mia enquanto isso. Na medida do possível, mantenha uma distância segura de cafeterias.
— Isso vai ser fácil.
Admirado, Castiel tocou o ombro do caçador e pediu:
— Ótimo, depois me explique como.
— Eu estava sendo irônico, idjit — Bobby esclareceu, meio rabugento.
Assim que ele lhe deu as costas e se afastou, Castiel desapareceu, deixando apenas uma leve brisa e o ruído de suas asas para trás.
Algum tempo depois...
Visivelmente apreensivo, Bobby caminhava logo atrás de Mia pelas ruas de Hood River. Mesmo sendo uma cidade de poucos habitantes, o caçador estava começando a estranhar a ausência de movimentação. O pouco comércio da região parecia ter fechado subitamente. Ou talvez, com exceção da loja de conveniência Daisy’s, nada mais tivesse aberto naquele dia.
— Nós devíamos voltar. Eu quero dizer... Você reparou que as ruas parecem mais desertas, certo?
As palavras de Bobby não surtiram qualquer efeito em Mia, que continuou andando e perscrutando tudo em volta com muita atenção. Cruzou a praça vazia da cidade num ritmo mais lento, examinando com interesse o coreto no centro dela, enquanto se esforçava para lembrar de cada detalhe do pesadelo de dias atrás.
— Não vamos esquecer do problema de sinal com os telefones. Se eu fosse detonar uma cidade com um vírus demoníaco, cortar a comunicação seria meu primeiro passo. — Bobby olhou para as densas nuvens que cobriam o sol e questionou: — É impressão minha ou o céu fechou de repente e a temperatura caiu?
Enquanto se aproximava de uma igreja, Mia finalmente interagiu com ele:
— Relaxa, Bobby. Eu estou lembrando de alguma coisa. Eu acho que sonhei com esse lugar.
A caçadora parou diante da escadaria e observou a antiga construção religiosa por algum tempo. Concentrou-se na torre e no sino que ela abrigava. Teve certeza que havia visto aquilo em algum momento do sonho. Um flash de memória terminou com qualquer dúvida que ainda restasse.
— Você não está pensando em entrar aí, está? — Bobby indagou. Logo em seguida, Mia começou a subir os degraus. — Porque parece bem inteligente — ironizou antes de segui-la.
Após hesitar por alguns segundos, a garota empurrou a porta dupla de entrada e deu alguns passos rumo ao interior do lugar. Mais uma vez, Bobby a acompanhou, apesar do mau pressentimento que insistia em deixá-lo em constante alerta.
A igreja tinha uma decoração simples, paredes em um tom verde-claro, bancos em mogno, vitrais espalhados pelas altas janelas, imagens religiosas por toda a parte, um altar coberto por uma toalha de renda branca. Atrás dele, uma enorme cruz mostrava um Jesus Cristo extremamente real com a cabeça pendida e o olhar pesaroso. Sobre sua coroa de espinhos, o acrônimo INRI havia ganhado uma camada de tinta vermelha que formava outra palavra: Croatoan.
Enquanto o padre, de costas para a entrada, assobiava Carry on wayward son e apagava lentamente as velas sob a imagem, Mia engoliu em seco e parou no meio do caminho até o altar.
Bobby, alguns passos atrás dela, observou os bancos cheios de homens e mulheres das mais diferentes idades e algumas crianças. Todos estranhamente imóveis, todos com algum corte no corpo, muitos ainda segurando facas e canivetes molhados de sangue. O mais bizarro era que eles pareciam estar sob algum efeito paralisante e em agonia, esperando por alguma coisa para saírem daquele torpor.
— Pelo menos agora nós sabemos onde os moradores estão — o caçador sussurrou, ao mesmo tempo em que Mia sentiu um arrepio gelado percorrer o seu corpo.
Com o olhar fixo nas letras que formavam Croatoan e lembrando-se da mesma palavra escrita no muro perto dali, ela concluiu:
— Não é tinta.
Foi neste exato momento que o padre parou de assobiar e empertigou-se um pouco, fazendo Mia reconhecer sua silhueta. Quando ele apagou a última vela e se virou devagar, ela franziu o cenho e arriscou:
— Crowley?
Depois de balançar a cabeça em negativa e esboçar um sorriso enigmático, ele aconselhou:
— Tente de novo, minha querida.
Apesar de usar o mesmo corpo, Mia sabia muito bem que aquele não era o Rei do Inferno. Sua voz estava diferente, mais fria e pontual, quase arrastada. Logo ela concluiu que Crowley lhe disse mesmo a verdade sobre ter sido possuído. E incapaz de negar o óbvio, corrigiu-se com uma ponta de medo e conformismo:
— Legião.
O sorriso enigmático se transformou em algo mais maligno. Ao mesmo tempo, todos os moradores se levantaram, fazendo Mia e Bobby recuarem alguns passos, apreensivos e em alerta.
Com as orbes de repente extremamente brancas e exibindo inúmeras asas em chamas alaranjadas pelas paredes da igreja por um momento que mais pareceu durar uma eternidade, os anjos caídos de Lúcifer assentiram em uníssono:
— Assim está melhor.
Lentamente, a cruz atrás do altar virou sozinha, ficando de cabeça para baixo.
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